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O Espiritismo surgiu
como uma ciência de observação com conseqüências morais, como
diria Kardec, e a sua divulgação foi rápida, principalmente na
Europa e Estados Unidos. A facilidade, contudo, de comunicação com
os 'mortos' levou as manifestações espíritas para o caminho da
fraude e do charlatanismo e, conseqüentemente, do descrédito nessas
regiões.
Isso ocorreu,
contudo, porque as pessoas não tiveram a mesma abordagem criteriosa
que teve Allan Kardec em seus estudos, que já alertava para os
perigos das mistificações e da exploração econômica dos fenômenos.
Um critério adicional, contudo, permitiu que o Espiritismo crescesse
como doutrina, que foi a sua vinculação ao Evangelho do Cristo,
vinculação essa empreendida por Kardec, que foi muito criticado por
seus colegas estudiosos.
Essa ligação com o
Evangelho permitiu o surgimento da Religião Espírita, que não foi
prevista por Kardec, mas que foi conseqüência natural do
desenvolvimento da doutrina. Para melhor compreendermos, contudo, o
surgimento da Religião Espírita, é necessário remontarmos às idéias
básicas sobre religião e aos objetivos que uma verdadeira religião
deve ter.
Como podemos
entender uma religião?
Kardec foi
contrário a designar o Espiritismo como uma religião, na acepção
usual que as pessoas fazem dessa palavra, mas concordou que, no
significado filosófico, o Espiritismo poderia se denominar uma
religião (ver Revista Espírita, dezembro de 1868).
Para Kardec, a religião
na sua origem significaria algo como uma ligação ou 'laço' que
uniria as pessoas em torno de determinadas idéias e princípios.
Nesse sentido, o Espiritismo poderia ser considerado uma religião,
cujo principal elo de ligação seria a Caridade. Não a
caridade, contudo no seu sentido material, que Kardec classificou como
'Caridade Beneficente', mas a caridade que envolve;
principalmente, as qualidades do coração, como perdão das ofensas,
boa-vontade para com todos e indulgência para com as imperfeições
alheias. Essa forma de caridade Kardec classificou como 'Caridade
Benevolente'.
A outra acepção que
as pessoas fazem de religião é relacionada a culto e hierarquia,
o que terminantemente Kardec rejeitou. É por essa razão que
ele não considera o Espiritismo uma religião mas uma ciência de
observação com conseqüências morais.
Pode-se considerar,
entretanto, que a palavra religião também tem um sentido bastante
difundido, que é o de 'religação' com Deus. A religião
seria, assim, uma porta para nos religarmos com o Criador de quem, no
passado, nos desligamos por alguma razão.
Como nos
desligamos de Deus?
Esse desligamento
ocorreu, segundo a doutrina do pecado original, quando Adão pecou,
transmitindo para toda a sua descendência o ônus de sua falta. Por
essa doutrina, Jesus nos redimiu com seu sacrifício na Cruz, sendo
que todo aquele que crê no Cristo e participa de sua igreja, foi
perdoado por Deus e está reconciliado com o seu Criador. A Igreja Católica
defendeu sempre esse princípio, reforçando, ainda, que só com a
Igreja está a Verdade, resumindo esse conceito no lema 'Fora da
Igreja não há Salvação'.
Com a reforma
protestante, outras igrejas cristãs surgiram evidenciando a
necessidade da Fé para a Salvação e, ou, da predestinação das
criaturas por Deus, antes mesmo do seu nascimento, para serem salvas
ou condenadas ao 'Fogo Eterno'. Deve-se ressaltar, contudo, que, tanto
a Igreja Católica como as demais igrejas reformadas, se baseiam na
doutrina do pecado original.
A Doutrina Espírita,
contudo, se baseia em outro princípio que é o da criação do Homem
simples e ignorante e do seu autoaperfeiçoamento contínuo através
da Reencarnação. Segundo esse princípio, o Homem pode evoluir
espiritualmente ou estacionar, mas nunca retroceder, o que impede que
ele retorne a condições anteriores ou mesmo venha a se reencarnar em
corpos de animais, como acreditava a antiga doutrina da metempsicose.
Quando o Homem
'estaciona' no caminho evolutivo ele, de certa forma, se desliga de
Deus ou, melhor dizendo, ele opta por não se adequar à Lei Divina
que o impulsiona para o progresso e o crescimento espiritual. Ele se
apega a bens e prazeres materiais, o que com o tempo, o deixa
insatisfeito, pois ele já possui uma essência espiritual
suficientemente desenvolvida para aspirar por prazeres menos
passageiros e mais duradouros e constantes, como os espirituais.
Esse desligamento é
apenas aparente, pois Deus jamais se afasta de suas criaturas. Seria
semelhante a uma pessoa que ficasse cega e não conseguisse mais
enxergar a luz que está a sua volta. A luz continua lhe envolvendo,
mas a pessoa não consegue mais percebê-la. Assim o Homem quando se
afasta das Leis que o conduzem se sente só e sem a proteção de
Deus, apesar do Pai estar sempre ao seu lado. É por essa razão que
Jesus, quando estava caminhando para o calvário, disse às mulheres
de Jerusalém que não chorassem por Ele, pois Ele estava com o Pai,
mas chorassem por seus filhos que estavam perdidos.
Dessa maneira, o
Homem necessita se sentir novamente ligado a Deus, que o sustenta e o
conduz. Para isso ele procura uma 'religião' ou uma igreja onde possa
se sentir amparado e confortado. Cada doutrina religiosa, contudo,
apresenta um caminho para essa religação com o Criador.
Como nos
religarmos novamente a Deus?
Para a Igreja Católica
o Homem deve participar da Igreja e dos seus sacramentos, bem como das
ser fiel às obrigações regulares, como ir à missa, confessar,
comungar, jejuar, fazer 'boas obras' e outras obrigações.
