|
Passemos afinal ao ponto capital deste trabalho e que gira em redor
do último termo em questão: dogma. Diga-se antes de tudo que ele se
origina do verbo grego «dokein» (pensar), significando, na
verdadeira acepção etimológica: pensamento, doutrina, convicção. Os
antigos queriam significar com essa palavra unia firme resolução e
uma decisão de autoridade, quer no campo da Ciência, quer no da vida
do Estado. Neste Último sentido encontramo-la no bojo da própria
Bíblia, como podemos verificar dos seguintes exemplos:
“Se
bem parecer ao rei, decrete-se que sejam mortos, e nas próprias mãos
dos que executarem a obra eu pesarei deles dez mil talentos de prata
que entrem para os tesouros do rei” (Et. 3-9); “Saiu o decreto,
segundo o qual deviam ser mortos os sábios; e buscaram a Daniel e
aos seus companheiros, para que fossem mortos.” “Agora, pois, ó rei,
sanciona o interdito, e assina a escritura, para que não seja
mudada, segundo a lei dos medos e dos persas, que se não pode
revogar” (Dn. 2-13 e 6-8); “Naquele dia foi publicado um decreto de
César Augusto, convocando toda a população do império para
recensear-se” (Lc. 2-1); “Ao passar pelas cidades, entregavam aos
irmãos, para que observassem, as decisões tomadas pelos apóstolos e
presbíteros de Jerusalém.” “Aos quais Jasom hospedou. Todos estes
procedem contra os decretos de César, afirmando ser Jesus outro rei”
(At. 10-4 e 17-7); “Aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na
forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo novo
homem, fazendo a paz” (Ef. 2-15); “Tendo cancelado o escrito de
dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos
era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Cl.
2-14); “Pela fé, Moisés, apenas nascido, foi ocultado por seus pais,
durante três meses, porque viram que a criança era famosa; também
não ficaram amedrontados pelo decreto do rei” (Hb. 11-23).
Ora, com o tempo a palavra foi ganhando sentido mais radical e
acabou por traduzir o ponto fundamental e indiscutível duma doutrina
religiosa e, por extensão, de qualquer doutrina ou sistema. Acabaria
por significar, ainda, o conjunto das doutrinas fundamentais do
Cristianismo, segundo proposta dos alexandrinos. Desde o quarto
século, paulatinamente tem início a restrição do termo às doutrinas
de fé. O dogma, assim, não há de ser palavra tão feia, tal como
muita gente pensa. Até que é bastante inocente. Começa entretanto a
assustar quando é adjetivada. Por exemplo: o dogma católico (“dogma
catholicum”). Ganha então um significado Inteiramente novo e muito
diferente daquele comum, não tanto pelo que exprima, mas pelas
premissas que lhe antecedem a decretação. No caso especifico desse
dogma temos então “uma verdade religiosa revelada sobrenaturalmente
por Deus e, como tal, proposta a crer pela Igreja” (“Teologia
Dogmática”, de Bernardo Bartmann, pág. 15 da 1ª edição brasileira).
E enquanto o clero cuidasse apenas de propor realmente dogmas
cristãos, extraídos do Evangelho, não seria tanto de se condenar sua
atitude, senão apenasmente na parte em que margeia a Razão e
interpreta a BoaNova a porta fechadas, a pretexto dum carismo que se
arrogou arbitrariamente ou da pretensa assistência privilegiada do
Espírito Santo. Por isso, com esse nome a Igreja passou a propor
(antes, impor) uma série de tolices e absurdos, subproduto de
concílios solenes e abusivos decretos papais. Vejamos um pouco mais
o que o erudito Bernardo Bartmann ensina na sua “Teologia
Dogmática”, à página 16 da edição citada:
“Visto que o dogma, tomado em sentido estrito exige a Revelação
sobrenatural, segue-se daí que as verdades que a Igreja ensina, não
hauridas porém naquela fonte, são dogmas impropriamente ditos.”
