|
- Saulo, por que me persegues?
(Jesus)
O psiquismo, que é a primeira forma com que Deus cria os seres,
transfere-se das aglutinações moleculares dos minerais para os
vegetais, quando surgem os primeiros estímulos de sensibilidade e de
um embrionário sistema nervoso, desatando as possibilidades de que
dispõe inatas, avançando pelo reino animal, quando desenvolve o
instinto para alcançar o seu estado de humanidade, no qual a
inteligência, o sentimento, a razão, a consciência esplendem, a fim
de avançar futuro em fora, ao encontro da Divindade.
(Victor Hugo)
Há ocorrências na vida de todos nós que não conseguimos entender,
que somente após a morte do corpo serão completamente resolvidas,
quando o Espírito penetrar nos arcanos da imortalidade, tomando
conhecimento do passado e desenovelando-se das suas implicações.
(Victor Hugo)
Quando o ser humano conscientizar-se de que é essencialmente
Espírito e não invólucro material, tomará a decisão de viver
conforme os padrões elevados da justiça e da eqüidade, do amor e da
caridade, desenovelando-se das paixões primevas para vivenciar as
experiências iluminativas e libertadoras que lhe estão reservadas,
em favor da sua incessante ascensão moral.
Ao Espiritismo cabe essa gloriosa tarefa, que vem sendo adiada em
razão da indecisão de muitos dos seus adeptos que não introjetaram
na conduta, conforme seria de desejar, os postulados libertadores de
que a Doutrina se constitui.
(Victor Hugo)
Bendize a dor que te dilacera os sentimentos! Todas as aflições,
todos os sofrimentos procedem do egoísmo e do desrespeito que o
Espírito se permite ante as Leis de Deus. Acima de todas as coisas
paira sempre soberana a Justiça Divina. É tão grandiosa essa
legislação que nada ocorre por capricho do acaso. Desse modo, é
necessário confiar. A coroa da glória somente pode ser ostentada
após vencidas as batalhas que estão sendo travadas. Nunca desconfies
da Celeste Providência. Tem coragem ante a crucificação que te está
sendo imposta, porque ela é justa. Não é a primeira vez que
transitas no mundo com aquele que hoje te fere de morte. Perdoa-o e
perdoa-te, a fim de tornares menos pesado o teu fardo de aflições.
Jesus, que era inocente, não reclamou, não se justificou e perdoou a
todos.
(Alves da Cunha)
Nada justifica o crime da vingança. Deus não necessita dos seres
humanos para fazer justiça. Consideramos o nosso perseguidor um
psicopata infeliz, que mais merece compaixão do que ressentimento.
(Alves da Cunha)
DEDICATÓRIA
- a
Terezinha, minha esposa
- a Jaqueline Mara e Tereza Cristina, minhas filhas
- a Francisco Cândido Xavier (in memoriam)
- a Divaldo Pereira Franco
ÍNDICE
Introdução
1 - A Evolução dos Seres
1.1 - As Fases Mineral e Vegetal
1.2 - As Fases Animal e Hominal
1.3 - A Fase Angélica
2 - O Amor aos Inimigos no Evangelho segundo o Espiritismo
3 - Pessoas que vivenciaram o Amor aos Inimigos
3.1 - Sócrates
3.2 - Jesus
3.3 - Paulo de Tarso
3.4 - Morandas Karamchand Gandhi
3.5 - Martin Luther King Jr.
Conclusão
INTRODUÇÃO
Não é por acaso que nosso estudo se inicia com a indagação incisiva
que Jesus fez a Saulo de Tarso, o acirrado perseguidor da Sua
Doutrina: - Saulo, por que me persegues?
Como verdadeiro Irmão mais velho - responsável perante Deus pelos
seres que habitam este planeta, Espírito que alcançou um grau
evolutivo muito acima de qualquer outro que aqui veio viver,
superlativo na Inteligência e no Amor universal - na certa,
condoía-se do sofrimento interior experimentado pelo impetuoso
doutor da Lei e veio em seu socorro, primeiro chamando-a à razão e,
quando este afinal compreendeu o engano em que laborava e propôs-se
à mudança de rumo, mostrou-lhe o que deveria fazer para ser útil à
causa da Verdade.
Realmente, aquele atribulado equivocado era alguém a si mesmo se
denominava inimigo de Jesus. No entanto, o Mestre, ao invés de agir
de forma a mostrar Seu infinito e absoluto Poder face ao aparente
adversário, irradiou em direção a ele Seu imenso Amor. A força dessa
Luz incalculável retirou dos olhos do insciente a nuvem espessa que
lhe obscurecia a compreensão.
Esse exemplo de amor aos inimigos é uma das mais importantes e ricas
lições que Jesus transmitiu à humanidade.
Apresentamos aos prezados Leitores e Leitoras, na seqüência, algumas
considerações sobre a evolução dos seres (inclusive passando pelos
Reinos inferiores da Natureza).
Devem ser fornecidos alguns dados (quando na fase humana) sobre a
diferença de nível evolutivo dos seres aparentemente iguais.
Não
se deve cobrar de todos uma conduta muito superior ao seu grau de
compreensão.
Deus exige de cada um de acordo com sua evolução. Assim se faz a
Justiça Perfeita.
VICTOR HUGO (2005:131) diz onde está o início da história de cada um
de nós:
O
psiquismo, que é a primeira forma com que Deus cria os seres,
transfere-se das aglutinações moleculares dos minerais para os
vegetais, quando surgem os primeiros estímulos de sensibilidade e de
um embrionário sistema nervoso, desatando as possibilidades de que
dispõe inatas, avançando pelo reino animal, quando desenvolve o
instinto para alcançar o seu estado de humanidade, no qual a
inteligência, o sentimento, a razão, a consciência esplendem, a fim
de avançar futuro em fora, ao encontro da Divindade.
ANDRÉ LUIZ (1999:53) completa a informação mencionando o lapso
temporal de parte dessa trajetória:
Com
a Supervisão Celeste, o princípio inteligente gastou, desde os vírus
e as bactérias das primeiras horas do protoplasma na Terra, mais ou
menos quinze milhões de séculos, a fim de que pudesse, como ser
pensante, embora em fase embrionária da razão, lançar as suas
primeiras emissões de pensamento contínuo para os Espaços Cósmicos.
Quanto tempo antecede a fase dos vírus e bactérias até o início no
psiquismo, de que fala VICTOR HUGO, e qual espaço temporal
intermedeia a fase das primeiras emissões de pensamento contínuo até
a nossa situação atual? São perguntas ainda sem resposta...
No
entanto, é certo que cada ser, nesse percurso, vai incorporando ao
seu "banco de dados" as vivências experimentadas, podendo-se dizer
que cada ser é um verdadeiro micro-universo.
Não
é menos verdade que não há dois seres absolutamente iguais, pois
cada um tem uma história diferente, desde o começo dos tempos...
A
Ética traçada pelo Pai para Seus filhos é única, mas cada qual,
situado num degrau diferente de evolução, tem condição maior ou
menor de compreendê-la e praticá-la.
A
Terra ainda é um mundo de provas e expiações.
Os
espíritos que aqui habitam vivem uma das seguintes situações de
acordo com seu grau evolutivo: provas, expiações e missões.
Acreditamos não estar equivocado ao dizer que:
1 -
Encontra-se em situação de provação quem se propõe a exercer
determinadas atividades úteis aos semelhantes como forma de
redimir-se das defecções praticadas anteriormente.
2 -
Vive em situação de expiação quem recebe os reflexos da Lei de Causa
e Efeito através dos sofrimentos físicos ou morais e ainda não se
encontra maduro para aceitar uma programação de vida visando o Bem.
3 -
Realiza uma vida de missão quem já atingiu um nível espiritual
elevado e estabelece metas idealistas de auxílio ao progresso dos
semelhantes.
O
número de missionários pode parecer reduzido, mas, na verdade, é o
suficiente para o trabalho de impulsionamento do Progresso, sob o
comando do Sublime Governador da Terra, que é Jesus.
O
número de espíritos em provação será maior do que aqueles em
expiação ou será o contrário?
O
que se sabe é que a Terra está passando à categoria de mundo de
regeneração.
Essas considerações são necessárias para entendermos:
a) quem somos
b) o estágio evolutivo em que estamos
c) o mundo em que vivemos
d) o que cada um deve estabelecer para si em termos de amor aos
inimigos.
Peço desculpas ao prezado Leitor e à prezada Leitora por transcrever
citações tão longas, mas a verdade é que nenhum resumo seria tão bom
quanto os trechos na íntegra...
1 -
A EVOLUÇÃO DOS SERES
Seguindo a estrutura traçada pelo O Livro dos Espíritos,
abordaremos:
a) as fases mineral e vegetal
b) as fases animal e hominal.
(Incluímos a fase angélica, apesar do pouco que dela sabemos).
1.1
- AS FASES MINERAL E VEGETAL
Inicialmente, transcrevemos o que O Livro dos Espíritos contempla
sobre essas duas fases:
PARTE SEGUNDA
Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
CAPÍTULO XI
DOS TRÊS REINOS :: Os minerais e as plantas
585. Que pensais da divisão da Natureza em três reinos, ou melhor,
em duas classes: a dos seres orgânicos e a dos inorgânicos? Segundo
alguns, a espécie humana forma uma quarta classe. Qual destas
divisões é preferível?
"Todas são boas, conforme o ponto de vista. Do ponto de vista
material, apenas há seres orgânicos e inorgânicos. Do ponto de vista
moral, há evidentemente quatro graus."
Esses quatro graus apresentam, com efeito, caracteres determinados,
muito embora pareçam confundir-se nos seus limites extremos. A
matéria inerte, que constitui o reino mineral, só tem em si uma
força mecânica. As plantas, ainda que compostas de matéria inerte,
são dotadas de vitalidade. Os animais, também compostos de matéria
inerte e igualmente dotados de vitalidade, possuem, além disso, uma
espécie de inteligência instintiva, limitada, e a consciência de sua
existência e de suas individualidades. O homem, tendo tudo o que há
nas plantas e nos animais, domina todas as outras classes por uma
inteligência especial, indefinida, que lhe dá a consciência do seu
futuro, a percepção das coisas extramateriais e o conhecimento de
Deus.
586. Têm as plantas consciências de que existem?
"Não, pois que não pensam; só têm vida orgânica."
587. Experimentam sensações? Sofrem quando as mutilam?
"Recebem impressões físicas que atuam sobre a matéria, mas não têm
percepções. Conseguintemente, não têm a sensação da dor."
588. Independe da vontade delas a força que as atrai umas para as
outras?
"Certo, porquanto não pensam. É uma força mecânica da matéria, que
atua sobre a matéria, sem que elas possam a isso opor-se."
589. Algumas plantas, como a sensitiva e a dionéia, por exemplo,
executam movimentos que denotam grande sensibilidade e, em certos
casos, uma espécie de vontade, conforme se observa na segunda, cujos
lóbulos apanham a mosca que sobre ela pousa para sugá-la, parecendo
que urde uma armadilha com o fim de capturar e matar aquele inseto.
São dotadas essas plantas da faculdade de pensar? Têm vontade e
formam uma classe intermediária entre a Natureza vegetal e Natureza
animal? Constituem a transição de uma para outra?
"Tudo em a Natureza é transição, por isso mesmo que uma coisa não se
assemelha a outra e, no entanto, todas se prendem umas às outras. As
plantas não pensam; por conseguinte carecem de vontade. Nem a ostra
que se abre, nem os zoófitos pensam: têm apenas um instinto cego e
natural."
O
organismo humano nos proporciona exemplo de movimentos análogos, sem
participação da vontade, nas funções digestivas e circulatórias. O
piloro se contrai, ao contacto de certos corpos, para lhes negar
passagem. O mesmo provavelmente se dá na sensitiva, cujos movimentos
de nenhum modo implicam a necessidade de percepção e, ainda menos,
da vontade.
590. Não haverá nas plantas, como nos animais, um instinto de
conservação, que as induza a procurar o que lhes possa ser útil e a
evitar o que lhes possa ser nocivo?
"Há, se quiserdes, uma espécie de instinto, dependendo isso da
extensão que se dê ao significado desta palavra. É, porém, um
instinto puramente mecânico. Quando, nas operações químicas,
observais que dois corpos se reúnem, é que um ao outro convém; quer
dizer: é que há entre eles afinidade. Ora, a isto não dais o nome de
instinto."
591. Nos mundos superiores, as plantas são de natureza mais
perfeita, como os outros seres?
