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Noé
erigiu um altar ao Senhor, e tomando de todos os animais puros e de
todas as aves puras, ofereceu-os em holocausto sobre o altar. O
Senhor aspirou a suave fragrância e disse consigo: Não tornarei a
amaldiçoar a terra por causa do homem, porque o instinto do coração
humano tende ao mal desde a juventude.
Gênesis.
A
Bíblia
Como professor de Ciências, tenho muita dificuldade de explicar a um
aluno “protestante”, quando suas idéias já se encontram
cristalizadas, a problemática da evolução humana como fruto e apogeu
da evolução anímica.
Certa feita, em meio a 35 alunos da 8ª. Série, tive que mudar a
angulação do debate, de científico para religioso, motivado pela
constante interferência de seis alunos protestantes, que discordavam
“sem base” daquilo que eu falava sobre a evolução.
A
confusão instalou-se pois os outros 29 alunos, posicionados a favor
da ciência, hostilizavam as idéias dos companheiros, radicalizados
em opiniões insustentáveis para os dias de hoje. Era o instante de
parar e acertar o passo, afastando-o da disritmia. O que fazer?
Dizer que a ciência estava certa e ponto final? Aprofundar o tema
adentrando a área religiosa, organizando um debate para o dia
posterior? Optei pela segunda idéia, que me pareceu menos
autoritária e mais produtiva para a vida deles. Afinal, a escola não
deve primar apenas pela informação, mas sobretudo pela formação para
a cidadania e para a vida. Cada um deveria pesquisar o tema, e eu
mediaria a discussão e encaminharia os resultados. Claro que os pais
deveriam participar. Solicitei aos alunos que interrogassem seus
pais sobre o tema; que abdicassem da idéia de competição (visando
massacrar o adversário) e usassem como armas o espírito de pesquisa
e o amor à verdade. (Sempre acho que isso é pedir muito para eles,
pois vêm como rolo compressor, com idéias engatilhadas e vibração à
flor da pele.) A sorte estava lançada. O clima de euforia tomou
conta da turma, o “amanhã nós vamos lascar vocês” era o refrão da
maioria e o “nós vamos provar pela Bíblia” o abafado som
criacionista.
No
outro dia lá estavam eles, Bíblias em punho, recortes de revistas,
jornais, figuras, e o que me deu bastante alegria, um aluno portando
um exemplar do livro “A Reencarnação na Bíblia”, de Hermínio
Miranda. Engraçado. Há dois anos ensinava aquele pirralho e não
sabia que ele era espírita. Me acerquei dele e disse: Reencarnação
na Bíblia? Você entende dessas coisas? Um pouquinho – respondeu-me.
Meu pai separou as paginas que vou usar hoje. E abrindo a mochila
mostrou o que ele chamou de granada: “O Espiritismoe as igrejas
reformadas”, de Jayme Andrade, e “A Gênese”, de Allan Kardec. Armei
o circo. Fixistas de um lado, evolucionistas de outro, moderador
entre eles, iniciou-se o debate. Pelo sorteio, os evolucionistas
falariam primeiro, e o partidário do Espiritismo, pedindo a palavra,
começou dizendo algo assim: Sei que o debate de hoje será
centralizado na Bíblia como palavra definitiva, expressando a
verdade inquestionável. Mas quero dizer que a Bíblia contém a
palavra de Deus e a palavra dos homens. A palavra de Deus é de todos
os tempos, e a palavra dos homens, mutável segundo a evolução do
pensamento. (Traduzo aqui o pensamento da criança dito em minha
linguagem). E para desarmar os fixistas, iniciou o debate lendo os
textos seguintes:
Gênesis 17:14“O incircunciso que não for circuncidado, será
eliminado”.
Êxodo 21:12 “Quem ferir alguém que morra, certamente será morto”.
21:17 “Quem amaldiçoar pai ou mãe, será morto”.
31:15 “Quem fizer alguma coisa no sábado, morrerá”.
Levit.3:17 “Gordura nem sangue, jamais comereis”.
7:27 “Quem comer sangue será morto”.
20:18 “Quem se chegar a uma mulher no período,ambos serão mortos”.
24:19 “Quem desfigurar o seu próximo, como ele fez assim lhe será
feito”.
Deut.21:18 “Um filho desobediente deve ser apedrejado até que
morra”.
22:5 “Mulher vestir traje de homem ou vice-versa, é abominação ao
Senhor”.
22:21 “Mulher casada não achada virgem, deve ser apedrejada até que
morra”.
22:22 “Quem se chegar a mulher casada, ambos morrerão”.
O
guri lançou então a pergunta no ar, empalidecendo os fixistas.
