|
“Quereis conhecer o segredo da morte.
Mas como podereis descobri-lo se não o procurardes no coração da vida?
A
coruja, cujos olhos, feitos para a noite, são velados ao dia, não pode
descortinar o mistério da luz.
Se
quereis realmente contemplar o espírito da morte, abri amplamente as
portas de vosso coração ao corpo da vida.
Pois a vida e a morte são uma e a mesma coisa, como o rio e o mar são
uma e a mesma coisa.
Na
profundeza de vossas esperanças e aspirações dorme vosso silencioso
conhecimento do além;
E
como sementes sonhando sob a neve, assim vosso coração sonha com a
primavera.
Confiai nos sonhos, pois neles se ocultam as portas da eternidade.
Vosso temor da morte é semelhante ao temor do camponês quando
comparece diante do rei, e este lhe estende a mão em sinal de
consideração.
Não se regozija o camponês, apesar do seu temor, de receber as
insígnias do rei?
Contudo, não está ele mais atento ao seu temor do que à distinção
recebida?
Pois, que é morrer senão expor-se, desnudo, aos ventos e dissolver-se
no sol?
E
que é cessar de respirar senão libertar o hálito de suas marés
agitadas, a fim de que se levante e se expanda e procure a Deus
livremente?
É
somente quando beberdes do rio do silêncio que podereis realmente
cantar.
É
somente quando atingirdes o cume da montanha que começareis a subir.
É
quando a terra reivindicar vossos membros que podereis verdadeiramente
dançar.”
Gibran Khalil Gibran.
Chega
um determinado momento da existência do ser humano que lhe parece não
haver mais pressão psicológica do coração e do pensamento. Os sonhos
são deixados de lado. As novas esperanças são empanadas pela idade
madura. A vida parece estacionar... os filhos já estão mais ou menos
encaminhados, já não se têm desafios naturais da vida familiar, as
horas, semanas, meses e anos passam uniformes e indiferentes. Esse
quadro de apatia é comum em muitos de nós, que ainda não aprendemos a
cultivar o tempo precioso no labor do bem individual e coletivo. E nas
valiosas conquistas do espírito.
Lendo
a obra “Obreiros da Vida Eterna”, de André Luiz, espírito, ditada ao
saudoso Chico Xavier, encontramos: “Nossos amigos da esfera carnal são
ainda muito ignorantes para o trato com a morte. (...) É por isso que,
por enquanto, os mortos que entregam despojos aos solitários
necrotérios da indigência são muito mais felizes.” (pg.224)
Tal
assertiva provocou-nos grande impacto. O que fez com que
refletíssemos. Estamos suficientemente educados para a morte? A magna
questão nos inquietava dia após dia. Concluímos que não, a despeito
dos valorosos ensinamentos espíritas.
Por
isso resolvemos contribuir, modestamente, com o pensamento espírita
cristão através deste singelo ensaio.
Chegará o dia, inexorável, em que deixaremos o ninho planetário.
Refletir sobre essa transição natural é de suma importância.
Deste
modo, fizemos um recorte de algumas obras do Espiritismo e breves
comentários acerca da temática (que não se esgotam! Ao contrário,
fomentam o debate fraterno nos estudos sistematizados da doutrina
espírita). É necessário que o (a) amigo (a) leitor (a) compreenda que
não se encontram elencadas diretrizes jactanciosas com a presunção de
ensinar um fenômeno que será ímpar para cada um de nós. É importante
saber o que está descrito ricamente na literatura espírita para que no
momento da crise da morte não nos desesperemos. Mas, todas as nuances
do momento dependerão do nosso modus vivendi enquanto ainda
encarnados... A morte não é nenhuma mensageira de transformações. Cada
um morre conforme vive.
O
que é a morte?
Durante um largo período da história terrestre, a morte era
considerada a cessação do funcionamento cardíaco e respiratório.
De
fato, o cérebro sofre danos irreversíveis se privado de oxigênio por
mais de quatro minutos. Deste modo, na antiguidade, o critério
utilizado era somente analisar essa função (a respiração) para
constatar a morte de uma pessoa.
Com o
advento científico-tecnológico, particularmente os aparelhos de
ventilação mecânica, foi possível reverter um quadro de parada
respiratória. De tal modo que, as pessoas que antes eram consideradas
mortas, graças aos aparelhos e medicamentos voltavam à vida orgânica.
