O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Conversa de Lotação

Autor:
João Marcus
Pseudônimo de Hermínio C. Miranda

Fonte:
Livro: Candeias na Noite Escura

ARTIGOS

     

O casal, no banco de trás, conversava sobre o velho problema da habitação. Eram ambos maduros e haviam, por certo, chegado àquele estágio da vida em que, sem haverem conquistado a opulência, possuíam o suficiente para uma existência confortável.

Dizia ele que precisavam definir-se. Na hipótese de acharem que não valia a pena comprar o novo apartamento, então cuidariam de reformar o velho e transformá-lo em habitação mais condigna. Não; o apartamento no Leblon, madame não o queria; era muito distante da cidade.

- E que tem isso? Perguntou o marido. Você só vai à cidade uma vez por mês...

- Não tem importância. Não é só por mim - é por você também, que vai todos os dias.

Vistos e discutidos os autos, no final da conversa prevaleceu a idéia de uma reforma no atual apartamento.

Ele declarou que chamaria um profissional competente para fazê-la, e não um simples “curioso”.

E daí o assunto morreu e passaram a outro.

A conversa que, involuntariamente, eu presenciara na minha condição de vizinho de banco, me deixou a pensar.

Será que o casal tão simpático cuidava com aquele mesmo interesse da futura habitação no lado de lá da vida? A pergunta tem certo cabimento. Muitos de nós, distraídos na rotina da existência material ou até mesmo sufocados e iludidos pelas suas aparências, deixamos passar, no tumulto dos dias que correm, excelentes oportunidades de meditação e preparo do destino que nos espera no Além.

Não digo que se deva abandonar o cuidado das coisas desta vida. Ao contrário; nada impede que, através do trabalho honesto e constante, conquistemos algum conforto material, sem luxo, sem exageros. Mas também, não vamos subordinar as coisas do espírito, que são permanentes, às do mundo físico que são transitórias, fugidias e enganadoras.

Nada mais sábio, pois, que não deixemos perder de vista o estudo da feição que desejamos dar à nossa vida futura. Sim, porque poderemos, seguramente, criar nosso futuro ambiente na espiritualidade, escolher agora os amigos que vamos encontrar lá, decidir agora se preferimos descer às esferas de angústia e sombra, ou subir até aquelas onde reinam a paz, o amor, a harmonia e a luz. Basta estudar com atenção e praticar, com inteira convicção e abandono de si mesmo, as normas sublimes do Evangelho de Jesus. Não o Evangelho obscurecido, mas libertado das interpretações deformadas que os homens lhe emprestaram. Temos que ir buscar as palavras do Mestre na pureza original de sua fonte viva, lembrando-nos sempre de que ele não instituiu dogmas, nem pregou a intolerância - limitou-se a ensinar e exemplificar o amor e a caridade. Em sua magnífica pregação, colocou a fé legítima e o puro exercício da caridade, acima de seitas e tendências pessoais. Dentre os inúmeros exemplos, basta lembrar a parábola do Samaritano que, sem ser um purista ortodoxo, socorria, penalizado, o pobre ferido na estrada deserta, enquanto o homem, no qual se presumia a observância da lei, passava indiferente. Ou aquele episódio - tão belo! - em que o centurião romano declarou humilde: “Senhor! Não sou digno de que entres em minha casa. Dize apenas uma palavra e meu servo será curado”. Lembram-se da observação de Jesus? “Jamais encontrei tanta fé em Israel”, disse ele.

Estas são idéias que nos ajudam a planejar o nosso futuro lar espiritual. O pensamento tem uma tremenda ação criadora, como temos visto, não somente em livros espíritas, como na literatura inspirada na psicologia moderna. Assim como o trabalho contínuo e produtivo cria para nós condições para conquista de um teto material, o trabalho constante da caridade, do estudo, do aperfeiçoamento moral, da luta permanente, sem tréguas, contra os nossos defeitos, lança os alicerces da nossa residência espiritual. Esse programa é condição básica, se é que, de fato, aspiramos a palmilhar o caminho da evolução. Como teremos fatalmente que deixar este mundo - às vezes mais cedo do que esperamos -, é bom que tratemos do planejamento da vida futura, cujas condições são decididas aqui mesmo, pelas nossas ações. Não nos restará nem mesmo o recurso daquele amável casal do lotação que, na hipótese de não se mudarem para o novo apartamento, poderiam sempre reformar o que já possuíam e fazê-lo mais confortável. Em nosso caso pessoal, teremos que mudar mesmo, deixando entregues, à terra amiga e generosa, o nosso velho “apartamento” somático, que não mais serve à sua nobre função de sustentáculo material do Espírito e de seu instrumento de trabalho neste planeta.

Vamos, então, planejar agora nossa futura habitação espiritual, escolhendo como roteiro sublime o ensinamento insuperável de Jesus e a obra lúcida de Allan Kardec e seus continuadores.