O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Gloria In Excelsis Deo (O Cristo no Corcovado)

Autor:
Humberto de Campos

Fonte:
Livro: Os Párias

ARTIGOS

     

Conta o evangelista Mateus que, achando-se Jesus no Deserto, aonde o levara o Espírito Santo, imediatamente após o batismo nas águas vadias do Jordão, ali apareceu o Diabo, que ia tentá-lo. Depois de o ter intimado, num desafio, a transformar as pedras em pão, e de o ter transportado até o templo, em Jerusalém, conduziu-o, o Demônio, ao píncaro de um alto monte, do qual se viam todos os reinos do mundo, com todo o seu lustre e toda sua glória.

- Tudo isto que vês - disse-lhe o Maldito - será teu, se, prostrando-te por terra, me adorares!

Jesus, estendendo os olhos doces pela vastidão do planeta, viu, lá embaixo, as cidades fervilhantes de homens e os desertos fervilhantes de feras. Viu as metrópoles irmãs de Babilônia, viu Roma pagã, viu Alexandria mergulhada na baba do pecado, e viu os desertos de areia loura, para os lados da Arábia. Recolheu, porém, o olhar à alma, como quem guarda um punhal na sai bainha, e ordenou ao Diabo:

- Retira-te, Satanás; que escrito está: Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a Ele servirás.

E Satanás, derrotado, rugiu e desapareceu.

Estava anunciado para ontem, o aparecimento de Jesus, de braços abertos, no alto do Corcovado. Símbolo humano ou divino, de bondade e beleza, devia ele aparecer lá em cima, banhado de sol ou das lâmpadas acesas por Marconi na Itália católica e longínqua, protegendo a cidade. Mas a chuva, dia e noite, caiu do céu. Os fios d´água, estreitos e longos, desfiando-se do casulo imenso das nuvens, teceram um véu espesso e frio, isolando o Senhor nas alturas. Milhares de peregrinos, vindos de longe, na esperança do espetáculo soberbo, orgulho novo da sua fé, tiveram de permanecer nos quartos dos hotéis, assistindo ao dilúvio. Alguns deles, de alma simples e doce, perguntaram, com certeza, no silêncio do seu coração:

- Senhor, que te fizemos nós? Esta festa brasileira e cristã não será, porventura, do teu agrado? Se tens nas tuas mãos, que seguram as rédeas do Universo, o sol e a chuva, por que nos mandaste chuva, quando te pedíamos o sol para te glorificar? Um dia, no monte Carmelo, diante do Rei Acab, Elias invocou a Jeová, teu Pai, pedindo-lhe que fizesse arder a lenha molhada sobre o altar do sacrifício, a fim de confundir os sacerdotes de Baal. E ele desceu do céu; e a lenha ardeu; e o povo de Israel, que já não cria, prostrou-se com o rosto na terra, gritando, tomado de terror e fé: “Só o Senhor é Deus!” Por que, pois, nos abandonaste, quando precisávamos de ti para convencer os que não crêem e fortalecer os que duvidam, provando-lhes que estavas conosco na tua festa, e que Jesus, a que glorificamos, é, na verdade, filho de Deus?

A chuva, porém, há de passar. Hoje à noite, ou amanhã, Cristo resplenderá nas alturas, abençoando a sua cidade. E eu, miserável pecador, que raramente o vejo, vê-lo-ei, aqui debaixo, com as últimas brasas dos meus olhos que se vão apagando. Vê-lo-ei, como o viram os dois discípulos no caminho de Emaús. Vê-lo-ei, como o viram os apóstolos, que repartiam, com ele, o seu pão. Vê-lo-ei como o viu Pedro da Galiléia. Vê-lo-ei, sobretudo, como o viu Tomé, em Jerusalém. E vê-lo-ei de modo ainda mais prodigioso, porque, se Tomé creu porque viu, eu, - ai de mim! - eu, o cético sem remédio, eu, o manso rebelado sem cura, eu, o último filho de um século que bebeu veneno no berço, eu não creio, nem mesmo vendo!

Não pertencendo ao número seleto dos teus apóstolos ou dos teus discípulos, eu não sou, todavia, Senhor, da casta dos fariseus. Não estive contigo na ceia, mas não te insultei no caminho do Gólgota. Quando pregavas no Templo, eu me encantava com a tua palavra sem me inundar da tua fé. Ao passar sob o peso da cruz, por diante da casa do sapateiro Simão, viste, talvez, um filósofo, coberto de andrajos, que detinha, com brandura, o braço às crianças que lançavam pedras. Sem acreditar que fosses um Deus, porque era grego e não acreditava nos deuses alheios, esse filósofo acompanhou a turba, com os pés feridos, sorrindo da sua própria dor, mas compadecido da tua. Quando Pedro, diante da casa de Caifaz, te negou três vezes, foi ele que soltou aqueles três assobios de zombaria. Ele não acreditava em ti, mas não perdoava aos que, a um mesmo tempo, te seguiam e te negavam.

Não te lembras desse filósofo que sorria, da sua própria miséria, andrajoso, pelas ruas de Jerusalém? Pois aqui está ele. Sou eu!

Agora és dono desta grande cidade. Pairas sobre ela como a estrela dos Magos pairou sobre Belém de Judá. Não sabes, talvez, o que vai aqui por baixo, de tristeza, de fome, de agonia, de cansaço, de desencanto do mundo, Senhor, e é porque conheço o silencioso sofrimento dos homens, que, desta vez, erguendo os meus braços fatigados para a montanha em que te elevas, e de onde governas um mundo que o Diabo te prometeu, e que conquistaste à revelia dele, solto, hoje, um suspiro fundo, repetindo a frase ingênua e expressiva do povo:

- Ai Cristo... Olhai para isto!...