A
partir da década de 1960 tornou-se mais importante ainda estabelecer o
momento da morte, visto ser exeqüível já naquele momento o transplante
de órgãos.
A
partir disso, as autoridades médicas do mundo estabeleceram que a
morte orgânica ocorre quando há “perda completa e irreversível do
tronco cerebral”. Ou seja, quando o órgão cerebral não mais apresenta
atividades (que são detectadas por aparelhos específicos) tem-se a
morte. Embora, os outros órgãos possam estar em pleno funcionamento.
Temor da Morte
O
preclaro Codificador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, na obra “O
Céu e o Inferno” teve ensejo de refletir e escrever sobre o temor da
morte que aqui expressamos.
Ele
inicia sua explicação asseverando-nos que é intuitiva a certeza da
imortalidade da alma em todos os seres humanos, independente do
contexto cultural em que se vive. Do silvícola ao ser humano
considerado mais civilizado, a crença da vida após a desagregação
molecular é uma certeza inconteste. A despeito dessa sentinela
interior a cantar a imortalidade em nossas mentes e corações, ainda
perdura o sentimento de temor ao fenômeno da morte. Por que isso
ocorre? Vejamos o que nos diz o egrégio Codificador na obra referida:
1.
Efeito da sabedoria Divina.
Há em
toda criatura, notadamente, no ser humano um instinto de conservação.
Esse instinto é um efeito da sabedoria Divina, porque tem por objetivo
evitar que nos retiremos prematuramente da existência material.
O
fragor das lutas cotidianas, a sobrevivência, os “caprichos” da vida,
o trabalho, a família e a esperança no porvir, entre outros fatores,
dão sentido psicológico a existência terrestre e faz com que não
abandone-mo-la.
2.
Noção insuficiente da Vida Futura.
Refletir e tentar compreender o porvir são de fundamental importância
para aqueles que se dedicam aos estudos espiritistas. Muitas vezes,
realizamos uma leitura superficial dos fenômenos de desencarnação na
literatura sem nos atentarmos para as entrelinhas. Um sem-número de
vezes não conseguimos adestrar a nossa mente a verdade inconteste do
espírito imortal, porque damos mais valor as coisas que nos afetam as
impressões sensoriais aos fatos espirituais que acompanham o ser
humano desde que o primeiro homem habitou a Terra...
Dar
mais valor ao espírito é a meta do ser humano hodierno. Não se pode
mais olvidar essa questão.
3.
Educação.
Historicamente o ser humano tem recebido uma educação não muito
confortadora a respeito do porvir. Foi apresentado um paraíso ocioso e
entediante, calcado em uma beatitude contemplativa; um inferno eterno
e repleto de torturas terríveis; um Deus punitivo, vingativo... entre
outros fatos. Allan Kardec assevera ainda:
“Os
séculos sucedem-se aos séculos e não há para tais desgraçados sequer o
lenitivo de uma esperança e, o que mais atroz é, não lhes aproveita o
arrependimento. De outro lado, as almas combalidas e aflitas do
purgatório aguardam a intercessão dos vivos que orarão ou farão orar
por elas, sem nada fazerem de esforço próprio para progredirem.”
(pg.23)
As
práticas exteriores, o batismo para ser salvo, a “compra” de induções
que servem de intermédio para gozos eternos etc., correspondem ao que
nos foi passado historicamente. Trata-se de uma educação obtusa, que
nos castra a razão.
E, o
menor raciocínio, leva-nos a crer que não passam de questiúnculas da
moralidade inferior do ser humano. Não se coadunam com a prática da
caridade do indivíduo, a sua transformação moral, a sua contribuição
para a edificação de um mundo melhor etc.
4.
Apego aos bens materiais.
O
apego aos bens materiais é um reflexo da histórica educação equivocada
que temos recebido. Vivemos em um mundo “coisificado”. É mais atrativo
ter coisas, do que sermos pessoas melhores. Buscamos incessantemente a
fortuna, os prazeres sensoriais, a graxa da comida pesada, o álcool,
etc. Damos valor a coisas tão insignificantes, que sob a nossa ótica
errônea é difícil delimitar a fronteira entre o supérfluo e o
necessário. Gostaríamos de abrir um parêntese para reproduzir a poesia
de Fernando Correia Pina que reflete essa situação que vivemos no
mundo. Vejamos:
Saldo Negativo
Dói
muito mais arrancar um cabelo de um europeu que amputar uma perna, a
frio, de um africano. Passa mais fome um francês com três refeições
por dia que um sudanês com um rato por semana.