"Tudo é mais perfeito. As plantas, porém, são sempre plantas, como
os animais sempre animais e os homens sempre homens."
1.2
- AS FASES ANIMAL E HOMINAL
O Livro dos Espíritos trata dessas fases nestes termos:
::
Os animais e o homem
592. Se, pelo que toca à inteligência, comparamos o homem e os
animais, parece difícil estabelecer-se uma linha de demarcação entre
aquele e estes, porquanto alguns animais mostram, sob esse aspecto,
notória superioridade sobre certos homens. Pode essa linha de
demarcação ser estabelecida de modo preciso?
"A
este respeito é completo o desacordo entre os vossos filósofos.
Querem uns que o homem seja um animal e outros que o animal seja um
homem. Estão todos em erro. O homem é um ser à parte, que desce
muito baixo algumas vezes e que pode também elevar-se muito alto.
Pelo físico, é como os animais e menos bem dotado do que muitos
destes. A Natureza lhes deu tudo o que o homem é obrigado a inventar
com a sua inteligência, para satisfação de suas necessidades e para
sua conservação. Seu corpo se destrói, como o dos animais, é certo,
mas ao seu Espírito está assinado um destino que só ele pode
compreender, porque só ele é inteiramente livre. Pobres homens, que
vos rebaixais mais do que os brutos! Não sabeis distinguir-vos
deles? Reconhecei o homem pela faculdade de pensar em Deus."
593. Poder-se-á dizer que os animais só obram por instinto?
"Ainda aí há um sistema. É verdade que na maioria dos animais domina
o instinto. Mas, não vês que muitos obram denotando acentuada
vontade? É que têm inteligência, porém limitada."
Não
se poderia negar que, além de possuírem o instinto, alguns animais
praticam atos combinados, que denunciam vontade de operar em
determinado sentido e de acordo com as circunstâncias. Há, pois,
neles, uma espécie de inteligência, mas cujo exercício quase que se
circunscreve à utilização dos meios de satisfazerem às suas
necessidades físicas e de proverem à conservação própria. Nada,
porém, criam, nem melhora alguma realizam. Qualquer que seja a arte
com que executem seus trabalhos, fazem hoje o que faziam outrora e o
fazem, nem melhor, nem pior, segundo formas e proporções constantes
e invariáveis. A cria, separada dos de sua espécie, não deixa por
isso de construir o seu ninho de perfeita conformidade com os seus
maiores, sem que tenha recebido nenhum ensino. O desenvolvimento
intelectual de alguns, que se mostram suscetíveis de certa educação,
desenvolvimento, aliás, que não pode ultrapassar acanhados limites,
é devido à ação do homem sobre uma natureza maleável, porquanto não
há aí progresso que lhe seja próprio. Mesmo o progresso que realizam
pela ação do homem é efêmero e puramente individual, visto que,
entregue a si mesmo, não tarda que o animal volte a encerrar-se nos
limites que lhe traçou a Natureza.
594. Têm os animais alguma linguagem?
"Se
vos referis a uma linguagem formada de sílabas e palavras, não.
Meio, porém, de se comunicarem entre si, têm. Dizem uns aos outros
muito mais coisas do que imaginais, Mas, essa mesma linguagem de que
dispõem é restrita às necessidades, como restritas também são as
idéias que podem ter."
a)
- Há, entretanto, animais que carecem de voz. Esses parece que
nenhuma linguagem usam, não?
"Compreendem-se por outros meios. Para vos comunicardes
reciprocamente, vós outros, homens, só dispondes da palavra? E os
mudos? Facultada lhes sendo a vida de relação, os animais possuem
meios de se prevenirem e de exprimirem as sensações que
experimentam. Pensais que os peixes não se entendem entre si? O
homem não goza do privilégio exclusivo da linguagem. Porém, a dos
animais é instintiva e circunscrita pelas suas necessidades e
idéias, ao passo que a do homem é perfectível e se presta a todas as
concepções da sua inteligência."
Efetivamente, os peixes que, como as andorinhas, emigram em
cardumes, obedientes ao guia que os conduz, devem ter meios de se
advertirem, de se entenderem e combinarem. É possível que disponham
de uma vista mais penetrante e esta lhes permita perceber os sinais
que mutuamente façam. Pode ser também que tenham na água um veículo
próprio para a transmissão de certas vibrações. Como quer que seja,
o que é incontestável é que lhes não falecem meios de se entenderem,
do mesmo modo que a todos os animais carentes de voz e que, não
obstante, trabalham em comum. Diante disso, que admiração pode
causar que os Espíritos entre si se comuniquem sem o auxílio da
palavra articulada?
595. Gozam de livre-arbítrio os animais, para a prática dos seus
atos?
"Os
animais não são simples máquinas, como supondes. Contudo, a
liberdade de ação, de que desfrutam, é limitada pelas suas
necessidades e não se pode comparar à do homem. Sendo muitíssimo
inferiores a este, não têm os mesmos deveres que ele. A liberdade,
possuem-na restrita aos atos da vida material."
596. Donde procede a aptidão que certos animais denotam para imitar
a linguagem do homem e por que essa aptidão se revela mais nas aves
do que no macaco, por exemplo, cuja conformação apresenta mais
analogia com a humana?
"Origina-se de uma particular conformação dos órgãos vocais,
reforçada pelo instinto de imitação. O macaco imita os gestos;
algumas aves imitam a voz."
597. Pois que os animais possuem uma inteligência que lhes faculta
certa liberdade de ação, haverá neles algum princípio independente
da matéria?
"Há
e que sobrevive ao corpo."
a)
- Será esse princípio uma alma semelhante à do homem?
"É
também uma alma, se quiserdes, dependendo isto do sentido que se der
a esta palavra. É, porém, inferior à do homem. Há entre a alma dos
animais e a do homem distância equivalente à que medeia entre a alma
do homem e Deus."
598. Após a morte, conserva a alma dos animais a sua individualidade
e a consciência de si mesma?
"Conserva sua individualidade; quanto à consciência do seu eu, não.
A vida inteligente lhe permanece em estado latente."
599. À alma dos animais é dado escolher a espécie de animal em que
encarne?
"Não, pois que lhe falta livre-arbítrio."
600. Sobrevivendo ao corpo em que habitou, a alma do animal vem a
achar-se, depois da morte, nem estado de erraticidade, como a do
homem?
"Fica numa espécie de erraticidade, pois que não mais se acha unida
ao corpo, mas não é um Espírito errante. O Espírito errante é um ser
que pensa e obra por sua livre vontade. De idêntica faculdade não
dispõe o dos animais. A consciência de si mesmo é o que constitui o
principal atributo do Espírito. O do animal, depois da morte, é
classificado pelos Espíritos a quem incumbe essa tarefa e utilizado
quase imediatamente. Não lhe é dado tempo de entrar em relação com
outras criaturas."
601. Os animais estão sujeitos, como o homem, a uma lei progressiva?
"Sim; e daí vem que nos mundos superiores, onde os homens são mais
adiantados, os animais também o são, dispondo de meios mais amplos
de comunicação. São sempre, porém, inferiores ao homem e se lhe
acham submetidos, tendo neles o homem servidores inteligentes."
Nada há nisso de extraordinário, tomemos os nossos mais inteligentes
animais, o cão, o elefante, o cavalo, e imaginemo-los dotados de uma
conformação apropriada a trabalhos manuais. Que não fariam sob a
direção do homem?
602. Os animais progridem, como o homem, por ato da própria vontade,
ou pela força das coisas?
"Pela força das coisas, razão por que não estão sujeitos à
expiação."
603. Nos mundos superiores, os animais conhecem a Deus?
"Não. Para eles o homem é um deus, como outrora os Espíritos eram
deuses para o homem."
604. Pois que os animais, mesmo os aperfeiçoados, existentes nos
mundos superiores, são sempre inferiores ao homem, segue-se que Deus
criou seres intelectuais perpetuamente destinados à inferioridade, o
que parece em desacordo com a unidade de vistas e de progresso que
todas as suas obras revelam.
"Tudo em a Natureza se encadeia por elos que ainda não podeis
apreender. Assim, as coisas aparentemente mais díspares têm pontos
de contacto que o homem, no seu estado atual, nunca chegará a
compreender. Por um esforço da inteligência poderá entrevê-los; mas,
somente quando essa inteligência estiver no máximo grau de
desenvolvimento e liberta dos preconceitos do orgulho e da
ignorância, logrará ver claro na obra de Deus. Até á, suas muito
restritas idéias lhe farão observar as coisas por um mesquinho e
acanhado prisma. Sabei não ser possível que Deus se contradiga e
que, na Natureza, tudo se harmoniza mediante leis gerais, que por
nenhum de seus pontos deixam de corresponder à sublime sabedoria do
Criador."
a)
- A inteligência é então uma propriedade comum, um ponto de contacto
entre a alma dos animais e a do homem?
"É,
porém os animais só possuem a inteligência da vida material. No
homem, a inteligência proporciona a vida moral."
605. Considerando-se todos os pontos de contacto que existem entre o
homem e os animais, não seria lícito pensar que o homem possui duas
almas: a alma animal e a alma espírita e que, se esta última não
existisse, só como o bruto poderia ele viver? Por outra: que o
animal é um ser semelhante ao homem, tendo de menos a alma espírita?
Dessa maneira de ver resultaria serem os bons e os maus instintos do
homem efeito da predominância de uma ou outra dessas almas?
"Não, o homem não tem duas almas. O corpo, porém, tem seus
instintos, resultantes da sensação peculiar aos órgãos. Dupla, no
homem, só é a Natureza. Há nele a natureza animal e a natureza
espiritual. Participa, pelo seu corpo, da natureza dos animais e de
seus instintos. Por sua alma, participa da dos Espíritos."
a)
- De modo que, além de suas próprias imperfeições de que cumpre ao
Espírito despojar-se, tem ainda o homem que lutar contra a
influência da matéria?
"Quanto mais inferior é o Espírito, tanto mais apertados são os
laços que o ligam à matéria. Não o vedes? O homem não tem duas
almas; a alma é sempre única em cada ser. São distintas uma da outra
a alma do animal e a do homem, a tal ponto que a de um não pode
animar o corpo criado para o outro. Mas, conquanto não tenha alma
animal, que, por suas paixões, o nivele aos animais, o homem tem o
corpo que, às vezes, o rebaixa até ao nível deles, por isso que o
corpo é um ser dotado de vitalidade e de instintos, porém
ininteligentes estes e restritos ao cuidado que a sua conservação
requer."
Encarnado no corpo do homem, o Espírito lhe traz o princípio
intelectual e moral, que o torna superior aos animais. As duas
naturezas nele existentes dão às suas paixões duas origens
diferentes: umas provêm dos instintos da natureza animal, provindo
as outras das impurezas do Espírito, de cuja encarnação é ele a
imagem e que mais ou menos simpatiza com a grosseria dos apetites
animais. Purificando-se, o Espírito se liberta pouco a pouco da
influência da matéria. Sob essa influência, aproxima-se do bruto.
Isento dela, eleva-se à sua verdadeira destinação.
606. Donde tiram os animais o princípio inteligente que constitui a
alma de natureza especial de que são dotados?
"Do
elemento inteligente universal."
a)
- Então, emanam de um único princípio a inteligência do homem e a
dos animais?
"Sem dúvida alguma, porém, no homem, passou por uma elaboração que a
coloca acima da que existe no animal."
607. Dissestes (190) que o estado da alma do homem, na sua origem,
corresponde ao estado da infância na vida corporal, que sua
inteligência apenas desabrocha e se ensaia para a vida. Onde passa o
Espírito essa primeira fase do seu desenvolvimento?
"Numa série de existências que precedem o período a que chamais
Humanidade."
a)
- Parece que, assim, se pode considerar a alma como tendo sido o
princípio inteligente dos seres inferiores da criação, não?
"Já
não dissemos que todo em a Natureza se encadeia e tende para a
unidade? Nesses seres, cuja totalidade estais longe de conhecer, é
que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a
pouco e se ensaia para a vida, conforme acabamos de dizer. É, de
certo modo, um trabalho preparatório, como o da germinação, por
efeito do qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se
torna Espírito. Entra então no período da humanização, começando a
ter consciência do seu futuro, capacidade de distinguir o bem do mal
e a responsabilidade dos seus atos. Assim, à fase da infância se
segue a da adolescência, vindo depois a da juventude e da madureza.
Nessa origem, coisa alguma há de humilhante para o homem.