Será que essas leis são de Deus? Se são, por que são impiedosas ou
vulgares? Se não são de Deus, então a Bíblia não contém apenas a
palavra de Deus, e sendo assim não pode ser usada aqui como
conclusiva e irrefutável. O pai daquele menino devia ser um
estudioso. Os fixistas estavam agora privados de sua melhor arma, a
irrefutabilidade da Bíblia. Tudo que apresentassem poderia ser
questionado. Não havia saída. Ou admitiam que a Bíblia tinha a
palavra dos homens ou teriam que defender a imagem de um Deus
retrógrado e cruel, quando Ele mais precisaria aparecer como sábio e
justo. As crianças protestantes não estavam preparadas para aquela
situação. Haviam aprendido que a Bíblia contém apenas a palavra de
Deus, sem se importar se aquela palavra é contraditória ou não. Não
sabiam lidar com essa dubiedade, de Deus ser amor e fomentar o ódio,
de fazer um 5º. Mandamento que diz para não matar, e ordenar a morte
de milhares de pessoas. Estavam um pouco espantadas, inferiorizadas
numericamente, desorganizadas em sua tese fixista, e o ficaram mais
ainda, quando partiram para a leitura do Gênesis, seguida de pálida
argumentação a favor da tese que defendiam.
“Disse depois Deus: Germine a terra vegetação, ervas que dêem
sementes e árvores frutíferas que produzam fruto da sua espécie com
a própria semente dentro de si, sobre a terra”. (Gênesis: 11-12).
Explicação: Ora, repetindo da sua espécie, ou segundo a sua espécie
(vv 21-25) insinua que toda espécie vivente foi criada separadamente
e não deriva uma da outra, como pretende o transformismo difundido
pela ciência. “Deus criou o homem e à sua imagem, criou-os homem e
mulher”. (Gênesis 27). Criou Deus um só casal de seres humanos, e
quis que dele dependesse, por via de reprodução natural, todo o
gênero humano (foi a tímida explicação para o aparecimento do
homem). Então choveram dezenas de artigos científicos trazendo
relatos sobre escavações, fósseis, civilizações antigas, homens das
cavernas, provas esmagadoras da existência do homem na terra há
dezenas de milhares de anos, em oposição à afirmativa bíblica de
Adão e Eva serem os primeiros humanos a habitarem o planeta. Kardec,
aliás, perguntou ao Espírito Verdade em que época vivera Adão.
Aproximadamente 4.000 anos antes de Cristo, foi a resposta.
Aqui deixamos nossa aula de lado para prosseguirmos falando da
Bíblia a nosso modo, aproveitando a pesquisa e o material que os
alunos trouxeram para o debate religioso.
A
Bíblia talvez seja o livro mais lido no mundo e também o de maior
número de edições. Dizem alguns que ela é uma crônica do povo judeu.
Outros não aceitam como palavra de Deus tudo que nela está escrito,
por imputar a Ele, crimes hediondos, comprometendo a sua bondade e
justiça infinitas. Certas pessoas preferem ler e pesquisar apenas o
Novo Testamento, por entenderem que Jesus reformulou a lei antiga
eivada de erros, mostrando um Deus amor, quando antes havia um Deus
terror. O certo é que o Antigo Testamento veio da fusão da lei
judaica (Torá) com os ensinamentos dos profetas. O Torá é um
agrupamento de 5 livros (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e
Deuteronômio), também chamado de Pentateuco. Aos ensinamentos dos
profetas adicionavam-se textos históricos que serviam como
referencial religioso a toda a comunidade hebraica.
O
Espiritismo não tem, absolutamente nada contra a Bíblia. Nós, os
espíritas, respeitamos a Bíblia, mas não a aceitamos na íntegra;
contudo a interpretamos racionalmente, sem causar prejuízo às
qualidades divinas ou às leis fundamentais da ciência. Se alguém nos
diz que Deus fez parar o sol, perguntamos por que Ele faria parar
algo que a princípio colocou em movimento. Se nos relatam que Deus
mandava apedrejar, indagamos pelo amor que deveria ter. Se nos citam
que Deus, irado, ordenou a morte de um simples escravo, inquirimos
sobre o seu senso de justiça. Se para alguns é um erro discordar da
Bíblia, para nós é um dever procurar interpretá-la corretamente,
para que a nossa fé possa enfrentar a ciência e a razão em qualquer
época. Os tópicos aqui abordados pertencem a angulações variadas,
sem preocupação cronológica. Queremos apenas enfatizar contradições
e interpretações distorcidas, tomando o Espiritismo como referencial
ao que propomos.
Sobre a comunicação com os mortos.