Note-se que é um respeitável membro do clero que, honestamente, faz
a afirmativa, contrariando, de certa forma, o normal comportamento
da cúpula eclesiástica. Difícil se torna, contudo, convencê-la, a
ela, a Igreja, de quanto se afasta, deliberada ou inocentemente, das
fontes da Revelação na maioria, na grande maioria dos seus dogmas.
Confirmemos, de nossa parte, a imprescindibilidade de que o dogma,
para ser autêntico, tenha de estar contido na Revelação. Nada há de
repugnante, por exemplo, no dogma da existência de Deus. Os
espíritas não podem rejeitar essa afirmativa e têm todos,
igualmente, convicção dessa Verdade. Os que a não têm deixam
automaticamente de ser espíritas, embora sua posição de forma alguma
lhe obste a entrada no reino dos céus.
Há
dois aspectos, entretanto, que já nesta altura não podem deixar de
ser devidamente esclarecidos. O primeiro diz respeito à extensão da
Revelação, em face da qual espíritas e católicos discordam. Enquanto
estes consideram-na, estranhamente, encerrada com a morte de João
Evangelista, o último dos apóstolos, aqueles, considerando as
promessas do próprio Cristo, aceitam a sua complementação
progressiva. Por isso, às vezes, nós, os espíritas, vamos buscar
outros pontos de convicção naquela que é a Terceira Revelação e que,
de resto, não contrariou sequer a primeira ou a segunda, mas apenas
esclareceu-as melhor.
Lembramos aqui que foi a falsa convicção do farisaísmo nos seus
dogmas que encegueceu os seus adeptos e impediu-os de raciocinar
sobre as novas e progressivas verdades que Jesus trouxe ao mundo. No
mais, essa história de afirmar (aliás, gratuitamente) que a
Revelação se encerrou com o Novo Testamento deixa muito mal o
Criador que, nessa hipótese, teria esquecido completamente todos os
povos anteriores ao Cristo, permitindo que somente os que nasceram
de sua época em diante (desde que se neguem as existências passadas
e que o Espírito nasce uma só vez na Terra) viessem a ser premiados
com o conhecimento de verdades maiores ou, antes, das verdades
definitivas sobre tudo e sobre todos. A progressividade espírita da
Revelação não conspurca assim o Criador, apresentando-O como um Ser
realmente Sábio e Perfeito que vai permitindo às Suas criaturas
aprender e evoluir, em todas as épocas, à medida que as Verdades
Eternas lhes vão sendo reveladas.
Mas, mesmo que se quisesse — apenas para argumentar — raciocinar em
torno tão-somente da Revelação Cristã, como a última trazida ao
mundo, ainda assim os pontos de vista espíritas afloram muito mais
natural e fluentemente do que aqueles que precisam de concílios para
ser compreendidos e proclamados. E’ o caso da reencarnação.
O
segundo aspecto que prometemos referir, além da extensão da
Revelação, é o da aplicação da Razão à própria Revelação. E’ assim
que, conforme já frisamos seguidamente, somos racionalistas,
enquanto a Igreja faz aditar à Revelação a chamada Tradição
(símbolos da fé, concílios, escritos dos padres, etc,) a fim de
proclamar os seus dogmas. Daí a cautela da Santa Madre: “Há limites
que a especulação não pode transpor sem perigo para o dogma”
(“Teologia Dogmática”, página 113). A Igreja, como já vimos, não
admite a aplicação da Razão aos dogmas que ela propõe, esquecida de
que, nos concílios, é o puro racionalismo que em última análise
orienta os debates e faz gerar as soluções decretadas. E se assim
não fora teríamos o caos das idéias no seu mais amplo sentido.