Sentir-se-ão humilhados os grandes gênios por terem sido fetos
informes nas entranhas que os geraram? Se alguma coisa há que lhe
seja humilhante, é a sua inferioridade perante Deus e sua impotência
para lhe sondar a profundeza dos desígnios e para apreciar a
sabedoria das leis que regem a harmonia do Universo. Reconhecei a
grandeza de Deus nessa admirável harmonia, mediante a qual tudo é
solidário na Natureza. Acreditar que Deus haja feito, seja o que
for, sem um fim, e criado seres inteligentes sem futuro, fora
blasfemar da Sua bondade, que se estende por sobre todas as suas
criaturas."
b)
Esse período de humanização principia na Terra?
"A
Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana. O
período da humanização começa, geralmente, em mundos ainda
inferiores à Terra. Isto, entretanto, não constitui regra absoluta,
pois pode suceder que um Espírito, desde o seu início humano, esteja
apto a viver na Terra. Não é freqüente o caso; constitui antes uma
exceção."
608. O Espírito do homem tem, após a morte, consciência de suas
existências ao período de humanidade?
"Não, pois não é desse período que começa a sua vida de Espírito.
Difícil é mesmo que se lembre de suas primeiras existências humanas,
como difícil é que o homem se lembre dos primeiros tempos de sua
infância e ainda menos do tempo que passou no seio materno. Essa a
razão por que os Espíritos dizem que não sabem como começaram.".
609. Uma vez no período da humanidade, conserva o Espírito traços do
que era precedentemente, quer dizer: do estado em que se achava no
período a que se poderia chamar ante-humano?
"Conforme a distância que medeie entre os dois períodos e o
progresso realizado. Durante algumas gerações, pode ele conservar
vestígios mais ou menos pronunciados do estado primitivo, porquanto
nada se opera na Natureza por brusca transição. Há sempre anéis que
ligam as extremidades da cadeia dos seres e dos acontecimentos.
Aqueles vestígios, porém, se apagam com o desenvolvimento do
livre-arbítrio. os primeiros progressos só muito lentamente se
efetuam, porque ainda não têm a secundá-los a vontade. Vão em
progressão mais rápida, à medida que o Espírito adquire perfeita
consciência de si mesmo."
610. Ter-se-ão enganado os Espíritos que disseram constituir o homem
um ser à parte na ordem da criação?
"Não, mas a questão não fora desenvolvida. Demais, há coisas que só
a seu tempo podem ser esclarecidas. O homem é, com efeito, um ser à
parte, visto possuir faculdades que o distinguem de todos os outros
e ter outro destino. A espécie humana é a que Deus escolheu para a
encarnação do seres que podem conhecê-Lo."
::
Metempsicose
611. O terem os seres vivos uma origem comum no princípio
inteligente não é a consagração da doutrina da metempsicose?
"Duas coisas podem ter a mesma origem e absolutamente não se
assemelharem mais tarde. Quem reconheceria a árvore, com suas
folhas, flores e frutos, do gérmen informe que se contém na semente
donde ela surge? Desde que o princípio inteligente atinge o grau
necessário para ser Espírito e entrar no período da humanização, já
não guarda relação com o seu estado primitivo e já não é a alma dos
animais, como a árvore já não é a semente. De animal só há no homem
o corpo e as paixões que nascem da influência do corpo e do instinto
de conservação inerente à matéria. Não se pode, pois, dizer que tal
homem é a encarnação do Espírito de tal animal. Conseguintemente, a
metempsicose, como a entendem não é verdadeira."
612. Poderia encarnar num animal o Espírito que animou o corpo de um
homem?
"Isso seria retrogradar e o Espírito não retrograda. O rio não
remonta à sua nascente." (118)
613. Embora de todo errônea, a idéia ligada à metempsicose não terá
resultado do sentimento intuitivo que o homem possui de suas
diferentes existências?
"Nessa, como em muitas outras crenças, se depara esse sentimento
intuitivo. O homem, porém, o desnaturou, como costuma fazer com a
maioria de suas idéias intuitivas."
Seria verdadeira a metempsicose, se indicasse a progressão da alma,
passando de um estado a outro superior, onde adquirisse
desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza. É, porém, falsa
no sentido de transmigração direta da alma do animal para o homem e
reciprocamente, o que implicaria a idéia de uma retrogradação, ou de
fusão. Ora, o fato de não poder semelhante fusão operar-se, entre os
seres corporais das duas espécies, mostra que estas são de graus
inassimiláveis, devendo dar-se o mesmo com relação aos Espíritos que
as animam. Se um mesmo Espírito as pudesse animar alternativamente,
haveria, como conseqüência, uma identidade de natureza,
traduzindo-se pela possibilidade da reprodução material.
A
reencarnação, como os Espíritos a ensinam, se funda, ao contrário,
na marcha ascendente da Natureza e na progressão do homem, dentro da
sua própria espécie, o que em nada lhe diminui a dignidade. O que o
rebaixa é o mau uso que ele faz das faculdades que Deus lhe outorgou
para que progrida. Seja como for, a ancianidade e a universalidade
da doutrina da metempsicose e, bem assim, a circunstância de a terem
professado homens eminentes provam que o princípio da reencarnação
se radica na própria Natureza. Antes, pois, constituem argumentos a
seu favor, que contrários a esse princípio.
O
ponto inicial do Espírito é uma dessas questões que se prendem à
origem das coisas e de que Deus guarda o segredo. Dado não é ao
homem conhecê-las de modo absoluto, nada mais lhe sendo possível a
tal respeito do que fazer suposições, criar sistemas mais ou menos
prováveis. Os próprios Espíritos longe estão de tudo saberem e,
acerca do que não sabem, também podem ter opiniões pessoais mais ou
menos sensatas.
É
assim, por exemplo, que nem todos pensam da mesma forma quanto às
relações existentes entre o homem e os animais. Segundo uns, o
Espírito não chega ao período humano senão depois de se haver
elaborado e individualizado nos diversos graus dos seres inferiores
da Criação. Segundo outros, o Espírito do homem teria pertencido
sempre à raça humana, sem passar pela fieira animal. O primeiro
desses sistemas apresenta a vantagem de assinar um alvo ao futuro
dos animais, que formariam então os primeiros elos da cadeia dos
seres pensantes. O segundo é mais conforme à dignidade do homem e
pode resumir-se da maneira seguinte:
As
diferentes espécies de animais não procedem intelectualmente umas
das outras, mediante progressão. Assim, o espírito da ostra não se
torna sucessivamente o do peixe, do pássaro, do quadrúpede e do
quadrúmano. Cada espécie constitui, física e moralmente, um tipo
absoluto, cada um de cujos indivíduos haure na fonte universal a
quantidade do princípio inteligente que lhe seja necessário, de
acordo com a perfeição de seus órgãos e com o trabalho que tenha de
executar nos fenômenos da Natureza, quantidade que ele, por sua
morte, restitui ao reservatório donde a tirou. Os dos mundos mais
adiantados que o nosso (ver n° 188) constituem igualmente raças
distintas, apropriadas às necessidades desses mundos e ao grau de
adiantamento dos homens, cujos auxiliares eles são, mas de modo
nenhum procedem das da Terra, espiritualmente falando. Outro tanto
não se dá com o homem. Do ponto de vista físico, este forma
evidentemente um elo da cadeia dos seres vivos: porém, do ponto de
vista moral, há, entre o animal e o homem, solução de continuidade.
O homem possui, como propriedade sua, a alma ou Espírito, centelha
divina que lhe confere o senso moral e um alcance intelectual de que
carecem os animais e que é nele o ser principal, que preexiste e
sobrevive ao corpo, conservando sua individualidade. Qual a origem
do Espírito? Onde o seu ponto inicial? Forma-se do princípio
inteligente individualizado? Tudo isso são mistérios que fora inútil
querer devassar e sobre os quais, como dissemos, nada mais se pode
fazer do que construir sistemas. O que é constante, o que ressalta
do raciocínio e da experiência é a sobrevivência do Espírito, a
conservação de sua individualidade após a morte, a progressividade
de suas faculdades, seu estado feliz ou desgraçado de acordo com o
seu adiantamento na senda do bem e todas as verdades morais
decorrentes deste princípio.
Quanto às relações misteriosas que existem entre o homem e os
animais, isso, repetimos, está nos segredos de Deus, como muitas
outras coisas, cujo conhecimento atual nada importa ao nosso
progresso e sobre as quais seria inútil determo-nos.
1.3
- DETALHAMENTO DA FASE HUMANA
O
Livro dos Espíritos apresenta um grande quadro que engloba os seres
humanos do nosso planeta:
::
Diferentes ordens de Espíritos
96.
São iguais os Espíritos, ou há entre eles qualquer hierarquia?
"São de diferentes ordens, conforme o grau de perfeição que tenham
alcançado."
97.
As ordens ou graus de perfeição dos Espíritos são em número
determinado?
"São ilimitadas em número, porque entre elas não há linhas de
demarcação traçadas como barreiras, de sorte que as divisões podem
ser multiplicadas ou restringidas livremente. Todavia,
considerando-se os caracteres gerais dos Espíritos, elas podem
reduzir-se a três principais.
"Na
primeira, colocar-se-ão os que atingiram a perfeição máxima: os
puros Espíritos. Formam a segunda os que chegaram ao meio da escala:
o desejo do bem é o que neles predomina. Pertencerão à terceira os
que ainda se acham na parte inferior da escala: os Espíritos
imperfeitos. A ignorância, o desejo do mal e todas as paixões más
que lhes retardam o progresso, eis o que os caracteriza."
98.
Os Espíritos da segunda ordem, para os quais o bem constitui a
preocupação dominante, têm o poder de praticá-lo?
"Cada um deles dispõe desse poder, de acordo com o grau de perfeição
a que chegou. Assim, uns possuem a ciência, outros a sabedoria e a
bondade. Todos, porém, ainda têm que sofrer provas."
99.
Os da terceira categoria são todos essencialmente maus?
"Não; uns há que não fazem nem o mal nem o bem; outros, ao
contrário, se comprazem no mal e ficam satisfeitos quando se lhes
depara ocasião de praticá-lo. Há também os levianos ou estouvados,
mais perturbadores do que malignos, que se comprazem antes na
malícia do que na malvadez e cujo prazer consiste em mistificar e
causar pequenas contrariedades, de que se riem."
Escala espírita
100. OBSERVAÇÕES PRELIMINARES. - A classificação dos Espíritos se
baseia no grau de adiantamento deles, nas qualidades que já
adquiriram e nas imperfeições de que ainda terão de despojar-se.
Esta classificação, aliás, nada tem de absoluta. Apenas no seu
conjunto cada categoria apresenta caráter definido. De um grau a
outro a transição é insensível e, nos limites extremos, os matizes
se apagam, como nos reinos da Natureza, como nas cores do arco-íris,
ou, também, como nos diferentes períodos da vida do homem. Podem,
pois, formar-se maior ou menor número de classes, conforme o ponto
de vista donde se considere a questão. Dá-se aqui o que se dá com
todos os sistemas de classificação científica, que podem ser mais ou
menos completos, mais ou menos racionais, mais ou menos cômodos para
a inteligência. Sejam, porém, quais forem, em nada alteram as bases
da ciência. Assim, é natural que inquiridos sobre este ponto, hajam
os Espíritos divergido quanto ao número das categorias, sem que isto
tenha valor algum. Entretanto, não faltou quem se agarrasse a esta
contradição aparente, sem refletir que os Espíritos nenhuma
importância ligam ao que é puramente convencional. Para eles, o
pensamento é tudo. Deixam-nos a nós a forma, a escolha dos termos,
as classificações, numa palavra, os sistemas.
Façamos ainda uma consideração que se não deve jamais perder de
vista, a de que entre os Espíritos, do mesmo modo que entre os
homens, há os muito ignorantes, de maneira que nunca serão demais as
cautelas que se tomem contra a tendência a crer que, por serem
Espíritos, todos devam saber tudo. Qualquer classificação exige
método, análise e conhecimento aprofundado do assunto. Ora no mundo
dos Espíritos, os que possuem limitados conhecimentos são, como
neste mundo, os ignorantes, os inaptos a apreender uma síntese, a
formular um sistema. Só muito imperfeitamente percebem ou
compreendem uma classificação qualquer. Consideram da primeira
categoria todos os Espíritos que lhes são superiores, por não
poderem apreciar as gradações de saber, de capacidade e de
moralidade que os distinguem, como sucede entre nós a um homem rude
com relação aos civilizados. Mesmo os que sejam capazes de tal
apreciação podem mostra-se divergentes, quanto às particularidades,
conformemente aos pontos de vista em que se achem, sobretudo se se
trata de uma divisão, que nenhum cunho absoluto apresente. Lineu,
Jussieu e Tournefort tiveram cada um o seu método, sem que a
Botânica houvesse em conseqüência experimentado modificação alguma.
