|
Paul Strathern, no seu livro Confúcio em 90 minutos, Jorge Zahar
Editor, p. 20, faz uma afirmativa que vem de encontro à minha tese
de que Sócrates e Confúcio são a mesma pessoa, apenas que em
encarnações diferentes e em países diferentes, mas atendendo à mesma
finalidade de preparar a humanidade da época para a vinda de Jesus.
Diz
o referido autor: Confúcio apresenta uma surpreendente semelhança
com Sócrates.
HUMBERTO BRAGA, em O Oriente é Vermelho, Círculo do Livro, p. 73,
diz textualmente: Todavia, é-se tentado a comparar Confúcio com
Sócrates.
É
necessário prestar um esclarecimento ao prezado Leitor, sem o qual
fica difícil entender a semelhança entre ambos: enquanto Sócrates
ficou relativamente bem caracterizado principalmente pelo seu
discípulo Platão, que escreveu sobre ele, Confúcio não teve tal
sorte, o que fez com que muitas idéias estranhas lhe sejam
atribuídas incorretamente. A respeito diz HUMBERTO BRAGA no livro já
referido, p. 74: Faz-se impossível discernir entre o que é realmente
pensamento de Confúcio e aquilo que os discípulos lhe atribuíram.
Confúcio viveu entre 551 a.C. e 479 a.C. e Sócrates entre 470 a.C. e
399 a.C.
Caso realmente se trate da mesma pessoa, ou seja, do mesmo espírito
em duas encarnações sucessivas, transcorreu entre uma encarnação e
outra um período de menos de 10 anos no mundo espiritual.
EMMANUEL, em A Caminho da Luz, obra psicografada por Francisco
Cândido Xavier, FEB, 2000, p. 93, diz: É por isso que, de todas as
grandes figuras daqueles tempos longínquos, somos compelidos a
destacar a grandiosa figura de Sócrates, na Atenas antiga.
O
mesmo autor espiritual, na obra citada, p. 76, diz: Confúcio, na
qualidade de missionário do Cristo, teve de saturar-se de todas as
tradições chinesas, aceitar as circunstâncias imperiosas do meio, de
modo a beneficiar o país na medida de suas possibilidades de
compreensão.
Em
O Livro dos Espíritos, de ALLAN KARDEC, Sócrates aparece como um dos
autores nos Prolegômenos.
Em
O Evangelho segundo o Espiritismo, de ALLAN KARDEC, na Introdução se
lê o seguinte:
[...]
IV.
Sócrates e Platão, precursores da idéia cristã e do Espiritismo
Do
fato de haver Jesus conhecido a seita dos essênios, fora errôneo
concluir-se que a sua doutrina hauriu-a ele na dessa seita e que, se
houvera vivido noutro meio, teria professado outros princípios. As
grandes idéias jamais irrompem de súbito. As que assentam sobre a
verdade sempre têm precursores que lhes preparam parcialmente os
caminhos. Depois, em chegando o tempo, envia Deus um homem com a
missão de resumir, coordenar e completar os elementos esparsos, de
reuni-los em corpo de doutrina. Desse modo, não surgindo
bruscamente, a idéia, ao aparecer, encontra espíritos dispostos a
aceitá-la. Tal o que se deu com a idéia cristã, que foi pressentida
muitos séculos antes de Jesus e dos essênios, tendo por principais
precursores Sócrates e Platão.
Sócrates, como o Cristo, nada escreveu, ou, pelo menos, nenhum
escrito deixou. Como o Cristo, teve a morte dos criminosos, vítima
do fanatismo, por haver atacado as crenças que encontrara e colocado
a virtude real acima da hipocrisia e do simulacro das formas; por
haver, numa palavra, combatido os preconceitos religiosos. Do mesmo
modo que Jesus, a quem os fariseus acusavam de estar corrompendo o
povo com os ensinamentos que lhe ministrava, também ele foi acusado,
pelos fariseus do seu tempo, visto que sempre os houve em todas as
épocas, por proclamar o dogma da unidade de Deus, da imortalidade da
alma e da vida futura. Assim como a doutrina de Jesus só a
conhecemos pelo que escreveram seus discípulos, da de Sócrates só
temos conhecimento pelos escritos de seu discípulo Platão. Julgamos
conveniente resumir aqui os pontos de maior relevo, para mostrar a
concordância deles com os princípios do Cristianismo.
