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O
mundo agoniza! Não nos referimos às estrondosas quedas das bolsas de
valores dos diversos países, que deixam como conseqüências aos mais
pobres (únicos que realmente sofrem com especulações e interesses
oligárquicos) desempregos, misérias, fome...
A
gênese do caos planetário reside em dois problemas velhos do
comportamento humano: egoísmo e orgulho. Essas duas chagas da
humanidade já eram advertidas pelo mestre de Nazaré e, posteriormente,
pela doutrina espírita. São as duas barreiras que obstam a nossa
evolução. Se não houvesse orgulho e egoísmo, não haveria crise global.
Estaríamos em um mundo, indubitavelmente, melhor. Quando se fala em
“humor do mercado”, “o receio do mercado”, “o mercado acordou tenso”,
dá a impressão de algo impessoal que acaba por normatizar as nossas
vidas de forma autoritária. Mas, é preciso compreender que o “mercado”
é composto de pessoas comuns (carne, osso, espírito, sentimentos
etc.).
Deste
modo, é necessário que compreendamos que o modelo vigente no mundo
fomenta ainda mais a estupidez humana. O despertar de sentimentos
escabrosos que vêm à tona com mais força. O acumular riquezas
incessantemente e sob quaisquer meios constituem a norma vigente.
Vivemos em uma sociedade que, devido aos sentimentos que emana e as
ações que pratica, acaba por tornar o homem “coisificado”. Perdemos a
noção de ser humano e passamos a ser “coisas”. Isso ocorre em todas as
relações sociais.
Para
que tenhamos uma noção da grave questão, vejamos a poesia
(atualíssima!) de Fernando Correia Pina, poeta português:
Saldo
Negativo
Dói
muito mais arrancar um cabelo de um europeu
que amputar uma perna, a frio, de um africano.
Passa mais fome um francês com três refeições por dia
que um sudanês com um rato por semana.
É
muito mais doente um alemão com gripe
que um indiano com lepra.
Sofre muito mais uma americana com caspa
que uma iraquiana sem leite para os filhos.
É
mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga
que roubar o pão da boca de um tailandês.
É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça
que queimar uma floresta inteira no Brasil.
É
muito mais intolerável o xador de uma muçulmana
que o drama de mil desempregados em Espanha.
É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco
que a de água potável em dez aldeias do Sudão.
É
mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
que a de insulina nas Honduras.
É mais revoltante um português sem celular
que um moçambicano sem livros para estudar.
É
mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu
que a demolição de um lar na Palestina.
Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa
que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês
e
isto não são versos; isto são débitos
numa conta sem provisão do Ocidente.
O
poema fala por si mesmo. E é espantoso encararmos as nossas ilusões,
as nossas superficialidades grafadas em versos que ganham vida e ecoam
ao mundo tentando despertar-nos das nossas questiúnculas. Trata-se,
certamente, de um poema que espanta! A ironia presente na obra
demonstra as nossas fraquezas.
A
nossa cegueira ante os mais necessitados é tamanha que não nos damos
conta dos graves contrastes planetários.
É
certo que não queremos e não temos a pretensão de salvar o mundo. Mas,
na condição de espíritas e com a certeza de que essa doutrina
eminentemente cristã nos traz benefícios inefáveis, não podemos
olvidar o chamamento da prática caridosa que ela nos enseja desde o
seu surgimento a 18 de abril de 1857.
O
preclaro codificador da doutrina espírita, conhecedor das
problemáticas humanas, estabeleceu que somente por meio da caridade
conquistaremos a nossa salvação. O ato caridoso transcende a religião
e outras questões humanas. A caridade é um gesto espontâneo, que parte
do coração. E tem como força primeira a fé. A fé é a força motriz da
caridade. É a certeza de que é possível passar pela Terra e dar algum
contributo em favor de um mundo melhor, por mais singela que seja a
nossa contribuição.
A
caridade, como entendida pelo Espiritismo, divide-se em duas formas:
material e moral. A primeira caracteriza-se pela diminuição do
sofrimento alheio por meio de recursos materiais, donativos etc. Que
são importantes para uma vida digna e exeqüível. A segunda recai sobre
as nossas enfermidades seculares (egoísmo, orgulho, avareza etc.). É
uma luta constante contra nós mesmos. A caridade moral consiste em
calar ante a ofensa, em saber ouvir uma crítica, em auxiliar por meio
de palavras e ações aqueles que necessitam. Enfim, é uma gama de ações
que têm por objetivo a nossa lapidação moral para que transformemos a
pedra bruta que jaz em nossos corações no diamante formoso que Deus
criou.
Por
fim, a caridade deve ser praticada incessantemente por nós que
abraçamos a causa espírita. A crise não pode ser escusa para nós
espíritas de não auxiliarmos aqueles que nos cercam e que carecem da
nossa ajuda e atenção. Ao contrário, devemos trabalhar mais e mais
para que a crise global acabe o mais rápido possível.
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