|
Vivemos em espaços
demarcados por fronteiras, não apenas geográficas e políticas, mas
culturais, religiosas, éticas, sociais, físicas e cósmicas, bem como
espirituais. Muita coisa no processo evolutivo tem a ver com a
maneira segundo a qual reagimos (ou não) às fronteiras invisíveis.
Para muitos, elas constituem limites intransponíveis; para outros,
não passam de acidentes irrelevantes a serem considerados com
indiferença ou desatenção, como se nada houvesse por lá; há quem as
contemple sob a pressão do terror, bem como aqueles que as tomam
como desafio a enfrentar, enigma a desvendar, território a explorar,
rumo a uma expansão do conhecimento.
O ser humano costuma
ser bastante cioso de seu espaço, isolando-o tanto quanto possível,
com bem demarcados, protegidos e vigiados limites, atento a qualquer
interferência ou invasão. Deus não se ocupou de tais exclusividades,
de vez que colocou todo o cosmos à nossa disposição. Limites?
Nenhum, senão os nossos próprios. A partir do momento em que nos
sentimos preparados para explorar a Lua, nenhum poder ou lei surgiu
para impedi-lo. Daqui mais um pouco poderemos estar navegando rumo a
planetas vizinhos e, mais tarde, na direção de galáxias mais
próximas, à medida que a tecnologia for removendo os obstáculos
naturais que tais projetos enfrentam.
No entanto, nenhuma
expedição desse porte, que se saiba, foi ou está planejada para
ultrapassar as fronteiras do Além e observar como vivem lá os seres
que nos precederam na jornada... Com escreveu Teilhard de Chardin,
em O Fenômeno Humano, esse é um aspecto do ser humano que a ciência
resolveu ignorar provisoriamente. Por quanto tempo, não se sabe.
Se, contudo, muita
gente resolveu ignorar tais fronteiras, os habitantes do lado de lá
cuidam de se fazer conhecidos por aqui, interferindo, às vezes sem
muita cerimônia, com as coisas do nosso plano. É o que vemos em
alguns textos deste livro (Nas Fronteiras do Além). Como o estudo
acerca das assombrações, no qual Ernesto Bozzano relata as incríveis
estripulias desencadeadas por espíritos dispostos a tudo para
levarem o pânico a famílias inteiras.
De outras vezes, as
“assombrações” mostram a face benigna, como o grupo de entidades
recém-desencarnadas que voltaram ao sofisticado ambiente tecnológico
da moderna aviação civil para evitar que os jatões se precipitassem
ao solo por motivo fútil, como o Jumbo L-1011, que despencou, em
1972, sobre o pantanal do Everglade, nas vizinhanças de Miami. Leia,
a respeito, “O Fantasma do Vôo 401” (Nas Fronteiras do Além.
Vemos, também, o
meticuloso planejamento e o competente desdobramento do projeto
desenhado na dimensão espiritual para levar ao Dr. Arthur Guirdham,
médico britânico, a documentada notícia de que ele fora um antigo
“Parfait” (sacerdote) cátaro, no século XIII e que alguns de seus
companheiros e companheiras daquela época estavam também
reencarnados não muito distante dele, na Inglaterra contemporânea.
Tem acontecido ainda,
que em vez de termos as fronteiras atravessadas de lá para cá, onde
nos encontramos, os encarnados, nós é que tentamos – nem sempre com
muito êxito – descobrir o que se passa por lá. É o que se pode
concluir do trabalho amadorístico de Morey Bernstein, que topou,
meio sem querer, com uma menina irlandesa do século XIX, por nome
Bridey Murphy, numa regressão de memória com uma jovem senhora
americana, na década de 50. Seu livro, lançado em 1956, teve,
contudo, o mérito de levar a questão das vidas sucessivas às
manchetes, suscitando um desesperado (e inútil) esforço da mídia
para desmentir tudo.
Ou, então, a dramática
narrativa de David M. Rorvik, que explora as possibilidades de
criar-se uma espécie e “Xérox” de gente.
Veja, ainda, quem foi
e o que fez John Wilmot, o Conde de Rochester, que tem fascinado
mais de uma geração de leitores, interessados nos seus movimentados
romances mediúnicos.
Como se pode ver,
portanto, há fronteiras que não separam as regiões; ao contrário,
parecem uni-las. Lá estão sem fortificações, sem tropas e sem
alfândega, abertas, portanto, à nossa exploração, a fim de que
possamos saber um pouco do território cósmico do qual viemos e ao
qual poderemos regressar, a qualquer momento.
Ah, ia-me esquecendo:
não é necessário passaporte, mas contrabando, nem pensar, viu? Mesmo
porque a bagagem material, seja qual for, fica do lado de cá. Só
cruzamos as fronteiras com a bagagem moral, se é que cuidamos dela
por aqui, enquanto foi tempo.
Rio de Janeiro, abril
de 1994.
|