O
Espiritismo alia a Razão pura à Revelação, objetivando a proposição
dos seus postulados. E como também reconhece alguns limites à
especulação, faz assentar o seu exame das Verdades nos fatos que ela
encerra, quer direta, quer indiretamente. E’ aqui que o Espiritismo
se engrandece e torna suas convicções mais sensatas, mais sábias,
mais lógicas e menos confutáveis. Deus existe, dogmatiza a Igreja,
porque assim consta da Revelação, porque assim expressa a Tradição e
porque assim o magistério “infalível” da Igreja o proclamou. Deus
existe — afirma o Espiritismo — porque assim consta da Revelação,
porque assim compreende a nossa Razão e porque assim os fatos o
comprovam. “O Espiritismo — sentencia Kardec — não estabelece como
princípio absoluto senão o que se acho evidentemente demonstrado, ou
o que ressalta logicamente da observação” (“A Gênese”, pág. 42 da
13ª edição da FEB) – “Que autoridade tem a revelação espírita — diz
ainda o Mestre — uma vez que emana de seres de limitadas luzes e não
infalíveis? A objeção seria ponderosa, se essa revelação consistisse
apenas no ensino dos Espíritos, as deles exclusivamente a devêssemos
receber e houvéssemos de aceitá-la de olhos fechados. Perde, porém,
todo valor, desde que o homem concorre para a revelação com o seu
raciocínio e o seu critério, desde que os Espíritos se limitam a
pô-lo no caminho das deduções que ele pode tirar da observação dos
fatos” (“A Gênese”, págs. 44/45, da edição citada).
Quanto à Tradição, é óbvio que o Espiritismo também lhe empresta
algum respeito, se considerada no sentido restrito do conjunto das
verdades reveladas que os apóstolos pregaram sem as deixar escritas.
Repele-a, entretanto, no sentido odioso que lhe empresta a Igreja,
quando afirma: “Ao magistério infalível da Igreja cabe discernir, em
última instância, quais tradições são de origem divina, quais de
origem humana” (“Os Dogmas da Fé”, de João Pedro Junglas, pág. 51 da
3ª edição de “Vozes”) - Ou: “O critério pelo qual se reconhece a
bíblia verdadeira, é a tradição apostólica que a Igreja sanciona
pelo magistério infalível” (idem, ibidem pág. 51). Como vemos, há um
“magistério infalível” (?!) que julga em última instância o valor da
Tradição. Porque a sanção é só e exclusivamente da Igreja? Além do
mais, à guisa de apor essa sanção, o clero passou, de repente, não
apenas a sancionar os dogmas do Evangelho, mas a fazer também
Revelação, autoridade para a qual, nem com muito boa vontade,
conseguimos lobrigar na mensagem do Cristo. E’ certo que Jesus falou
na descida do Espírito Santo, mas apenas para dizer que ele desceu
sobre o colégio apostólico a fim de dar força e sabedoria aos
pregadores da Boa-Nova e não para que fizesse qualquer Revelação. E,
de fato, a própria Igreja não se considera com essa autoridade, pois
“não compôs nenhum livro sagrado, porque não é, inspirada, mas sim
interpreta os livros sagrados porque é assistida pelo “Espírito
Santo”, como afirma Caussette. Não é mentira que São Bernardo
escreveu uma vez que a Igreja, como Esposa do Cristo, tem o Espírito
Santo e pode infundir um sentido novo no escrito. Contudo,
reconheçamos que, de direito, a Igreja jamais se arrogou esta
autoridade e a opinião de São Bernardo permanece uma voz isolada.
Seu procedimento, entretanto, é paradoxalmente outro, pois mais não
tem feito, na prática, do que agir conforme diz que não deve agir.
Se reconhece que não tem a autoridade para fazer revelação, como
pois nos vem inspirar dogmas como o da Santíssima Trindade, da
infalibilidade Papal, da Ascensão db Nossa Senhora, do Purgatório,
do Pecado Original, etc.? Não foi sem razão que Lutero acusou a
Igreja de arrogar-se o poder absolutista sobre a Escritura:
“Vangloriam-se de que o Papa e a sua Igreja estão acima da Sagrada
Escritura. O Papa teria o poder de mudá-la, suprimi-la, proibi-la,
interpretá-la a seu bel-prazer.”
O
Espiritismo está pronto a aceitar todas as verdades contidas no
Evangelho e, mesmo assim, depois de examinadas racionalmente.
