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A
gênese das deficiências físicas ou mentais reside em nós mesmos. Em
nosso mundo interior construímos condições tais, devido as nossas
ações, que se manifestam no mundo exterior positiva ou
negativamente.
Diante desse panorama, encontramos muitos irmãos com alguma
deficiência física ou mental. Naturalmente que esse quadro
aparentemente desolador do tecido social é um reflexo de algum
passado escabroso e, agora, o Criador permite que suas criaturas
retornem para o palco da Vida para expurgarem os delitos impressos
no psiquismo do reencarnante. Portanto, a reencarnação mesmo em um
corpo enfermiço é um processo generoso, justo, sábio e sine qua non
para a nossa evolução.
“Quanto mais grave é o mal, tanto mais enérgico deve ser o remédio.
Aquele, pois, que muito sofre deve reconhecer que muito tinha a
expiar e deve regozijar-se à idéia da sua próxima cura. Dele
depende, pela resignação, tornar proveitoso o seu sofrimento e não
lhe estragar o fruto com as suas impaciências, visto que, do
contrário, terá de recomeçar.”
(1)
O
notável poeta português Camilo narra-nos o seu drama ao ficar cego
e, não agüentando tal expiação, optou pelo suicídio. Analisando sua
obra, (2)
encontraremos a justificativa para o seu sofrimento que aos olhos de
um leigo pareceria um castigo divino ou uma fatalidade genética. Os
motivos de tantos sofrimentos na roupagem de Camilo Castelo Branco
residiam no passado. Ele fora em uma determinada encarnação um homem
muito perverso e que tirara a visão de outro homem por pura
crueldade, com o intuito de possuir uma moça...
Ele
após nos brindar com o seu livro, retornou para a Terra para sofrer
as mesmas expiações, ou seja, a privação da visão porque assim o seu
espírito poderá ser purificado, ter uma paz de consciência e galgar
rumo ao Sempiterno.
Com
isso queremos afirmar e corroborar que, a despeito da nossa limitada
visão, a justiça Divina é perfeita! Nunca falha! E o que julgamos
ser um castigo do Criador, nada mais é que uma bênção ao espírito
imortal, que tem a oportunidade de voltar ao campo material para se
redimir.
No
Brasil, a pátria do evangelho, há milhões de pessoas que necessitam
de um atendimento especial por causa das suas deficiências. E que
infelizmente nós, denominados perfeitos, não as tratamos com a
educação e o carinho de que necessitam e merecem. O direito que
essas pessoas pedem é de cidadania, palavra tão em voga mas pouco
compreendida.
A
cidadania transcende qualquer norma ou lei estabelecida
(3).
Ser cidadão é inerente ao ser humano que busca constantemente a paz
de consciência e o amor universal. E o caminho para tal desiderato
resume-se na frase célebre do mestre lionês: “Fora da caridade não
há salvação.”(4)
O
Criador dos mundos e das criaturas permite que os avanços da
nanotecnologia e da engenharia genética sejam utilizados para
minimizar as dificuldades encontradas pelos irmãos com deficiências
mental ou física. Entretanto, é forçoso entender o papel da dor como
processo de purificação do ser imortal. A dor é uma personagem que
nos visita constantemente e nos insta a reflexão, à mudança
comportamental e, por isso, ela é bendita e necessária para o nosso
progresso. É que Deus, onipotente, marca-nos neste mundo para a
glória no céu.(5)
Para vivermos com alegria nesse processo aflitivo pelo qual passamos
(de mundo de provas e expiações para um mundo de regeneração),
somente o amor é capaz de criar uma estrutura sólida e feliz sobre a
compreensão da Vida.
As
pessoas que passam por uma expiação quando contaminadas pela alegria
tornam-se também alegres, encontram um sentido existencial e amam a
Deus, porque sabem que na outra oportunidade elas terão uma
aparelhagem física perfeita para que possam usufruir todas as suas
faculdades, de que somos dotados, mas não damos o devido valor.