“Praticar a adivinhação, o sortilégio, o agouro, a magia; consultar
espíritos ou adivinhos, evocar os mortos; isto é abominação ao
Senhor” (Deuteronômio 18:19-13).
A
proibição foi feita por Moisés, baseada no mau uso de que era objeto
a comunicação com os Espíritos, sendo estes invocados para
futilidades, intrigas particulares, adivinhações e até vinganças
contra irmãos. Moisés, conhecendo o perigo da vulgarização e
sobretudo da inadequação dos motivos pelos quais eram os Espíritos
evocados, resolveu em boa hora proibir o intercâmbio. No entanto, o
próprio líder hebreu falava com Javé, Espírito guia do povo
israelita. As tábuas da Lei foram passadas a Moisés através da
escrita direta (o mais provável) ou da psicografia, ambos os
fenômenos bastante conhecidos e comprovados pelos pesquisadores do
Espiritismo, como sendo de autoria dos Espíritos. Portanto,
comunicações espirituais. A prova que Moisés não era contra as
manifestações mediúnicas e sim ao uso indiscriminado destas,
encontra-se em Números (11:26-29): “... Um jovem correu e levou a
notícia a Moisés, dizendo: Eldade e Meldade estão profetizando no
acampamento. Então Josué, filho de Num, ministro de Moisés desde a
mocidade, tomou a palavra e disse: Senhor meu, Moisés, proíbe-lho.
Moisés replicou-lhe: És tu ciumento por mim? Oxalá que todo o povo
de Deus profetizasse, e infundisse o Senhor o seu Espírito neles!”.
Um anjo apareceu a José... Isso é comunicação espiritual. Jesus, no
episódio da transfiguração, falou com o próprio Moisés e com Elias,
ambos já “mortos”. Se Moisés proibiu a conversação com os mortos,
por que ele mesmo veio quebrar a sua ordenação? Por que Jesus não
recusou o diálogo, já que este era contrário as leis divinas? Saul,
ao procurar a pitonisa de Endor para através dela falar com Samuel,
no que é bem sucedido, também falou com os mortos. A explicação é
bastante simples: Tal proibição só tem sentido em casos de abuso e
desrespeito à memória dos “ausentes” ou das leis divinas. Como não
há morte do ser, apenas desagregação molecular de sua matéria
grosseira, todos os encarnados e desencarnados estão literalmente
vivos. E sendo a comunicação entre os vivos uma lei natural, ela
ajusta-se perfeitamente ao plano divino, razão pela qual Jesus a
utilizou e os espíritas a utilizam. O resto é falatório da
“Candinha”.
Sobre o Decálogo.
“... Por que eu, o Senhor Teus Deus, sou um Deus ciumento que puno a
iniqüidade dos pais nos filhos, na terceira e na quarta geração, e a
dos que me odeiam, assim como para aqueles que me amam e observam os
meus preceitos, uso de benevolência até a milésima geração...”
(Êxodo 20:1-6),
O homem, limitado por suas imperfeições, tem dificuldade de perceber
a infinita bondade e justiça divinas. O ciúme, a cólera, o despeito,
o privilégio... são atributos humanos. Como poderia Deus ser
ciumento? Apresentar predileção por um povo, chamando-o de eleito,
encher-se de ira por alguma atitude impensada de alguém, que na sua
ignorância ainda não entendeu a sublimidade da lei? Deus é infinito
em seus atributos. E assim sendo, jamais se excederia em
misericórdia (até a milésima geração) em detrimento da justiça (na
terceira e na quarta geração). Esse desnível em suas qualidades,
fazendo-o mais rico em misericórdia que em justiça, prova que o
desconhecemos. A justiça foi a virtude mais enfatizada por Jesus,
como fonte de paz real, não a paz dos cemitérios. “Bem-aventurados
os que têm fome e sede de justiça porque serão fartos”;
“Bem-aventurados os que padecem perseguição, por amor à justiça,
porque deles é o Reino dos Céus”. Mas logo a justiça? Seria ela
menos importante na escala de valores divinos?
Sobre a tomada de Jericó.
“... Tocaram as trombetas e ao ouvir o som das trombetas, o povo
ergueu fortes brados e os muros ruíram. Então o povo entrou na
cidade, cada qual no ponto em que se encontrava, e assim tomaram a
cidade. Passaram depois a fio de espada todos os que ali se
encontravam, homens, mulheres, crianças, velhos, inclusive bois,
ovelhas e jumentos”. (Josué 6:20-21).