Aos
que considerarem esse paralelo uma profanação e pretendam que não
pode haver paridade entre a doutrina de um pagão e a do Cristo,
diremos que não era pagã a de Sócrates, pois que objetivava combater
o paganismo; que a de Jesus, mais completa e mais depurada do que
aquela, nada tem que perder com a comparação; que a grandeza da
missão divina do Cristo não pode ser diminuída; que, ao demais,
trata-se de um fato da História, que a ninguém será possível apagar.
O homem há chegado a um ponto em que a luz emerge por si mesma de
sob o alqueire. Ele se acha maduro bastante para encará-la de
frente; tanto pior para os que não ousem abrir os olhos. Chegou o
tempo de se considerarem as coisas de modo amplo e elevado, não mais
do ponto de vista mesquinho e acanhado dos interesses de seitas e de
castas.
Além disso, estas citações provarão que, se Sócrates e Platão
pressentiram a idéia cristã, em seus escritos também se nos deparam
os princípios fundamentais do Espiritismo.
V.
Resumo da doutrina de Sócrates e de Platão
I.
O homem é uma alma encarnada. Antes da sua encarnação, existia unida
aos tipos primordiais, às idéias do verdadeiro, do bem e do belo;
separa-se deles, encarnando, e, recordando o seu passado, é mais ou
menos atormentada pelo desejo de voltar a ele.
Não
se pode enunciar mais claramente a distinção e independência entre o
princípio inteligente e o princípio material. E, além disso, a
doutrina da preexistência da alma; da vaga intuição que ela guarda
de um outro mundo, a que aspira; da sua sobrevivência ao corpo; da
sua saída do mundo espiritual, para encarnar, e da sua volta a esse
mesmo mundo, após a morte. É, finalmente, o gérmen da doutrina dos
Anjos decaídos.
II.A alma se transvia e perturba, quando se serve do corpo para
considerar qualquer objeto; tem vertigem, como se estivesse ébria,
porque se prende a coisas que estão, por sua natureza, sujeitas a
mudanças; ao passo que, quando contempla a sua própria essência,
dirige-se para o que é puro, eterno, imortal, e, sendo ela desta
natureza, permanece aí ligada, por tanto tempo quanto passa. Cessam
então os seus transviamentos, pois que está unida ao que é imutável
e a esse estado da alma é que se chama sabedoria.
Assim, ilude-se a si mesmo o homem que considera as coisas de modo
terra-a-terra, do ponto de vista material. Para as apreciar com
justeza, tem de as ver do alto, isto é, do ponto de vista
espiritual. Aquele, pois, que está de posse da verdadeira sabedoria,
tem de isolar do corpo a alma, para ver com os olhos do Espírito. E
o que ensina o Espiritismo. (Cap. II, nº 5.)
III. Enquanto tivermos o nosso corpo e a alma se achar mergulhado
nessa corrupção, nunca possuiremos o objeto dos nossos desejos: a
verdade. Com efeito, o corpo nos suscita mil obstáculos pela
necessidade em que nas achamos de cuidar dele. Ao demais, ele nos
enche de desejos, de apetites, de temores, de mil quimeras e de mil
tolices, de maneira que, com ele, impossível se nos torna ser
ajuizados, sequer por um instante. Mas, se não nos é possível
conhecer puramente coisa alguma, enquanto a alma nos está ligada ao
corpo, de duas uma: ou jamais conheceremos a verdade, ou só a
conheceremos após a morte. Libertos da loucura do corpo,
conversaremos então, lícito é esperá-lo, com homens igualmente
libertos e conheceremos, por nós mesmos, a essência das coisas. Essa
a razão por que os verdadeiros filósofos se exercitam em morrer e a
morte não se lhes afigura, de modo nenhum, temível.
