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INTRODUÇÃO
No Dicionário Aurélio Século XXI, encontramos a definição de
hereditariedade como a transmissão dos caracteres físicos ou morais
de uma pessoa aos seus descendentes. Somos sabedores que muitas
enfermidades como a diabetes, a hipertensão, a hemofilia, a
polidactilia, entre outras, possuem características hereditárias,
podendo o filho apresentar a mesma patologia que seus pais, ou seja,
o genótipo dos pais determina a manifestação de certos males em seus
descendentes.
Entretanto, será possível a comunicação dos caracteres morais e
espirituais de um indivíduo para seus filhos, apenas e tão somente
pela transmissão dos genes? As unidades cromossômicas de cada
indivíduo teriam a capacidade de alimentar toda uma geração ou uma
descendência familiar com aspectos de personalidade e conduta? As
semelhanças entre pais e filhos estariam encerradas somente ao
aspecto físico ou abrangeria também o caráter intelectivo?
Essas e outras questões serão aqui discutidas à luz da doutrina
Espírita, procurando as respostas na base familiar que constitui o
grande alicerce da humanidade.
LIÇÕES DO EVANGELHO
A doutrina espírita elucida uma série de questões acerca da
hereditariedade: “os laços de sangue não estabelecem necessariamente
os laços espirituais. O corpo procede do corpo, mas o Espírito não
procede do Espírito, porque este existia antes da formação do corpo.
O pai não gera o espírito do filho: fornece-lhe apenas o envoltório
corporal. Mas deve ajudar seu desenvolvimento intelectual e moral,
para o fazer progredir”.[1]
Unidos pelos vínculos familiares, os espíritos possuem relações
advindas de outras existências. Há duas possibilidades: 1ª) podem
ser espíritos afins, simpáticos entre si, em que é permitida a
reencarnação sob o mesmo ambiente doméstico para tarefas
pré-determinadas onde se objetiva a evolução dos seres; 2ª)
espíritos que de alguma forma ainda possuem rusgas, débitos
recíprocos contraídos no passado e que necessitam de ajustes e
reparações na atual existência.
Dentro do círculo familiar é que encontraremos o exercício do perdão
e do amor. Por intermédio da bênção do esquecimento do passado,
espíritos que se odiavam e se digladiavam em existências anteriores,
unidos em uma nova encarnação como parentes consangüíneos, são
obrigados, por uma imposição social e humana, a desenvolver o
respeito e afeto recíprocos.
Por
isso, não é o sangue que unirá o sangue. Quantas famílias conhecemos
totalmente desestruturadas, onde pais ondeiam os filhos e
vice-versa. Se dependêssemos somente da hereditariedade genética
isso não ocorreria. Mas aquilo que o espírito carrega consigo, de
bom e de ruim, é o que determinará o bom relacionamento entre os
seres unidos pelo grau de parentesco.
NOSSOS FILHOS
Como gostaríamos que nossos filhos fossem? É claro que desejamos em
primeiríssimo lugar eles tenham saúde, sejam perfeitos e gozem da
melhor paz e tranqüilidade que possam ter. Em segundo plano,
desejamos que eles se destaquem. Desejamos que eles sejam os
melhores alunos de sua sala de aulas, o mais educado e cordial de
seus amigos, e até mesmo que seu time de futebol vença todas as
partidas ou que seja o primeiro colocado na competição de natação.
Muitas vezes até, inconscientemente, vencemos nossas próprias
frustrações obrigando nossos filhos a realizarem tarefas que nós não
conseguimos desempenhá-las quando crianças.
Até
o presente momento, estamos tendo uma visão inteiramente restrita ao
materialismo onde, superada a preocupação com doenças hereditárias e
saúde perfeita, nos apegamos tão somente ao que o cotidiano de
nossas vidas oferece para o crescimento do ser humano. E isso é
muitíssimo pouco.
Khalil Gibran nos diz o seguinte: “vossos filhos não são vossos
filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm
através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos
pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos
pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos. Podeis
abrigar seus corpos, mas não suas almas. Pois suas almas moram na
mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los
como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os
dias passados. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são
arremessados como flechas vivas. O arqueiro mira o alvo na senda do
infinito e vos estica com toda a sua força par que suas flechas se
projetem, rápidas e para longe. Que o vosso encurvamento na mão do
arqueiro seja vossa alegria, pois assim como ele ama a flecha que
voa, ama também o arco que permanece estável”.[2]
Ora, isso significa que somos todos espíritos livres, criados
simples e ignorantes, e estamos sendo guiados a todo instante para o
caminho da perfeição.