Perguntar-se-á, porém: mas, em que termos a Razão de que tanto
falamos deverá ser aplicada? Qual o critério para esse exame? Que,
espécie de Razão deverá servil de fiel de balança: a dos Espíritos
ou a dos Concílios? Adolfo Bezerra de Menezes, o apóstolo do
Espiritismo no Brasil, ensina-nos na sua obra “A Doutrina Espírita
como Filosofia Teogônica” (reeditada com o título de “Uma Carta de
Bezerra de Menezes”): “Temos um critério infalível para o
conhecimento da pura verdade. Temos esse critério nas perfeições
infinitas do Criador. Tudo que as exaltar é pura verdade. Tudo que
as rebaixar épura mentira. E, por esse critério, podemos verificar
quais os princípios de nossa religião que são verdades, quais os que
são mentiras” (págs. 61/62 da 1ª edição da FEB).
O
grande equívoco da Igreja não está em apontar dogmas, mas em apontar
determinados dogmas que não constam da Revelação ou que são produtos
de interpretações distorcidas, distanciadas da grandeza de Deus e
capazes de rebaixá-Lo. E’ o caso do Inferno, com a crença em
Satanás, um ser e uma imagem que, apresentados tão poderosos quanto
o próprio Deus, conseguem até desafiá-Lo, diminuindo-O e
desmerecendo-O portanto (aqui temos uma falsa interpretação
evangélica). Ou, então, no caso da vida única, que minimiza o
Criador, apresentando-O injusto com os que não quis gerar perfeitos
física, intelectual e moralmente (aqui temos uma afirmativa que não
existe na Revelação).
A
própria Igreja chama “veritates catholicae” (verdades católicas)
àquelas que não estão contidas na Revelação e que, portanto, não
podem ser consideradas dogmas. As verdades católicas constituem
apenas as “doctrinae ecclesiasticae” (doutrinas eclesiásticas), para
distinguir das “doutrinas divinas” da Revelação. Contudo, a questão
se revela facciosa por completo, quando verificamos que, apesar
dessa doutrina, a Igreja apresenta como dogma exatamente o que se
não acha nas Escrituras, contrariando portanto os seus próprios
preceitos que, por isso mesmo, não passam de temas de fancaria. E’ o
caso flagrante da infalibilidade papal. No mais, a Igreja cuida de
defender sua posição de todos os modos, pois mesmo em relação às
“verdades católicas” não esqueceu de garanti-las com a
característica da infalibilidade. “Os concílios gozaram sempre o
prestigio de uma autoridade infalível” — afirma Bernardo Bartmann à
pág. 65 da sua “Teologia Dogmática”. Em última análise temos,
destarte, a troca dos nomes apenas; os bois são sempre os mesmos.
Segundo o Espiritismo, todos são aptos à interpretação evangélica,
desde que os resultados alcançados suportem a crítica da Razão, não
repilam o bom-senso universal nem contrariem a verdade experimental
dos fatos. E — frisemos bastante — a crítica da Razão (isto é, pela
Razão) deve necessariamente engrandecer e exalçar Deus e nunca
rebaixá-Lo!
Há
ainda um outro ângulo a ser considerado na questão: o texto original
da Revelação. O Concílio de Trento estabeleceu “que esta velha e
divulgada versão (“vetus et vulgata editio”), provada pelo uso de
tantos séculos na Igreja, nas leituras públicas, disputas,
pregações, seja considerada como autêntica (“pro authentica habeatur”),
e ninguém ouse ou presuma rejeitá-la a qualquer pretexto” (“Enchiridion
Symbolorum et Definitionum”, página 785). A respeito, comenta
Bartmann no seu trabalho teológico: “O elemento essencial da decisão
conciliar deve-se procurar no sentido da palavra “autêntica”. Em si,
não significa conformidade com o texto original da Bíblia, mas
reconhecimento da parte da Igreja” (pág. 47, edição citada). Como
vemos, a Igreja, além do mais, fechou definitivamente a questão em
torno até mesmo do texto bíblico, em relação ao qual não admite nada
que se lhe prove contrariamente ao que, da sua parte, já reconheceu
como autêntico. Isto já é, queiram ou não queiram, colocar-se
realmente acima da própria Revelação!