É que nenhum deles inventou as plantas, nem seus caracteres. Apenas
observaram as analogias, segundo as quais formaram os grupos ou
classes. Foi assim que também nós procedemos. Não inventamos os
Espíritos, nem seus caracteres. Vimos e observamos, julgamo-los
pelas suas palavras e atos, depois os classificamos pelas
semelhanças, baseando-nos em dados que eles próprios nos forneceram.
Os
Espíritos, em geral, admitem três categorias principais, ou três
grandes divisões. Na última, a que fica na parte inferior da escala,
estão os Espíritos imperfeitos, caracterizados pela predominância da
matéria sobre o Espírito e pela propensão para o mal. Os da segunda
se caracterizam pela predominância do Espírito sobre a matéria e
pelo desejo do bem: são os bons Espíritos. A primeira, finalmente,
compreende os Espíritos puros, os que atingiram o grau supremo da
perfeição.
Esta divisão nos pareceu perfeitamente racional e com caracteres bem
positivados. Só nos restava pôr em relevo, mediante subdivisões em
número suficiente, os principais matizes do conjunto. Foi o que
fizemos, com o concurso dos Espíritos, cujas benévolas instruções
jamais nos faltaram.
Com
o auxílio desse quadro, fácil será determinar-se a ordem, assim como
o grau de superioridade ou de inferioridade dos que possam entrar em
relações conosco e, por conseguinte, o grau de confiança ou de
estima que mereçam. É, de certo modo, a chave da ciência espírita,
porquanto só ele pode explicar as anomalias que as comunicações
apresentam, esclarecendo-nos acerca das desigualdades intelectuais e
morais dos Espíritos. Faremos, todavia, notar que estes não ficam
pertencendo, exclusivamente, a tal ou tal classe. Sendo sempre
gradual o progresso deles e muitas vezes mais acentuado num sentido
do que em outro, pode acontecer que muitos reúnam em si os
caracteres de várias categorias, o que seus atos e linguagem tornam
possível apreciar-se.
Terceira ordem. - Espíritos imperfeitos
101. CARACTERES GERAIS. - Predominância da matéria sobre o Espírito.
Propensão para o mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as
paixões que lhes são conseqüentes.
Têm
a intuição de Deus, mas não O compreendem.
Nem
todos são essencialmente maus. Em alguns há mais leviandade,
irreflexão e malícia do que verdadeira maldade. Uns não fazem o bem
nem o mal; mas, pelo simples fato de não fazerem o bem, já denotam a
sua inferioridade. Outros, ao contrário, se comprazem no mal e
rejubilam quando uma ocasião se lhes depara de praticá-lo.
A
inteligência pode achar-se neles aliada à maldade ou à malícia;
seja, porém, qual for o grau que tenham alcançado de desenvolvimento
intelectual, suas idéias são pouco elevadas e mais ou menos abjetos
seus sentimentos.
Restritos conhecimentos têm das coisas do mundo espírita e o pouco
que sabem se confunde com as idéias e preconceitos da vida corporal.
Não nos podem dar mais do que noções errôneas e incompletas;
entretanto, nas suas comunicações, mesmo imperfeitas, o observador
atento encontra a confirmação das grandes verdades ensinadas pelos
Espíritos superiores.
Na
linguagem de que usam se lhes revela o caráter. Todo Espírito que,
em suas comunicações, trai um mau pensamento pode ser classificado
na terceira ordem. Conseguintemente, todo mau pensamento que nos é
sugerido vem de um Espírito desta ordem.
Eles vêem a felicidade dos bons e esse espetáculo lhes constitui
incessante tormento, porque os faz experimentar todas as angústias
que a inveja e o ciúme podem causar.
Conservam a lembrança e a percepção dos sofrimentos da vida corpórea
e essa impressão é muitas vezes mais penosa do que a realidade.
Sofrem, pois, verdadeiramente, pelos males de que padeceram em vida
e pelos que ocasionam aos outros. E, como sofrem por longo tempo,
julgam que sofrerão para sempre. Deus, para puni-los, quer que assim
julguem.
Podem compor cinco classes principais.
102. Décima classe. ESPÍRITOS IMPUROS. - São inclinados ao mal, de
que fazem o objeto de suas preocupações. Como Espíritos, dão
conselhos pérfidos, sopram a discórdia e a desconfiança e se
mascaram de todas as maneiras para melhor enganar. Ligam-se aos
homens de caráter bastante fraco para cederem às suas sugestões, a
fim de induzi-los à perdição, satisfeitos com o conseguirem
retardar-lhes o adiantamento, fazendo-os sucumbir nas provas por que
passam.
Nas
manifestações dão-se a conhecer pela linguagem. A trivialidade e a
grosseria das expressões, nos Espíritos, como nos homens, é sempre
indício de inferioridade moral, senão também intelectual. Suas
comunicações exprimem a baixeza de seus pendores e, se tentam
iludir, falando com sensatez, não conseguem sustentar por muito
tempo o papel e acabam sempre por se traírem.
Alguns povos os arvoraram em divindades maléficas; outros os
designam pelos nomes de demônios, maus gênios, Espíritos do mal.
Quando encarnados, os seres vivos que eles constituem se mostram
propensos a todos os vícios geradores das paixões vis e degradantes:
a sensualidade, a crueldade, a felonia, a hipocrisia, a cupidez, a
avareza sórdida. Fazem o mal por prazer, as mais das vezes sem
motivo, e, por ódio ao bem, quase sempre escolhem suas vítimas entre
as pessoas honestas. São flagelos para a humanidade, pouco
importando a categoria social a que pertençam, e o verniz da
civilização não os forra ao opróbrio e à ignomínia.
103. Nona classe. ESPÍRITOS LEVIANOS. - São ignorantes, maliciosos,
irrefletidos e zombeteiros. Metem-se em tudo, a tudo respondem, sem
se incomodarem com a verdade. Gostam de causar pequenos desgostos e
ligeiras alegrias, de intrigar, de induzir maldosamente em erro, por
meio de mistificações e de espertezas. A esta classe pertencem os
Espíritos vulgarmente tratados de duendes, trasgos, gnomos,
diabretes. Acham-se sob a dependência dos Espíritos superiores, que
muitas vezes os empregam, como fazemos com os nossos servidores.
Em
suas comunicações com os homens, a linguagem de que se servem é,
amiúde, espirituosa e faceta, mas quase sempre sem profundeza de
idéias. Aproveitam-se das esquisitices e dos ridículos humanos e os
apreciam, mordazes e satíricos. Se tomam nomes supostos, é mais por
malícia do que por maldade.
104. Oitava classe. ESPÍRITOS PSEUDO-SÁBIOS. - Dispõem de
conhecimentos bastante amplos, porém, crêem saber mais do que
realmente sabem. Tendo realizado alguns progressos sob diversos
pontos de vista, a linguagem deles aparenta um cunho de seriedade,
de natureza a iludir com respeito às suas capacidades e luzes. Mas,
em geral, isso não passa de reflexo dos preconceitos e idéias
sistemáticas que nutriam na vida terrena. É uma mistura de algumas
verdades com os erros mais polpudos, através dos quais penetram a
presunção, o orgulho, o ciúme e a obstinação, de que ainda não
puderam despir-se.
105. Sétima classe. ESPÍRITOS NEUTROS. - Nem bastante bons para
fazerem o bem, nem bastante maus para fazerem o mal. Pendem tanto
para um como para o outro e não ultrapassam a condição comum da
Humanidade, quer no que concerne ao moral, quer no que toca à
inteligência. Apegam-se às coisas deste mundo, de cujas grosseiras
alegrias sentem saudades.
106. Sexta classe. ESPÍRITOS BATEDORES E PERTURBADORES. - Estes
Espíritos, propriamente falando, não formam uma classe distinta
pelas suas qualidades pessoais. Podem caber em todas as classes da
terceira ordem. Manifestam geralmente sua presença por efeitos
sensíveis e físicos, como pancadas, movimento e deslocamento anormal
de corpos sólidos, agitação do ar, etc. Afiguram-se, mais do que
outros, presos à matéria. Parecem ser os agentes principais das
vicissitudes dos elementos do globo, quer atuem sobre o ar, a água,
o fogo, os corpos duros, quer nas entranhas da terra. Reconhece-se
que esses fenômenos não derivam de uma causa fortuita ou física,
quando denotam caráter intencional e inteligente. Todos os Espíritos
podem produzir tais fenômenos, mas os de ordem elevada os deixam, de
ordinário, como atribuições dos subalternos, mais aptos para as
coisas materiais do que para as coisas da inteligência; quando
julgam úteis as manifestações desse gênero, lançam mão destes
últimos como seus auxiliares.
Segunda ordem. - Bons Espíritos
107. CARACTERES GERAIS - Predominância do Espírito sobre a matéria;
desejo do bem. Suas qualidades e poderes para o bem estão em relação
com o grau de adiantamento que hajam alcançado; uns têm a ciência,
outros a sabedoria e a bondade. Os mais reúnem o saber às qualidades
morais. Não estando ainda completamente desmaterializados, conservam
mais ou menos, conforme a categoria que ocupem, os traços da
existência corporal, assim na forma da linguagem, como nos hábitos,
entre os quais se descobrem mesmo algumas de suas manias. De outro
modo, seriam Espíritos perfeitos.
Compreendem Deus e o infinito e já gozam da felicidade dos bons. São
felizes pelo bem que fazem e pelo mal que impedem. O amor que os une
lhes é fonte de inefável ventura, que não tem a perturbá-la nem a
inveja, nem os remorsos, nem nenhuma das más paixões que constituem
o tormento dos Espíritos imperfeitos. Todos, entretanto, ainda têm
que passar por provas, até que atinjam a perfeição.
Como Espíritos, suscitam bons pensamentos, desviam os homens da
senda do mal, protegem na vida os que se lhes mostram dignos de
proteção e neutralizam a influência dos Espíritos imperfeitos sobre
aqueles a quem não é grato sofrê-la.
Quando encarnados, são bondosos e benevolentes com os seus
semelhantes. Não os movem o orgulho, nem o egoísmo, ou a ambição.
Não experimentam ódio, rancor, inveja ou ciúme e fazem o bem pelo
bem.
A
esta ordem pertencem os Espíritos designados, nas crenças vulgares,
pelos nomes de bons gênios, gênios protetores, Espíritos do bem. Em
épocas de superstições e de ignorância, eles hão sido elevados à
categoria de divindades benfazejas.
Podem ser divididos em quatro grupos principais:
108. Quinta classe. ESPÍRITOS BENÉVOLOS. - A bondade é neles a
qualidade dominante. Apraz-lhes prestar serviço aos homens e
protegê-los. Limitados, porém, são os seus conhecimentos. Hão
progredido mais no sentido moral do que no sentido intelectual.
109. Quarta classe. ESPÍRITOS SÁBIOS. - Distinguem-se pela amplitude
de seus conhecimentos. Preocupam-se menos com as questões morais, do
que com as de natureza científica, para as quais têm maior aptidão.
Entretanto, só encaram a ciência do ponto de vista da sua utilidade
e jamais dominados por quaisquer paixões próprias dos Espíritos
imperfeitos.
110. Terceira classe. ESPÍRITOS DE SABEDORIA. - As qualidades morais
da ordem mais elevada são o que os caracteriza. Sem possuírem
ilimitados conhecimentos, são dotados de uma capacidade intelectual
que lhes faculta juízo reto sobre os homens e as coisas.
111. Segunda classe. ESPÍRITOS SUPERIORES. - Esses em si reúnem a
ciência, a sabedoria e a bondade. Da linguagem que empregam se exala
sempre a benevolência; é uma linguagem invariavelmente digna,
elevada e, muitas vezes, sublime. Sua superioridade os torna mais
aptos do que os outros a nos darem noções exatas sobre as coisas do
mundo incorpóreo, dentro dos limites do que é permitido ao homem
saber. Comunicam-se complacentemente com os que procuram de boa-fé a
verdade e cuja alma já está bastante desprendida das ligações
terrenas para compreendê-la. Afastam-se, porém, daqueles a quem só a
curiosidade impele, ou que, por influência da matéria, fogem à
prática do bem.
Quando, por exceção, encarnam na Terra, é para cumprir missão de
progresso e então nos oferecem o tipo da perfeição a que a
Humanidade pode aspirar neste mundo.
