O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Desarmamento

Autor:
ABRADE

Fonte:
ABRADE - Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo

ARTIGOS

         

Quando falamos em paz, a personificação deste conceito tem em Gandhi sua melhor identificação. Afinal, o líder indiano revolucionou o pensar e o agir de seu tempo – com influências para as gerações seguintes, naquele país e em todo o mundo – justamente por conceber uma filosofia com efeitos práticos (sociais) calcada na não-violência, na luta sem armas. Desde então, criaturas lúcidas de várias épocas e em distintos cenários têm apregoado a necessidade do desarmamento como um estímulo à paz na convivência.

No caso brasileiro, no próximo mês de outubro, a Sociedade está convocada a comparecer às urnas para decidir se concorda ou não com o programa de desarmamento capitaneado pelo Governo Federal, a partir do advento da Lei Federal n. 10.826/03, o Estatuto do Desarmamento. Através do referendo – um processo constitucional (art. 14, II) de consulta popular posterior à efetivação de determinada medida pelo Governo – procurar-se-á saber se a população concorda com as recentes medidas de controle do porte e da utilização de armas de fogo em território nacional. Em específico, o referendo versará sobre se a comercialização de armas de fogo e de munições vai continuar sendo permitida no Brasil.

No referendo, os cidadãos são chamados a dizer, através do sim ou não se alguma medida ou lei já aprovada deve continuar a valer. Seu objeto é qualquer matéria de acentuada relevância, de natureza constitucional, legislativa ou administrativa, cumprindo ao povo a respectiva ratificação ou rejeição do ato. O resultado, então, ocorrerá por maioria simples, de acordo com o resultado homologado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Em tempos de alteridade, existem, em nosso país, movimentos pró e contra a campanha de “entrega das armas”, o que ilustra o cenário de pluralidade e democracia que respiramos, conquista da caminhada rumo à maturidade política de nosso povo.

Particularmente, a ABRADE – Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo – vincula-se ao movimento a favor da manutenção do programa de diminuição da violência e de controle de armas no Brasil, somando-se às diversas instituições governamentais e não-governamentais engajadas na campanha. Aliás, “Paz” é o tema institucional da Associação para o ano de 2005, no sentido de agregar esforços das mais variadas formas, diretos ou em parcerias, para que o homem e a Sociedade tenham sempre mais subsídios e incentivos para reflexões e atuações profundas na construção da paz. Também, a Campanha da Fraternidade 2005, que congrega as igrejas cristãs sediadas no Brasil, cujo tema é “Solidariedade e Paz”, caminha no mesmo sentido. No pólo oposto, acham-se perfilados os interesses dos fabricantes de armas e grandes corporações, que desejavam que a matéria não tivesse sido regulamentada e, ainda, não são favoráveis ao processo de consulta popular.

Em verdade, jurídica e politicamente o referendo das armas corresponde a um grandioso ato cívico que irá mobilizar grande parte da população sobre a importância de se proibir a comercialização de armas, acertada providência no sentido do recrudescimento da criminalidade e da violência no país.

Estatísticas demonstram que armas armazenadas em casas ou locais de trabalho, por civis, acabam sendo furtadas e/ou utilizadas por malfeitores, até mesmo contra seus proprietários, em ações criminosas. Outro número significativo é o dos acidentes domésticos com armas de fogo, envolvendo, principalmente, crianças e adolescentes, que, ao manejarem tais instrumentos, acabam disparando-as acidentalmente, provocando lesões ou homicídios. Dados da UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura), apontam as armas de fogo como responsáveis por 65% dos homicídios nos fins de semana, sendo que, aproximadamente 28% dessas armas provêm de “homens de bem”.

Felizmente, a população tem visto com bons olhos a política desarmamentista, tanto que, desde o início da campanha pelo desarmamento – julho de 2004 –, já foram recolhidas em todo o país 305 mil armas, quase quatro vezes mais em relação à projeção inicial (80 mil). Em paralelo, o Governo espera que o quantitativo previsto no Orçamento da União para 2005 – R$ 3,3 bilhões para a segurança pública –, talvez possa até ser reduzido, graças à eficácia de medidas assecuratórias da paz e redutoras da violência civil. É de se esperar, portanto, que o referendo seja no sentido da proibição do comércio de armas de fogo e de munições em todo território nacional.

Entende a ABRADE que os homens devem ter participação ativa neste processo, na qualidade de promotores da paz (individual e social). Desejar um mundo melhor, não basta. É imperioso o engajamento em movimentos e ações voltadas à promoção da paz, da solidariedade e da construção da felicidade humana, seja pela promoção e participação em debates sócio-políticos, como palestras e eventos relacionados ao desarmamento, seja pela necessária associação dos conceitos materiais com as informações de teor espiritual, nas atividades espíritas.

Acreditamos que o resultado das iniciativas pró-pacifismo, como bem ilustra a política de desarmamento, será um mundo onde reinará a paz e onde as armas perderão a sua serventia, para proteção contra ações nocivas de nossos semelhantes. De onde estamos, hoje, talvez não divisemos, ainda, este lugar prazeroso e real. Se trabalharmos no bem e contra a violência, o mesmo aparecerá no horizonte, e se tornará palpável quando menos nos apercebermos...