Josué, na conquista da terra prometida, “era guiado por Deus”. Terá
sido o mesmo Deus do Decálogo, aquele mesmo que colocou nas tábuas
da lei o “não matar” como 5º. Mandamento? Josué, em seu estilo de
guerrear, foi tão cruel quanto Átila ou Gengis Kan, que criaram o
estilo de “guerra total”, não deixando nada vivo que pudesse
persegui-los após a batalha. Por que somente a memória de Átila, o
violento rei dos hunos, é amaldiçoada? A espada de todos não era
temperada com o mesmo ferro? O sangue jorrado não tinha a mesma
constituição? A dor, a humilhação, a violência parecem menores por
ter sido o massacre efetuado a mando de Deus? Ou seria o contrário?
Como se sentiram esses Espíritos após o brutal genocídio, ao ver ao
seu lado a desolação, por tudo haver perdido, os filhos, os pais, os
amigos, os haveres, a pátria... Se tomar o doce de uma criança é
crime, não o será maior dividi-la a fio de espada? Ninguém nos dias
atuais será capaz de aceitar um Deus que ordena matar crianças e
velhos, ovelhas e jumentos, mas que aceita o ouro e a prata do
inimigo para a sua glória. Certamente esse não é o Deus que Jesus
veio mostrar.
Quanto a matar os jumentos, fica aqui o protesto, em nome do padre
Vieira, para quem, segundo Luiz Gonzaga, o maior tocador de sanfona
desse país, não restam dúvidas: o jumento é nosso irmão.
Sobre a reencarnação de Elias.
Pelos idos de 450 a.C. Malaquias fizera uma profecia que colocara a
esperança de sentinela no coração do povo israelita. Dissera ele que
Elias voltaria na condição de precursor de alguém, cuja condição
espiritual era muito superior a dele. “Eis que envio o meu
mensageiro para preparar o caminho. E de repente virá o seu templo,
o Senhor que vós buscais, o anjo da aliança que desejais”. Malaquias
3:1.
Quase cinco séculos após os discípulos de Jesus, que conheciam a
profecia de Malaquias, indagam do mestre sobre a vinda de Elias.
“Por que dizem os escribas que Elias deve vir primeiro?”. (Mateus
17:10-13) Os discípulos não tinham duvidas de que o anjo da aliança
chegara na figura de Jesus, mas e Elias? Jesus confirma a profecia,
(É verdade que Elias tinha que vir como foi anunciado) e relata:
“Mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram-lhe
tudo o que quiseram. Assim farão eles também padecer o filho do
homem”. (Mateus 17:10-13). E Mateus encerra sem margem a
questionamentos ao afirmar: “Os discípulos compreenderam então que
ele lhes falava de João Batista”.
Não
há polêmica ou argumentação, sofisma ou sutileza, ficção ou teoria
cientifica capaz de negar ou desvincular esta afirmativa de Jesus de
que João Batista era Elias. Creio que esta passagem é responsável
por muitas calvícies nos religiosos dogmáticos que renegam a
reencarnação e apontam o Espiritismo como coisa do demônio. De tanto
pensarem em outra interpretação para esta afirmativa (não é uma
parábola e sim uma contundente afirmativa) os cabelos vão caindo,
caindo... e eles não sabem como explicar por que Jesus deu aquela
incômoda resposta. Que fazer? Perguntam a si próprios. Arrancar a
pagina não adianta, se a Bíblia do vizinho permanece com ela. O
jeito é fugir dessa passagem e torcer para que nunca lhes perguntem
a interpretação exata de tão angustiante episódio. Por que Jesus
naquele dia teve que falar de Elias?
Sobre a presença de tantos anjos.
Na
Bíblia existem mais de 300 aparições de anjos. Que são anjos? São
apenas Espíritos. As asas ficam por conta da imaginação de quem os
pinta ou descreve. Claro que Espíritos luminosos desempenham
determinadas funções junto aos encarnados, que com eles conversam
durante o sono e ostensivamente podem mostrar-se no estado de
vigília, a depender da urgência ou da necessidade de comunicação com
seus protegidos. Mas sendo luminosos ou não, não precisam ser
alados. A volitação depende do intelecto e da moral dos Espíritos, e
não da presença de asas. Alguns modificam seus perispíritos, no que
aparentam possuí-las para impressionar ou apavorar os demais,
dominando pelo medo aquém caia em suas armadilhas. As asas do
Espírito no dizer de Emmanuel são de um lado o amor e de outro a
sabedoria, conquistas sem as quais nenhum vôo é possível nas
rarefeitas camadas da eternidade.
Sobre as obsessões.
Todos os dias de sábado Jesus ensinava numa sinagoga. Um dia viu ali
uma mulher possuída de um Espírito que a punha doente havia dezoito
anos; era tão curvada, que não podia olhar para cima. Vendo-a, Jesus
a chamou e lhe disse: Mulher estás livre da tua enfermidade.
