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Jesus lhe respondeu: “Em verdade, em verdade, digo-te:
Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo.”
Gibran Khalil Gibran, o sublime poeta que sabiamente nos apresenta
uma arte de bem viver, teve o ensejo de publicar, entre outras
obras, uma notável intitulada O Profeta em cujas páginas encontramos
belíssimos ensinamentos. Um deles, sobre a morte, foi transcrito
abaixo para as nossas reflexões.
Então, Almitra falou, dizendo: “Gostaríamos de interrogar-te a
respeito da morte.”
E ele
disse:
“Quereis conhecer o segredo da morte.
Mas
como podereis descobri-lo se não o procurardes no coração da vida?
A coruja, cujos olhos, feitos para a noite, são velados ao dia, não
pode descortinar o mistério da luz.
Se
quereis realmente contemplar o espírito da morte, abri amplamente as
portas do vosso coração ao corpo da vida.
Pois a vida e a morte são uma e a mesma coisa, como o rio e o mar são
uma e a mesma coisa.
Na
profundeza de vossas esperanças e aspirações dorme vosso silencioso
conhecimento do além.
E
como sementes sonhando sob a neve, assim vosso coração sonha com a
primavera.
Confiai nos sonhos, pois neles se ocultam as portas da eternidade.
Vosso
temor da morte é semelhante ao temor do camponês quando comparece
diante do rei, e este lhe estende a mão em sinal de consideração.
Não
se regozija o camponês, apesar do seu temor, de receber as insígnias
do rei?
Contudo, não está ele mais atento ao seu temor do que à distinção
recebida?
Pois,
que é morrer senão expor-se, desnudo, aos ventos e dissolver-se no
sol?
E que
é cessar de respirar senão libertar o hálito de suas marés agitadas, a
fim de que se levante e se expanda e procure a Deus livremente?
É
somente quando beberdes do rio do silêncio que podereis realmente
cantar.
É
somente quando atingirdes o cume da montanha que começareis a subir.
É quando a terra reivindicar vossos membros que podereis
verdadeiramente dançar.”
Belíssimo é o canto gibraniano acerca da morte. Para ele, a morte é um
amanhecer. E carregamos em nosso mundo interior a certeza inexorável
da existência além da matéria. As metáforas existentes no poema
traduzem o conhecimento que todos os seres humanos carregam de que
haverá um amanhecer após a desagregação molecular.
Desde
os tempos mais prístinos os diversos povos do globo terrestre sabiam
da existência do mundo espiritual. Somente com a ascendência de alguns
déspotas no seio das grandes religiões que houve o desvirtuamento da
noção da vida espiritual. Apresentaram-nos infernos eternos, paraísos
ociosos, entidades demoníacas... Nesse contexto histórico, a nossa
imaginação foi aguçada e avolumaram-se o nosso temor da morte.
Entretanto, paradoxalmente, a única certeza que temos é da viagem
infalível. Cedo ou tarde, fazê-la-emos. Deste modo, faz-se mister
treinarmos diariamente porque não sabemos quando ela nos apresentará o
seu cartão de visita.
O
treino nosso de cada dia deve centrar-se nas práticas edificantes.
Praticar o bem mental por meio de preces para os que necessitam; por
meio de preces de gratidão à vida; por meio da higienização mental e
construção positiva no bem.
Devemos treinar também os nossos hábitos comportamentais, modificar a
alimentação paulatinamente e sob a égide médica, para não incorrermos
em graves atentados contra o nosso organismo. Deste modo, reduzir aos
poucos a ingestão carnívora, as bebidas excitantes e outros vícios
como nos recomenda Irmão X em Cartas e Crônicas.
Devemos, outrossim, disciplinarmos o nosso campo emotivo, mormente o
campo sexual. Não sermos escravos de sentimentos menos nobres. Mas,
envidarmos esforços para sentimentos mais puros.
O
nobre espírito Irmão X recomenda-nos que se somos possuidores de bens
materiais devemos doá-los se possível em vida (material), dentro do
diálogo fraterno, da paz de espírito, da ética. A cautela deve existir
também em testamentos, uma vez que a doença surge-nos
intempestivamente. O bom senso, a justiça, o zelo devem estar em
nossas ações, principalmente nessa grave hora de elaboração de
testamento.
Não
devemos fazer do nosso amor um grilhão. Amemos os nossos consangüíneos
com parcimônia, sem apegos. Um ou outro realizará a inevitável viagem
cedo ou tarde e a caridade pede-nos a renúncia, o respeito e o amor
para aqueles que devassam o infinito, quando do sopro da morte.
A
prática incessante do bem constitui uma excelente terapia para a
grande viagem e para apararmos as nossas arestas. Fazer o bem é
renunciar a si mesmo. Não devemos nos preocupar com o bem que
realizamos, porque deste modo estaremos caindo nas teias do egoísmo.
Fazer o bem é fazê-lo por prazer, por se sentir bem interiormente, não
querer e nem ter a pretensão de agradar a todos.
Somos
o produto de nossas ações mentais e comportamentais. E essas ações são
determinantes no processo de desencarnação.
O
treino nosso de cada dia é a máxima espírita de que fora da caridade
não há salvação.
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