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Conta o evangelista
Mateus que, achando-se Jesus no Deserto, aonde o levara o Espírito
Santo, imediatamente após o batismo nas águas vadias do Jordão, ali
apareceu o Diabo, que ia tentá-lo. Depois de o ter intimado, num
desafio, a transformar as pedras em pão, e de o ter transportado até
o templo, em Jerusalém, conduziu-o, o Demônio, ao píncaro de um alto
monte, do qual se viam todos os reinos do mundo, com todo o seu
lustre e toda sua glória.
- Tudo isto que vês -
disse-lhe o Maldito - será teu, se, prostrando-te por terra, me
adorares!
Jesus, estendendo os
olhos doces pela vastidão do planeta, viu, lá embaixo, as cidades
fervilhantes de homens e os desertos fervilhantes de feras. Viu as
metrópoles irmãs de Babilônia, viu Roma pagã, viu Alexandria
mergulhada na baba do pecado, e viu os desertos de areia loura, para
os lados da Arábia. Recolheu, porém, o olhar à alma, como quem
guarda um punhal na sai bainha, e ordenou ao Diabo:
- Retira-te, Satanás;
que escrito está: Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a Ele servirás.
E Satanás, derrotado,
rugiu e desapareceu.
Estava anunciado para
ontem, o aparecimento de Jesus, de braços abertos, no alto do
Corcovado. Símbolo humano ou divino, de bondade e beleza, devia ele
aparecer lá em cima, banhado de sol ou das lâmpadas acesas por
Marconi na Itália católica e longínqua, protegendo a cidade. Mas a
chuva, dia e noite, caiu do céu. Os fios d´água, estreitos e longos,
desfiando-se do casulo imenso das nuvens, teceram um véu espesso e
frio, isolando o Senhor nas alturas. Milhares de peregrinos, vindos
de longe, na esperança do espetáculo soberbo, orgulho novo da sua
fé, tiveram de permanecer nos quartos dos hotéis, assistindo ao
dilúvio. Alguns deles, de alma simples e doce, perguntaram, com
certeza, no silêncio do seu coração:
- Senhor, que te
fizemos nós? Esta festa brasileira e cristã não será, porventura, do
teu agrado? Se tens nas tuas mãos, que seguram as rédeas do
Universo, o sol e a chuva, por que nos mandaste chuva, quando te
pedíamos o sol para te glorificar? Um dia, no monte Carmelo, diante
do Rei Acab, Elias invocou a Jeová, teu Pai, pedindo-lhe que fizesse
arder a lenha molhada sobre o altar do sacrifício, a fim de
confundir os sacerdotes de Baal. E ele desceu do céu; e a lenha
ardeu; e o povo de Israel, que já não cria, prostrou-se com o rosto
na terra, gritando, tomado de terror e fé: “Só o Senhor é Deus!” Por
que, pois, nos abandonaste, quando precisávamos de ti para convencer
os que não crêem e fortalecer os que duvidam, provando-lhes que
estavas conosco na tua festa, e que Jesus, a que glorificamos, é, na
verdade, filho de Deus?
A chuva, porém, há de
passar. Hoje à noite, ou amanhã, Cristo resplenderá nas alturas,
abençoando a sua cidade. E eu, miserável pecador, que raramente o
vejo, vê-lo-ei, aqui debaixo, com as últimas brasas dos meus olhos
que se vão apagando. Vê-lo-ei, como o viram os dois discípulos no
caminho de Emaús. Vê-lo-ei, como o viram os apóstolos, que
repartiam, com ele, o seu pão. Vê-lo-ei como o viu Pedro da Galiléia.
Vê-lo-ei, sobretudo, como o viu Tomé, em Jerusalém. E vê-lo-ei de
modo ainda mais prodigioso, porque, se Tomé creu porque viu, eu, -
ai de mim! - eu, o cético sem remédio, eu, o manso rebelado sem
cura, eu, o último filho de um século que bebeu veneno no berço, eu
não creio, nem mesmo vendo!
Não pertencendo ao
número seleto dos teus apóstolos ou dos teus discípulos, eu não sou,
todavia, Senhor, da casta dos fariseus. Não estive contigo na ceia,
mas não te insultei no caminho do Gólgota. Quando pregavas no
Templo, eu me encantava com a tua palavra sem me inundar da tua fé.
Ao passar sob o peso da cruz, por diante da casa do sapateiro Simão,
viste, talvez, um filósofo, coberto de andrajos, que detinha, com
brandura, o braço às crianças que lançavam pedras. Sem acreditar que
fosses um Deus, porque era grego e não acreditava nos deuses
alheios, esse filósofo acompanhou a turba, com os pés feridos,
sorrindo da sua própria dor, mas compadecido da tua. Quando Pedro,
diante da casa de Caifaz, te negou três vezes, foi ele que soltou
aqueles três assobios de zombaria. Ele não acreditava em ti, mas não
perdoava aos que, a um mesmo tempo, te seguiam e te negavam.
Não te lembras desse
filósofo que sorria, da sua própria miséria, andrajoso, pelas ruas
de Jerusalém? Pois aqui está ele. Sou eu!
Agora és dono desta
grande cidade. Pairas sobre ela como a estrela dos Magos pairou
sobre Belém de Judá. Não sabes, talvez, o que vai aqui por baixo, de
tristeza, de fome, de agonia, de cansaço, de desencanto do mundo,
Senhor, e é porque conheço o silencioso sofrimento dos homens, que,
desta vez, erguendo os meus braços fatigados para a montanha em que
te elevas, e de onde governas um mundo que o Diabo te prometeu, e
que conquistaste à revelia dele, solto, hoje, um suspiro fundo,
repetindo a frase ingênua e expressiva do povo:
- Ai Cristo... Olhai
para isto!...
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