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Todas grandes revelações de Deus aos homens tiveram seus
precursores, que vieram com a missão de aplainar as dificuldades
inerentes ao surgimento de novos paradigmas. A revelação cristã, por
exemplo, teve um eminente precursor na pessoa de um ativo profeta
itinerante que pregava a vinda do Salvador numa região muito pobre e
inóspita, alimentando-se com mel de abelhas e gafanhotos. Ele era
tão grande, contudo, que o próprio Cristo testemunhou “dos nascidos
de mulher, não houve ninguém maior do que João Batista”.(Mateus, ll-9/11).
E o
Espiritismo, a terceira revelação de Deus à humanidade, antecedido
pelas leis mosaica e cristã, também teve grandes precursores. Um dos
mais notáveis surgiu cerca de um século antes da Codificação de Allan
Kardec. Chamava-se Emanuel Swedenborg e – ao contrário da penúrias
enfrentadas por João Batista – veio ao mundo no seio de tradicional
família sueca, o que lhe proporcionou uma excelente formação
filosófica, com profundo conhecimento das ciências então
predominantes, notadamente a Física, a Astronomia e a Engenharia. Foi
também financista e político. E apesar de ser um apaixonado estudioso
da Bíblia, não ia muito à Igreja, contrariando os costumes de seu
tempo, o que provocava severas críticas de seus inimigos e
justificativas de seus amigos mais íntimos. Um destes explicou que "Swedenborg
não poderia continuar aceitando como verdadeiras pregações igrejistas,
tão diferentes de suas revelações.” O próprio Swedenborg confidenciou
ao Reverendo Ferelius que não encontrava mais prazer em ir na igreja,
por causa dos anjos com quem conversava até mesmo durante o culto
religioso. Eles discordavam daquilo que o ministro dizia,
especialmente quando o assunto era as três pessoas da Divindade, o que
seria o mesmo que admitir a existência de três deuses.
Em
certa ocasião, um criado e sua esposa, pessoas simples, que
trabalhavam para Swedenborg há muitos anos, vieram dizer-lhe que não
poderiam mais trabalhar ali, pois o pastor lhes havia dito que
Swedenborg não era cristão. Ele respondeu que, tendo trabalhado para
ele por tantos anos, se eles se lembrassem de algum dia ele ter
praticado algum ato não cristão, estariam livres para partir. O casal
ficou. Desde menino, Swedenborg manifestou notável vidência mediúnica.
Conta-se que por ocasião de um jantar em Gothemburg, onde se
encontravam várias pessoas, conseguiu observar e descrever para os
presentes um grande incêndio que se desenrolava naquele exato momento,
a trezentas milhas de distância, em Estocolmo. Posteriormente, poucos
dias após a morte de seu grande amigo Christopher Polhem, disse
Swedenborg: Ele morreu na segunda-feira e falou comigo já na
quinta-feira. Eu mesmo tinha sido um dos convidados para o enterro.
Ele disse viu seu cortejo fúnebre e presenciou quando o féretro baixou
à sepultura. Entretanto, nessa conversa comigo perguntou porque o
tinham enterrado, se continuava vivo. Quando o sacerdote falou que êle
se ergueria no Dia do Juízo Final , perguntou por que isso, se êle
desde agora já estava de pé.
E tal
como faria Chico Xavier duzentos anos depois, Swedenborg não auferia
nenhum benefício com a venda de seus livros teológicos. Seu editor
londrino, John Lewis, escreveu a seguinte nota num anúncio do segundo
volume da obra Arcanos Celestes: "Quero, de público, testemunhar que
esse cavalheiro, com infatigável labor e pesares, gastou um ano
inteiro preparando e escrevendo o primeiro volume dos Arcanos Celestes
e pagou, pela sua impressão, duzentas libras, tendo adiantado outras
duzentas para este segundo volume. E, tendo feito isto, deu ordens
expressas para que todo o dinheiro arrecadado fosse dado à obra de
propagação do Evangelho. Assim, está muito longe de desejar obter
lucro deste seu labor, visto que não receberá de volta nem um níquel
das quatrocentas libras que gastou. Por essa razão, a obra chega ao
público a um custo extraordinariamente baixo".