É
muito mais doente um alemão com gripe que um indiano com lepra. Sofre
muito mais uma americana com caspa que uma iraquiana sem leite para os
filhos.
É
mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga que roubar o
pão da boca de um tailandês. É muito mais grave jogar um papel ao chão
na Suíça que queimar uma floresta inteira no Brasil.
É
muito mais intolerável o xador de uma muçulmana que o drama de mil
desempregados em Espanha. É mais obscena a falta de papel higiênico
num lar sueco que a de água potável em dez aldeias do Sudão.
É
mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda que a de insulina
nas Honduras. É mais revoltante um português sem celular que um
moçambicano sem livros para estudar.
É
mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu que a demolição de
um lar na Palestina.
Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa que a
visão do assassínio dos pais de um menino ugandês e isto não são
versos; isto são débitos numa conta sem provisão do Ocidente.
O
canto do poeta português reflete o mundo caótico em que vivemos e a
inversão dos valores que cultuamos. O apego aos bens materiais é de
tal natureza que somos incapazes (com raras e honrosas exceções) de
nos sensibilizar com os nossos irmãos desafortunados. Desde que a
situação negativa não nos atinja, tudo está muito bem. Só conhecemos o
drama do outro, quando o vivenciamos. E a coisificação da vida
terrestre é um óbice a melhor compreensão da vida futura.
O
fenômeno da morte é encarado mais negativamente do que com esperança.
As cerimônias que a envolvem são repletas de cenas tristes e que de
certo modo causam pavor. A idéia de perda rodeia-nos a todo o momento,
porém, faz-se mister que essa lúgubre idéia desapareça. A perda não
existe. Mas, apenas, uma breve saudade que se acabará tão logo chegue
o momento do reencontro ensejado pela morte.
Treino para a morte
O
capítulo “Treino para a morte” presente na obra “Cartas e Crônicas”,
psicografada por Francisco Cândido Xavier e de autoria do espírito
Irmão X, é uma síntese da nossa conduta antes da grande viagem.
Primeiramente, o ínclito comentarista do Além se vê incapacitado para
a tarefa de trazer algumas informações importantes para o nosso
comportamento antes da desencarnação. Porém, devido aos seus inúmeros
textos de beleza incomum, somos inclinados a seguir as suas seguras
orientações que apresentamos mais abaixo.
O que
almeja Irmão X no texto mencionado é sugerir mudanças ainda
cristalizadas em nós e que, de certa maneira, são obstáculos difíceis
quando nos encontramos na erraticidade.
Diz-nos: “Comece a renovação de seus costumes pelo prato de cada dia.
Diminua gradativamente a volúpia de comer a carne dos animais. O
cemitério na barriga é um tormento, depois da grande transição. O
lombo de porco ou o bife de vitela, temperados com sal e pimenta, não
nos situam muito longe dos nossos antepassados, os tamoios e os ciapós,
que se devoravam uns aos outros. Os excitantes largamente ingeridos
constituem outra perigosa obsessão.” (pg. 22)
A
temática sobre a ingestão ou não de carne já é velha conhecida
daqueles que se dedicam aos estudos espiritualistas . Todas as nossas
idiossincrasias são levadas conosco para o mundo espiritual. Refletir
sobre a nossa alimentação e tentar modificá-la, tornando-a melhor, é
uma tarefa que não podemos mais postergar.
Afirma com muita propriedade o espírito Irmão X que nós devemos
modificar a nossa alimentação paulatinamente. Quando fazemos
apontamentos sobre essa questão da alimentação carnívora em nossos
estudos e/ou artigos publicados recebemos as críticas dos confrades
espíritas de que o importante é a transformação moral. É óbvio que os
valores morais têm prioridade! Nem discutimos tal questão, mas não
podemos ignorar os ensinamentos e recomendações sobejamente divulgados
pelos espíritos benfeitores que fazem tais afirmativas para a nossa
própria evolução e melhoria. Além do espírito Irmão X, temos ainda a
sábia recomendação de Emmanuel, mentor do saudoso Chico Xavier, que na
obra “O Consolador” afirma: “A ingestão das vísceras dos animais é um
erro de enormes conseqüências, do qual derivaram numerosos vícios da
nutrição humana. É de lastimar semelhante situação, mesmo porque, se o
estado de materialidade da criatura exige a cooperação de determinadas
vitaminas, esses valores nutritivos podem ser encontrados nos produtos
de origem vegetal, sem a necessidade absoluta dos matadouros e
frigoríficos.” (questão 129).
