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O
casal, no banco de trás, conversava sobre o velho problema da
habitação. Eram ambos maduros e haviam, por certo, chegado àquele
estágio da vida em que, sem haverem conquistado a opulência,
possuíam o suficiente para uma existência confortável.
Dizia ele que precisavam definir-se. Na hipótese de acharem que não
valia a pena comprar o novo apartamento, então cuidariam de reformar
o velho e transformá-lo em habitação mais condigna. Não; o
apartamento no Leblon, madame não o queria; era muito distante da
cidade.
- E
que tem isso? Perguntou o marido. Você só vai à cidade uma vez por
mês...
-
Não tem importância. Não é só por mim - é por você também, que vai
todos os dias.
Vistos e discutidos os autos, no final da conversa prevaleceu a
idéia de uma reforma no atual apartamento.
Ele
declarou que chamaria um profissional competente para fazê-la, e não
um simples “curioso”.
E
daí o assunto morreu e passaram a outro.
A
conversa que, involuntariamente, eu presenciara na minha condição de
vizinho de banco, me deixou a pensar.
Será que o casal tão simpático cuidava com aquele mesmo interesse da
futura habitação no lado de lá da vida? A pergunta tem certo
cabimento. Muitos de nós, distraídos na rotina da existência
material ou até mesmo sufocados e iludidos pelas suas aparências,
deixamos passar, no tumulto dos dias que correm, excelentes
oportunidades de meditação e preparo do destino que nos espera no
Além.
Não
digo que se deva abandonar o cuidado das coisas desta vida. Ao
contrário; nada impede que, através do trabalho honesto e constante,
conquistemos algum conforto material, sem luxo, sem exageros. Mas
também, não vamos subordinar as coisas do espírito, que são
permanentes, às do mundo físico que são transitórias, fugidias e
enganadoras.
Nada mais sábio, pois, que não deixemos perder de vista o estudo da
feição que desejamos dar à nossa vida futura. Sim, porque poderemos,
seguramente, criar nosso futuro ambiente na espiritualidade,
escolher agora os amigos que vamos encontrar lá, decidir agora se
preferimos descer às esferas de angústia e sombra, ou subir até
aquelas onde reinam a paz, o amor, a harmonia e a luz. Basta estudar
com atenção e praticar, com inteira convicção e abandono de si
mesmo, as normas sublimes do Evangelho de Jesus. Não o Evangelho
obscurecido, mas libertado das interpretações deformadas que os
homens lhe emprestaram. Temos que ir buscar as palavras do Mestre na
pureza original de sua fonte viva, lembrando-nos sempre de que ele
não instituiu dogmas, nem pregou a intolerância - limitou-se a
ensinar e exemplificar o amor e a caridade. Em sua magnífica
pregação, colocou a fé legítima e o puro exercício da caridade,
acima de seitas e tendências pessoais. Dentre os inúmeros exemplos,
basta lembrar a parábola do Samaritano que, sem ser um purista
ortodoxo, socorria, penalizado, o pobre ferido na estrada deserta,
enquanto o homem, no qual se presumia a observância da lei, passava
indiferente. Ou aquele episódio - tão belo! - em que o centurião
romano declarou humilde: “Senhor! Não sou digno de que entres em
minha casa. Dize apenas uma palavra e meu servo será curado”.
Lembram-se da observação de Jesus? “Jamais encontrei tanta fé em
Israel”, disse ele.
Estas são idéias que nos ajudam a planejar o nosso futuro lar
espiritual. O pensamento tem uma tremenda ação criadora, como temos
visto, não somente em livros espíritas, como na literatura inspirada
na psicologia moderna. Assim como o trabalho contínuo e produtivo
cria para nós condições para conquista de um teto material, o
trabalho constante da caridade, do estudo, do aperfeiçoamento moral,
da luta permanente, sem tréguas, contra os nossos defeitos, lança os
alicerces da nossa residência espiritual. Esse programa é condição
básica, se é que, de fato, aspiramos a palmilhar o caminho da
evolução. Como teremos fatalmente que deixar este mundo - às vezes
mais cedo do que esperamos -, é bom que tratemos do planejamento da
vida futura, cujas condições são decididas aqui mesmo, pelas nossas
ações. Não nos restará nem mesmo o recurso daquele amável casal do
lotação que, na hipótese de não se mudarem para o novo apartamento,
poderiam sempre reformar o que já possuíam e fazê-lo mais
confortável. Em nosso caso pessoal, teremos que mudar mesmo,
deixando entregues, à terra amiga e generosa, o nosso velho
“apartamento” somático, que não mais serve à sua nobre função de
sustentáculo material do Espírito e de seu instrumento de trabalho
neste planeta.
Vamos, então, planejar agora nossa futura habitação espiritual,
escolhendo como roteiro sublime o ensinamento insuperável de Jesus e
a obra lúcida de Allan Kardec e seus continuadores.
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