O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Teoria Homeopata da Dor

Autor:
João Marcus
(Hermínio C. Miranda)

Fonte:
Livro: Candeias na Noite Escura

ARTIGOS

                           

Recente pesquisa divulgada por uma rede nacional de televisão levou ao público a mensagem da Homeopatia. Para muita gente deve ter constituído surpresa verificar que, se o sonho de Hahnemann ainda não é uma realidade universal, como seria desejável, os fundamentos da sua filosofia médica mostram-se perfeitamente consolidados e sua técnica de curar permanece viva, podendo mesmo a qualquer momento explodir num movimento de verdadeira renascença.

Eis a esperança para a humanidade que, na ânsia de minorar suas mazelas físicas, muitas vezes as agrava com a ingestão indiscriminada de drogas potentes que, em lugar de combater as causas do mal, limitam-se a mascarar os efeitos e a acarretar complicações funcionais.

Ao que tudo indica, Hahenemann-Espirito não deve estar preocupado com a temporária desatenção a que foi relegada a sua doutrina. Era de esperar-se que assim acontecesse, dado que em todo impulso rumo à verdade é preciso levar em conta as imperfeições humanas e as dificuldades que o bem precisa vencer para impor-se. Ele sabe que essa fase é transitória e, na escala dos séculos, efêmera.

Hahenemann integrou a plêiade de Espíritos luminosos que se incumbiram de transmitir a Kardec a síntese de sabedoria que constitui o Espiritismo. Na verdade, foi quem confirmou ao Prof. Rivail sua posição no esquema da Terceira Revelação.

Em mensagem mediúnica recebida pela Senhora W. Krell, Hahnemann, que informa ter sido a reencarnação de Paracelso, lamenta alguns desvios que então se praticavam na Homeopatia, mas deixa bem claro que sua visão se projeta muito mais longe, ao informar que a medicina do futuro será essencialmente espiritual.

Não há como contestá-lo. Com toda a sua carga materialista, as mais esclarecidas correntes da medicina moderna admitem hoje a origem psicossomática de inúmeras doenças, como se pode evidenciar, aliás, pela ampla disseminação de tranqüilizantes e psicotrópicos em geral. Já há muito a Homeopatia vem alcançando curas do corpo físico atuando através do perispírito. Para isso, os medicamentos são praticamente “desmaterializados” e convertidos em energia pelas sucessivas e numerosas dinamizações.

Mas não é para discutir técnicas homeopáticas ou médicas que aqui estamos a conversar. Mesmo porque não temos para isso as necessárias credenciais. É que no silêncio interior da meditação - esse diálogo sem palavras com o nosso próprio eu - ocorreu-nos que a lei da cura pelo semelhante, o célebre princípio Hahnemaniano do similia similibus curantur, parece operar tanto nos males físicos como nos espirituais. Pois não é quase sempre a dor que nos livra das nossas dores? Não é o amor dinamizado, transubstanciado em energia pura que nos cura dos males que o amor-paixão causou em nós? Não é, tantas vezes, o ódio alheio, ao atingir-nos de maneira inexplicável, que nos redime do ódio que outrora espalhamos? Não é a invalidez de hoje que elimina da nossa ficha cármica o estigma das mutilações que infligimos em irmãos nossos em tempos outros? Não são as carências de agora que nos compensam das penúrias materiais e emocionais que impusemos a criaturas como nós?

Assim como a doença orgânica resulta de abusos que geram desarmonias ou desafinamentos no sistema biológico, assim também as dissonâncias e desarmonias espirituais criam doenças mentais e emocionais gravíssimas resultantes de abusos de natureza ética. Num e noutro caso, o reajuste ou, melhor, a cura deve ser buscada por meio de um remédio que, sem intoxicar a criatura, a leve a provocar em si mesma os sintomas do mal que a infelicitou.