Primeira ordem. - Espíritos puros
112. CARACTERES GERAIS. - Nenhuma influência da matéria.
Superioridade intelectual e moral absoluta, com relação aos
Espíritos das outras ordens.
113. Primeira classe. Classe única. - Os Espíritos que a compõem
percorreram todos os graus da escala e se despojaram de todas as
impurezas da matéria. Tendo alcançado a soma de perfeição de que é
suscetível a criatura, não têm mais que sofrer provas, nem
expiações. Não estando mais sujeitos à reencarnação em corpos
perecíveis, realizam a vida eterna no seio de Deus.
Gozam de inalterável felicidade, porque não se acham submetidos às
necessidades, nem às vicissitudes da vida material. Essa felicidade,
porém, não é a ociosidade monótona, a transcorrer em perpétua
contemplação. Eles são os mensageiros e os ministros de Deus, cujas
ordens executam para manutenção da harmonia universal. Comandam a
todos os Espíritos que lhes são inferiores, auxiliam-nos na obra de
seu aperfeiçoamento e lhes designam as suas missões. Assistir os
homens nas suas aflições, concitá-los ao bem ou à expiação das
faltas que os conservem distanciados da suprema felicidade,
constitui para eles ocupação gratíssima. São designados às vezes
pelos nomes de anjos, arcanjos ou serafins.
Podem os homens pôr-se em comunicação com eles, mas extremamente
presunçoso seria aquele que pretendesse tê-los constantemente às
suas ordens.
::
Progressão dos Espíritos
114. Os Espíritos são bons ou maus por natureza, ou são eles mesmos
que se melhoram?
"São os próprios Espíritos que se melhoram e, melhorando-se, passam
de uma ordem inferior para outra mais elevada."
115. Dos Espíritos, uns terão sido criados bons e outros maus?
"Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem
saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los
e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento
da verdade, para aproximá-los de si. Nesta perfeição é que eles
encontram a pura e eterna felicidade. Passando pelas provas que Deus
lhes impõe é que os Espíritos adquirem aquele conhecimento. Uns
aceitam submissos essas provas e chegam mais depressa à meta que
lhes foi assinada. Outros só a suportam murmurando e, pela falta em
que desse modo incorrem, permanecem afastados da perfeição e da
prometida felicidade."
a)
- Segundo o que acabais de dizer, os Espíritos, em sua origem,
seriam como as crianças, ignorantes e inexperientes, só adquirindo
pouco a pouco os conhecimentos de que carecem com o percorrerem as
diferentes fases da vida?
"Sim, a comparação é boa. A criança rebelde se conserva ignorante e
imperfeita. Seu aproveitamento depende da sua maior ou menor
docilidade. Mas, a vida do homem tem termo, ao passo que a dos
Espíritos se prolonga ao infinito."
116. Haverá Espíritos que se conservem eternamente nas ordens
inferiores?
"Não; todos se tornarão perfeitos. Mudam de ordem, mas
demoradamente, porquanto, como já doutra vez dissemos, um pai justo
e misericordioso não pode banir seus filhos para sempre.
Pretenderias que Deus, tão grande, tão bom, tão justo, fosse pior do
que vós mesmos?"
117. Depende dos Espíritos o progredirem mais ou menos rapidamente
para a perfeição?
"Certamente. Eles a alcançam mais ou menos rápido, conforme o desejo
que têm de alcançá-la e a submissão que testemunham à vontade de
Deus. Uma criança dócil não se instrui mais depressa do que outra
recalcitrante?"
118. Podem os Espíritos degenerar?
"Não; à medida que avançam, compreendem o que os distanciava da
perfeição. Concluindo uma prova, o Espírito fica com a ciência que
daí lhe veio e não a esquece. Pode permanecer estacionário, mas não
retrograda."
119. Não podia Deus isentar os Espíritos das provas que lhes cumpre
sofrer para chegarem à primeira ordem?
"Se
Deus os houvesse criado perfeitos, nenhum mérito teriam para gozar
dos benefícios dessa perfeição. Onde estaria o merecimento sem a
luta? Demais, a desigualdade entre eles existente é necessária às
suas personalidades. Acresce ainda que as missões que desempenham
nos diferentes graus da escala estão nos desígnios da Providência,
para a harmonia do Universo."
Pois que, na vida social, todos os homens podem chegar às mais altas
funções, seria o caso de perguntar-se por que o soberano de um país
não faz de cada um de seus soldados um general; por que todos os
empregados subalternos não são funcionários superiores; por que
todos os colegiais não são mestres. Ora, entre a vida social e a
espiritual há esta diferença: enquanto que a primeira é limitada e
nem sempre permite que o homem suba todos os seus degraus, a segunda
é indefinida e a todos oferece a possibilidade de se elevarem ao
grau supremo.
120. Todos os Espíritos passam pela fieira do mal para chegar ao
bem?
"Pela fieira do mal, não; pela fieira da ignorância. "
121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e
outros o do mal?
"Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não os criou maus; criou-os
simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanta
para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria."
122. Como podem os Espíritos, em sua origem, quando ainda não têm
consciência de si mesmos, gozar da liberdade de escolha entre o bem
e o mal? Há neles algum princípio, qualquer tendência que os
encaminhe para uma senda de preferência a outra?
"O
livre-arbítrio se desenvolve à medida que o Espírito adquire a
consciência de si mesmo. Já não haveria liberdade, desde que a
escolha fosse determinada por uma causa independente da vontade do
Espírito. A causa não está nele, está fora dele, nas influências a
que cede em virtude da sua livre vontade. É o que se contém na
grande figura emblemática da queda do homem e do pecado original:
uns cederam à tentação, outros resistiram."
a)
Donde vêm as influências que sobre ele se exercem?
"Dos Espíritos imperfeitos, que procuram apoderar-se dele,
dominá-lo, e que rejubilam com o fazê-lo sucumbir. Foi isso o que se
intentou simbolizar na figura de Satanás."
b)
Tal influência só se exerce sobre o Espírito em sua origem?
"Acompanha-o na sua vida de Espírito, até que haja conseguido tanto
império sobre si mesmo, que os maus desistem de obsidiá-lo."
123. Por que há Deus permitido que os Espíritos possam tomar o
caminho do mal?
"Como ousais pedir a Deus contas de Seus atos? Supondes poder
penetrar-lhe os desígnios? Podeis, todavia, dizer o seguinte: A
sabedoria de Deus está na liberdade de escolher que Ele deixa a cada
um, porquanto, assim, cada um tem o mérito de suas obras."
124. Pois que há Espíritos que desde o princípio seguem o caminho do
bem absoluto e outros o do mal absoluto, deve haver, sem dúvida,
gradações entre esses dois extremos. Não?
"Sim, certamente, e os que se acham nos graus intermediários
constituem a maioria."
125. Os Espíritos que enveredaram pela senda do mal poderão chegar
ao mesmo grau de superioridade que os outros?
"Sim; mas as eternidades lhes serão mais longas."
Por
estas palavras - as eternidades - se deve entender a idéia que os
Espíritos inferiores fazem da perpetuidade de seus sofrimentos, cujo
termo não lhes é dado ver, idéia que revive todas as vezes que
sucumbem numa prova.
126. Chegados ao grau supremo da perfeição, os Espíritos que andaram
pelo caminho do mal têm, aos olhos de Deus, menos mérito do que os
outros?
"Deus olha de igual maneira para os que se transviaram e para os
outros e a todos ama com o mesmo coração. Aqueles são chamados maus,
porque sucumbiram. Antes, não eram mais que simples Espíritos."
127. Os Espíritos são criados iguais quanto às faculdades
intelectuais?
"São criados iguais, porém, não sabendo donde vêm, preciso é que o
livre-arbítrio siga seu curso. Eles progridem mais ou menos
rapidamente em inteligência como em moralidade."
Os
espíritos que desde o princípio seguem o caminho do bem nem por isso
são Espíritos perfeitos. Não têm, é certo, maus pendores, mas
precisam adquirir a experiência e os conhecimentos indispensáveis
para alcançar a perfeição. Podemos compará-los a crianças que, seja
qual for a bondade de seus instintos naturais, necessitam de se
desenvolver e esclarecer e que não passam, sem transição, da
infância à madureza. Simplesmente, assim como há homens que são bons
e outros que são maus desde a infância, também há Espíritos que são
bons ou maus desde a origem, com a diferença capital de que a
criança tem instintos já inteiramente formados, enquanto que o
Espírito, ao formar-se, não é nem bom, nem mau; tem todas as
tendências e toma uma ou outra direção, por efeito do seu
livre-arbítrio.
::
Anjos e demônios
128. Os seres a que chamamos anjos, arcanjos, serafins, formam uma
categoria especial, de natureza diferente da dos outros Espíritos?
"Não; são Espíritos puros: os que se acham no mais alto grau da
escala e reúnem todas as perfeições."
A
palavra anjo desperta geralmente a idéia de perfeição moral.
Entretanto, ela se aplica muitas vezes à designação de todos os
seres, bons e maus, que estão fora da Humanidade. Diz-se: o anjo bom
e o anjo mau; o anjo de luz e o anjo das trevas. Neste caso, o termo
é sinônimo de Espírito ou de gênio. Tomamo-lo aqui na sua melhor
acepção.
129. Os anjos hão percorridos todos os graus da escala?
"Percorreram todos os graus, mas do modo que havemos dito: uns,
aceitando sem murmurar suas missões, chegaram depressa; outros,
gastaram mais ou menos tempo para chegar à perfeição."
130. Sendo errônea a opinião dos que admitem a existência de seres
criados perfeitos e superiores a todas as outras criatura, como se
explica que essa crença esteja na tradição de quase todos os povos?
"Fica sabendo que o mundo onde te achas não existe de toda a
eternidade e que, muito tempo antes que ele existisse, já havia
Espíritos que tinham atingido o grau supremo. Acreditaram os homens
que eles eram assim desde todos os tempos."
131. Há demônios, no sentido que se dá a esta palavra?
"Se
houvesse demônios, seriam obra de Deus. Mas, porventura, Deus seria
justo e bom se houvera criado seres destinados eternamente ao mal e
a permanecerem eternamente desgraçados? Se há demônios, eles se
encontram no mundo inferior em que habitais e em outros semelhantes.
São esses homens hipócritas que fazem de um Deus justo um Deus mau e
vingativo e que julgam agradá-lo por meio das abominações que
praticam em seu nome."
A
palavra demônio não implica a idéia de Espírito mau, senão na sua
acepção moderna, porquanto o termo grego daïmon, donde ela derivou,
significa gênio, inteligência e se aplica aos seres incorpóreos,
bons ou maus, indistintamente.
Por
demônios, segundo a acepção vulgar da palavra, se entendem seres
essencialmente malfazejos. Como todas as coisas, eles teriam sido
criados por Deus. Ora, Deus, que é soberanamente justo e bom, não
pode ter criado seres prepostos, por sua natureza, ao mal e
condenados por toda a eternidade. Se não fossem obra de Deus,
existiriam, como Ele, desde toda a eternidade, ou então haveria
muitas potências soberanas.
A
primeira condição de toda doutrina é ser lógica. Ora, à dos
demônios, no sentido absoluto, falta esta base essencial. Concebe-se
que povos atrasados, os quais, por desconhecerem os atributos de
Deus, admitem em suas crenças divindades maléficas, também admitam
demônios; mas, é ilógico e contraditório que quem faz da bondade um
dos atributos essenciais de Deus suponha haver Ele criado seres
destinados ao mal e a praticá-lo perpetuamente, porque isso eqüivale
a Lhe negar a bondade. Os partidários dos demônios se apoiam nas
palavras do Cristo. Não seremos nós quem conteste a autoridade de
seus ensinos, que desejáramos ver mais no coração do que na boca dos
homens; porém, estarão aqueles partidários certos do sentido que ele
dava a esse vocábulo? Não é sabido que a forma alegórica constitui
um dos caracteres distintivos da sua linguagem? Dever-se-á tomar ao
pé da letra tudo o que o Evangelho contém? Não precisamos de outra
prova além da que nos fornece esta passagem:
"Logo após esses dias de aflição, o Sol escurecerá e a Lua não mais
dará sua luz, as estrelas cairão do céu e as potências do céu se
abalarão. Em verdade vos digo que esta geração não passará, sem que
todas estas coisas se tenham cumprido."
