O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Deficiências, quem não as têm?

Autor:
Marcos Paulo de Oliveira Santos

Fonte:
O Mensageiro

ARTIGOS

     

A gênese das deficiências físicas ou mentais reside em nós mesmos. Em nosso mundo interior construímos condições tais, devido as nossas ações, que se manifestam no mundo exterior positiva ou negativamente.

Diante desse panorama, encontramos muitos irmãos com alguma deficiência física ou mental. Naturalmente que esse quadro aparentemente desolador do tecido social é um reflexo de algum passado escabroso e, agora, o Criador permite que suas criaturas retornem para o palco da Vida para expurgarem os delitos impressos no psiquismo do reencarnante. Portanto, a reencarnação mesmo em um corpo enfermiço é um processo generoso, justo, sábio e sine qua non para a nossa evolução.

“Quanto mais grave é o mal, tanto mais enérgico deve ser o remédio. Aquele, pois, que muito sofre deve reconhecer que muito tinha a expiar e deve regozijar-se à idéia da sua próxima cura. Dele depende, pela resignação, tornar proveitoso o seu sofrimento e não lhe estragar o fruto com as suas impaciências, visto que, do contrário, terá de recomeçar.” (1)

O notável poeta português Camilo narra-nos o seu drama ao ficar cego e, não agüentando tal expiação, optou pelo suicídio. Analisando sua obra, (2) encontraremos a justificativa para o seu sofrimento que aos olhos de um leigo pareceria um castigo divino ou uma fatalidade genética. Os motivos de tantos sofrimentos na roupagem de Camilo Castelo Branco residiam no passado. Ele fora em uma determinada encarnação um homem muito perverso e que tirara a visão de outro homem por pura crueldade, com o intuito de possuir uma moça...

Ele após nos brindar com o seu livro, retornou para a Terra para sofrer as mesmas expiações, ou seja, a privação da visão porque assim o seu espírito poderá ser purificado, ter uma paz de consciência e galgar rumo ao Sempiterno.

Com isso queremos afirmar e corroborar que, a despeito da nossa limitada visão, a justiça Divina é perfeita! Nunca falha! E o que julgamos ser um castigo do Criador, nada mais é que uma bênção ao espírito imortal, que tem a oportunidade de voltar ao campo material para se redimir.

No Brasil, a pátria do evangelho, há milhões de pessoas que necessitam de um atendimento especial por causa das suas deficiências. E que infelizmente nós, denominados perfeitos, não as tratamos com a educação e o carinho de que necessitam e merecem. O direito que essas pessoas pedem é de cidadania, palavra tão em voga mas pouco compreendida.

A cidadania transcende qualquer norma ou lei estabelecida (3). Ser cidadão é inerente ao ser humano que busca constantemente a paz de consciência e o amor universal. E o caminho para tal desiderato resume-se na frase célebre do mestre lionês: “Fora da caridade não há salvação.”(4)

O Criador dos mundos e das criaturas permite que os avanços da nanotecnologia e da engenharia genética sejam utilizados para minimizar as dificuldades encontradas pelos irmãos com deficiências mental ou física. Entretanto, é forçoso entender o papel da dor como processo de purificação do ser imortal. A dor é uma personagem que nos visita constantemente e nos insta a reflexão, à mudança comportamental e, por isso, ela é bendita e necessária para o nosso progresso. É que Deus, onipotente, marca-nos neste mundo para a glória no céu.(5)

Para vivermos com alegria nesse processo aflitivo pelo qual passamos (de mundo de provas e expiações para um mundo de regeneração), somente o amor é capaz de criar uma estrutura sólida e feliz sobre a compreensão da Vida.

As pessoas que passam por uma expiação quando contaminadas pela alegria tornam-se também alegres, encontram um sentido existencial e amam a Deus, porque sabem que na outra oportunidade elas terão uma aparelhagem física perfeita para que possam usufruir todas as suas faculdades, de que somos dotados, mas não damos o devido valor.

