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Pode haver Espiritismo sem religiosidade? Parece um contra-senso,
não é mesmo? Pois existe e até tem nome, chama-se Espiritismo laico.
Nos últimos anos tem vicejado na França e encontrado receptividade
em algumas regiões do mundo, inclusive, surpreendentemente, no
Brasil. Seus seguidores estão constantemente tentando baldear para
suas fileiras os que, como nós, permanecem na linha do Espiritismo
evangélico. Em tom de deboche, chamam-nos de igrejistas. Dizem que a
unificação da doutrina, sob a orientação da FEB, não passa de
tolice, desprezando o esforço desenvolvido nesse sentido por Bezerra
de Menezes. Ora, minha gente, se tomássemos esse outro caminho, que
nos parece um grave desvio, teríamos que renunciar a idéias que nos
são muito gratas e basilares, tais como a de que o Espiritismo é a
Terceira Revelação de Deus aos homens. E, ainda mais, precisaríamos
deixar de lado muitas afirmações de Jesus, entre as quais: ”Eu sou o
caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai a não ser por mim”.
Para os espíritas laicos, Jesus não é o Anjo Planetário, aquele que
desde o início presidiu a formação do planeta Terra, constituindo-se
o responsável, perante Deus, pela humanidade aqui encarnada. Ele
seria apenas mais um serenão
(1), integrante daquela casta de
espíritos superevoluídos que de tempos em tempos vêm à Terra, como
Buda, Krishna e Maomé.
Procurando lançar mais luz sobre esse tema, para evidenciar se o
Espiritismo pode ou não prescindir do seu aspecto religioso, fomos à
procura do pensamento de importantes líderes espíritas. E iniciamos
com um dos nossos médiuns mais conhecidos, cuja trajetória se
confunde com a própria história do Espiritismo moderno: Francisco
Cândido Xavier. Falecido ao 92 anos, em 30 de junho de 2002, é o
responsável pela psicografia de mais de 400 livros espíritas, de
vários autores, mas pouco escreveu sobre si próprio. Curiosamente,
porém, encontramos num único livro, de pequeno formato, afirmações
suas que não deixam dúvidas: para ele, o Espiritismo é mesmo uma
religião.
O
livro tem o título de “Entrevistas” e foi editado pelo Instituto de
Difusão Espírita, de Araras, São Paulo, em 1975. Na página 14, Chico
Xavier diz o seguinte: “De nossa parte, consideramos o Espiritismo
como religião, em vista das conseqüências morais que a Doutrina
Espírita apresenta para a nossa vida e para o nosso trabalho”. E
mais adiante, na página 64: “Emmanuel costuma afirmar-nos que sem
religião, seríamos na terra, viajores sem bússola, incapazes de
orientar-nos no rumo da elevação real. A nosso ver, a legenda
Religião Espírita, seria muito adequada aos ensinamentos
doutrinários do Espiritismo”. Finalmente, na página 133 da mesma
obra, ao ser inquirido qual aspecto do Espiritismo – o Religioso, o
Científico e o Filosófico – qual, no seu entender, seria o mais
importante, respondeu: “Todos esses aspectos são essenciais, mas,
sem desejarmos criar uma situação favorável a nós outros, os
espíritas evangélicos, a Religião é sempre o mais importante, porque
a verdade é uma luz a que todos chegaremos; a indagação é um
processo no qual todos participamos; mas a vida não deve ser nunca
sacrificada e a Religião assegura a vida, assegurando a ordem da
vida”.
Leon Denis, outro grande propagador da idéia espírita, afirma que o
Espiritismo não é a religião do futuro, mas o futuro das religiões,
ou seja, uma ligação direta entre a criatura e o seu Criador, sem
intermediários, sem ritos, sem dogmas, sem superstições, sem o
sacerdócio profissional. E Divaldo Pereira Franco, outro grande
missionário espírita da atualidade, em extensa matéria na revista
Reformador de maio de 1990, expressa textualmente que “o Espiritismo
é a religião do amor em todas suas dimensões”. E’ de se perguntar,
contudo, por que motivo Allan Kardec apenas tangenciou a questão da
religiosidade na codificação espírita? Acontece que na sua época a
religião estava ligada à intolerância, à dominação e ao
proselitismo. Havia também uma orgulhosa casta sacerdotal, com todo
seu cortejo de hierarquias, benesses e cerimônias. Era enfatizado o
temor a Deus, deixando em segundo plano o seu infinito amor. Motivos
mais do que suficientes, entendeu o Codificador, para não associar o
então incipiente Espiritismo a esse tipo de idéia religiosa.
Mas, conforme a profecia acima de Leon Denis, as religiões
evoluíram. Hoje se aproximam cada vez mais dos valores espíritas. E
o Espiritismo assume definitivamente seu papel como o Consolador
prometido por Cristo. É a religião da fé raciocinada, a que mais
rápida nos liga à compreensão da sabedoria divina. Espalhar idéias
laicas, destoantes do Evangelho Segundo o Espiritismo, é um
desserviço à causa do bem.
(1)
serenão - casta de espíritos superevoluídos que, de tempos em
tempos, encarnam no planeta Terra.
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