Está ai o princípio das faculdades da alma obscurecidas por motivo
dos órgãos corporais e o da expansão dessas faculdades depois da
morte. Mas trata-se apenas de almas já depuradas; o mesmo não se dá
com as almas impuras. (O Céu e o Inferno, 1ª Parte, cap. II; 2ª
Parte, cap. I.)
IV.
A alma impura, nesse estado, se encontra oprimida e se vê de novo
arrastado para o mundo visível, pelo horror do que é invisível e
imaterial. Erra, então, diz-se, em torno dos monumentos e dos
túmulos, junto aos quais já se têm visto tenebrosos fantasmas, quais
devem ser as imagens das almas que deixaram o corpo sem estarem
ainda inteiramente puras, que ainda conservam alguma coisa do forma
material, o que faz que a vista humana possa percebê-las. Não são as
almas dos bons; silo, porém, as dos maus, que se vêem forçadas a
vagar por esses lugares, onde arrastam consigo a pena do primeira
vida que tiveram e onde continuam a vagar até que os apetites
inerentes à forma material de que se revestiram as reconduzam a um
corpo. Então, sem dúvida, retomam os mesmos costumes que durante a
primeira vida constituíam objeto de suas predileções.
Não
somente o princípio da reencarnação se acha ai claramente expresso,
mas também o estado das almas que se mantêm sob o jugo da matéria é
descrito qual o mostra o Espiritismo nas evocações. Mais ainda: no
tópico acima se diz que a reencarnação num corpo material é
conseqüência da impureza da alma, enquanto as almas purificadas se
encontram isentas de reencarnar. Outra coisa não diz o Espiritismo,
acrescentando apenas que a alma? que boas resoluções tomou na
erraticidade e que possui conhecimentos adquiridos, traz, ao
renascer, menos defeitos, mais virtudes e idéias intuitivas do que
tinha na sua existência precedente. Assim, cada existência lhe marca
um progresso intelectual e moral. (O Céu e o Inferno, 2.ª Parte:
Exemplos.)
V.
Após a nossa morte, o gênio (daimon, demônio), que nos fora
designado durante a vida, leva-nos a um lugar onde se reúnem todos
os que têm de ser conduzidas ao Hades, para serem julgados. As
almas, depois de haverem estado no Hades o tempo necessário, são
reconduzidas a esta vida em múltiplos e longos períodos.
É a
doutrina dos Anjos guardiães, ou Espíritos protetores, e das
reencarnações sucessivas, em seguida a intervalos mais ou menos
longos de erraticidade.
VI.
Os demônios ocupam o espaço que separa o céu da Terra; constituem o
laço que une o Grande Todo a si mesmo. Não entrando nunca a
divindade em comunicação direta com o homem, é por intermédio dos
demônios que os deuses entram em comércio e se entretêm com ele,
quer durante a vigília, quer durante o sono.
A
palavra daimon, da qual fizeram o termo demônio, não era, na
antigüidade, tomada à má parte, como nos tempos modernos. Não
designava exclusivamente seres malfazejos, mas todos os Espíritos,
em geral, dentre os quais se destacavam os Espíritos superiores,
chamados deuses, e os menos elevados, ou demônios propriamente
ditos, que comunicavam diretamente com os homens. Também o
Espiritismo diz que os Espíritos povoam o espaço; que Deus só se
comunica com os homens por intermédio dos Espíritos puros, que são
os incumbidos de lhe transmitir as vontades; que os Espíritos se
comunicam com eles durante a vigília e durante o sono. Ponde, em
lugar da palavra demônio, a palavra Espírito e tereis a doutrina
espírita; ponde a palavra anjo e tereis a doutrina cristã.
