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Parte
I
Misturando
trivialidades na geléia de inconsistente autoridade, por
vezes fala-se e escreve-se sobre conscientização, mas nem
sabem, conscientemente, do que realmente se trata.
O
conceito é objeto de quase todas as escolas filosóficas e não
são raras as noções apresentadas pela filosofia contemporânea,
sendo que a mais importante abordagem pertence sem dúvida à
fenomenologia de Edmund Husserl (Idéias sobre uma
Fenomenologia Pura). Contudo,
é brilhante a colocação que encontramos no último sistema
fechado que encanta a história da filosofia, aquele proposto
por Fiedrich Hegel, no início do século passado.
Nos seus termos, o gênio de Stuttgart define o “espírito
do mundo” como um rio correndo na direção duma
conscientização cada vez maior de autoconhecimento e
autodesenvolvimento até a conquista da liberdade absoluta, na
unificação do espírito humano com o divino.
Mas são poucos os que se animam a conhecer as idéias
de Hegel, ainda mais que se trata de filósofo às vezes
bastante obscuro, pronto a ensejar discípulos à direita e à
esquerda e que, na minha opinião, por essa exata circunstância,
creio que fosse a reencarnação de Heráclito de Éfeso (séc.
VI AC). E
enquanto não é fácil entender de Hegel e de conscientização,
nos meios espíritas dela se cogita, bisonhamente, para
exercer o direito de escrever parlapatices e divulgar droláticos
textos, em eloquente demonstração de chatice.
Sem melhor inspiração, o alvo ideal é a revelação
coordenada por Jean-Baptiste Roustaing e contida na obra Os
Quatro Evangelhos, editada, por enquanto apenas, pela
Federação Espírita Brasileira.
Turbinados pela incompetência cultural e histórica,
xerografam os mesmos argumentos azinhavrados de meio século
atrás, cediços, postiços e mortiços.
A única diferença é que o coro de hoje soa
magnificamente muito mais ruim.
Conscientizaram-se as bobagens e os ineptos se
coreografam numa batida funk, monótona e tautossilábica.
Um dos tantos excitados é consagrado pelo livro que
publicou em 1979 e no qual revela em letras austeras que
conheceu Allan Kardec reencarnado, porque era ele o seu próprio
pai. Deixou os
originais de um novo “O Livro dos Espíritos” para ser
publicado no futuro. O
outro buliçoso funkeiro do espiritismo é cheio de penosas
“neuras” e se especializou em falar daquilo que nem
conhece, como o opúsculo mandado publicar pelos discípulos
de Roustaing e, mais tarde, encartado na 2a tiragem
de “Les Quatre Evangiles”.
A tradução da FEB, de 1920, calcada por Guillon
Ribeiro naquela tiragem, incluía o trabalho, inexistente na 1a
tiragem de 1866. Nas
edições seguintes em português, foi coerentemente suprimido
o encarte. E então,
o anti-rustenista mais novato, em matéria tonificada por
disparates, viu nessa medida da FEB um escândalo editorial;
seu furo de reportagem ( na sua travessura ele pensa que foi o
primeiro a notar a supressão) chegou a ser considerado
“ouro em pó”, num estilo de jornalismo tão provinciano
quanto a própria “boutade”.
Já publiquei considerações sobre essa questão
(amplamente examinada em meu livro “A Posição Zero”) e,
baseado nelas, o Reformador de dezembro de 1994 restabeleceu a
verdade histórica dos fatos.
O ouro em pó não passou de pirita ou, como se diz
popularmente pelo interior do país, ouro dos trouxas, ouro
dos bobos. Aliás,
esse funkeiro é demais complicado e tem o vezo de se afobar
quando busca os holofotes, momentos em que sempre derrapa a
meio caminho entre a tragédia e a comédia.
Seu caso é de pavilhão, que por sinal estão sendo
desativados... Enquanto
isso, roda por aí se oferecendo sem convite para ocupar as
tribunas, nas quais se embanana todo, em dolorosa ideofrenia.
Quem não o conhece, arrisca.
Quem odeia Roustaing acha sensacional.
Continua
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