Acreditamos que a assertiva de Emmanuel é bastante clara e objetiva.
Os recursos de que necessitamos podem ser encontrados em recursos
vegetais. O advento científico e tecnológico propiciaram ao ser humano
hodierno a capacidade de extrair tais recursos da natureza, de onde se
segue que não é mais necessário as terríveis mortes a que são
submetidos os pobres animais. Por fim, o espírito André Luiz, também
pela sublime mediunidade de Chico Xavier, na obra “Nosso Lar”
narra-nos os problemas causados pela alimentação no mundo espiritual.
Afirma-nos o espírito que em um determinado período da história da
colônia “Nosso Lar” os recém-desencarnados “queriam mesas lautas,
bebidas excitantes, dilatando velhos vícios terrenos.” (pg. 55).
Somente um ministério, o denominado “Ministério da União Divina”,
manteve-se incólume as tentações das viciações que os espíritos
recém-libertos da indumentária carnal para lá levavam. Em suma, foi um
trabalho hercúleo do governador da colônia para organizá-la ante o
caos. Houve diversos protestos, tentativa de invasões dos irmãos
infelizes que habitavam o Umbral, etc. Houve a necessidade da
convocação de espíritos benfeitores que ensinaram os espíritos
recalcitrantes a se alimentarem corretamente e com equilíbrio.
Alguns amigos já tiveram ensejo de dizer-nos quando exemplificamos o
caso de “Nosso Lar”: “Quando eu estiver do outro lado, eu vou me
preocupar com isso.” Mas é imperioso entendermos que a morte não traz
mudanças extraordinárias. Ao contrário, continuamos a ser o que sempre
fomos, só que em outra vibração energética.
Por
isso, o alerta desses espíritos para que tenhamos força de vontade
para modificarmos vícios lamentáveis que ainda carregamos, caso
contrário, teremos grandes dificuldades na erraticidade. Assim, o
alcoolismo, o tabagismo, a ingestão carnívora, a sexolatria, a
drogadição, os excessos de toda ordem constituem graves obstáculos
para evolvimento do recém-liberto.
Outro
apontamento relevante de Irmão X é o seguinte: “Se você possui algum
dinheiro ou detém alguma posse terrestre, não adie doações, caso
esteja realmente inclinado a fazê-las. Grandes homens, que admirávamos
no mundo pela habilidade e poder com que concretizavam importantes
negócios, aparecem, junto de nós, em muitas ocasiões, à maneira de
crianças desesperadas por não mais conseguirem manobrar os talões de
cheque.” (pg. 23).
Trata-se de um alerta importantíssimo, porque nada levaremos de
material ao mundo espiritual. Apenas os conhecimentos adquiridos, as
amizades ou desafetos, os valores morais, enfim.
Então, por que de tanto egoísmo de nossa parte? Enquanto tantos irmãos
se debatem de fome, sede, frio na noite caliginosa do mundo, nós nos
empanturramos com os nossos excessos; consumimos cada vez mais e mais;
acumulamos objetos materiais que muitas vezes não usamos e que ficam
esquecidos em nossos armários fadados a destruição do tempo; das
traças...
É um
forte apelo desse espírito para que comecemos a nos desfazer das
coisas materiais. E é preferível mesmo que as doações, para aqueles
que possuem altas somas em dinheiro ou bens materiais, sejam feitas
ainda em vida material, sem consciência de culpa, com desprendimento e
amor. Para que não haja contratempos desagradáveis quando da grande
viagem.
Até
mesmo o amor deve ser com moderação. Ele nos diz: “... não se apegue
demasiado aos laços consangüíneos. Ame sua esposa, seus filhos e seus
parentes com moderação, na certeza de que, um dia, você estará ausente
deles e de que, por isso mesmo, agirão quase sempre em desacordo com a
sua vontade, embora lhe respeitem a memória.” (pg. 23).
Esse
é um ensinamento difícil, porque muitas vezes o nosso “amor” é
recheado pelo egoísmo. Mas, devemos compreender que quem ama
verdadeiramente, liberta! É capaz de renunciar para a felicidade
alheia. Deste modo, o nosso amor deve ser comedido na certeza de que
um dia nos reencontraremos e que também pertencemos a uma família
muita maior, sob a égide do Criador.