Dissequemos o problema do dogma com mais profundidade ainda. A
teologia dogmática, que já analisamos em parágrafos anteriores,
cumpre três deveres distintos: a) apresentar o dogma como é
atualmente no ensino da Igreja, extraindo-o das chamadas fontes
simbólicas; b) prová-lo com a Escritura e a Tradição; e)
aprofundá-lo especulativamente, quanto possível.
Não
é difícil verificar que o processo de apresentar, provar e
aprofundar é sempre de natureza racional, a despeito da repulsa da
Igreja ao sistema racionalista. Mas vamos adiante. Na apresentação
do dogma, é recomendada a atenção aos seus próprios escritos. Na
prova são aconselhadas “as normas científicas usadas hoje pela
exegese e tantas vezes recomendadas pela Igreja” (“Introduzione allo
Studio dei Dogma”, de Glorieux, edição Paulina de 1951). No
aprofundamento é recomendada a fé como ponto de partida, além dum
ângulo ou crivo filosófico que não seja outro senão o do
aristotelismo escolástico, indicado nas encíclicas “Aeterni Patris”,
de Leão XIII, de 1879, e “Humani Generis”, de Pio XII, de 1950.
Repare-se que, na hora de “apresentar” o dogma, a grande fonte é
sempre o ensino da própria Igreja e os chamados escritos simbólicos,
também dessa mesma Igreja. Para isso ela impõe o uso duma linguagem
teológica fixa, “pois se cada teólogo quisesse criar um vocabulário
próprio, resultaria uma tremenda confusão” (“Enchiridion Symboiorum
et Defínitionum”, págs. 159, 161, 442 e seguintes). Impõe ainda que
se evite “a novidade profana de palavras” e, citando Santo
Agostinho, obriga o uso “duma regra determinada para que o uso
arbitrário dos termos não venha a criar uma opinião errônea sobre o
que designam”. A isto chamam “apresentar o dogma na sua verdadeira
realidade”. Como vemos desde logo, é praticamente dogmatizar antes
mesmo de apresentar o próprio dogma. Repare-se em seguida que, na
hora de “provar” o dogma, só tem valor a exegese católica, o que
evidencia uma condição “a priori”, profundamente repugnante. A prova
que não trilhe a norma da ciência católica, não serve nunca.
Finalmente, repare-se que a especulação só se permite através duma
determinada escola filosófica, qual seja, a do aristotelismo
escolástico, o que seria o mesmo se nós, espíritas, propuséssemos:
aceitaremos a doutrina católica, desde que nos convençam dos seus
postulados através unicamente da escola filosófica dos materialistas
... Um beco sem saída. Além disso tudo, quando a fé é imposta como
princípio diretivo da especulação, poder-se-ia certamente indagar:
que fé? A fé cega, sem dúvida, tão sem valor e sem convicção
interior. No mais, como seria possível a fé (apesar de cega) numa
verdade que ainda vai ser proclamada pela teologia dogmática, depois
daquelas três exigências? Afinal, é a Verdade que gera a fé ou a fé
que gera a Verdade? Parece que estamos, agora, dentro dum círculo
vicioso.