Não
é difícil percebermos irmãos nossos que a despeito das dificuldades
têm uma infinita alegria de viver. Por outro lado vamos encontrar
pessoas cuja vida foi generosa e que têm uma aparelhagem física
perfeita, mas que são totalmente infelizes. Não estão bem
interiormente, não conhecem a maravilha da doutrina espírita e, por
isso, normalmente enveredam-se no mundo das drogas, no alcoolismo,
nas transgressões sexuais, nos prazeres mundanos de toda ordem e,
como conseqüência, adentram o mundo de Caronte
(6)
pelo suicídio.
E
com uma visão limitadíssima nos indagamos sobre esse paradoxo da
vida. Como pode uma pessoa que tudo tem cometer tantas falhas, ao
passo que outras que nada têm permanecem firmes?
É
que aqueles que sofrem algum mal físico ou mental, embora haja
exceções, compreendem que a vida transcende a matéria, que é bela de
ser vivida com as singelas coisas e lutam tenazmente contra os
reveses que se apresentam. Nós, por outro lado, estamos repletos de
deficiências imperceptíveis aos nossos olhos, porque estamos
mergulhados no mundo das ilusões e fazemos questão de olvidá-las.
Assim, temos múltiplas deficiências que são de difícil correção como
o egoísmo e o orgulho.
Há
outras que devido as duas chagas citadas acima fazem com que nós não
nos percebamos das nossas infinitas deficiências. Temos olhos
perfeitos e poderosos que deveriam vislumbrar as coisas belas da
Criação, todavia servimo-nos deles para realçar os defeitos alheios,
somos cegos às súplicas dos mais necessitados, fomentamos por meio
deles a lascívia...; Temos ouvidos que deveriam ser utilizados para
auscultarmos o nosso interior e as onomatopéias da Vida, mas
servimo-nos deles para ouvir as fofocas, as maledicências, as
intriga, o elogio, pois não sabemos ouvir críticas...; Temos um
aparelho fonador desprovido de problemas que deveria ser utilizado
para cantarmos ao Onipotente, para auxiliarmos aos nossos irmãos,
para dizermos “eu te amo” e propagarmos a Verdade, entretanto,
tornamos a linguagem venenosa, traiçoeira, que destila ódio, brigas,
violências...; Temos mãos que deveriam ser utilizadas para acariciar
o irmão, os animais, plantar o sagrado ali-mento no solo, porém,
utilizamos as nossas mãos para as agressões físicas, para matarmos
um grande número de pessoas apenas pressionando um botão...; Temos
um encéfalo poderoso capaz de resolver problemas complexos, mas
utilizamos a nossa inteligência para a criação da psicosfera
pestilenta que encobre todo o orbe, a todo o momento pensamos
negativamente e contribuímos para a poluição astral, utilizamos a
nossa inteligência para a criação de armas de destruição em massa...
Afinal, quem é o verdadeiro deficiente?
A
panacéia para tais deficiências reside em uma cirurgia moral que
todos nós devemos nos submeter. Porque apesar de difícil, essa
cirurgia gera-nos felicidades e paz de espírito. E o bisturi para
esse procedimento delicado e paulatino é o Evangelho de Jesus, por
ser o único instrumento capaz de nos redimir.
Amemos e respeitemos os irmãos com deficiências físicas e/ou mentais
e cuidemos em amparar as nossas anfractuosidades que também são
deficiências que nos distanciam de Deus.
(1)
KARDEC, Allan. In: O Evangelho Segundo o Espiritismo. 120.ed. RJ:
FEB, 2002.
(2) PEREIRA, Yvonne A. Memórias de um Suicida. 11.ed. RJ: FEB, 1983.
(3)O “Estatuto para pessoas com deficiência” provocou muita celeuma.
Ao nosso entender o Brasil carece de exemplos práticos, porque leis
outorgadas não faltam. A educação, na total acepção do termo, é a
ferramenta capaz de mudar a natureza humana e formar pessoas de bem,
que destarte terão a lei do amor indelével no seu íntimo e
manifestar-se-ão independentemente de leis humanas e temporárias.
(4) Op. cit.
(5) Op. cit.
Ser
infernal da mitologia grega que levava as almas através dos pântanos
do Aqueronte para a outra margem do rio dos mortos. Os mortos para
chegarem ao outro lado deviam dar-lhe um óbolo.
Quem de nós não as têm?
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