Por
fim, ele nos insta a vivenciarmos a religião que abraçamos, seja ela
qual for. A responsabilidade de quem já conhece o caminho do bem é
maior e, do outro lado, a consciência será a grande juíza de nossos
atos. E não poderemos alegar falta de conhecimento, porque todas as
religiões levam ao Pai, ensinam o amor. Vivenciá-lo na prática
constante do bem é a nossa função aqui na Terra. Devemos praticar o
bem sem a presunção de querer agradar a todos, porque nem o mestre
Nazareno logrou fazê-lo. O trabalho edificante apaga qualquer mágoa,
qualquer problema e nos ensina a servir na obra da Criação. Não era
sem motivo que o preclaro Codificador estabeleceu que “fora da
caridade não há salvação!”.
Inumação ou Cremação?
Perde-se nas páginas do tempo da humanidade a origem da cremação. As
antigas civilizações realizavam-na respeitando seus respectivos
costumes e crenças.
É uma
problemática complexa para a sociedade ocidental ainda caracterizada
historicamente pela pusilanimidade e o materialismo.
Discussões a parte, compete ao próprio interessado, em vida, realizar
o seu pedido formalmente a família e, se possível, registrar em
cartório. Porém, se não for possível, cabe à vontade familiar o
destino dos despojos, respeitando os princípios religiosos, éticos e
morais do desencarnado.
Assim, a doutrina espírita preconiza que se deve dar um tempo
considerável nos casos de cremação. No mínimo 72 horas. Porque nem
todos os espíritos se desvencilham facilmente do corpo o que pode
acarretar tormentos no além para a alma ainda pouco evolvida (como a
maioria de nós).
Chegará um dia na evolução terrestre que não mais ocuparemos espaços
gigantescos com cadáveres, sob pena de sofrermos os efeitos de tal
procedimento (contaminações do solo e lençóis freáticos, ocupação de
vasta área que poderia ser utilizada para outro fim, etc.).
Cultuaremos o respeito e o carinho aos que partiram na intimidade do
coração. Enviando-lhes bons pensamentos. E eles (desencarnados) em
contrapartida sentir-se-ão bastante felizes em nos verem resignados e
compelidos a caridade, porque doaríamos seus pertences aos mais
necessitados materialmente. Desvencilhando-nos dos atavismos.
Apontamentos de Elisabeth Kübler-Ross
A
notável psiquiatra foi a precursora no tratamento humanizado aos
pacientes terminais. Nasceu em 1926, na Suíça. E enveredou-se no campo
da Medicina. Foi a partir de Elisabeth Kübler-Ross que se começou a
pensar sobre a dignidade dos doentes que devassariam o invisível. A
sua missão foi dar dignidade aos pacientes e, também, cantar a
imortalidade da vida ao meio acadêmico.
Na
obra “A Roda da Vida” encontramos curiosa passagem narrada por ela
mesma. Vejamos:
(...)
“O
mistério logo se esclareceu. Minha amiga e seu marido, um arquiteto
conhecido, moravam numa linda casa em estilo espanhol. Assim que
entre, abraçaram-me e demonstraram alívio por eu ter conseguido
chegar. Havia alguma possibilidade de que não conseguisse? Antes que
tivesse tempo de perguntar qual era o problema, levaram-me para a sala
e fizeram-me sentar numa cadeira. O marido de minha amiga sentou-se
diante de mim e balançou o corpo para frente e para trás até entrar em
transe. Lancei um olhar indagador para minha amiga.
- Ele
é médium – disse.
Ao
ouvir isso, tive certeza de que a confusão logo se esclareceria e
voltei minha atenção para o marido dela. Seus olhos estavam fechados,
tinha uma expressão muito sério no rosto e, quando o espírito tomou
conta dele, parecia que tinha envelhecido cem anos.
- Deu
certo trazer você até aqui – disse, com uma voz agora estranha, de uma
pessoa mais velha, e carregada de urgência. - É fundamental que você
não protele mais. Seu trabalho sobre a morte e o morrer está
terminado. Agora, está na hora de iniciar sua segunda tarefa.
Escutar pacientes ou médiuns nunca fora problema para mim, mas
compreender o que diziam às vezes levava algum tempo.