Impôs-lhe ao mesmo tempo as mãos e ela, endireitando-se, rendeu
graças a Deus. (Lucas cap. XII vv. 10 a 17).
Na
época de Jesus, as obsessões eram comuns na Judéia, tanto que o
Evangelho em suas narrativas traz inúmeras curas desse gênero de
enfermidade. Em muitas situações Jesus, compadecido com o sofrimento
dos obsidiados, os liberava de suas provas, quando o instante do
basta determinava uma intervenção a favor de ambos. “Espírito
imundo! Sai dele!”. “Que há entre ti e nós, Jesus de Nazaré?”.
“Espírito surdo e mudo, sai desse menino e não entres mais nele!”.
“De modo que o possesso começou a ouvir e a falar”.
Hoje são muitos os que negam a atuação dos Espíritos nos processos
obsessivos que grassam no mundo, preferindo amoldá-los ao rol das
neuroses e psicoses. Não podendo ver, pesar ou aprisionar o Espírito
perseguidor acham melhor criar teorias inócuas e palavras empoladas
para explicar o que não sabem. Diante de dezenas de curas efetuadas
por Jesus, médico divino que confirmou o agente patogênico das
subjugações como sendo um Espírito perseguidor, o que dizer aos que
dele discordam? Talvez apenas que, sendo ele o mestre por
excelência, não vacilou em diagnosticar de público a obsessão como
patogenia da alma a manifestar-se como moléstia do corpo,
aconselhando a quem curava, para evitar novo contágio, o “não pecar
novamente”. Dessa maneira, Jesus deixou clara a relação existente
entre a enfermidade sob qualquer aparência e o vicio ou engano
cometido pelo enfermo. Aqueles que tentam anular o diagnóstico de
Jesus, no tocante às obsessões, passam a si mesmos o atestado de
antiga doença com a qual se contaminaram: a inco0mp0etencia, virose
que só é debelada com a lucidez espiritual.
Sobre a cura pelos fluidos.
Então uma mulher, que havia doze anos sofria de uma hemorragia, veio
e lhe tocou as vestes. Logo Jesus, conhecendo em si mesmo a virtude
que dele saíra, se voltou ao meio da multidão e disse: Quem me
tocou?
Jesus sentira a onda fluídica saindo em corrente do seu corpo,
sugado por potente movimento. A fé, a força da vontade que tem o
poder de manipular o fluido em emissões ou sucções, fora pressentida
por ele naquele momento. A mesma força que ele usava quando impunha
as mãos sobre doentes dando-lhes de sua vitalidade purificadora. É o
que os espíritas chamam de passe. O efeito de passar para alguém o
fluido que poderá harmonizá-lo.
Há
quem ridicularize o passe, mesmo já estando provado pela fotografia
Kirlian a transferência de energia que ocorre entre doador e
receptor no momento de sua aplicação. O mecanismo fluídico do passe
já não é palco de controvérsias, como nos tempos de Mesmer. Os
fluidos atuam no perispírito, que por sua vez reage sobre o corpo
carnal com que se encontra unido por contacto molecular. Nas leis da
calorimetria, o mais quente doa para o mais frio e nos corpos
eletrizados a fluidez das cargas ocorre do estado de maior para o de
menor energia. Em ambos os casos evidencia-se a generosidade da
natureza. Na lei dos fluidos observa-se algo semelhante. O ser
humano tem o poder de, pelo pensamento, dirigir o seu fluido ou o
que recebe, para o enfermo, que dele precisa para restabelecer-se. O
contrário é que parece ser incompatível com as leis do equilíbrio.
Na generosidade do Pai, Ele permite que não apenas Jesus tenha
virtudes (fluidos) mas igualmente nós, irmãos menores, que
aprendemos a impor as mãos sobre os enfermos e pedir do manancial
divino as energias restauradoras para o alívio ou a cura de quem
sofre. A atitude de zombaria que alguns podem apresentar em torno da
aplicação fluídica do passe, demonstra apenas a impotência diante de
uma lei da natureza que lhes escapa ao domínio, pois sendo este um
fato, verdade que se repete exaustivamente, está dentro dos
parâmetros da lei natural. Mas, como negar o que é lei natural? Não
há como. É render-se a ele, como a grande maioria está fazendo, ou
ficar encurralado à beira do ridículo, sob a ameaça constante do
velho refrão que afirma: “Contra fatos não há argumentos”.
Leiamos a Bíblia para sermos bons. Saibamos interpretá-la para
sermos sábios.
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