O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
O Reino de Deus

Autor:
Fidel Nogueira

Fonte:
O Mensageiro

ARTIGOS

     

Temos atualmente a consciência de que as escolhas estão cada vez mais diversas nas suas opções, as quais, se apresentam quando da necessidade de tomar decisões e seguir os nossos sonhos, vontades e desejos. Estamos numa era onde a diversidade de opções, informações tecnológicas e filosóficas é uma realidade sem discussões.

A humanidade tem buscado de todas as maneiras encontrar o seu “tesouro perdido” chamado felicidade. O homem com o seu instinto de investigação, muito tem pesquisado na busca incessante dos caminhos e respostas que o levem ao encontro do equilíbrio, da prosperidade, da eterna jovialidade, da saúde, do bem estar, enfim, das soluções definitivas para tantos questionamentos que a sociedade, em geral, almeja como respostas e decisões.

Há de se reconhecer o progresso humano em vários setores da vida, onde a vitória sobre a ignorância tem chegado com eficiência e lucidez. Porém, em alguns campos do descobrimento, o homem, em sua inteligência investigativa continua ignorando valores e caminhos que poderiam libertá-lo, enquanto ser humano e sociedade, de muitos males e conflitos ainda presentes em sua jornada.

É indiscutível o progresso tecnológico que aproxima os seres e facilita processos, assim como, permite que as informações cheguem aos seus interessados quase que em tempo real, fazendo com que, muitas vezes, a ciência encontre curas, que o conforto material se expanda a cada dia, trazendo a todos os recursos fartos dessas conquistas, conforme o potencial financeiro e ambiente de cada um.

O intelecto humano, atualmente, se enriquece com a rapidez, diversidade e eficiência da comunicação em massa. O conhecimento viaja na velocidade do mundo digital.

Diante deste cenário, porém, uma outra realidade nos chama a atenção. Em muitos setores da vida o homem continua vivendo seus conflitos, necessidades e carências, provocando quase sempre, apesar de tantas informações, os desafios íntimos em relação à compreensão de si mesmo.
Se por um lado o progresso é inegável, podemos observar em um outro ângulo de visão, o mesmo homem, culto, atualizado, enfrentando os desafios da violência, da fome, da marginalidade descontrolada, do caráter desajustado, dos desatinos sociais, das crises de corrupção, guerras, enfim, situações em que vemos os conflitos dominando o cenário.

Nas famílias, pais que abandonam filhos, filhos que desafiam pais, relacionamentos de desencontros constantes, sentimentos que adoecem e provocam males como a depressão, solidão, abandono dos velhos em asilos, enfermidades que parecem novas, desafios que não cessam, apesar dos recursos tecnológicos.

No barulho dos acontecimentos atuais a grande multidão corre, percorre, socorre, explora, usa, abusa, consome, numa corrida desenfreada sem a noção verdadeira de destino e direção, seguindo o grande modelo adotado pela minoria dominadora.

O caminho, ah! O caminho, onde estará o caminho que nos leva ao destino? O destino, qual será mesmo o nosso destino? A verdade, onde está a verdade de todas as coisas. Pois que, a vida passa e é preciso viver. Mas, para qual vida estamos vivendo?

São perguntas que, cujas respostas, parecem ser uma incógnita mesmo diante de todo avanço do conhecimento humano.

Porém, no silêncio discreto e calmo, uma outra multidão caminha em paralelo sem se separar do todo, procurando entender, compreender e aceitar todo o contexto da atualidade, obtendo respostas onde muitos não procuram ou até mesmo nem acreditam, pois, como já nos foi ensinado, a verdade só se revela aos simples, aos que estão prontos e principalmente àqueles que já entenderam a sabedoria maior que comanda o universo.

Tudo obedece a uma lei perfeita, imutável, onde tudo está no todo e o todo está em todas as coisas e principalmente em todos nós, mesmo que não queiramos aceitar e entender.

E a felicidade? Onde estará mesmo a tão desejada felicidade? E a propósito, o que é mesmo felicidade? Com certeza, mais perguntas, que, muitos já encontraram as respostas e entenderam que a mesma está em um caminhar cuja direção é muito diferente daquela que a ignorância do materialismo tem indicado.

