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Em
trabalhos anteriores, dissemos da posição que o médium deve adotar
em face da Mediunidade. Demonstramos que a profissionalização do
serviço mediúnico representa um desrespeito à misericórdia divina, e
que nada mais é, do ponto de vista moral, do que a simonia que se
observa em certas religiões.
Quem se vale do
trabalho mediúnico para ganhar dinheiro ou obter qualquer vantagem
de ordem material, trai a Jesus, reeditando o episódio de Judas
Iscariotes, que trocou a desgraça por trinta dinheiros.
O médium deve lutar
com todas as suas forças contra essa tentação. Não deve esquecer-se
de que Jesus expulsou do templo os vendilhões, e tão reprovável
considerou o atrevimento deles que empregou meios e palavras
enérgicas, conforme refere João (2:14 a 17): "não façais da casa do
meu Pai uma casa de negócio". Muito pior, sem dúvida, é o ato
daqueles que mercantilizam o dom mediúnico, o qual constitui crime
contra a majestade de Deus, vilipêndio à personalidade amorosa de
Jesus.
A vaidade é outro dos
grandes perigos que rodeiam os médiuns. Por que deve o médium
envaidecer-se, uma vez que o "seu trabalho" não é rigorosamente
trabalho seu, sendo ele apenas instrumento para que se realize o
trabalho de um mensageiro espiritual? Por que ter vaidade e
orgulho, se a qualidade que mais enobrece o médium é a humildade
esclarecida? São palavras do Mestre amado: "(...) todo aquele que se
exalta será humilhado; mas todo aquele que se humilha será
exaltado". Ser humilde não é senão ser modesto, nunca servil. Jesus
traçou o itinerário moral que pode levar o homem ao bem-estar
espiritual, ensinando-lhe a olhar para a frente e para o alto, sem
orgulho, sem vaidade, mas com firmeza e fé, com modéstia e
serenidade. A humildade esclarecida é uma força; a altivez
arrogante, uma fraqueza.
Eis por que nos
entristecemos quando vemos um médium ensoberbecido, cheio de si,
falastrão, egocêntrico, com ares de superioridade, quando, a rigor,
não é mais do que um fonógrafo... Só fala quando lhes põem um
"disco"... Há dias chegou-nos às mãos curioso cartão de visita, de
um médium formado pelo Centro X.!!! No caso, a maior
responsabilidade é dos dirigentes dessa agremiação "soi-disant"
espírita, pois que a eles cabe o dever de encaminhar corretamente
aqueles que por lá apareçam, desejosos de receber ensinamentos,
luzes e caridade, ou que o freqüentam para desenvolver suas
qualidades mediúnicas. Já têm sido feitas tentativas para "doutorar"
médiuns. Ora, qualquer pessoa pode "doutorar-se" em Espiritismo sem
precisar de diplomas ou atestados ou anéis de grau. Basta que estude
diariamente o Evangelho de Jesus e procure exemplificar as lições do
Mestre, porque só Ele tem real autoridade para laurear seus
discípulos. Esses lauréis, no entanto, não têm preço material,
porque sua cotação se faz espiritualmente. Quanto menos apegado for
o homem às coisas inferiores da Terra, mais alto se colocará no
julgamento divino.
A insinceridade é
outra nódoa que enfeia a aura de muitos médiuns. Na ânsia de
parecerem em condições de dar o que não podem, recorrem à simulação
ou permitem, pelas facilidades que oferecem, manifestações puramente
anímicas. Num caso, enganam o próximo; noutro, a si mesmos e a
outrem. Os médiuns que traem sua nobre missão, acabam tristemente.