VII. A preocupação constante do filósofo (tal como o compreendiam
Sócrates e Platão) é, a de tomar o maior cuidado com a alma, menos
pelo que respeita a esta vida, que não dura mais que um instante, do
que tendo em vista a eternidade. Desde que a alma é, imortal, não
será prudente viver visando a eternidade?
O
Cristianismo e o Espiritismo ensinam a mesma coisa.
VIII. Se a alma é imaterial, tem de passar, após essa vida, a um
mundo igualmente invisível e imaterial, do mesmo modo que o corpo,
decompondo-se, volta à matéria, Muito importa, no entanto,
distinguir bem a alma pura, verdadeiramente imaterial, que se
alimente, como Deus, de ciência e pensamentos, da alma mais ou menos
maculada de impurezas materiais, que a impedem de elevar-se para o
divino e a retêm nos lugares da sua estada na Terra.
Sócrates e Platão, como se vê, compreendiam perfeitamente os
diferentes graus de desmaterialização da alma. Insistem na
diversidade de situação que resulta para elas da sua maior ou menor
pureza. O que eles diziam, por intuição, o Espiritismo o prova com
os inúmeros exemplos que nos põe sob as vistas. (O Céu e o Inferno,
2ª Parte.)
IX.
Se a morte fosse a dissolução completa do homem, muito ganhariam com
a morte os maus, pois se veriam livres, ao mesmo tempo, do corpo, da
alma e dos vícios. Aquele que guarnecer a alma, não de ornatos
estranhos, mas com os que lhe são próprios, só esse poderá aguardar
tranqüilamente a hora da sua partida para o outro mundo.
Eqüivale isso a dizer que o materialismo, com o proclamar para
depois da morte o nada, anula toda responsabilidade moral ulterior,
sendo, conseguintemente, um incentivo para o mal; que o mau tem tudo
a ganhar do nada. Somente o homem que se despojou dos vícios e se
enriqueceu de virtudes, pode esperar com tranqúilidade o despertar
na outra vida. Por meio de exemplos, que todos os dias nos
apresenta, o Espiritismo mostra quão penoso é, para o mau, o passar
desta à outra vida, a entrada na vida futura. (O Céu e o Inferno, 2ª
Parte, cap. 1.)
X.
O corpo conserva bem impressos os vestígios dos cuidados de que foi
objeto e dos acidentes que sofreu. Dá-se o mesmo com a alma. Quando
despida do corpo, ela guarda, evidentes, os traços do seu caráter,
de suas afeições e as marcas que lhe deixaram todos os atos de sua
visa. Assim, a maior desgraça que pode acontecer ao homem é ir para
o outro mundo com a alma carregado de crimes. Vês, Cálicles, que nem
tu, nem Pólux, nem Górgias podereis provar que devamos levar outra
vida que nos seja útil quando estejamos do outro lado. De tantas
opiniões diversas, a única que permanece inabalável é a de que mais
vale receber do que cometer uma injustiça e que, acima de tudo,
devemos cuidar, não de parecer, mas de ser homem de bem. (Colóquios
de Sócrates com seus discípulos, na prisão.)
Depara-se-nos aqui outro ponto capital, confirmado hoje pela
experiência: o de que a alma não depurada conserva as idéias, as
tendências, o caráter e as paixões que teve na Terra. Não é
inteiramente cristã esta máxima: mais vale receber do que cometer
uma injustiça? O mesmo pensamento exprimiu Jesus, usando desta
figura: "Se alguém vos bater numa face, apresentai-lhe a outra."
(Cap. XII, nº 7 e nº 8.)
XI.
