O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Espiritismo é Religião

Autor:
Pedro Fagundes Azevedo

Fonte:
O Mensageiro

ARTIGOS

     

Pode haver Espiritismo sem religiosidade? Parece um contra-senso, não é mesmo? Pois existe e até tem nome, chama-se Espiritismo laico. Nos últimos anos tem vicejado na França e encontrado receptividade em algumas regiões do mundo, inclusive, surpreendentemente, no Brasil. Seus seguidores estão constantemente tentando baldear para suas fileiras os que, como nós, permanecem na linha do Espiritismo evangélico. Em tom de deboche, chamam-nos de igrejistas. Dizem que a unificação da doutrina, sob a orientação da FEB, não passa de tolice, desprezando o esforço desenvolvido nesse sentido por Bezerra de Menezes. Ora, minha gente, se tomássemos esse outro caminho, que nos parece um grave desvio, teríamos que renunciar a idéias que nos são muito gratas e basilares, tais como a de que o Espiritismo é a Terceira Revelação de Deus aos homens. E, ainda mais, precisaríamos deixar de lado muitas afirmações de Jesus, entre as quais: ”Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai a não ser por mim”. Para os espíritas laicos, Jesus não é o Anjo Planetário, aquele que desde o início presidiu a formação do planeta Terra, constituindo-se o responsável, perante Deus, pela humanidade aqui encarnada. Ele seria apenas mais um serenão (1), integrante daquela casta de espíritos superevoluídos que de tempos em tempos vêm à Terra, como Buda, Krishna e Maomé.

Procurando lançar mais luz sobre esse tema, para evidenciar se o Espiritismo pode ou não prescindir do seu aspecto religioso, fomos à procura do pensamento de importantes líderes espíritas. E iniciamos com um dos nossos médiuns mais conhecidos, cuja trajetória se confunde com a própria história do Espiritismo moderno: Francisco Cândido Xavier. Falecido ao 92 anos, em 30 de junho de 2002, é o responsável pela psicografia de mais de 400 livros espíritas, de vários autores, mas pouco escreveu sobre si próprio. Curiosamente, porém, encontramos num único livro, de pequeno formato, afirmações suas que não deixam dúvidas: para ele, o Espiritismo é mesmo uma religião.

O livro tem o título de “Entrevistas” e foi editado pelo Instituto de Difusão Espírita, de Araras, São Paulo, em 1975. Na página 14, Chico Xavier diz o seguinte: “De nossa parte, consideramos o Espiritismo como religião, em vista das conseqüências morais que a Doutrina Espírita apresenta para a nossa vida e para o nosso trabalho”. E mais adiante, na página 64: “Emmanuel costuma afirmar-nos que sem religião, seríamos na terra, viajores sem bússola, incapazes de orientar-nos no rumo da elevação real. A nosso ver, a legenda Religião Espírita, seria muito adequada aos ensinamentos doutrinários do Espiritismo”. Finalmente, na página 133 da mesma obra, ao ser inquirido qual aspecto do Espiritismo – o Religioso, o Científico e o Filosófico – qual, no seu entender, seria o mais importante, respondeu: “Todos esses aspectos são essenciais, mas, sem desejarmos criar uma situação favorável a nós outros, os espíritas evangélicos, a Religião é sempre o mais importante, porque a verdade é uma luz a que todos chegaremos; a indagação é um processo no qual todos participamos; mas a vida não deve ser nunca sacrificada e a Religião assegura a vida, assegurando a ordem da vida”.

Leon Denis, outro grande propagador da idéia espírita, afirma que o Espiritismo não é a religião do futuro, mas o futuro das religiões, ou seja, uma ligação direta entre a criatura e o seu Criador, sem intermediários, sem ritos, sem dogmas, sem superstições, sem o sacerdócio profissional. E Divaldo Pereira Franco, outro grande missionário espírita da atualidade, em extensa matéria na revista Reformador de maio de 1990, expressa textualmente que “o Espiritismo é a religião do amor em todas suas dimensões”. E’ de se perguntar, contudo, por que motivo Allan Kardec apenas tangenciou a questão da religiosidade na codificação espírita? Acontece que na sua época a religião estava ligada à intolerância, à dominação e ao proselitismo. Havia também uma orgulhosa casta sacerdotal, com todo seu cortejo de hierarquias, benesses e cerimônias. Era enfatizado o temor a Deus, deixando em segundo plano o seu infinito amor. Motivos mais do que suficientes, entendeu o Codificador, para não associar o então incipiente Espiritismo a esse tipo de idéia religiosa.

Mas, conforme a profecia acima de Leon Denis, as religiões evoluíram. Hoje se aproximam cada vez mais dos valores espíritas. E o Espiritismo assume definitivamente seu papel como o Consolador prometido por Cristo. É a religião da fé raciocinada, a que mais rápida nos liga à compreensão da sabedoria divina. Espalhar idéias laicas, destoantes do Evangelho Segundo o Espiritismo, é um desserviço à causa do bem.

(1) serenão - casta de espíritos superevoluídos que, de tempos em tempos, encarnam no planeta Terra.