- O
que está querendo dizer, qual é a minha segunda tarefa? – perguntei.
-
Está na hora de você dizer ao mundo que a morte não existe – afirmou.
Apesar de saber que a função dos guias é unicamente nos ajudar a
cumprir nosso destino e as promessas que fizemos a Deus, eu protestei.
Precisava de mais explicações. Precisava saber por que tinham me
escolhido. Afinal de contas, era conhecida em todo o mundo como a
Mulher da Morte e do Morrer. De que jeito voltaria atrás e diria a
todos que a morte não existe?
- Por
que eu? – perguntei. - Por que não escolheram um pastor ou alguém
assim?
O
espírito demonstrou sinais de impaciência. Observou que tinha sido eu
mesma quem escolhera o trabalho que realizaria nesta vida na Terra.
-
Estou apenas dizendo a você que está na hora – disse. E em seguida
enumerou uma lista enorme de razões pelas quais eu era a pessoa
destinada a realizar aquela tarefa:
-
Teria de ser uma pessoa ligada à medicina e à ciência, não à teologia
ou à religião, pois estas não fizeram o que deveriam apesar de terem
tido oportunidades mais do que suficientes nos últimos dois mil anos.
Teria de ser uma mulher e não um homem. E alguém que não tivesse medo.
E alguém que tivesse acesso a muita gente e fosse capaz de transmitir
a sensação de estar falando pessoalmente com cada um.
- É
tudo. Está na hora – concluiu. - Você tem muito o que assimilar.
Isto
era indiscutível. Depois de uma xícara de chá, minha amiga, seu marido
e eu, esgotados física e emocionalmente, fomos para nossos quartos. Ao
ficar só, vi que tinha sido chamada ali por aquela razão específica.
Nada acontece por acaso.” (pg. 233-235)
Ela
estabeleceu em suas pesquisas um modelo, que ficou denominado de
Modelo Kübler-Ross ou os Cinco Estágios da Dor da Morte:
1.
Primeiro estágio – Negação ou Isolamento: É um mecanismo de defesa da
mente diante da dor da morte. Variam de indivíduo para indivíduo a
duração e a intensidade dessa dor e, também, como as pessoas ao seu
redor encaram tal situação. É uma defesa do ego.
Trata-se de um momento muito delicado que exige uma educação
espiritual de todos nós, para que aprendamos a aceitar os Desígnios do
Sempiterno.
2.
Segundo estágio – Raiva: É um momento em que o instinto de preservação
da vida nos arma, muitas vezes sem sabermos. É um reflexo da nossa
educação basal deficiente. É, pois, a agressão com aqueles que estão
próximos de nós. É a agressão contra nós mesmos e contra o Criador. É
a impotência diante de uma situação inexorável. É o questionamento
muitas vezes doentio: “Por que comigo, se tem tanta gente ruim pra
morrer?”.
É um
momento que exige bastante paciência dos familiares e amigos. E,
também, varia em sua durabilidade de pessoa para pessoa.
3.
Terceiro estágio – Barganha: Devido a insegurança psicológica, a
pessoa que se encontra às portas da morte, deixa-se contaminar pela
barganha. Tenta fazer uma “troca” com o Criador. Diante da
incapacidade de oferecer-Lhe algo melhor, a pessoa promete dedicar-se
a caridade, aos asilos, às crianças carentes, hospitais, igrejas,
templos religiosos, abandonar vícios etc. A pessoa implora a Deus para
que lhe dê tempo maior sobre a Terra e em troca dar-Lhe-ia uma vida
reta na prática do bem.
4.
Quarto estágio – Depressão: O desânimo, o desinteresse, o choro e
outros são reflexos do quadro psicológico denominado depressão. Todos
nós sentimos alguma vez em maior ou menor grau esses sintomas diante
de uma “perda”. A pessoa que se vê impotente diante da verdade
inequívoca da morte, passa por esse estágio que perdura conforme a sua
conduta mental e os ensinamentos que porventura tenha recebido.
5.
Quinto estágio – Aceitação: É um momento de serenidade ante a verdade.
A Medicina hodierna vem destinando a sua atenção aos cuidados desses
pacientes e seus familiares, para que tenham um momento de
tranqüilidade e paz; sem desesperação.
Em
suas pesquisas, ela constatou também que a morte ocorre em diversas
fases. Quais sejam:
1.