Não
temos visto a Ciência contraditar a forma do texto bíblico, no
tocante à Criação e ao movimento da Terra? Não se dará o mesmo com
algumas figuras de que se serviu o Cristo, que tinha de falar de
acordo com os tempos e os lugares? Não é possível que ele haja dito
conscientemente uma falsidade. Assim, pois, se nas suas palavras há
coisas que parecem chocar a razão, é que não as compreendemos bem,
ou as interpretamos mal.
Os
homens fizeram com os demônios o que fizeram com os anjos. Como
acreditaram na existência de seres perfeitos desde toda a
eternidade, tomaram os Espíritos inferiores por seres perpetuamente
maus. Por demônios se devem entender os Espíritos impuros, que
muitas vezes não valem mais do que as entidades designadas por esse
nome, mas com a diferença de ser transitório o estado deles. São
Espíritos imperfeitos, que se rebelam contra as provas que lhes
tocam e que, por isso, as sofrem mais longamente, porém que, a seu
turno, chegarão a sair daquele estado, quando o quiserem.
Poder-se-ia, pois, aceitar o termo demônio com esta restrição. Como
o entendem atualmente, dando-se-lhe um sentido exclusivo, ele
induziria em erro, com o fazer crer na existência de seres especiais
criados para o mal.
Satanás é evidentemente a personificação do mal sob forma alegórica,
visto não se poder admitir que exista um ser mau a lutar, como de
potência a potência, com a Divindade e cuja única preocupação
consistisse em lhe contrariar os desígnios. Como precisa de figuras
e imagens que lhe impressionem a imaginação, o homem pintou os seres
incorpóreos sob uma forma material, com atributos que lembram as
qualidades ou os defeitos humanos. É assim que os antigos, querendo
personificar o Tempo, o pintaram com a figura de um velho munido de
uma foice e uma ampulheta. Representá-lo pela figura de um mancebo
fora contra-senso. O mesmo se verifica com as alegorias da fortuna,
da verdade, etc. Os modernos representaram os anjos, os puros
Espíritos, por uma figura radiosa, de asas brancas, emblema da
pureza; e Satanás com chifres, garras e os atributos da animalidade,
emblema das paixões vis. O vulgo, que toma as coisas ao pé da letra,
viu nesses emblemas individualidades reais, como vira outrora
Saturno na alegoria do Tempo.
1.3
- A FASE ANGÉLICA
Os
espíritos que já alcançaram esse nível evolutivo são aqueles cujo
coração tem capacidade para albergar (como se fossem nossos pais ou
mães) toda a humanidade.
Citamos como exemplos, Maria de Nazaré (que Divaldo Franco cognomina
de Mãe da humanidade), Mohandas Gandhi, Francisco Cândido Xavier,
Francisco de Assis, Sócrates...
Para eles, não há motivo para desprezar ou odiar qualquer pessoa ou
ser, considerando a todos como seus filhos queridos.
Esses homens e mulheres por onde passam deixam marcas profundas e
imorredouras gravadas no íntimo de cada um que com eles teve o
privilégio de conviver.
2 -
O AMOR AOS INIMIGOS NO EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
O
Evangelho segundo o Espiritismo, no seu Capítulo XII, aborda o tema
AMAI OS VOSSOS INIMIGOS:
::
Retribuir o mal com o bem
1.
Aprendestes que foi dito: "Amareis o vosso próximo e odiareis os
vossos inimigos." Eu, porém, vos digo: "Amai os vossos inimigos;
fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e
caluniam, a fim de serdes filhos do vosso Pai que está nos céus e
que faz se levante o Sol para os bons e para os maus e que chova
sobre os justos e os injustos. - Porque, se só amardes os que vos
amam, qual será a vossa recompensa? Não procedem assim também os
publicanos? Se apenas os vossos irmãos saudardes, que é o que com
isso fazeis mais do que os outros? Não fazem outro tanto os pagãos?"
(S. MATEUS, cap. V, vv. 43 a 47.)
-
"Digo-vos que, se a vossa justiça não for mais abundante que a dos
escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus."(S.
MATEUS, cap. V, v. 20.)
2.
"Se somente amardes os que vos amam, que mérito se vos reconhecerá,
uma vez que as pessoas de má vida também amam os que as amam? - Se o
bem somente o fizerdes aos que vo-lo fazem, que mérito se vos
reconhecerá, dado que o mesmo faz a gente de má vida? - Se só
emprestardes àqueles de quem possais esperar o mesmo favor, que
mérito se vos reconhecerá, quando as pessoas de má vida se
entreajudam dessa maneira, para auferir a mesma vantagem? Pelo que
vos toca, amai os vossos inimigos, fazei bem a todos e auxiliai sem
esperar coisa alguma. Então, muito grande será a vossa recompensa e
sereis filhos do Altíssimo, que é bom para os ingratos e até para os
maus. - Sede, pois, cheios de misericórdia, como cheio de
misericórdia é o vosso Deus." (S. LUCAS, cap. VI, vv. 32 a 36.)
3.
Se o amor ao próximo constitui o princípio da caridade, amar os
inimigos é a mais sublime aplicação desse princípio, porquanto a
posse de tal virtude representa uma das maiores vitórias alcançadas
contra o egoísmo e o orgulho.
Entretanto, há geralmente equívoco no tocante ao sentido da palavra
amar, neste passo. Não pretendeu Jesus, assim falando, que cada um
de nós tenha para com o seu inimigo a ternura que dispensa a um
irmão ou amigo. A ternura pressupõe confiança; ora, ninguém pode
depositar confiança numa pessoa, sabendo que esta lhe quer mal;
ninguém pode ter para com ela expansões de amizade, sabendo-a capaz
de abusar dessa atitude. Entre pessoas que desconfiam umas das
outras, não pode haver essas manifestações de simpatia que existem
entre as que comungam nas mesmas idéias. Enfim, ninguém pode sentir,
ao estar com um inimigo, prazer igual ao que sente na companhia de
um amigo.
A
diversidade na maneira de sentir, nessas duas circunstâncias
diferentes, resulta mesmo de uma lei física: a da assimilação e da
repulsão dos fluidos. O pensamento malévolo determina uma corrente
fluídica que impressiona penosamente. O pensamento benévolo nos
envolve num agradável eflúvio. Daí a diferença das sensações que se
experimenta à aproximação de um amigo ou de um inimigo. Amar os
inimigos não pode, pois, significar que não se deva estabelecer
diferença alguma entre eles e os amigos. Se este preceito parece de
difícil prática, impossível mesmo, é apenas por entender-se
falsamente que ele manda se dê no coração, assim ao amigo, como ao
inimigo, o mesmo lugar. Uma vez que a pobreza da linguagem humana
obriga a que nos sirvamos do mesmo termo para exprimir matizes
diversos de um sentimento, à razão cabe estabelecer as diferenças,
conforme os casos.
Amar os inimigos não é, portanto, ter-lhes uma afeição que não está
na natureza, visto que o contato de um inimigo nos faz bater o
coração de modo muito diverso do seu bater, ao contato de um amigo.
Amar os inimigos é não lhes guardar ódio, nem rancor, nem desejos de
vingança; é perdoar-lhes, sem pensamento oculto e sem condições, o
mal que nos causem; é não opor nenhum obstáculo a reconciliação com
eles; é desejar-lhes o bem e não o mal; é experimentar júbilo, em
vez de pesar, com o bem que lhes advenha; é socorrê-los, em se
apresentando ocasião; é abster-se, quer por palavras, quer por atos,
de tudo o que os possa prejudicar; é, finalmente, retribuir-lhes
sempre o mal com o bem, sem a intenção de os humilhar. Quem assim
procede preenche as condições do mandamento: Amai os vossos
inimigos.
4.
Amar os inimigos é, para o incrédulo, um contra-senso. Aquele para
quem a vida presente é tudo, vê no seu inimigo um ser nocivo, que
lhe perturba o repouso e do qual unicamente a morte, pensa ele, o
pode livrar. Daí, o desejo de vingar-se. Nenhum interesse tem em
perdoar, senão para satisfazer o seu orgulho perante o mundo. Em
certos casos, perdoar-lhe parece mesmo uma fraqueza indigna de si.
Se não se vingar, nem por isso deixará de conservar rancor e secreto
desejo de mal para o outro.
Para o crente e, sobretudo, para o espírita, muito diversa é a
maneira de ver, porque suas vistas se lançam sobre o passado e sobre
o futuro, entre os quais a vida atual não passa de um simples ponto.
Sabe ele que, pela mesma destinação da Terra, deve esperar topar aí
com homens maus e perversos; que as maldades com que se defronta
fazem parte das provas que lhe cumpre suportar e o elevado ponto de
vista em que se coloca lhe torna menos amargas as vicissitudes, quer
advenham dos homens, quer das coisas. Se não se queixa das provas,
tampouco deve queixar-se dos que lhe servem de instrumento. Se, em
vez de se queixar, agradece a Deus o experimentá-lo, deve também
agradecer a mão que lhe dá ensejo de demonstrar a sua paciência e a
sua resignação. Esta idéia o dispõe naturalmente ao perdão. Sente,
além disso, que quanto mais generoso for, tanto mais se engrandece
aos seus próprios olhos e se põe fora do alcance dos dardos do seu
inimigo.
O
homem que no mundo ocupa elevada posição não se julga ofendido com
os insultos daquele a quem considera seu inferior. O mesmo se dá com
o que, em termos de moralidade, se eleva acima da humanidade
material. Este compreende que o ódio e o rancor o aviltariam e
rebaixariam. Ora, para ser superior ao seu adversário, preciso é que
tenha a alma maior, mais nobre, mais generosa do que a desse último.
::
Os inimigos desencarnados
5.
Ainda outros motivos tem o espírita para ser indulgente com os seus
inimigos. Sabe ele, primeiramente, que a maldade não é um estado
permanente dos homens; que ela decorre de uma imperfeição temporária
e que, assim como a criança se corrige dos seus defeitos, o homem
mau reconhecerá um dia os seus erros e se tornará bom,
Sabe também que a morte apenas o livra da presença material do seu
inimigo, pois que este o pode perseguir com o seu ódio, mesmo depois
de haver deixado a Terra; que, assim, a vingança, que tome, falha ao
seu objetivo, visto que, ao contrário, tem por efeito produzir maior
irritação, capaz de passar de uma existência a outra. Cabia ao
Espiritismo demonstrar, por meio da experiência e da lei que rege as
relações entre o mundo visível e o mundo invisível, que a expressão:
extinguir o ódio com o sangue é radicalmente falsa, que a verdade é
que o sangue alimenta o ódio, mesmo no além-túmulo. Cabia-lhe,
portanto, apresentar uma razão de ser positiva e uma utilidade
prática ao perdão e ao preceito do Cristo: Amai os vossos inimigos.
Não há coração tão perverso que, mesmo a seu mau grado, não se
mostre sensível ao bom proceder. Mediante o bom procedimento,
tira-se, pelo menos, todo pretexto às represálias, podendo-se até
fazer de um inimigo um amigo, antes e depois de sua morte. Com um
mau proceder, o homem irrita o seu inimigo, que então se constitui
instrumento de que a justiça de Deus se serve para punir aquele que
não perdoou.
6.
Pode-se, portanto, contar inimigos assim entre os encarnados, como
entre os desencarnados. Os inimigos do mundo invisível manifestam
sua malevolência pelas obsessões e subjugações com que tanta gente
se vê a braços e que representam um gênero de provações, as quais,
como as outras, concorrem para o adiantamento do ser, que, por isso;
as deve receber com resignação e como conseqüência da natureza
inferior do globo terrestre. Se não houvesse homens maus na Terra,
não haveria Espíritos maus ao seu derredor. Se, conseguintemente, se
deve usar de benevolência com os inimigos encarnados, do mesmo modo
se deve proceder com relação aos que se acham desencarnados.
Outrora, sacrificavam-se vítimas sangrentas para aplacar os deuses
infernais, que não eram senão os maus Espíritos. Aos deuses
infernais sucederam os demônios, que são a mesma coisa. O
Espiritismo demonstra que esses demônios mais não são do que as
almas dos homens perversos, que ainda se não despojaram dos
instintos materiais; que ninguém logra aplacá-los, senão mediante o
sacrifício do ódio existente, isto é, pela caridade; que esta não
tem por efeito, unicamente, impedi-los de praticar o mal e, sim,
também o de os reconduzir ao caminho do bem e de contribuir para a
salvação deles. E assim que o mandamento: Amai os vossos inimigos
não se circunscreve ao âmbito acanhado da Terra e da vida presente;
antes, faz parte da grande lei da solidariedade e da fraternidade
universais.