Não é difícil percebermos irmãos nossos que a despeito das dificuldades têm uma infinita alegria de viver. Por outro lado vamos encontrar pessoas cuja vida foi generosa e que têm uma aparelhagem física perfeita, mas que são totalmente infelizes. Não estão bem interiormente, não conhecem a maravilha da doutrina espírita e, por isso, normalmente enveredam-se no mundo das drogas, no alcoolismo, nas transgressões sexuais, nos prazeres mundanos de toda ordem e, como conseqüência, adentram o mundo de Caronte (6) pelo suicídio.

E com uma visão limitadíssima nos indagamos sobre esse paradoxo da vida. Como pode uma pessoa que tudo tem cometer tantas falhas, ao passo que outras que nada têm permanecem firmes?

É que aqueles que sofrem algum mal físico ou mental, embora haja exceções, compreendem que a vida transcende a matéria, que é bela de ser vivida com as singelas coisas e lutam tenazmente contra os reveses que se apresentam. Nós, por outro lado, estamos repletos de deficiências imperceptíveis aos nossos olhos, porque estamos mergulhados no mundo das ilusões e fazemos questão de olvidá-las. Assim, temos múltiplas deficiências que são de difícil correção como o egoísmo e o orgulho.

Há outras que devido as duas chagas citadas acima fazem com que nós não nos percebamos das nossas infinitas deficiências. Temos olhos perfeitos e poderosos que deveriam vislumbrar as coisas belas da Criação, todavia servimo-nos deles para realçar os defeitos alheios, somos cegos às súplicas dos mais necessitados, fomentamos por meio deles a lascívia...; Temos ouvidos que deveriam ser utilizados para auscultarmos o nosso interior e as onomatopéias da Vida, mas servimo-nos deles para ouvir as fofocas, as maledicências, as intriga, o elogio, pois não sabemos ouvir críticas...; Temos um aparelho fonador desprovido de problemas que deveria ser utilizado para cantarmos ao Onipotente, para auxiliarmos aos nossos irmãos, para dizermos “eu te amo” e propagarmos a Verdade, entretanto, tornamos a linguagem venenosa, traiçoeira, que destila ódio, brigas, violências...; Temos mãos que deveriam ser utilizadas para acariciar o irmão, os animais, plantar o sagrado ali-mento no solo, porém, utilizamos as nossas mãos para as agressões físicas, para matarmos um grande número de pessoas apenas pressionando um botão...; Temos um encéfalo poderoso capaz de resolver problemas complexos, mas utilizamos a nossa inteligência para a criação da psicosfera pestilenta que encobre todo o orbe, a todo o momento pensamos negativamente e contribuímos para a poluição astral, utilizamos a nossa inteligência para a criação de armas de destruição em massa... Afinal, quem é o verdadeiro deficiente?

A panacéia para tais deficiências reside em uma cirurgia moral que todos nós devemos nos submeter. Porque apesar de difícil, essa cirurgia gera-nos felicidades e paz de espírito. E o bisturi para esse procedimento delicado e paulatino é o Evangelho de Jesus, por ser o único instrumento capaz de nos redimir.

Amemos e respeitemos os irmãos com deficiências físicas e/ou mentais e cuidemos em amparar as nossas anfractuosidades que também são deficiências que nos distanciam de Deus.

(1) KARDEC, Allan. In: O Evangelho Segundo o Espiritismo. 120.ed. RJ: FEB, 2002.
(2) PEREIRA, Yvonne A. Memórias de um Suicida. 11.ed. RJ: FEB, 1983.
(3)O “Estatuto para pessoas com deficiência” provocou muita celeuma. Ao nosso entender o Brasil carece de exemplos práticos, porque leis outorgadas não faltam. A educação, na total acepção do termo, é a ferramenta capaz de mudar a natureza humana e formar pessoas de bem, que destarte terão a lei do amor indelével no seu íntimo e manifestar-se-ão independentemente de leis humanas e temporárias.
(4) Op. cit.
(5) Op. cit.
(6)Ser infernal da mitologia grega que levava as almas através dos pântanos do Aqueronte para a outra margem do rio dos mortos. Os mortos para chegarem ao outro lado deviam dar-lhe um óbolo.
[7] Quem de nós não as têm?