O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Treino Nossa de Cada Dia

Autor:
Marcos Paulo de Oliveira Santos

Fonte:
O Mensageiro

ARTIGOS

     

Jesus lhe respondeu: “Em verdade, em verdade, digo-te:
Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo.”


Gibran Khalil Gibran, o sublime poeta que sabiamente nos apresenta uma arte de bem viver, teve o ensejo de publicar, entre outras obras, uma notável intitulada O Profeta em cujas páginas encontramos belíssimos ensinamentos. Um deles, sobre a morte, foi transcrito abaixo para as nossas reflexões.

Então, Almitra falou, dizendo: “Gostaríamos de interrogar-te a respeito da morte.”

E ele disse:

“Quereis conhecer o segredo da morte.

Mas como podereis descobri-lo se não o procurardes no coração da vida?
A coruja, cujos olhos, feitos para a noite, são velados ao dia, não pode descortinar o mistério da luz.

Se quereis realmente contemplar o espírito da morte, abri amplamente as portas do vosso coração ao corpo da vida.


Pois a vida e a morte são uma e a mesma coisa, como o rio e o mar são uma e a mesma coisa.

Na profundeza de vossas esperanças e aspirações dorme vosso silencioso conhecimento do além.

E como sementes sonhando sob a neve, assim vosso coração sonha com a primavera.

Confiai nos sonhos, pois neles se ocultam as portas da eternidade.

Vosso temor da morte é semelhante ao temor do camponês quando comparece diante do rei, e este lhe estende a mão em sinal de consideração.

Não se regozija o camponês, apesar do seu temor, de receber as insígnias do rei?

Contudo, não está ele mais atento ao seu temor do que à distinção recebida?

Pois, que é morrer senão expor-se, desnudo, aos ventos e dissolver-se no sol?

E que é cessar de respirar senão libertar o hálito de suas marés agitadas, a fim de que se levante e se expanda e procure a Deus livremente?

É somente quando beberdes do rio do silêncio que podereis realmente cantar.

É somente quando atingirdes o cume da montanha que começareis a subir.
É quando a terra reivindicar vossos membros que podereis verdadeiramente dançar.”

Belíssimo é o canto gibraniano acerca da morte. Para ele, a morte é um amanhecer. E carregamos em nosso mundo interior a certeza inexorável da existência além da matéria. As metáforas existentes no poema traduzem o conhecimento que todos os seres humanos carregam de que haverá um amanhecer após a desagregação molecular.

Desde os tempos mais prístinos os diversos povos do globo terrestre sabiam da existência do mundo espiritual. Somente com a ascendência de alguns déspotas no seio das grandes religiões que houve o desvirtuamento da noção da vida espiritual. Apresentaram-nos infernos eternos, paraísos ociosos, entidades demoníacas... Nesse contexto histórico, a nossa imaginação foi aguçada e avolumaram-se o nosso temor da morte.

Entretanto, paradoxalmente, a única certeza que temos é da viagem infalível. Cedo ou tarde, fazê-la-emos. Deste modo, faz-se mister treinarmos diariamente porque não sabemos quando ela nos apresentará o seu cartão de visita.

O treino nosso de cada dia deve centrar-se nas práticas edificantes. Praticar o bem mental por meio de preces para os que necessitam; por meio de preces de gratidão à vida; por meio da higienização mental e construção positiva no bem.

Devemos treinar também os nossos hábitos comportamentais, modificar a alimentação paulatinamente e sob a égide médica, para não incorrermos em graves atentados contra o nosso organismo. Deste modo, reduzir aos poucos a ingestão carnívora, as bebidas excitantes e outros vícios como nos recomenda Irmão X em Cartas e Crônicas.

Devemos, outrossim, disciplinarmos o nosso campo emotivo, mormente o campo sexual. Não sermos escravos de sentimentos menos nobres. Mas, envidarmos esforços para sentimentos mais puros.

O nobre espírito Irmão X recomenda-nos que se somos possuidores de bens materiais devemos doá-los se possível em vida (material), dentro do diálogo fraterno, da paz de espírito, da ética. A cautela deve existir também em testamentos, uma vez que a doença surge-nos intempestivamente. O bom senso, a justiça, o zelo devem estar em nossas ações, principalmente nessa grave hora de elaboração de testamento.

Não devemos fazer do nosso amor um grilhão. Amemos os nossos consangüíneos com parcimônia, sem apegos. Um ou outro realizará a inevitável viagem cedo ou tarde e a caridade pede-nos a renúncia, o respeito e o amor para aqueles que devassam o infinito, quando do sopro da morte.

A prática incessante do bem constitui uma excelente terapia para a grande viagem e para apararmos as nossas arestas. Fazer o bem é renunciar a si mesmo. Não devemos nos preocupar com o bem que realizamos, porque deste modo estaremos caindo nas teias do egoísmo. Fazer o bem é fazê-lo por prazer, por se sentir bem interiormente, não querer e nem ter a pretensão de agradar a todos.

Somos o produto de nossas ações mentais e comportamentais. E essas ações são determinantes no processo de desencarnação.

O treino nosso de cada dia é a máxima espírita de que fora da caridade não há salvação.