Para manter o controle sobre o pensamento dos que são comandados de forma inconsciente, porém passiva, o grande movimento materialista dominante usa exatamente dos progressos tecnológicos, através da criação dos prazeres instantâneos, das soluções e receitas rápidas, para a incontrolável ansiedade de resultados para os anseios dos que acreditam nessa cultura da vida única e passageira. A angústia que se faz presente nos sentimentos dos seres dessa grande maioria se reflete em seus comportamentos e atitudes.

As necessidades de alegria, de bem estar, de beleza, obtidas de forma imediata, tem levado a muitos homens e mulheres a buscar no consumismo, no álcool, nas drogas, no sexo em exagero e sem sentimentos, eventos que se assemelham a verdadeiros banquetes de prazeres passageiros que, invariavelmente, desencadeiam os estados de ilusão pelo que se vive e se busca, tornando muitos escravos de si mesmo.

Lutas por poderes, posições sociais, cargos de destaque, e que para obtê-los, o outro passa a ser concorrente ou adversário, ou, muitas vezes, inimigo a ser destruído de forma sutil, silenciosa na justificativa de que se vença o melhor. Documentos são adulterados, fatos são programados, conceitos são definidos como verdades, processos são simulados, na intenção de se tirar vantagens, lucros, justificar equívocos, manter as aparências, porém, sem se assumir a sincera e verdadeira intenção intima dos atos praticados.

O homem, na sua cultura religiosa e social, possui o hábito da culpa, não da culpa própria, mas da costumeira mania de sempre culpar aos outros ou as coisas pelos seus desatinos e enganos da sociedade em geral. Desenvolve-se a cultura da culpa alheia, onde se acusa a política e os políticos, se acusa até a própria natureza, tão explorada sem o senso do respeito, pelos seus processos naturais, como se o homem não fosse o ser no mundo dotado de inteligência e discernimento perante as leis divinas.

Quando se não encontra um responsável, o homem, faz-se de vítima do destino, do acaso, como se o destino possuísse um construtor longe do seu íntimo, sem assumir a verdadeira responsabilidade nas ações que desencadeiam processos.

“O Reino de Deus é semelhante a um tesouro que, oculto num campo, foi achado e escondido por um homem que, movido de gozo, vendeu tudo o que possuía e comprou aquele campo”.

“O Reino de Deus está dentro de vós”.

Jesus, em sua sabedoria de mestre e conhecedor da vida, o Cristo, em sua manifestação de amor aos seus, nos trouxe ensinamentos que outrora não tínhamos a maturidade necessária para compreendê-los, ensinamentos que libertam quando entendidos no seu verdadeiro sentido. Na época atual temos todos os elementos capazes de nos esclarecer, compreendendo o verdadeiro significado, das palavras do mestre, mas que só estão à disposição daqueles que tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, conforme já nos lembrou o Rabino.

Analisando a mensagem com a maturidade espiritual que nos cabe, podemos perceber que o Mestre de amor já nos lembrava que o tesouro tão sonhado chamado felicidade não é algo exterior e sim uma conquista íntima de cada um na compreensão de si mesmo.

O tesouro é a centelha divina que, todos somos, a força criadora, Deus em nós, o Eu Superior, que é luz, harmonia, amor e se encontra oculto em nós pelo desconhecimento das coisas da vida e de nós mesmos, pois o procuramos, até então, em lugares onde jamais ele estivera.

Faz-se necessário reconhecer que somos mais do que vemos e acreditamos com os nossos sentidos tão voltados para o pensamento causal e limitado por nossas crenças e conceitos.

“Sois Deuses, sois filhos do altíssimo”.

A Centelha divina, o raio de luz que emanou da fonte de luz, do todo universal, se torna individualidade, o Espírito imortal, que evolui, errando e aprendendo, através das experiências adquiridas em sua imensa jornada evolutiva. O Espírito, seria o campo que guarda o tesouro, a centelha divina, conforme nos lembra a mensagem. Espírito que torna-se personalidade e vai agregando valores e conceitos através do contato e experimentação junto à matéria, usando a mesma como corpo físico para se manifestar e aprender.

Portanto, somos seres imortais, Espíritos, vivenciando experiências humanas em busca da sabedoria oculta em nós, mas não longe de nós, como sempre acreditamos. Oculta por conseqüência evolutiva, pois, como Espíritos, no inicio possuímos apenas a inteligência e a vontade, que através dos instintos nos provocam a busca incessante da luz, da verdade libertadora que nos colocará cada vez mais em contato com o “deus” que cada um carrega no âmago.