Fase um: “As pessoas flutuavam para fora de seus corpos.” (pg. 211)
Nesses casos as pessoas têm consciência de tudo o que ocorre ao redor.
Conseguem descrever os comentários a seu respeito e todos os detalhes
da transição; têm uma forma etérea; sentem-se plenas, ou seja, mesmo
aquelas que têm algum problema físico (exemplo: paralíticos),
conseguem se estabelecer alegremente.
2.
Fase dois: “Nesse ponto, as pessoas já haviam deixado seus corpos para
trás e diziam que se encontravam em um estado de vida depois da morte
que só pode ser definido como espírito e energia. Sentiam-se
reconfortadas ao descobrir que nenhum ser humano jamais morre
sozinho.” (pg. 212). Essa fase caracteriza-se pela alegria da
imortalidade da alma. Pela certeza de que não se morre sozinho, ou
seja, sempre temos a companhia a que fizermos jus durante o nosso
estágio terrestre. A doutora Ross também afirma nessa passagem que
muitos ao pensarem em seus familiares, viam-se juntos deles. Eram
transportados com a rapidez do pensamento. O que nos insta a pensarmos
com harmonia e amor sobre aqueles que partem. E, também, a policiarmos
os nossos comentários.
3.
Fase três: “Guiados por seu anjo da guarda, meus pacientes passavam
então para a terceira fase, entrando no que costumava ser descrito
como um túnel, ou um portão intermediário, embora as pessoas
mencionassem uma grande variedade de outras imagens: uma ponte, um
desfiladeiro em uma montanha, um bonito riacho – basicamente o que era
mais confortador para cada um. Criavam essas imagens com energia
psíquica e, no final, viam uma luz brilhante.” (pg. 213). A força do
nosso pensamento esconde mistérios que ainda não logramos conhecer.
Nessa fase, a doutora Ross mostra-nos da importância da nossa casa
mental. De almejarmos construções mentais positivas, edificantes. O
que nos é confortador é que em suas pesquisas, muitos de seus
pacientes viram-se diante de seus mentores ou guias espirituais que
muito os amavam. Demonstrando-lhes a imensidão do Infinito e um amor
incondicional, que cada um interpretava a sua maneira, conforme a
experiência religiosa que tinha vivenciado na Terra (uns diziam ser
esse amor de Buda, outros de Jesus Cristo, outros de Deus), etc. Nessa
fase também ocorrem as primeiras visualizações do mundo espiritual,
das suas colônias, hábitos, costumes, funcionamento, enfim,
sobejamente descritas na literatura espírita.
4.
Fase quatro: “Nesse estágio, as pessoas passavam por uma revisão de
suas vidas, um processo no qual se viam diante da totalidade de suas
vidas. Repassavam cada ação, palavra e pensamento. As razões de cada
uma de suas decisões, pensamentos e ações tornava-se compreensível.”
(pg. 214) Nessa fase, ocorre uma retrospectiva das nossas ações. O que
nos faz refletir sobre a relevância de bem utilizarmos o nosso
livre-arbítrio. Ou seja, que contribuição podemos dar para o meio em
que vivemos? É um momento de pensarmos sobre o tempo de que dispomos
aqui na Terra, para quando devassarmos o Infinito, termos boas
recordações da vida planetária. E não criarmos remorsos... O tribunal
Divino está em nossas consciências. Quando morremos no plano terrestre
e adentramos o mundo espiritual somos convidados por essa mesma
consciência, onde jaz as leis de Deus, para uma reflexão sobre o tempo
que passamos na Terra. Não era sem sentido a assertiva: “A cada será
dado segundo suas obras.”
A
contribuição de Elisabeth Kübler-Ross ao mundo acadêmico é inegável.
Tratam-se de experiências belíssimas no contato com seus pacientes e
que ficaram legadas em narrativas nos seus diversos livros. Sugerimos
a leitura atenciosa de todas as obras dessa mulher extraordinária,
para que o (a) amigo (a) leitor (a) tenha uma boa noção do magnífico
trabalho dessa mulher, que por questões óbvias não pudemos dissecar da
forma que gostaríamos.
Apontamentos de Raymond Moody
Raymond Moody, renomado pesquisador norte-americano, trouxe valorosas
contribuições para o pensamento acadêmico. Suas principais idéias
estão nos livros “A Vida Depois da Vida” e “A Luz que vem do Além”, a
primeira tornou-se best-seller bastante premiada.