Mas há também os que, não sendo médiuns, se imiscuem no ambiente
espírita para explorar a credulidade dos simples. São os falsos
profetas de que nos fala Jesus no Evangelho: "Guardai-vos dos falsos
profetas, que vêm a vós com vestes de ovelhas, mas por dentro, são
lobos vorazes". O Espiritismo nada tem que ver com a cartomancia, a
quiromancia, a astromancia, a horoscopia, etc., pois para exercê-las
não é imprescindível o trabalho mediúnico, embora possa um
cartomante, quiromante, astromante, ou horoscopista possuir,
concomitantemente, qualidades mediúnicas, de vez que estas
independem da natureza física e moral do indivíduo, da sua
profissão, do seu grau de instrução, das suas tendências ou
preferências. O próprio Allan Kardec afirmou: "Assim como a
Astronomia destronou os astrólogos, o Espiritismo veio destronar os
advinhos, os feiticeiros e os que liam a buena dicha".
O Espiritismo, portanto, não tem por fim lançar-se a remígios
advinhatórios, ou a prognósticos ocultos do destino, pois sua função
na Terra é bem mais elevada e importante, visto como se destina a
reformar o caráter humano, condicionando-o às necessidades
evangélicas. Seu objetivo é grandioso, de vez que já representa o
restabelecimento do verdadeiro Cristianismo entre os homens, pela
pureza da sua Doutrina, pela conjunção de vista entre as grandes
entidades espirituais que encabeçam as legiões de trabalhadores de
Jesus e os mentores das organizações espírita-cristãs, fiéis aos
programas estabelecidos para a sua rota terrena. É o "Irmão X", na
obra mediúnica "Lázaro Redivivo", quem nos completa o pensamento, ao
declarar: "Se o Espiritismo tivesse por advogados tão-somente os
magos do revelacionismo barato, a grande doutrina jamais passaria de
movimento anedótico, em que o palpite e o boato se encarregariam de
interceptar a luz divina".
São inúmeros os casos
de médiuns que predisseram o futuro, mas em caráter excepcional e
obedecendo a fins superiores, como, por exemplo, Swedenborg e
Nostradamus, para mencionar apenas dois. O leitor poderá
surpreender-se e perguntar: "Nostradamus?" Sim, Nostradamus. Ele
prório confessou, na famosa carta ao Rei Henrique II, de 14 de Março
de 1547, que as suas profecias foram "compostas sobretudo por uma
natural intuição". Médium intuitivo de grande poder, Nostradamus foi
também médium vidente, conforme revelou nestas palavras constantes
da carta referida: "(...) confesso firmemente que todas as minhas
fontes de inspiração vêm de Deus, a quem eu rendo graças, honra e
louvores imortais; que não lhes misturei nenhuma adivinhação
proveniente do Acaso, mas que elas são da natureza de Deus; que
apontei tudo em relação com o curso dos astros, como se percebesse,
num espelho de fogo e através de uma visão nebulosa, os grandes
acontecimentos tristes ou prodigiosos, assim como os calamitosos
casos que se aproximam", etc.
Feita esta ligeira
digressão em torno de Miguel Nostradamus, desejamos salientar que,
hoje, os tempos são outros. Em sua época, Nostradamus talvez não
pudesse ter dito como se punha em comunicação com o Desconhecido.
Por muito menos outros "profetas" foram lançados à fogueira como
feiticeiros. Os fenômenos espíritas já existiam, pois se presume,
que existam desde que o homem habita a Terra. O Velho Testamento nos
dá numerosos exemplos de manifestações mediúnicas, de ocorrências
tipicamente espíritas. Antes, iremos encontrar vestígios
impressionantes do mediunismo na vida de antigos povos orientais,
pois "há, para todas as coisas, um tempo determinado por Deus",
consoante o "Eclesiastes".
Emprestar-se ao
Espiritismo função advinhatória, será deturpar sua real finalidade,
amesquinhá-lo e comprometê-lo. A nossa Doutrina é de Jesus,
caracteriza-se por sua simplicidade e elevação de propósitos, de
modo que só pode ser confundida por quem não possua olhos de ver.
Espiritismo é somente, e exclusivamente, Espiritismo. Não é, como
bem disse o Codificador, uma arte de adivinhar e especular.
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