De duas uma: ou a morte é uma destruição absoluta, ou é passagem da
alma para outro lugar. Se tudo tem de extinguir-se, a morte será
como uma dessas raras noites que passamos sem sonho e sem nenhuma
consciência de nós mesmos. Todavia, se a morte é apenas uma mudança
de morada, a passagem para o lugar onde os mortos se têm de reunir,
que felicidade a de encontrarmos lá aqueles a quem conhecemos! O meu
maior prazer seria examinar de perto os habitantes dessa outra
morada e distinguir lá, como aqui, os que são dignos dos que se
julgam tais e não o são. Mas, é tempo de nos separarmos, eu para
morrer, vós para viverdes. (Sócrates aos seus juizes.)
Segundo Sócrates, os que viveram na Terra se encontram após a morte
e se reconhecem. Mostra o Espiritismo que continuam as relações que
entre eles se estabeleceram, de tal maneira que a morte não é nem
uma interrupção, nem a cessação da vida, mas uma transformação, sem
solução de continuidade.
Houvessem Sócrates e Platão conhecido os ensinos que o Cristo
difundiu quinhentos anos mais tarde e os que agora o Espiritismo
espalha, e não teriam falado de outro modo. Não há nisso,
entretanto, o que surpreenda, se considerarmos que as grandes
verdades são eternas e que os Espíritos adiantados hão de tê-las
conhecido antes de virem a Terra, para onde as trouxeram; que
Sócrates, Platão e os grandes filósofos daqueles tempos bem podem,
depois, ter sido dos que secundaram o Cristo na sua missão divina,
escolhidos para esse fim precisamente por se acharem, mais do que
outros, em condições de lhe compreenderem as sublimes lições; que,
finalmente, pode dar-se façam eles agora parte da plêiade dos
Espíritos encarregados de ensinar aos homens as mesmas verdades.
XII. Nunca se deve retribuir com outra uma injustiça, nem fazer mal
a ninguém, seja qual for o dano que nos hajam causado. Poucos, no
entanto, serão os que admitam esse principio, e os que se
desentenderem a tal respeito nada mais farão, sem dúvida. do que se
votarem uns aos outros mútuo desprezo.
Não
está aí o princípio de caridade, que prescreve não se retribua o mal
com o mal e se perdoe aos inimigos?
XII. É pelos frutos que se conhece a árvore. Toda ação deve ser
qualificada pelo que produz: qualificá-la de má, quando dela
provenha mal; de boa, quando dê origem ao bem.
Esta máxima: "Pelos frutos é que se conhece a árvore", se encontra
muitas vezes repetida textualmente no Evangelho.
XIV. A riqueza é um grande perigo. Todo homem que ama a riqueza não
ama a si mesmo, nem ao que é seu; ama a uma coisa que lhe é ainda
mais estranha do que o que lhe pertence. (Capítulo XVI.)
XV.
As mais belas preces e os mais belos sacrifícios prazem menos à
Divindade do que uma alma virtuosa que faz esforços por se lhe
assemelhar. Grave coisa fora que os deuses dispensassem mais atenção
às nossas oferendas, do que a nossa alma; se tal se desse, poderiam
os mais culpados conseguir que eles se lhes tornassem propícios.
Mas, não: verdadeiramente justos e retos só o são os que, por suas
palavras e atos, cumprem seus deveres para com os deuses e para com
os homens. (Cap. X, nº 7 e nº e 8.)
XVI. Chamo homem vicioso a esse amante vulgar, que mais ama o corpo
do que a alma. O amor está por toda parte em a Natureza, que nos
convida ao exercício da nossa inteligência; até no movimento dos
astros o encontramos. É o amor que orna a Natureza de seus ricos
tapetes; ele se enfeita e fixa morada onde se lhe deparem flores e
perfumes. É ainda o amor que dá paz aos homens, calma ao mar,
silêncio aos ventos e sono a dor.