Martinho Lutero, que
era monge, percebeu que o cumprimento das obrigações que a Igreja
Católica impunha não conseguia proporcionar-lhe a certeza da salvação,
e isso o deixava profundamente inseguro e perturbado. Certa vez,
enquanto ministrava um curso bíblico, ele se deparou com a mensagem
do Apóstolo Paulo na Carta aos Romanos, onde ele afirmava que o Homem
não se justifica perante Deus com as 'obras da Lei' mas, somente,
através da Fé. Assim Martinho Lutero rompeu com a Igreja e adotou a
doutrina da 'justificação pela Fé' como a base da salvação
das criaturas.
João Calvino, que
era, de certa forma, discípulo de Lutero, levantou o seguinte
questionamento: se Deus era onipotente, Ele deveria conhecer o passado
e o futuro; sendo assim Ele, ao criar suas criaturas, saberia, de
antemão, se elas seriam salvas ou condenadas. Dessa maneira, por uma
razão acima da nossa capacidade de compreensão, Deus já criaria
seres predestinados à salvação ou à perdição, surgindo,
daí, a doutrina da predestinação, que foi adotada por muitas
Igrejas de origem calvinista. Segundo essa doutrina, o Homem nada pode
fazer para a sua salvação e nenhum sinal exterior foi dado para
saber se o Homem é um dos eleitos ou não. Os 'eleitos' deveriam
trabalhar e apresentar, naturalmente, um determinado comportamento ético
e moral que lhes daria a certeza 'interior' da salvação. Assim, não
é esse comportamento que os salva, mas o fato de serem 'salvos' é
que os levaria a se comportarem dessa forma e de prosperarem na vida.
Essa doutrina teve muita influência na formação da sociedade de vários
países, principalmente dos Estados Unidos da América.
A Doutrina Espírita
foi organizada, em suas bases fundamentais, por Allan Kardec na França
em meados do século XIX. Segundo o Espiritismo, o Homem foi criado
por Deus já 'predestinado' à felicidade eterna, que ele vai alcançando
através do seu desenvolvimento espiritual realizado nas sucessivas
encarnações na Terra, ou em outros mundos do espaço universal. Como
o Homem tem 'livre arbítrio', ele pode seguir a sua evolução de
maneira natural, ou interrompê-la, ficando estacionado no caminho.
Nesse momento pode-se dizer que ele está 'perdido' necessitando ser
'salvo'. Dessa maneira vários Espíritos reencarnaram na Terra para
mostrar o caminho da 'salvação', sendo que o maior deles foi Jesus
de Nazaré. Jesus ensinou-nos o 'caminho da salvação', não só
através de palavras, mas, principalmente, pelo seu exemplo de vida.
É, por essa razão, denominado 'Mestre', sem ser, contudo, Deus, como
admitem outras doutrinas cristãs.
Jesus, segundo a
Doutrina Espírita, é um Espírito como nós, criado anteriormente à
nossa criação, e que alcançou um grau supremo (pelo menos do nosso
ponto de vista) de perfeição. Para nos tornarmos 'justos', assim,
devemos ser 'fiéis' a Deus como Jesus nos exemplificou. Esse o
significado maior da palavra Fé, que não significa apenas crença,
mas, principalmente, fidelidade a um princípio. E qual o princípio
que resume os ensinamentos de Jesus? Segundo Kardec é um só: Caridade.
Por essa razão, a porta de nossa 'religação' com Deus é a
Caridade, o que fez com que o lema "Fora da Caridade não há
Salvação" se tornasse a síntese da Religião Espírita.
Dessa maneira, a Religião Espírita é uma religião 'interior',
sem os dogmas, rituais e hierarquias de outras religiões
institucionalizadas.
Para se praticar a
Religião Espírita não é necessário freqüentar nenhuma igreja ou
templo nem participar, necessariamente, do movimento espírita
organizado. É necessário, tão somente, tornar-se 'fiel' a Deus,
ser, enfim, caridoso.
Mas a Caridade, como
disse Kardec, é uma palavra muitas vezes mal compreendida. Por isso
devemos compreender bem o seu significado, já que ela é a base da
Religião Espírita.
O que é a
Caridade?
Perguntando aos Espíritos
Superiores (Livro dos Espíritos, n°923)
qual o sentido da palavra Caridade, como a entendia Jesus, eles
responderam: benevolência para com todos, indulgência para com as
imperfeições alheias e perdão das ofensas. Por essa razão
Kardec, alguns meses antes de sua partida para o mundo espiritual (ver
Revista Espírita, dezembro de 1868), classificou a Caridade em 'Caridade
Beneficente', que é a caridade assistencialista, e 'Caridade
Benevolente', que é a caridade moral. A Caridade Beneficente
necessita de recursos e, muitas vezes, de uma certa organização
institucional para ser melhor efetivada. Já a Caridade Benevolente
pode ser praticada independentemente de recursos financeiros, tendo
por campo de ação as nossas relações com o nosso próximo no dia-a-dia.
Essa é, segundo Kardec, a verdadeira Caridade, a qual pode-se dizer
que fora dela não há salvação.
Por
essa razão, a base fundamental da Religião Espírita não é
nenhuma obra exterior, que os outros possam admirar, mas uma obra
interior que devemos implementar, para que sejamos 'salvos' do
orgulho, do egoísmo, da avareza, da incredulidade, do desespero e da
revolta, que são os verdadeiros fantasmas que devemos temer em nosso
mundo íntimo. Transformando-nos para melhor, perceberemos que
estaremos mais felizes, podendo, com maior segurança, auxiliar o
nosso próximo a também encontrar o Caminho, a Verdade e a Vida abundante
que Jesus nos prometeu.
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