|
Discorrer sobre um tema deste significa, antes de tudo, fazer
escolhas. Trata-se de um assunto múltiplo, extenso, não sendo
possível abordá-lo sem recortá-lo. Em suma, não creio que
cumpriremos nossa tarefa de modo a satisfazer minimamente nossas
pretensões ou de tantos outros que sentirão falta deste ou daquele
assunto.
Desde o seu nascimento, a Doutrina Espírita esteve solidamente
vinculada ao bom senso, à razão, à autocrítica reflexiva e móvel, ao
estudo, à comparação, enfim, à todos os elementos que compõe algo
que pode ser chamado, de fato, e legitimamente, de um conhecimento
cientifico; isto, não só naqueles tempos, meados do século XIX, como
muitos demonstram brilhantemente; mas, até hoje, a moral cristã
espírita anda de mãos dadas com o conhecimento acadêmico pesquisado,
mesmo que essa verdade não seja uniforme. Alguns apontam a
existência de certo declínio depois da década de trinta do século
XX.
Desta forma, optamos por introduzir rapidamente, e de forma muito
simples e pálida, três temas que nos parecem mais apropriados ou
urgentes. O cientificismo de Kardec, a crise das ciências atuais e,
finalmente, o que tem sido feito atualmente no âmbito cientifico que
está, de algum modo, relacionado ao Espiritismo.
Já dissemos em nossa introdução, e utilizamos os termos: de fato, e
legitimamente, que Kardec quando organizou o Corpo Doutrinário
Espírita estava também fazendo ciência. Para os menos céticos,
somente o currículo do mestre de Lion, já seria um atestado de que
ele, jamais faria livros sem seguir o que seria o método cientifico
da época, ou ainda uma rápida visão da história de seus escritos,
seria mais do que suficiente para avaliar os altíssimos níveis de
critérios metodológicos utilizados por ele em cada sentença, em cada
linha. Assim, os que movem batalhas contra estes fatos, muitas vezes
movidos até de reais sentimentos de igual amor pela ciência e não
somente com paixões, diria menos nobres, precisam conhecê-lo melhor,
atentar para esta realidade. Kardec, comparou, refletiu, testou,
ponderou e finalmente, a despeito de seu grande ceticismo de
juventude, e junto com sua imensa capacidade de fazer ciência e seu
enorme bom senso, se convenceu que havia algo fora do comum por trás
de todos aqueles fenômenos, uma “inteligência extra”, e isso levou
alguns anos. Não foi uma decisão apressada ou passional, repetimos,
foi uma conclusão lenta, criteriosa, pensada e repensada, talvez até
dolorosa, em uma palavra: cientifica. Foi indubitavelmente deste
modo que ocorreu.
Não poderia ter sido de outra forma. Nem que ele desejasse.
Kardec estava longe de ser um crédulo, como já supracitado. Ao
contrário, antes, ele engrossava as fileiras dos descrentes.
A gênese do Espiritismo, como Doutrina, aconteceu pelas mãos de um
homem que é racionalmente inatacável em sua metodologia. Resta-nos
saber. A ciência que Kardec produziu serviria para hoje?
A resposta desta pergunta, é forçoso admitir, não é nada simples e
está infelizmente longe de ser indubitável. Isso se dá porque,
atualmente, vivemos em um mundo em que os teóricos do conhecimento
não mais se entendem entre si. Não existe, hoje, portanto, um
conceito de ciência universalmente aceito. Longe disso. Não existe
acordo, por exemplo, se a obra de Marx, é ou não cientifica, e
estamos falando de Karl Marx, diga-se; não que eu o considere-o
menor que Kardec, ambos foram gigantes.
Ainda na introdução, deste texto informal, utilizamos uma palavra:
crise, para descrever o estado das ciências atualmente. Aqui, é
claro, o termo não é de nossa lavra, e preferiríamos até que as
ciências não estivessem assim, mas reflete bem como estão às
diversas epistemologias e até que ponto nós chegamos, sobretudo, nas
correntes mais pós-modernas, onde para muitos, o conhecimento só é
possível em migalhas, sendo ainda relativo e fadado à morte rápida.
Deixaremos para depois seguir estes meandros, que se parecem mais
com pântanos, não por falta de desejo e palavras, mas para poupar o
leitor menos avisado e tentar ficar nos limites de uma revista. De
qualquer forma, nossa resposta para a pergunta é: sim. O que Kardec
produziu, jamais poderá deixar de ser considerado uma obra
cientifica, mesmo porque, atualmente, em meios aos pântanos já
vislumbrados, temos uma opinião quase secreta. Desconfiamos que,
para muitos, atualmente, um dos poucos critérios universamente
aceitos do que seja fazer ciência é o bom senso metodológico, e
nessa área, Kardec era extremante dotado e sua obra reflete em cada
linha este fato.
Dentro das fronteiras espíritas, muita coisa está sendo produzida.
Grandes pensadores e pesquisadores ampliam mais e mais os limites
paradigmáticos da Doutrina continuando com o magnífico trabalho de
Kardec. Aqui, entretanto, queremos enfatizar o que acontece “fora”
deste espaço.
Enquanto pousamos no papel estas linhas, inúmeras pesquisas, não
diretamente relacionadas com o espiritismo, estão sendo feitas. E
até mesmo, quando não totalmente teorizadas, muitas atividades
práticas já circundam nosso cotidiano. Os exemplos da psicologia,
das pesquisas psi, e da medicina, são suficientes para demonstrar
nosso ponto, deste modo rapidamente iremos expor um pequeno aspecto
destas três disciplinas supracitadas, lembrando que elas, na
realidade, em última instância, fazem um trabalho cooperativo, sendo
esta divisão apenas necessária ao propósito do leitor mais leigo.
Na psicologia, as pesquisas sobre EQM e reencarnação, por exemplo,
atingiram níveis metodológicos amplamente aceitos pela comunidade
cientifica, agora já não é possível desautorizar os trabalhos só
restando aos críticos debaterem sobre os resultados apresentados.
A mesma coisa acontece com os estudos psi. Até os mais descrentes
não podem negar o preparo e a seriedade dos atuais estudiosos que
focam o assunto. Listas na internet e grupos universitários crescem
mais e mais, sempre de algum modo vinculados a universidades e, ou,
a pesquisadores sérios e diplomados.
O caso da medicina parece ser o mais exuberante. Aqui, mesmo não
sendo o objetivo, temos que falar das instituições de médicos
espíritas, porque realizam um trabalho muito além dos círculos de
praticantes. E fora tal fato, os dados parecem indicar que são os
médicos que mais se dedicam aos estudos dos fenômenos, sendo
seguidos por psicólogos e biólogos.
Desta forma, tais disciplinas sendo expandidas em ambos os lados uma
em direção a outra, mesmo que de forma não intencional, provocarão
um encontro que criará como já demonstrado pelos historiadores do
conhecimento, novos campos científicos, fruto destas relações
intraparadigmáticas. Isso, cremos, trará um maior bem estar social.
Finalmente, terminamos afirmando que, em nossa opinião, diante de
todas as pesquisas feitas atualmente, dizer que, de forma conclusiva
e cientifica, a maior parte da comunidade acadêmica envolvida em
pesquisas próximas ou atividades interdisciplinares, aceita a
existência de espíritos, seria ainda precipitado, mas por outro lado
e felizmente, aqueles que dizem não existir boas evidências deste
fato não podem mais ser levados a sério. Estão desatualizados das
pesquisas e sofrem o risco de serem tachados de pseudo-céticos.
Pouca coisa desqualificaria mais.
|