O
processo espírita é muito diferente. E, antes de examiná-lo, leiamos
rapidamente esse conceito de Léon Denis, contido em “O Problema do
Ser, do Destino e da Dor”, à pág. 30 da 8ª edição da FEB:
“Hoje, já não basta crer; quer-se saber. Nenhuma concepção
filosófica tem probabilidade de triunfar, se não tiver por base uma
demonstração que seja, ao mesmo tempo, lógica, matemática e
positiva, e se, além disso, não a coroar uma sanção que satisfaça a
todos os nossos instintos de justiça.” Um pouco antes, à pág. 28,
lemos: “O novo espiritualismo dirige-se, pois, conjuntamente, aos
sentidos e à inteligência. Experimental, quando estuda os fenômenos
que lhe servem de base; racional, quando verifica os ensinamentos
que deles derivam, e constitui um instrumento poderoso para a
indagação da verdade, pois que pode servir simultaneamente em todos
os domínios do conhecimento “ Em nota elucidativa ao pé da pág. 32,
afirma: “Os fatos não têm valor sem a razão que os analisa e deles
deduz a lei.” “Por conseguinte, o método que se impõe é: 1º) a
observação dos fatos; 2º) a sua generalização e a investigação da
lei; 3º)a indução racional que, além dos fenômenos fugitivos e
mutáveis, percebe a causa permanente que a produz,” Assim — podemos
agora repetir com ênfase — o método espírita tem a seu favor, no
enunciado da Verdade, esse caminho novo e todo especial, embora
muito simplista: a Razão e os Fatos experimentais, de¬pois,
obviamente, da Revelação. Nesse sentido é que o Espiritismo também
tem seus dogmas, como aliás bem acentuou o nosso brilhante e
estudioso confrade Carlos Imbassahy, no seu excelente trabalho
intitulado “Religião”, quando diz, à pág. 156 da edição de 1952, da
FEB: “Nem ao dogma, talvez, se fugisse, visto que, para o
espiritista, a existência de Deus é ponto fundamental e
indiscutível”. A esse método aliemos ainda o criticismo kantiano no
seu aspecto mais extraordinário, do ponto de vista do conhecimento,
qual seja o da impossibilidade de se conhecer toda a verdade através
da razão. Isto pode parecer paradoxal, mas não o é. Vamos mais uma
vez tentar explicar porquê. Lembremo-nos de que Kant admitiu, como
necessário, não apenas Deus, mas também a existência e imortalidade
do Espírito, embora não nos fosse possível apreender a essência
dessas duas grandes verdades. Ora, não é isto exatamente o que nos
ensina o Espiritismo ? Não é isto que consta, como já vimos, de “O
Livro dos Espíritos”?
O
próprio Kant acabaria sendo considerado paradoxal, se não fosse
levada em conta, com bastante inteligência, a sua filosofia. Entre a
“Crítica da Razão Pura” e a “Critica da Razão Prática” há um abismo
para o estudioso desprevenido. No primeiro, Kant destrói a
metafísica científica “para em seu lugar elevar-se a metafísica da
fé. Do cristianismo da razão pura, passa Kant ao dogmatismo moral”
(“Noções da História da Filosofia”, do padre Leonel Franca, pág. 178
da 12ª edição da AGIR). Após a publicação da “Crítica da Razão
Pura”, Reinhold disse que a obra foi proclamada pelos dogmatistas
como a tentativa dum céptico para abalar e certeza de todo o
conhecimento; pelos cépticos, como um trabalho arrogante,
presunçoso, visando a erigir nova forma de dogmatismo sobre as
ruínas dos sistemas anteriores; pelos supernaturalistas, como um
artifício habilmente maquinado para afastar os fundamentos
históricos da Religião e estabelecer sem controvérsias o
naturalismo; pelos naturalistas como um novo alento à agonizante
filosofia da fé; pelos materialistas, como uma confrontação
idealista da realidade da matéria; pelos espiritualistas, come uma
injustificável confinação da realidade do mundo corpóreo, escondido
com o título de domínio de experiência.
Ora, se o kantismo é capaz de ser ao mesmo tempo criticista e
dogmático, porque não o pode também o Espiritismo? Considere-se
ainda que este além do mais, joga com fatores absolutamente
estranhos ao kantismo e que facilita sobremodo e compreensão do
aparente paradoxo. A Doutrina dos Espíritos envolve dois campos do
conhecimento: o dos encarnados e o dos desencarnados, provando
experimentalmente essa dupla posição da existência e do pensamento
das criaturas. Isto facilita muitos problemas. O Espírito
desencarnado pode conhecer, muitas vezes, algumas verdades a mais
que na condição de encarnado, lhe estariam veladas à sua razão
relativa. Aqui ele se sujeita ao criticismo, e do lado oposto da
vida, falando-se em tese ele não está mais tão fortemente sujeito a
esta condição. Admitido o intercâmbio entre os dois mundos, teremos
então atingidas algumas verdades antes incognoscíveis na sua
essência.