Entretanto, o que mais chama atenção para os espíritas, é a notável
semelhança entre as suas narrativas da vida no plano espiritual e as
que foram trazidas pelo espírito André Luiz, através da mediunidade de
Chico Xavier. O célebre Conan Doyle, em seu livro A História do
Espiritismo, expõe alguns dos principais fatos descritos por
Swendenborg, dos quais extraímos o seguinte trecho: O outro mundo,
para onde vamos após a morte, consiste de várias esferas,
representando outros tantos graus de luminosidade e de felicidade;
cada um de nós irá para aquela a que se adapta a nossa condição
espiritual. Somos julgados automaticamente, por uma lei espiritual das
similitudes; o resultado é determinado pelo resultado global de nossa
vida, de modo que a absolvição ou o arrependimento no leito da morte
têm pouco proveito. Nessas esferas, verificou que o cenário e as
condições deste mundo eram reproduzidas fielmente, do mesmo modo que a
estrutura da sociedade. Viu casas onde viviam famílias, templos onde
praticavam o culto, auditórios onde se reuniam para fins sociais e
palácios onde deviam morar os chefes.
A
morte era suave, dada a presença de seres celestiais que ajudavam os
recém-chegados na sua nova existência. Esses recém vindos passavam
imediatamente por um período de absoluto repouso. Reconquistavam a
consciência em poucos dias, segundo a nossa contagem.Havia anjos e
demônios, mas não eram de ordem diversa da nossa: eram seres humanos,
que tinham vivido na Terra e que, ou eram almas retardatárias, como
demônios, ou altamente desenvolvidas, como anjos. De modo algum
mudamos com a morte. O homem nada perde pela morte: sob todos os
pontos de vista é ainda um homem, conquanto mais perfeito do que
quando na matéria. Leva consigo não só suas forças, mas seus hábitos
mentais adquiridos, suas preocupações, seus preconceitos.
Todas
as crianças eram recebidas igualmente, fossem ou não batizadas.
Cresciam no outro mundo; jovens lhe serviam de mães, até que chegassem
as mães verdadeiras. Não havia penas eternas. Os que se achavam nos
infernos podiam trabalhar para sua saída, desde que sentissem vontade.
Os que se achavam no céu não tinham lugar permanente: trabalhavam por
uma posição mais elevada. Havia o casamento sob a forma de união
espiritual no mundo próximo, onde um homem e uma mulher constituíam
uma unidade completa (é de notar-se que Swendenborg jamais se casou).
Não existiam detalhes insignificantes para sua observação no mundo
espiritual. Fala de arquitetura, de artesanato, das flores, dos
frutos, dos bordados, da arte, da música, da leitura, da ciência, das
escolas, dos museus, das academias, das bibliotecas e dos esportes.
Tudo isso pode chocar as inteligências convencionais, conquanto se
possa perguntar por que toleramos coroas e tronos e negamos outras
coisas menos materiais.
Os
que saíram deste mundo, velhos, decrépitos, doentes ou deformados,
recuperavam a mocidade e, gradativamente, o completo vigor. Os casais
continuavam juntos, se os seus sentimentos recíprocos os atraíam. Caso
contrário, era desfeita a união. Dois amantes verdadeiros não são
separados pela morte, de vez que o espírito do morto, muitas vezes,
habita com o sobrevivente até a morte deste último, quando se
encontram e se unem, amando-se mais ternamente do que antes". (Obra
citada, edição de 1990, páginas 38 e 39).
Quem
desejar maiores detalhes sobre Emanuel Swedenborg, este precursor das
revelações espíritas, encontrará amplo material em suas obras Céu e
Inferno, A Nova Jerusalém e Arcana Coelestia. Quinze anos após sua
morte, em 1772, seus admiradores fundaram a Igreja Swedenborgiana que
ainda hoje subsiste em alguns países, com outras denominações.
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