“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Tomar consciência dessa realidade é antes de tudo assumir uma posição de conhecer a si mesmo, para que possamos descobrir o verdadeiro caminho que nos leva ao tesouro que o mestre nos falou. Que os prazeres não devem ser os do corpo físico, apenas, mas antes de tudo, os que alimentam a mente de conhecimento que liberta, usando de si próprio sem intermediários, os recursos que provocam um bem estar mais duradouro e constante. Para isso é importante aprender a amar seguindo o modelo de amor que Jesus nos ensinou.

“AMARÁS O SENHOR TEU DEUS DE TODO O TEU CORAÇÃO, DE TODA A TUA ALMA E DE TODO O TEU ESPÍRITO E AO PRÓXIMO COMO TI MESMO”.

Então, diante dessa maravilha de ensinamento, cabe-nos entender que o conceito de amor se torna uma busca incessante do “deus interno”. Amando esse “deus” em nós, para que assim possamos entrar em contato com o manancial de luz que carregamos.

Podemos exercitar esse amor através da educação de nosso ser, de nossa personalidade, pois educar, de Educare, do latim, significa extrair as sementes de dentro, ou seja, extrair de dentro da nossa centelha divina toda a luz e sabedoria, latentes, em seu baú maravilhoso.

Educando-nos através do conhecimento, podemos modificar nossas atitudes, transformando o imediatismo em perseverança, o pessimismo em novas perspectivas de crescimento, e acima de tudo, compreendendo e aceitando que somos todos iguais em potencialidades, com conhecimentos diferentes, caracterizando cada um no seu grau evolutivo diante da vida. Assim, com um novo posicionamento diante da vida, saímos da multidão de aflitos, passando a caminhar com o discernimento de quem conhece, a calma de quem confia, a bondade de quem ama, a liberdade de quem sabe que é dono de si mesmo e autor de tudo o que lhe acontece na vida.

Sendo o modelo de amor, o amar ao próximo como a nós mesmos, devemos compreender que, amar ao nosso irmão é, antes de tudo, nos fazer melhores seres humanos em nós mesmos, para que possamos emitir pensamentos, ações, palavras, sentimentos e atitudes que realmente retratem o “Deus” que está dentro de nós.

Pensando e agindo como seres de luz, modificamos nossa posição, entendendo que “fora da caridade não há salvação”, pois que, a compreensão de caridade também se torna mais verdadeira.

Passamos a ser, naturalmente caridosos, pois nossas ações se transformam, nossos pensamentos são mais saudáveis, nossas idéias são mais ricas, nossas palavras são mais limpas e nosso ser se torna mais harmônico, nosso caminhar é de calma, confiança e certeza, fazendo com que possamos ver o outro como irmão que como nós está no mesmo caminho e se esse irmão está na dor ou no erro, é por que ainda não descobriu esse maravilhoso tesouro em si mesmo.

“Eu sou o caminho da verdade e da vida, ninguém vai ao pai senão por mim”.

Então, a busca do Eu verdadeiro é o caminho, pois que nele está a verdade do pai, e como Espírito imortal irradia, em forma de luz, toda a beleza infinita da vida. E para se chegar ao pai o caminho é o conhecimento, a conscientização, a justiça que dá “a cada um conforme as suas obras”, a educação, que provoca o amor, a caridade que se torna a ação natural em todo ser que habita o planeta.

Diante de tudo, passamos a entender a boa nova que o mestre anunciara, trazida para nós naquele tempo e que só agora pudemos entender sua atitude de amor para conosco, nos deixando por nossa ignorância, agir com liberdade respeitando a fragilidade da nossa compreensão. Como nos compreendia os limites, pronunciou mais uma vez, apesar do momento doloroso e cruel, as palavras que ensinariam, acompanhadas, como sempre, das atitudes que exemplificavam.

“Pai, perdoa-os eles não sabem o que fazem”.

Palavras que nos convidam a aceitar o passado como exemplo e não como prisão da culpa e da mágoa. Possamos assim fazer do passado um excelente aprendizado para atitudes atuais, nos libertando das lembranças tristes, pela transformação na oportunidade do presente. Construir o amanhã é deixar para trás o passado e viver o hoje, intensamente o agora, com a consciência renovada, na certeza de que o amanhã virá como resultado do que fizermos hoje.