O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
O Perdão e o Evangelho

Autor:
Marco Antônio Fonseca Conceição
Piracicaba - SP
(colaborador)

Fonte:
O Mensageiro

ARTIGOS

  

Aprendemos desde cedo que somos criaturas condenadas devido aos nossos pecados, necessitando, assim, do perdão de Deus. Nas igrejas cristãs convencionais, a nossa condenação se deve ao pecado original de Adão, que o transmitiu para todas as gerações que o sucederam.

Dentro da Doutrina Espírita, recebemos a informação que nós 'pecamos', ou melhor, cometemos erros no passado, acarretando dívidas que devem ser saldadas nessa ou em futuras encarnações. Esse seria o sentido simbólico do 'pecado original', que teria, assim, sido cometido por nós mesmos e não por algum ancestral nosso.

A pergunta que fica, então, é: como 'pagar' essas dívidas? Será que o sofrimento pode apagar essas faltas? Ou as penitências? E uma vez pagas essas faltas, como poderemos ter a certeza que não 'pecaremos' de novo?

Primeiramente, necessitamos entender o que significa o 'pecado', ou os erros, que cometemos nessa ou em outras existências.

O pecado

Segundo a teologia tradicional, pecamos devido à semente do mal que carregamos conosco como conseqüência do pecado original de Adão. De acordo com essa linha de pensamento, somente o sacrifício na cruz realizado por Jesus Cristo pode nos libertar dessa herança, uma vez que Deus 'exige' um sacrifício para realizar a sua justiça.

Essa doutrina se baseia no capítulo dez da Carta de Paulo aos Hebreus. Nesse texto, Paulo diz que "é impossível que o sangue de touros e bodes tire pecados", pois o sacrifício de animais era uma prática judaica feita anualmente, acreditando-se que com ela seria possível apagar os pecados cometidos pelos fiéis. Paulo acrescenta que isso não seria mais necessário uma vez que, pela vontade de Deus "fomos santificados, por meio do sacrifício do corpo de Jesus Cristo, oferecido uma vez por todas". Assim sendo, de acordo com Paulo, pela fé nos aproximamos de Deus, tendo sido perdoados os nossos pecados mediante o 'sangue de Jesus'.

A Igreja Católica não baseia sua doutrina totalmente nesses princípios, que são mais adotados pelas Igrejas Protestantes. De acordo com a doutrina católica, os nossos pecados podem ser perdoados por intermédio dos representantes de Deus na Terra, que são os seus sacerdotes. Uma vez que a Igreja acredita ter sido fundada por Pedro, o apóstolo, e como Jesus disse a Pedro que "o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o que desligar na terra terá sido desligado nos céus" (Mateus, 16:19), então ela defende a idéia que os seguidores de Pedro também têm esse poder, sendo portanto possível aos sacerdotes perdoar pecados. Para isso eles recebem a confissão dos fiéis, prescrevendo uma série de penitências que devem ser cumpridas para que os pecados sejam perdoados.

A Doutrina Espírita mostra que os nossos erros devem ser reparados, para que possamos estar quites com a Justiça Divina. No capítulo sete do livro O Céu e o Inferno, Allan Kardec  diz que as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta são o arrependimento, a expiação e a reparação.

Segundo Kardec, "o arrependimento pode ocorrer em qualquer parte e em qualquer tempo; se é tardio, o culpado sofre por mais tempo. A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais, que são a conseqüência da falta cometida." Por essa maneira de ver, a expiação não é castigo de Deus mas, somente, simples conseqüência dos nossos erros. Assim, se colocarmos nossa mão no fogo a queimaremos, com certeza, e sofreremos por isso até que fiquemos curados. Quando 'pecamos', ficamos, de certa forma, doentes e sofreremos por isso até que fiquemos espiritualmente 'curados'. Kardec conclui que "o arrependimento abranda as dores da expiação, no que traz a esperança e prepara os caminhos da reabilitação; mas unicamente a reparação pode anular o efeito, em destruindo a causa."

Jesus e o perdão dos pecados

Os homens sempre acreditaram que seriam necessários sacrifícios para agradarem a divindade. No primeiro livro da Bíblia, Gênesis, vemos que Caim e Abel fizeram sacrifícios a Deus, que preferiu o sacrifício de Abel despertando o ciúme de Caim, levando-o a matar o próprio irmão.

Na pergunta 669 do Livro dos Espíritos, Kardec questiona "como foi o homem levado a crer que os sacrifícios pudessem agradar a Deus?" Os Espíritos respondem que foi "porque não compreendia Deus como sendo a fonte da bondade."

No ítem 23 do primeiro capítulo da Gênese Segundo o Espiritismo, Allan Kardec comenta que "a parte mais importante da revelação do Cristo, a pedra angular de sua doutrina, é o ponto de vista todo novo sob o qual fez considerar a Divindade. Não é mais o Deus terrível, ciumento e vingativo de Moisés, mas um Deus clemente, soberanamente justo e bom, cheio de mansuetude e de misericórdia. Não é mais o Deus de um único povo privilegiado, mas o Pai comum do gênero humano, que estende a sua proteção sobre todos os filhos e os chama todos para si. Não é mais o Deus que faz da vingança uma virtude e ordena pagar olho por olho, dente por dente, mas o Deus de misericórdia que diz: 'Perdoai as ofensas, se quereis que vos seja perdoado'. Este não é, enfim, o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado."

Sendo assim revelado por Jesus, Deus não pode desejar o sofrimento dos seus filhos, mas a sua felicidade e crescimento espiritual. Isso não impede, contudo, que o Pai permita aos filhos adquirirem experiência a partir dos resultados de suas condutas na vida. Por essa razão Ele 'dá a cada um segundo a sua obra', a fim de que aprendamos com os nossos próprios erros e possamos optar, com segurança, pelo melhor caminho.

Quando o filho pródigo abandona o lar paterno, na parábola do Evangelho, não é o Pai que vai puni-lo, mas a sua escolha que o leva a 'comer junto com os porcos'. Quando 'cai em si' e resolve retornar ao lar paterno, tem que refazer o mesmo caminho que trilhou, sendo, contudo, recebido pelo Pai de braços abertos.

Quanto aos males que cometemos em relação aos outros e a nós mesmos, necessitamos repará-los, como disse Kardec. Mas nem por isso necessitamos alimentar a nossa culpa e autopunição, como se o castigo fosse o objetivo de Deus. Na verdade, a dor não é a finalidade mas apenas o meio para o reajuste, pois a vontade do Pai é a nossa reabilitação espiritual e nossa felicidade, e não o nosso sofrimento. Foi por isso que Jesus, citando o profeta Oséias (6:6), disse várias vezes "misericórdia quero e não sacrifício" (Mateus, 9:13; 12:7).

O Pai nos perdoa sempre, mas para sentirmos o Seu Amor divino dentro de nós, necessitamos, por nossa vez, perdoarmos os nossos semelhantes, pois só assim conseguiremos seguir em paz na vida. Esse o sentido do 'perdoai as nossa dívidas assim como nós perdoamos os nossos devedores', presente na oração do Pai Nosso.

O Perdão é, assim, a chave de nossa libertação espiritual e, apesar dos nossos erros e da necessidade de reparação, estaremos sempre em sintonia com a Fonte Maior da Vida, que é Deus. Estamos no mundo para perdoarmos e, assim, apagarmos as nossas culpas do passado sentindo-nos, novamente, de volta à casa do Pai.