O
amor, que há de unir os homens por um laço fraternal, é uma
conseqüência dessa teoria de Platão sobre o amor universal, como lei
da Natureza. Tendo dito Sócrates que "o amor não é nem um deus, nem
um mortal, mas um grande demônio", isto é, um grande Espírito que
preside ao amor universal, essa proposição lhe foi imputada como
crime.
XVII. A virtude não pode ser ensinada; vem por dom de Deus aos que a
possuem.
É
quase a doutrina cristã sobre a graça; mas, se a virtude é um dom de
Deus, é um favor e, então, pode perguntar-se por que não é concedida
a todos. Por outro lado, se é um dom, carece de mérito para aquele
que a possui. O Espiritismo é mais explícito, dizendo que aquele que
possui a virtude a adquiriu por seus esforços, em existências
sucessivas, despojando-se pouco a pouco de suas imperfeições. A
graça é a força que Deus faculta ao homem de boa vontade para se
expungir do mal e praticar o bem.
XVIII. É disposição natural em todos nós a de nos apercebermos muito
menos dos nossos defeitos, do que dos de outrem.
Diz
o Evangelho: "Vedes a palha que está no olho do vosso próximo e não
vedes a trave que está no vosso." (Cap. X, nº 9 e nº 10.)
XIX. Se os médicos são malsucedidos, tratando da maior parte das
moléstias, é que tratam do corpo, sem tratarem da alma. Ora, não se
achando o todo em bom estado, impossível é que uma parte dele passe
bem.
O
Espiritismo fornece a chave das relações existentes entre a alma e o
corpo e prova que um reage incessantemente sobre o outro. Abre,
assim, nova senda para a Ciência. Com o lhe mostrar a verdadeira
causa de certas afecções, faculta-lhe os meios de as combater.
Quando a Ciência levar em conta a ação do elemento espiritual na
economia, menos freqüentes serão os seus maus êxitos.
XX.
Todos os homens, a partir da infância, muito mais fazem de mal, do
que de bem.
Essa sentença de Sócrates fere a grave questão da predominância do
mal na Terra, questão insolúvel sem o conhecimento da pluralidade
dos mundos e da destinação do planeta terreno, habitado apenas por
uma fração mínima da Humanidade. Somente o Espiritismo resolve essa
questão, que se encontra explanada aqui adiante, nos capítulos II,
III e V.
XXI. Ajuizado serás, não supondo que sabes o que ignoras.
Isso vai com vistas aos que criticam aquilo de que desconhecem até
mesmo os primeiros termos. Platão completa esse pensamento de
Sócrates, dizendo: "Tentemos, primeiro, torná-los, se for possível,
mais honestos nas palavras; se não o forem, não nos preocupemos com
eles e não procuremos senão a verdade. Cuidemos de instruir-nos, mas
não nos injuriemos." E assim que devem proceder os espíritas com
relação aos seus contraditores de boa ou má-fé. Revivesse hoje
Platão e acharia as coisas quase como no seu tempo e poderia usar da
mesma linguagem. Também Sócrates toparia criaturas que zombariam da
sua crença nos Espíritos e que o qualificariam de louco, assim como
ao seu discípulo Platão.
Foi
por haver professado esses princípios que Sócrates se viu
ridiculizado, depois acusado de impiedade e condenado a beber
cicuta. Tão certo é que, levantando contra si os interesses e os
preconceitos que elas ferem, as grandes verdades novas não se podem
firmar sem luta e sem fazer mártires.
Que
Confúcio tenha reencarnado como Sócrates ou não, não é o mais
importante. O que interessa mesmo é dizer que os espíritos
grandemente esclarecidos e idealistas estão sempre em contato com
seus irmãos menos esclarecidos e idealistas. O amor é o sentimento
que predomina neles em favor de tudo o que existe. Não ficam
inativos, em contemplação, em beatitude, mas arregaçam as mangas e
enfrentam sempre novas jornadas para ensinarem seus irmãos pela
convivência diuturna, sem nenhum desprezo pelas inferioridades que
caracterizam estes últimos.
|