No caso das doenças orgânicas, Hahenemann descobriu que os remédios que curavam eram precisamente aqueles que, tomados por indivíduo sadio, provocavam os sintomas da doença a ser combatida. No caso das mazelas espirituais, o “tratamento”, às vezes um tanto rude, mas justo que as leis divinas nos prescrevem, consiste em nos fazer experimentar dores, angústias, aflições e carências que impusemos ao semelhante. Somente assim estaremos em condições de avaliar com lucidez a extensão e profundidade do sofrimento que causamos ao nosso irmão, ou seja, sentindo-o na “própria pele”. E por isso, quem destruiu lares, tem seu lar desfeito; quem se apossou de fortunas alheias, renasce com as matrizes da miséria material; quem abusou do poder, volta nas mais ínfimas camadas da escala social.

Operando, porém, em nível infinitamente mais elevado do que os mecanismos meramente bioquímicos, os dispositivos das leis espirituais não exigem o sofrimento a qualquer preço, implacável e inexorável, para compensar o sofrimento. O objetivo delas é levar o ser humano à compreensão do erro, à conscientização do bem e, portanto, ao exercício equilibrado do livre-arbítrio. Se por um processo espontâneo, resultante de um esforço individual, a criatura é despertada para essa realidade e se entrega com firmeza ao trabalho regenerador, passa a dispor de opções e alternativas marcadas com sinal positivo. Nesse caso, em vez de ter que destruir algo em si mesmo - como a sua visão ou a sua família -, o devedor pode dedicar-se a construir situações semelhantes àquelas que destroçou no passado. Desmantelou lares? Por que não organizá-los agora e sustentá-los para recolher os que vagam sem rumo e sem agasalho pelas ruas? Sacrificou vidas às suas ambições desgovernadas? Pode agora salvá-las, curando como médico devotado ou como médium de benfeitores espirituais que por ele operam e dão passes ou consolam e orientam.

- Livre-me Deus de aconselhar-te igual processo terapêutico - escreve Samuel Maia. - Não procures na ação dos contrários alívio para as tuas queixas. Hás de sarar com o emprego dos semelhantes. Alguma vez serei homeopata na minha vida de médico.

Inúmeras vezes as nossas vítimas já seguiram à frente e até mesmo voltam sobre seus passos para ajudarem a servir àquele que as feriu. Não estão mais interessados em se vingarem, em receber a restituição na dura lei do “olho por olho”, em assistir ao funcionamento do retorno. Mas o que errou, deve à lei a reparação, porque ao fazê-lo criou automaticamente a matriz do resgate. Se não pode desfazer o que fez, poderá sempre refazer a caminhada sem tornar a cair na mesma falha.

Sem dúvida alguma essa reparação será exigida, um dia, na sua forma corretiva, através da dor, ou na sua forma construtiva, na dinâmica do amor ao próximo. “Não sairás de lá enquanto não pagares até o último ceitil”, advertiu o Cristo. Deus não deseja que a criatura sofra, mas que se redima, pois aquele que erra é escravo do erro. Ele ensinou que o Pai é um Deus de amor e de misericórdia. Nós é que custamos muito a entender isso. Por séculos incontáveis nossos espíritos somente tomaram conhecimento da dor quando a experimentavam em si mesmos e nunca quando a infligiam aos outros. Mas, como estamos todos em Deus, somos participes de um universo totalmente solidário e, portanto, o sofrimento que impomos ao semelhante tem que retornar um dia sobre nós. A não ser que, antes disso, resolvamos dissolvê-lo, com todas as sombras que traz no seu bojo, com a pequena lamparina do amor irradiante que conseguirmos acender em nosso espírito.

De repente, a gente irá descobrir, algo perplexo, que a lamparina, com a sua tímida luzinha bruxuleante, com a qual tateávamos nas sombras, virou uma estrela em nossas mãos... Como foi que isso aconteceu? E quando? E onde? Teria sido coincidência, ou foi porque resolvemos, afinal, experimentar a prática da sabedoria intemporal que o Cristo nos ensinou?