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Aprendemos desde cedo
que somos criaturas condenadas devido aos nossos pecados,
necessitando, assim, do perdão de Deus. Nas igrejas cristãs
convencionais, a nossa condenação se deve ao pecado original de
Adão, que o transmitiu para todas as gerações que o sucederam.
Dentro da Doutrina
Espírita, recebemos a informação que nós 'pecamos', ou melhor,
cometemos erros no passado, acarretando dívidas que devem ser
saldadas nessa ou em futuras encarnações. Esse seria o sentido simbólico
do 'pecado original', que teria, assim, sido cometido por nós mesmos
e não por algum ancestral nosso.
A pergunta que fica,
então, é: como 'pagar' essas dívidas? Será que o sofrimento
pode apagar essas faltas? Ou as penitências? E uma vez pagas essas
faltas, como poderemos ter a certeza que não 'pecaremos' de novo?
Primeiramente,
necessitamos entender o que significa o 'pecado', ou os erros, que
cometemos nessa ou em outras existências.
O
pecado
Segundo a teologia
tradicional, pecamos devido à semente do mal que carregamos conosco
como conseqüência do pecado original de Adão. De acordo com essa
linha de pensamento, somente o sacrifício na cruz realizado por Jesus
Cristo pode nos libertar dessa herança, uma vez que Deus 'exige' um
sacrifício para realizar a sua justiça.
Essa doutrina se
baseia no capítulo dez da Carta de Paulo aos Hebreus. Nesse texto,
Paulo diz que "é impossível que o sangue de touros e bodes tire
pecados", pois o sacrifício de animais era uma prática judaica
feita anualmente, acreditando-se que com ela seria possível apagar os
pecados cometidos pelos fiéis. Paulo acrescenta que isso não seria
mais necessário uma vez que, pela vontade de Deus "fomos
santificados, por meio do sacrifício do corpo de Jesus Cristo,
oferecido uma vez por todas". Assim sendo, de acordo com Paulo,
pela fé nos aproximamos de Deus, tendo sido perdoados os nossos
pecados mediante o
'sangue de Jesus'.
A Igreja Católica não
baseia sua doutrina totalmente nesses princípios, que são mais
adotados pelas Igrejas Protestantes. De acordo com a doutrina católica,
os nossos pecados podem ser perdoados por intermédio dos
representantes de Deus na Terra, que são os seus sacerdotes. Uma vez
que a Igreja acredita ter sido fundada por Pedro, o apóstolo, e como
Jesus disse a Pedro que "o que você ligar na terra terá sido
ligado nos céus, e o que desligar na terra terá sido desligado nos céus"
(Mateus, 16:19), então ela defende a idéia que os seguidores de
Pedro também têm esse poder, sendo portanto possível aos sacerdotes
perdoar pecados. Para isso eles recebem a confissão dos fiéis,
prescrevendo uma série de penitências que devem ser cumpridas para
que os pecados sejam perdoados.
A Doutrina Espírita
mostra que os nossos erros devem ser reparados, para que possamos
estar quites com a Justiça Divina. No capítulo sete do livro O Céu
e o Inferno, Allan Kardec diz
que as três condições necessárias para apagar os traços de uma
falta são o arrependimento, a expiação e a reparação.
Segundo Kardec,
"o arrependimento pode ocorrer em qualquer parte e em
qualquer tempo; se é tardio, o culpado sofre por mais tempo. A expiação
consiste nos sofrimentos físicos e morais, que são a conseqüência
da falta cometida." Por essa maneira de ver, a expiação não
é castigo de Deus mas, somente, simples conseqüência dos nossos
erros. Assim, se colocarmos nossa mão no fogo a queimaremos, com
certeza, e sofreremos por isso até que fiquemos curados.
