O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
O Diabo na Berlinda

Autor:
Aureliano Alves Netto

Fonte:
Livro: Luz na Penumbra

ARTIGOS

     

Empreguemos apenas a razão para combater opiniões, pois ninguém mata idéias a tiro.
A. Rivarol

 

Procurando contestar nossas crônicas publicadas no “Jornal Espírita”, nas quais nos pronunciamos pela inexistência do Diabo, escreve-nos o Sr. Antônio Menezes, do Rio de Janeiro, uma longa carta de dez laudas, reveladora de sua convicção demonista e de sua alergia ao Espiritismo.

Na verdade, o ilustre contraditor desviou-se do assunto e do que menos falou foi do “Príncipe das Trevas”, limitando-se a asseverar que ele existe realmente, com apoio num relato bíblico (Jó, 1:6-12, 2:1-6). Aí tomamos conhecimento de que “... vindo um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles. Então o Senhor disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, e disse: De rodear a terra, e passar por ela”.

Baseado nessa “evidência” pergunta-nos o Sr. Menezes se “algum livro espírita já revelou que algum encarnado ou desencarnado tenha visto Deus e falado com Ele diretamente, cara a cara, tal como a Bíblia diz que o Senhor falou com Satanás, quase de igual para igual?”.

Daí em diante o Sr. Menezes passa a contornar habilmente a questão, como quem tomasse consciência de estar pisando em brasas.

- Ora – diz ele -, se os espíritas não admitem ou ignoram que alguém viu a face de Deus, está claro que não têm certeza da real existência d´Ele, e quem duvida não crê. Portanto, os espíritas “não crêem em Deus”, ou se o crêem é apenas em sentido abstrato, sem personalidade, sem existência própria. Os espíritas, na questão da existência real de Deus, adotaram uma espécie de neo-panteísmo: tudo que é bom é Deus: noutras palavras: Deus é Amor, Justiça, Caridade, atributos apenas representados pelos agentes recorristas, pelos bons espíritos ou criaturas de elevada condição moral. É um ateísmo disfarçado.

E volta a utilizar o seu “grande” argumento:

- Mas... qual desses agentes ou espíritos, por maior que seja o seu adiantamento na escala evolutiva, “conversou” com Deus ou d´Ele diretamente recebeu ordens, como um soldado recebe instruções de seu superior imediato?

- Nenhum, ao que sabemos. O Sr. Menezes é quem assegura o contrário. Porque os agentes ou espíritos não constituem monopólio do Espiritismo. São os mesmos do Catolicismo, do Protestantismo e das demais doutrinas espiritualistas.

Porém o nosso opositor parte de uma falsa premissa para concluir que, por não se acreditar que alguém viu “a face de Deus”, deixa-se de crer na Sua existência. Façamos uma comparação grosseira: nunca vimos a face do Sr. Menezes, e nem por isso podemos duvidar de que ele existe.

Na feliz expressão de Victor Hugo, “Deus é o invisível evidente”.

Os espíritas acreditamos num Deus real, verdadeiro, “inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” – na precisa definição de “O Livro dos Espíritos”. Eterno, Imutável, Único, Imaterial, Onipotente, Onisciente e Soberanamente Justo e Bom. O que rejeitamos é a concepção do Deus antropomorfo de Israel (Javé), com face, exuberantes barbas brancas e demais características humanas. O Deus que o homem “criou” à sua imagem e semelhança, irrascivo, vingador, exclusivista.

Já no século passado, dizia Camille Flammarion: “Outrora, Deus foi homem; hoje, Deus é Deus”.

No seu livro “Deus na Natureza”, referindo-se a dois erros que ainda têm curso no mundo contemporâneo, assim se expressou o notável astrônomo francês:

“Esses dois erros, por nós combatidos paralelamente, são: de um lado o ateísmo, que nega a existência do Espírito; e do outro, a superstição religiosa, que concebeu um deusinho semelhante a ela e fez do Universo uma lanterna mágica, para uso e gozo da humanidade”.

Quanto a tachar o Espiritismo de “uma espécie de neopanteísmo”, diremos que Deus está em tudo, mas tudo não é Deus.

Apreciemos o ensinamento de Allan Kardec:

Esta doutrina (o panteísmo) faz de Deus um ser material que, embora dotado de suprema inteligência, seria em ponto grande o que somos em ponto pequeno. Ora, transformando-se a matéria incessantemente, Deus, se fosse assim, nenhuma estabilidade teria; achar-se-ia sujeito a todas as vicissitudes, mesmo a todas as necessidades da Humanidade; faltar-lhe-ia um dos atributos essenciais da Divindade: a imutabilidade. Não se podem aliar as propriedades da matéria à idéia de Deus, sem que Ele fique rebaixado ante a nossa compreensão e não haverá sutilezas de sofismas que cheguem a resolver o problema da Sua natureza íntima. (...) A inteligência de Deus se revela em suas obras como a de um pintor no seu quadro; mas, as obras de Deus não são o próprio Deus, como o quadro não é o pintor que o conceber e executou. (O Livro dos Espíritos, 24ª. Edição, página 54).

Por seu turno, Leon Denis, em “O Grande Enigma”, elucida:

Deus, tal qual o concebemos, não é, pois, o Deus do panteísmo oriental, que se confunde com o Universo, nem o Deus antropomorfo, monarca do céu, exterior ao mundo, de que nos falam as religiões do Ocidente. Deus é manifestado pelo Universo – de que é a representação sensível -, mas não se confunde com este.

Supomos ter ficado suficientemente esclarecido que o Espiritismo não é nada parecido com o panteísmo, nem tem o menor parentesco com o ateísmo.