::
Se alguém vos bater na face direita, apresentai-lhe também a outra
7.
Aprendestes que foi dito: olho por olho e dente por dente. - Eu,
porém, vos digo que não resistais ao mal que vos queiram fazer; que
se alguém vos bater na face direita, lhe apresenteis também a outra;
- e que se alguém quiser pleitear contra vós, para vos tomar a
túnica, também lhes entregueis o manto; - e que se alguém vos
obrigar a caminhar mil passos com ele, caminheis mais dois mil. -
Dai àquele que vos pedir e não repilais aquele que vos queira tomar
emprestado. (S. MATEUS, cap. V, vv. 38 a 42.)
8.
Os preconceitos do mundo sobre o que se convencionou chamar "ponto
de honra" produzem essa suscetibilidade sombria, nascida do orgulho
e da exaltação da personalidade, que leva o homem a retribuir uma
injúria com outra injúria, uma ofensa com outra, o que é tido como
justiça por aquele cujo senso moral não se acha acima do nível das
paixões terrenas. Por isso é que a lei moisaica prescrevia: olho por
olho, dente por dente, de harmonia com a época em que Moisés vivia.
Veio o Cristo e disse: Retribui o mal com o bem. E disse ainda: "Não
resistais ao mal que vos queiram fazer; se alguém vos bater numa
face, apresentai-lhe a outra." Ao orgulhoso este ensino parecerá uma
covardia, porquanto ele não compreende que haja mais coragem em
suportar um insulto do que em tomar uma vingança, e não compreende,
porque sua visão não pode ultrapassar o presente.
Dever-se-á, entretanto, tomar ao pé da letra aquele preceito?
Tampouco quanto o outro que manda se arranque o olho, quando for
causa de escândalo. Levado o ensino às suas últimas conseqüências,
importaria ele em condenar toda repressão, mesmo legal, e deixar
livre o campo aos maus, isentando-os de todo e qualquer motivo de
temor. Se se lhes não pusesse um freio as agressões, bem depressa
todos os bons seriam suas vítimas. O próprio instinto de
conservação, que é uma lei da Natureza, obsta a que alguém estenda o
pescoço ao assassino. Enunciando, pois, aquela máxima, não pretendeu
Jesus interdizer toda defesa, mas condenar a vingança. Dizendo que
apresentemos a outra face àquele que nos haja batido numa, disse,
sob outra forma, que não se deve pagar o mal com o mal; que o homem
deve aceitar com humildade tudo o que seja de molde a lhe abater o
orgulho; que maior glória lhe advém de ser ofendido do que de
ofender, de suportar pacientemente uma injustiça do que de praticar
alguma; que mais vale ser enganado do que enganador, arruinado do
que arruinar os outros. E, ao mesmo tempo, a condenação do duelo,
que não passa de uma manifestação de orgulho. Somente a fé na vida
futura e na justiça de Deus, que jamais deixa impune o mal, pode dar
ao homem forças para suportar com paciência os golpes que lhe sejam
desferidos nos interesses e no amor-próprio. Daí vem o repetirmos
incessantemente: Lançai para diante o olhar; quanto mais vos
elevardes pelo pensamento, acima da vida material, tanto menos vos
magoarão as coisas da Terra.
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS :: A vingança
9.
A vingança é um dos últimos remanescentes dos costumes bárbaros que
tendem a desaparecer dentre os homens. E, como o duelo, um dos
derradeiros vestígios dos hábitos selvagens sob cujos guantes se
debatia a Humanidade, no começo da era cristã, razão por que a
vingança constitui indício certo do estado de atraso dos homens que
a ela se dão e dos Espíritos que ainda as inspirem. Portanto, meus
amigos, nunca esse sentimento deve fazer vibrar o coração de quem
quer que se diga e proclame espírita. Vingar-se é, bem o sabeis, tão
contrário àquela prescrição do Cristo: "Perdoai aos vossos
inimigos", que aquele que se nega a perdoar não somente não é
espírita como também não é cristão. A vingança é uma inspiração
tanto mais funesta, quanto tem por companheiras assíduas a falsidade
e a baixeza. Com efeito, aquele que se entrega a essa fatal e cega
paixão quase nunca se vinga a céu aberto. Quando é ele o mais forte,
cai qual fera sobre o outro a quem chama seu inimigo, desde que a
presença deste último lhe inflame a paixão, a cólera, o ódio. Porém,
as mais das vezes assume aparências hipócritas, ocultando nas
profundezas do coração os maus sentimentos que o animam. Toma
caminhos escusos, segue na sombra o inimigo, que de nada desconfia,
e espera o momento azado para sem perigo feri-lo. Esconde-se do
outro, espreitando-o de contínuo, prepara-lhe odiosas armadilhas e,
em sendo propícia a ocasião, derrama-lhe no copo o veneno, Quando
seu ódio não chega a tais extremos, ataca-o então na honra e nas
afeições; não recua diante da calúnia, e suas pérfidas insinuações,
habilmente espalhadas a todos os ventos, se vão avolumando pelo
caminho. Em conseqüência, quando o perseguido se apresenta nos
lugares por onde passou o sopro do perseguidor, espanta-se de dar
com semblantes frios, em vez de fisionomias amigas e benevolentes
que outrora o acolhiam. Fica estupefato quando mãos que se lhe
estendiam, agora se recusam a apertar as suas. Enfim, sente-se
aniquilado, ao verificar que os seus mais caros amigos e parentes se
afastam e o evitam, Ah! o covarde que se vinga assim é cem vezes
mais culpado do que o que enfrenta o seu inimigo e o insulta em
plena face.
Fora, pois, com esses costumes selvagens! Fora com esses processos
de outros tempos! Todo espírita que ainda hoje pretendesse ter o
direito de vingar-se seria indigno de figurar por mais tempo na
falange que tem como divisa: Sem caridade não há salvação! Mas, não,
não posso deter-me a pensar que um membro da grande família espírita
ouse jamais, de futuro, ceder ao impulso da vingança, senão para
perdoar. - Júlio Olivier. (Paris, 1862.)
::
O ódio
10.
Amai-vos uns aos outros e sereis felizes. Tomai sobretudo a peito
amar os que vos inspiram indiferença, ódio, ou desprezo. O Cristo,
que deveis considerar modelo, deu-vos o exemplo desse devotamento,
Missionário do amor, ele amou até dar o sangue e a vida por amor,
Penoso vos é o sacrifício de amardes os que vos ultrajam e
perseguem; mas, precisamente, esse sacrifício é que vos torna
superiores a eles. Se os odiásseis, como vos odeiam, não valeríeis
mais do que eles. Amá-los é a hóstia imácula que ofereceis a Deus na
ara dos vossos corações, hóstia de agradável aroma e cujo perfume
lhe sobe até o seio. Se bem a lei de amor mande que cada um ame
indistintamente a todos os seus irmãos, ela não couraça o coração
contra os maus procederes; esta é, ao contrário, a prova mais
angustiosa, e eu o sei bem, porquanto, durante a minha última
existência terrena, experimentei essa tortura. Mas Deus lá está e
pune nesta vida e na outra os que violam a lei de amor. Não
esqueçais, meus queridos filhos, que o amor aproxima de Deus a
criatura e o ódio a distancia dele. - Fénelon, (Bordéus, 1861.)
::
O duelo
11.
Só é verdadeiramente grande aquele que, considerando a vida uma
viagem que o há de conduzir a determinado ponto, pouco caso faz das
asperezas da jornada e não deixa que seus passos se desviem do
caminho reto. Com o olhar constantemente dirigido para o termo a
alcançar, nada lhe importa que as urzes e os espinhos ameacem
produzir-lhe arranhaduras; umas e outros lhe roçam a epiderme, sem o
ferirem, nem impedirem de prosseguir na caminhada. Expor seus dias
para se vingar de uma injúria é recuar diante das provações da vida,
é sempre um crime aos olhos de Deus; e, se não fôsseis, como sois,
iludidos pelos vossos prejuízos, tal coisa seria ridícula e uma
suprema loucura aos olhos dos homens.
Há
crime no homicídio em duelo; a vossa própria legislação o reconhece.
Ninguém tem o direito, em caso algum, de atentar contra a vida de
seu semelhante: é um crime aos olhos de Deus, que vos traçou a linha
de conduta que tendes de seguir. Nisso, mais do que em qualquer
outra circunstância, sois juizes em causa própria. Lembrai-vos de
que somente vos será perdoado, conforme perdoardes; pelo perdão vos
acercais da Divindade, pois a clemência e irmã do poder. Enquanto na
Terra correr uma gota de sangue humano, vertida pela mão dos homens,
o verdadeiro reino de Deus ainda se não terá implantado aí, reino de
paz e de amor, que há de banir para sempre do vosso planeta a
animosidade, a discórdia, a guerra. Então, a palavra duelo somente
existirá na vossa linguagem como longínqua e vaga recordação de um
passado que se foi. Nenhum outro antagonismo existirá entre os
homens, afora a nobre rivalidade do bem. - Adolfo, bispo de Argel. (Marmande,
1861.)
12.
Em certos casos, sem dúvida, pode o duelo constituir uma prova de
coragem física, de desprezo pela vida, mas também é,
incontestavelmente, uma prova de covardia moral, como o suicídio. O
suicida não tem coragem de enfrentar as vicissitudes da vida; o
duelista não tem a de suportar as ofensas, Não vos disse o Cristo
que há mais honra e valor em apresentar a face esquerda aquele que
bateu na direita, do que em vingar uma injúria? Não disse ele a
Pedro, no jardim das Oliveiras: "Mete a tua espada na bainha,
porquanto aquele que matar com a espada perecerá pela espada?" Assim
falando, não condenou, para sempre, o duelo? Efetivamente, meus
filhos, que é essa coragem oriunda de um gênio violento, de um
temperamento sangüíneo e colérico, que ruge à primeira ofensa? Onde
a grandeza dalma daquele que, à menor injúria, entende que só com
sangue a poderá lavar? Ah! que ele trema! No fundo da sua
consciência, uma voz lhe bradará sempre: Caim! Caim! que fizeste de
teu irmão? Foi-me necessário derramar sangue para salvar a minha
honra, responderá ele a essa voz, Ela, porem, retrucará: Procuraste
salvá-la perante os homens, por alguns instantes que te restavam de
vida na Terra, e não pensaste em salvá-la perante Deus! Pobre louco!
Quanto sangue exigiria de vós o Cristo, por todos os ultrajes que
recebeu! Não só o feristes com os espinhos e a lança, não só o
pregastes num madeiro infamante, como também o fizestes ouvir, em
meio de sua agonia atroz, as zombarias que lhe prodigalizastes, Que
reparação a tantos insultos vos pediu ele? O último brado do
cordeiro foi unia súplica em favor dos seus algozes! Oh! como ele,
perdoai e oral pelos que vos ofendem.
Amigos, lembrai-vos deste preceito: "Amai-vos uns aos outros" e,
então, a um golpe desferido pelo ódio respondereis com um Sorriso, e
ao ultraje com o perdão. O mundo, sem dúvida, se levantará furioso e
vos tratará de covardes; erguei bem alto a fronte e mostrai que
também ela se não temeria de cingir-se de espinhos, a exemplo do
Cristo, mas, que a vossa mão não quer ser cúmplice de um assassínio
autorizado por falsos ares de honra, que, entretanto, não passa de
orgulho e amor-próprio. Dar-se-á que, ao criar-vos, Deus vos
outorgou o direito de vida e de morte, uns sobre os outros? Não, só
à Natureza conferiu ele esse direito, para se reformar e
reconstruir; quanto a vós, não permite, sequer, que disponhais de
vós mesmos. Como o suicida, o duelista se achará marcado com sangue,
quando comparecer perante Deus, e a um e outro o Soberano Juiz
reserva rudes e longos castigos. Se ele ameaçou com a sua justiça
aquele que disser raca a seu irmão, quão mais severa não será a pena
que comine ao que chegar à sua presença com as mãos tintas do sangue
de seu irmão! -Santo Agostinho. (Paris, 1862.)
13.
O duelo, como o que outrora se denominava o juízo de Deus, é uma das
instituições bárbaras que ainda regem a sociedade. Que diríeis, no
entanto, se vísseis dois adversários mergulhados em água fervente ou
submetidos ao contacto de um ferro em brasa, para ser dirimida a
contenda entre eles, reconhecendo-se estar a razão com aquele que
melhor sofresse a prova? Qualificaríeis de insensatos esses
costumes, não é exato? Pois o duelo é coisa pior do que tudo isso.