Quando 'pecamos', ficamos, de certa forma, doentes e sofreremos por
isso até que fiquemos espiritualmente 'curados'. Kardec conclui que
"o arrependimento abranda as dores da expiação, no que traz a
esperança e prepara os caminhos da reabilitação; mas unicamente
a reparação pode anular o efeito, em destruindo a causa."
Jesus
e o perdão dos pecados
Os homens sempre
acreditaram que seriam necessários sacrifícios para agradarem a
divindade. No primeiro livro da Bíblia, Gênesis, vemos que Caim e
Abel fizeram sacrifícios a Deus, que preferiu o sacrifício de Abel
despertando o ciúme de Caim, levando-o a matar o próprio irmão.
Na pergunta 669 do Livro
dos Espíritos, Kardec questiona "como foi o homem levado a
crer que os sacrifícios pudessem agradar a Deus?" Os Espíritos
respondem que foi "porque não compreendia Deus como sendo a
fonte da bondade."
No ítem 23 do
primeiro capítulo da Gênese Segundo o Espiritismo, Allan
Kardec comenta que "a parte mais importante da revelação
do Cristo, a pedra angular de sua doutrina, é o ponto de vista todo
novo sob o qual fez considerar a Divindade. Não é mais o Deus terrível,
ciumento e vingativo de Moisés, mas um Deus clemente, soberanamente
justo e bom, cheio de mansuetude e de misericórdia. Não é mais o
Deus de um único povo privilegiado, mas o Pai comum do gênero
humano, que estende a sua proteção sobre todos os filhos e os chama
todos para si. Não é mais o Deus que faz da vingança uma virtude e
ordena pagar olho por olho, dente por dente, mas o Deus de misericórdia
que diz: 'Perdoai as ofensas, se quereis que vos seja perdoado'.
Este não é, enfim, o Deus que quer ser temido, mas o Deus
que quer ser amado."
Sendo assim revelado
por Jesus, Deus não pode desejar o sofrimento dos seus filhos, mas a
sua felicidade e crescimento espiritual. Isso não impede, contudo,
que o Pai permita aos filhos adquirirem experiência a partir dos
resultados de suas condutas na vida. Por essa razão Ele 'dá a
cada um segundo a sua obra', a fim de que aprendamos com os nossos
próprios erros e possamos optar, com segurança, pelo melhor caminho.
Quando o filho pródigo
abandona o lar paterno, na parábola do Evangelho, não é o Pai que
vai puni-lo, mas a sua escolha que o leva a 'comer junto com os
porcos'. Quando 'cai em si' e resolve retornar ao lar paterno, tem que
refazer o mesmo caminho que trilhou, sendo, contudo, recebido pelo Pai
de braços abertos.
Quanto aos males que
cometemos em relação aos outros e a nós mesmos, necessitamos repará-los,
como disse Kardec. Mas nem por isso necessitamos alimentar a nossa culpa
e autopunição, como se o castigo fosse o objetivo de Deus. Na
verdade, a dor não é a finalidade mas apenas o meio
para o reajuste, pois a vontade do Pai é a nossa reabilitação
espiritual e nossa felicidade, e não o nosso sofrimento. Foi por isso
que Jesus, citando o profeta Oséias (6:6), disse várias vezes "misericórdia
quero e não sacrifício" (Mateus, 9:13; 12:7).
O Pai nos perdoa
sempre, mas para sentirmos o Seu Amor divino dentro de nós,
necessitamos, por nossa vez, perdoarmos os nossos semelhantes, pois só
assim conseguiremos seguir em paz na vida. Esse o sentido do 'perdoai
as nossa dívidas assim como nós perdoamos os nossos devedores',
presente na oração do Pai Nosso.
O
Perdão é, assim, a chave de nossa libertação espiritual e,
apesar dos nossos erros e da necessidade de reparação, estaremos
sempre em sintonia com a Fonte Maior da Vida, que é Deus. Estamos no
mundo para perdoarmos e, assim, apagarmos as nossas culpas do
passado sentindo-nos, novamente, de volta à casa do Pai.
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