Voltemos agora ao raciocínio inicial. Por tudo isso, nada há de
estranho na afirmativa de Kardec de que o Espiritismo tem alguns
dogmas. Trata-se entretanto, de alguns poucos pontos fundamentais da
Doutrina, contido. na Revelação Cristã, na Revelação kardecista e em
outras, dignas de respeito como é o caso da “Revelação da
Revelação”, de Roustaing. A Razão e a Lógica os sancionam. Os Fatos
os comprovam. A universalidade dos estudiosos os atestam. Não há,
pois, porque temer a palavra, se encaramo-la do ponto de vista que
de fato encerra a sua etimologia: pensamento: convicção doutrina.
Nenhum espírita pode negar a Deus. Nenhum espírita pode negar a
comunicação entre vivos e mortos. Nenhum espírita pode negar a
imortalidade da alma. São dogmas, porém, concluídos diferentemente
da Igreja Católica, por tudo o que vimos expondo até aqui. Não são
decretados por uma autoridade humana, por um concilio ou por uma
reunião do bispado. Nem tão-pouco são votados por um grupo qualquer
que, em assembléia fechada, decide pretensiosamente o que é ou não é
verdade. O que se deve temer não é propriamente o termo dogma, mas,
antes, o termo dogmática. “A Teologia Dogmática é a fonte por onde
se passa do regime de liberdade para o de escravidão” disse com
muita propriedade o Padre Alta no seu livro “O Cristianismo do
Cristo e dos seus Vigários”, à pág. 814 da edição de 1951 da FEB.
Através da dogmática é que surgem até hoje os dogmas mais absurdos
da Igreja Católica. Com seu critério dogmático a Santa Madre impõe o
Juízo Final, o Inferno, a Santíssima Trindade, a infalibilidade do
Papa, e uma série imensa de outras ilogicidades. Através da
dogmática a Igreja manietou a Razão, violentou as consciências e
inventou um rosário de dogmas “católicos”. Com eles conspurcou o
verdadeiro Cristianismo, enceguecendo-se ante as novas verdades que
o Consolador Prometido trouxe à Humanidade e viciando-se na mentira
e na simonia. Buscando aflita uma saída para sua incrível e
insustentável posição filosófica, agarrou-se a uma moderna
“interpretação progressiva” do dogma, preparando o caminho para uma
fuga estratégica futura, mas, de qualquer forma, envencilhada num
inextricável emaranhado que a esgotará paulatinamente e pouco a
pouco lhe exaurirá até as últimas forças.
Este trabalho não deveria terminar aqui. Deveríamos aprofundar
alguns dos muitos pontos necessariamente passíveis de maiores
esclarecimentos; entretanto, essa tarefa não a comportam as páginas
limitadas do “Reformador”. Apenas para rematar, reafirmemos esta
breve sinopse de toda e matéria abordada:
1 —
O Espiritismo se enquadra no dogmatismo filosófico moderado, por
entender que a criatura, em determinadas circunstâncias, pode
alcançar a Verdade absoluta. (Leia-se, a propósito, nosso artigo
intitulado “Ao Encontro de Deus”, publicado em “Re¬formador” de
Novembro de 1962.)
2 —
O Espiritismo repele a teologia dogmática dos católicos por lhe
negar os critérios de verdade que adota e o sistema aplicado na
proclamação dos seus dogmas.
3 —
O Espiritismo possui alguns poucos dogmas extraídos das Revelações
Divinas, aceito porém pela Razão, quando esta não minimiza Deus nos
Seus juízos e quando são confirmados experimentalmente pelos Fatos.
4 —
O Espiritismo admite o criticismo transcendental kantiano, por
conceber que há verdades impossíveis de, no estado atual dos
encarnados (e às vezes, também dos desencarnados), serem assimiladas
tais quais são, pela Razão limitada e relativa das criaturas.
" Não foi à-toa que o Cristo lembrou a importância da prece e da
vigilância. Os desafios são muitos e estonteantes. É preciso, porém,
aceitá-los corajosamente, dar-lhes respostas adequadas. Na atual
fase do Espiritismo, o seu movimento está sendo desafiado
mortalmente e perecerá se não responder à altura."
LUCIANO DOS ANJOS - (O Atalho, 33)
|