Para o duelista destro, é um assassínio praticado a sangue frio, com
toda a premeditação que possa haver, uma vez que ele está certo da
eficácia do golpe que desfechará. Para o adversário, quase certo de
sucumbir em virtude de sua fraqueza e inabilidade, é um suicídio
cometido com a mais fria reflexão, Sei que muitas vezes se procura
evitar essa alternativa igualmente criminosa, confiando ao acaso a
questão: - mas, não é isso voltar, sob outra forma, ao juízo de
Deus, da Idade Média? E nessa época infinitamente menor era a culpa.
A própria denominação de juízo de Deus indica a fé, ingênua, é
verdade, porém, afinal, fé na justiça de Deus, que não podia
consentir sucumbisse um inocente, ao passo que, no duelo, tudo se
confia à força bruta, de tal sorte que não raro é o ofendido que
sucumbe.
Ó
estúpido amor-próprio, tola vaidade e louco orgulho, quando sereis
substituídos pela caridade cristã, pelo amor do próximo e pela
humildade que o Cristo exemplificou e preceituou? Só quando isso se
der desaparecerão esses preceitos monstruosos que ainda governam os
homens, e que as leis são impotentes para reprimir, porque não basta
interditar o mal e prescrever o bem; é preciso que o princípio do
bem e o horror ao mal morem no coração do homem. - Um Espírito
protetor. (Bordéus, 1861.)
14.
Que juízo farão de mim, costumais dizer, se eu recusar a reparação
que se me exige, ou se não a reclamar de quem me ofendeu? Os loucos,
como vós, os homens atrasados vos censurarão; mas, os que se acham
esclarecidos pelo facho do progresso intelectual e moral dirão que
procedeis de acordo com a verdadeira sabedoria. Refleti um pouco.
Por motivo de uma palavra dita às vezes impensadamente, ou
inofensiva, vinda de um dos vossos irmãos, o vosso orgulho se sente
ferido, respondeis de modo acre e daí uma provocação. Antes que
chegue o momento decisivo, inquiris de vós mesmos se procedeis como
cristãos? Que contas ficareis devendo à sociedade, por a privardes
de um de seus membros? Pensastes no remorso que vos assaltará, por
haverdes roubado a uma mulher o marido, a uma mãe o filho, ao filho
o pai que lhes servia de amparo? Certamente, o autor da ofensa deve
uma reparação; porém, não lhe será mais honroso dá-la
espontaneamente, reconhecendo suas faltas, do que expor a vida
daquele que tem o direito de se queixar? Quanto ao ofendido,
convenho em que, algumas vezes, por ele achar-se gravemente ferido,
ou em sua' pessoa, ou nas dos que lhe são mais caros, não está em
jogo somente o amor-próprio: o coração se acha magoado, sofre. Mas,
além de ser estúpido arriscar a vida, lançando-se contra um
miserável capaz de praticar infâmias, dar-se-á que, morto este, a
afronta, qualquer que seja, deixa de existir? Não é exato que o
sangue derramado imprime retumbância maior a um fato que, se falso,
cairia por si mesmo, e que, se verdadeiro, deve ficar sepultado no
silêncio? Nada mais restará, pois, senão a satisfação da sede de
vingança. Ah! triste satisfação que quase sempre dá lugar, já nesta
vida, a causticantes remorsos. Se é o ofendido que sucumbe, onde a
reparação?
Quando a caridade regular a conduta dos homens, eles conformarão
seus atos e palavras a esta máxima: "Não façais aos outros o que não
quiserdes que vos façam." Em se verificando isso, desaparecerão
todas as causas de dissensões e, com elas, as dos duelos e das
guerras, que são os duelos de povo a povo. - Francisco Xavier,
(Bordéus, 1861.)
15.
O homem do mundo, o homem venturoso, que por uma palavra chocante,
uma coisa ligeira, joga a vida que lhe veio de Deus, joga a vida do
seu semelhante, que só a Deus pertence, esse é cem vezes mais
culpado do que o miserável que, impelido pela cupidez, algumas vezes
pela necessidade, se introduz numa habitação para roubar e matar os
que se lhe opõem aos desígnios. Trata-se quase sempre de uma
criatura sem educação, com imperfeitas noções do bem e do mal, ao
passo que o duelista pertence, em regra, à classe mais culta. Um
mata brutalmente, enquanto que o outro o faz com método e polidez,
pelo que a sociedade o desculpa. Acrescentarei mesmo que o duelista
é infinitamente mais culpado do que o desgraçado que, cedendo a um
sentimento de vingança, mata num momento de exasperação. O duelista
não tem por escusa o arrebatamento da paixão, pois que, entre o
insulto e a reparação, dispõe ele sempre de tempo para refletir.
Age, portanto, friamente e com premeditado desígnio; estuda e
calcula tu do, para com mais segurança matar o seu adversário. E
certo que também expõe a vida e é isso o que reabilita o duelo aos
olhos do mundo, que nele então só vê um ato de coragem e pouco caso
da vida. Mas, haverá coragem da parte daquele que está seguro de si?
O duelo, remanescente dos tempos de barbárie, em os quais o direito
do mais forte constituía a lei, desaparecerá por efeito de uma
melhor apreciação do verdadeiro ponto de honra e à medida que o
homem for depositando fé mais viva na vida futura. -Agostinho.
(Bordéus, 1861.)
16.
NOTA. Os duelos se vão tornando cada vez mais raros e, se de tempos
a tempos alguns de tão dolorosos exemplos se dão, o número deles não
se pode comparar com o dos que ocorriam outrora. Antigamente, um
homem não saía de casa sem prever um encontro, pelo que tomava
sempre as necessárias precauções. Um sinal característico dos
costumes do tempo e dos povos se nos depara no porte habitual,
ostensivo ou oculto, de armas ofensivas ou defensivas. A abolição de
semelhante uso demonstra o abrandamento dos costumes e é curioso
acompanhar-lhes a gradação, desde a época em que os cavaleiros só
cavalgavam bardados de ferro e armados de lança, até a em que uma
simples espada à cinta constituía mais um adorno e um acessório do
brasão, do que uma arma de agressão. Outro indício da modificação
dos costumes está em que, outrora, os combates singulares se
empenhavam em plena rua, diante da turba, que se afastava para
deixar livre o campo aos combatentes, ao passo que estes hoje se
ocultam. Presentemente, a morte de um homem é acontecimento que
causa emoção, enquanto que, noutros tempos, ninguém dava atenção a
isso.
O
Espiritismo apagará esses últimos vestígios da barbárie, incutindo
nos homens o espírito de caridade e de fraternidade.
3 -
PESSOAS QUE VIVENCIARAM O AMOR AOS INIMIGOS
3.1 - SÓCRATES
Em
www.10emtudo.com.br/artigos_1.asp?CodigoArtigo=44 vêem-se dados
biográficos de Sócrates:
Sócrates foi um filosofo grego cujos ensinamentos formaram a base da
filosofia ocidental. Considerado um dos maiores gênios de todos os
tempos, se tornou famoso por ver a filosofia como sendo necessária
para todas as pessoas inteligentes. Sócrates permaneceu na historia
como um exemplo de um homem que viveu de acordo com seus princípios,
mesmo que esses o custassem a sua vida.
SUA
VIDA
Sócrates nasceu em Atenas em 470 a.C. Seu pai, Sofroniscus, era
escultor. De jovem, Sócrates tentou seguir o mesmo caminho.
Sócrates recebeu uma educação elementar em literatura e música. Não
se sabe ao certo quem foram seus professores de filosofia. O que se
sabe é que Sócrates conhecia as doutrinas de Parmenides, Heraclitus,
Anaxagoras e dos Sofistas.
Sócrates serviu no exercito e lutou bravamente na Guerra da
Peloponeso e em várias outras batalhas. Desde jovem Sócrates ficou
conhecido pela sua coragem e também pelo seu intelecto.
Sócrates viveu durante os anos dourados de Atenas. Ele era casado
com Xanthippe e teve três filhos.
Sócrates ensinava filosofia voluntariamente e passava horas
discutindo com os cidadãos de Atenas. Ele nunca cobrou por aulas.
Ensinava em lugares públicos e argumentava com qualquer pessoa que o
escutasse ou que se submetesse a suas perguntas. Sócrates acreditava
que sua missão era procurar o conhecimento sobre a conduta correta,
pela qual ele poderia guiar uma melhora intelectual e moral dos
cidadãos de Atenas.
Sócrates pautava sua vida no conhecimento e procurava poetas,
políticos, artistas, entre outros. Ele falava com as pessoas e
chegou à conclusão que nenhuma delas era sábia. Em um dos seus
discursos mais conhecidos, Sócrates se manifesta abismado e diz que
muitos clamam que sabem a verdade sem estarem cientes de sua
ignorância. Por outro lado, Sócrates sabia que nada sabia.
Sócrates acreditava na superioridade da fala sobre as palavras
escritas. Desta feita, nunca escreveu seus ensinamentos. Ele
criticava a palavra escrita chamando-a de artificial, em vez de
viva, dizendo que não se pode fazer perguntas a uma palavra escrita.
Os ensinamentos de Sócrates que encontramos atualmente foram
escritos por seus discípulos. De seus discípulos lemos mais os
diálogos escritos por Platão ou por Xenophon. Porém, nos diálogos,
Platão faz do personagem Sócrates porta-voz de seus próprios
pensamentos, de modo que é difícil estabelecer quais as idéias são
de Platão e quais são de Sócrates. Platão também era 45 anos mais
jovem do que Sócrates. Portanto, só tinha conhecimento dos últimos
12 anos de sua vida.
Para ensinar, Sócrates usava o método conhecido atualmente como o
dialogo Socrático, onde ele trazia conhecimento aos seus alunos
através de uma série de perguntas, analisando as respostas e fazendo
mais perguntas. Com isso, ele guiava o aluno ao descobrimento do
conhecimento. Sócrates passava horas discutindo virtude e justiça,
entre outros tópicos, em praça pública.
Sócrates passou quase toda sua vida em Atenas. Ele dizia que amava
aprender das pessoas e que era mais fácil achar pessoas na cidade do
que no campo.
Sócrates nunca ocupou nenhum cargo público, acreditando que estaria
comprometendo seus princípios. Também dizia que a melhor forma de
servir a seu país era se dedicando a ensinar e a persuadir os
cidadãos de Atenas a examinarem suas almas e acharem o conhecimento,
em vez de entrarem para a política.
Em
399 a.C. Sócrates, com 70 anos, foi julgado e condenado por
corromper jovens e por não acreditar nos deuses da cidade. Atrás de
sua condenação existiam outros motivos; em sua peregrinação atrás de
espalhar o conhecimento, Sócrates desmascarou e humilhou homens
importantes na cidade. Os que o condenaram, acusaram Sócrates de ser
uma pessoa curiosa a procura de coisas embaixo da terra e além dos
céus, fazendo o pior aparentar o melhor e ensinado tudo isso a
outras pessoas.
Enquanto Sócrates estava na cadeia, seus amigos planejaram sua fuga.
Porem Sócrates se recusou a ouvi-los, dizendo que havia sido
condenado por uma corte legitima, então tinha a obrigação de
obedecer. Sendo assim, Sócrates aceitou sua sentença e permaneceu na
cadeia. Sócrates passou seu último dia de vida com amigos e
admiradores. À noite, conforme mandava a lei, ele tomou veneno,
cumprindo asssim sua pena. Sua execução foi no ano 399 a .C.
SUA
OBRA
Sócrates foi inovador no método e nos tópicos em que ele abordou.
Sua contribuição à filosofia ocidental foi essencialmente de caráter
ético. Seus ensinamentos visavam chegar ao entendimento de conceitos
com justiça, amor e virtude, procurando definições gerais para tais
idéias. Ele acreditava que o vício era o resultado da ignorância e
que as pessoas não são más por escolha. A virtude vem do
conhecimento; aqueles que tem conhecimento têm virtude e, portanto,
agem corretamente e as pessoas que não agem eticamente, o fazem por
falta de conhecimento. De acordo com sua teoria, uma pessoa que sabe
que algo está errado, não agiria apesar de saber que sua ação não
seria correta. Sócrates acreditava que virtude é igual a
conhecimento, então virtude pode ser ensinada.
Sócrates se concentrou no problema do homem, buscando respostas para
origem da essência humana. Sócrates chegou à conclusão que o homem é
a sua alma, ou seja, o seu consciente; o que o distingue como homem.
O homem é a sua razão, seu intelecto, seus conceitos éticos, sua
personalidade intelectual e moral e sua consciência.
|