Nossos filhos também são espíritos livres. Possuem a semelhança de
seus pais, mas apenas geneticamente. As características
cromossômicas são transmitidas por intermédio do sangue, fazendo-se
apresentar semelhanças quanto à cor da pele, cor dos olhos, cor dos
cabelos, etc. O que o espírito traz armazenado em seu perispírito[3]
é algo totalmente individual e alheio, independente de qualquer
influência de seus pais. Obviamente, não estamos unidos pelos laços
consangüíneos por mero acaso. Há um objetivo maior de aprendizado e
de respeito para estarmos unidos pelos laços de família, seja como
marido e esposa, seja como pais e filhos. Todavia, isso não
significa que não possuímos diferenças e que necessitamos de ajustes
que serão efetuados dentro do convívio familiar.
Nós, enquanto pais, temos um papel extremamente importante. É
preciso diferenciar educador de evangelizador. Podemos dizer que
evangelizador é gênero, quanto que educador é espécie. Educar, é
simplesmente ensinar a distinguir o certo do errado, diferenciar o
bem do mal. E por muitas vezes isso não é nem ao menos devidamente
explicado aos nossos filhos. “Pai, posso fazer isso?”. E o pai
responde: “Não!!!”. O filho insiste: “por que não?”. E a imposição
de vontades não explica nada: “Porque eu não quero, porque eu não
deixo”. Por outro lado, evangelizar é o verdadeiro papel a ser
desempenhado por todos os pais. Evangelizar é detectar no espírito
que vos foi confiado como filho, o que ele traz de bom e o que ele
traz de ruim. Procurar incentivar suas qualidades e suas faculdades
advindas das várias existências que possuiu e alimentá-las com muito
amor e muita atenção. Procurar também detectar quais as más
inclinações que esse espírito traz consigo e procurar aniquilá-las,
destruí-las, para que esse espírito, ainda nos primórdios de sua
encarnação, possa crescer na senda do progresso espiritual e no
amadurecimento da vossa consciência de Ser Eterno.
O
estímulo é o grande veículo para conduzir o espírito ao seu
adiantamento moral. Quantas “parafernalhas” são produzidas e
transmitidas pelos meios televisivos, sem que ao menos possamos
optar por qual programação a assistir? Quantos livros infantis de
alto cabedal, são esquecidos nas prateleiras, estimulando a
ociosidade de mentes jovens e abertas ao conhecimento? Devemos
estimular mais, incentivar mais. Somos o leme de nossos filhos.
Somos o único exemplo que eles possuem dentro de um círculo de
convívio ainda restrito, que é o ambiente familiar. Os filhos imitam
seus pais a todo instante. Se os pais proferem palavras de baixo
calão, seus filhos irão repetir; se os genitores possuem vidas
totalmente incompatíveis com os ensinamentos cristãos, que caminhos
percorrerão os seus filhos?
É a
hora de mudanças. Ensinar através do exemplo. Como nos ensina a
proposta de evangelização de espíritos do Colégio Allan Kardec, em
Sacramento – MG: “trata-se de uma postura de Eurípedes Barsanulfo
para auxiliar o espírito a caminhar com mais segurança no seu
processo evolutivo. É uma postula embasada no conhecimento
Kardequiano, levando o espírito à consciência plena do estado em que
se encontra. A conscientização desse estado o fará encarar a
necessidade evolutiva com responsabilidade e discernimento.
Compreender o que é ser espírito e viver como tal, isso é, em
pensamento e vontade”.[4]
Evangelização e exemplo, eis o caminho a ser trilhado pelos pais
para que auxiliem seus filhos a acumular riquezas espirituais em
suas vidas.
Que
o Mestre Jesus abençoe todas as famílias de nosso planeta, que é a
célula matriz do aperfeiçoamento humano!
[1] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIV (Honra a teu pai e
a tua mãe), Edições FEESP, p. 187
[2] “O Profeta”, Gibran Khalil Gibran, Associação Cultural
Internacional Gibran, Rio de Janeiro - RJ
[3] Envoltório leve, imponderável, que serve de laço intermediário
entre o espírito e o corpo (Curso preparatório de Espiritismo,
Federação Espírita do Estado de São Paulo, Edições FEESP, ano 2002).
[4] Extraído do site www.cak.com.br (Colégio Allan Kardec)
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