Suas
pesquisas recaíram sobre as pessoas que estiveram à beira da morte,
mas que por vários motivos conseguiram retornar a vida material. Ele
denominou tal fenômeno de Experiência de Quase-Morte. Tal
acontecimento é caracterizado por um conjunto de experiências por ele
detectadas junto aos diversos pacientes a que atendeu ou observou.
Uma
ou mais características que corroboram o fenômeno de Experiência de
Quase-Morte, ou seja, não há a obrigatoriedade de acontecer em
seqüência ou que todas aconteçam.
Vejamos essas sintomatologias constatadas por Raymond:
1.
Sensação de estar morto: “Muitas pessoas não percebem que a
experiência de quase-morte que estão vivenciando está ligada à morte.
Elas se vêem flutuando acima do seu corpo, olhando para ele a uma
certa distância, e, de repente, sentem medo e/ou confusão.” (pg. 20).
Essa confusão ou receio é fruto do desconhecimento da existência
espiritual. Ainda carecemos da educação para a imortalidade da vida. O
que o Dr. Raymond detectou em suas pesquisas não são propriamente
“descobertas”. Ele deu uma nova roupagem para o meio acadêmico, ainda
bastante rígido. Vale, portanto, considerar que devido a sensibilidade
maior ou menor de diversas pessoas, elas podem sim desdobrarem-se e
verem-se fora do corpo, inclusive dar detalhes de tudo o que se passa
no ambiente.
2.
Paz e Ausência de Dor: “Enquanto o paciente está encarnado,
freqüentemente pode haver dor intensa. Mas quando os ‘fios são
cortados’ há uma sensação real de paz e ausência de dor.” (pg. 22). Os
fios energéticos que unem o corpo material e o perispírito não são
“cortados”, caso contrário, teríamos a morte de fato. Esses fios são
“afrouxados” e o ser que passa por tal experiência sente-se com maior
lucidez e liberdade, porque vivencia ainda que palidamente as delícias
do espírito. Deste modo, e, levando-se em consideração a bagagem moral
de cada um, tem-se a ausência de dor. Porque a dor ocorre,
predominantemente, na matéria. A dor do espírito é moral.
3. A
Experiência de sentir-se fora do corpo: “Freqüentemente, quando o
médico diz ‘Nós o perdemos’, o paciente passa por uma mudança completa
de perspectiva. Ele se sente levantar e pode ver o próprio corpo
abaixo dele.” (pg. 22). Já mencionamos no item 1 o por que disso.
Reforçamos ainda que devido a força de vontade do paciente é possível
deslocar-se para qualquer lugar. Assim, há experiências de pessoas que
desejavam muitíssimo irem para a sala de espera, onde estavam os
familiares, e, eram capazes de descrever tudo o que ocorria com
impressionante riqueza de detalhes.
4. A
Experiência do Túnel: “A experiência do túnel geralmente acontece
depois da separação do corpo. (...) as pessoas passam pelo ‘corte das
amarras’ e pela ‘experiência de estar fora do corpo’ antes de
realmente perceberem que isso tudo está relacionado à morte.” (pg.
23). Essa experiência é mais famosa descrita por Raymond Moody. Grande
parte daqueles que passaram pela EQM afirma experimentar tal sensação,
que se configura não só como um túnel. Mas, também, de outras formas
como escadas, pontes etc.
5.
Pessoas de Luz: “Depois de atravessar o túnel, a pessoa geralmente
encontra Seres de Luz. Esses seres não são feitos de luz comum. Eles
brilham com uma luminosidade linda e intensa, que parece permear tudo
e encher a pessoa de amor.” (pg. 24). A luz dessas pessoas,
característica dos espíritos benevolentes, não causa constrangimento
ao ser que sofre uma EQM e tem oportunidade de encontrá-los. Ao
contrário, essa luz é confundida com o amor. São seres que se
preocupam com a harmonia interior do indivíduo e o infunde de alegria
e paz.
6. O
Ser de Luz: “Depois de encontrar vários Seres de Luz, a pessoa que
passa por uma EQM encontra um Ser Supremo de Luz.” (pg. 25).
Dependendo da formação religiosa do indivíduo esse Ser de Luz recebe
uma denominação, por exemplo, Jesus, Deus, Buda, Alá etc. O fato é que
esse Ser de Luz transmite uma paz e um amor totais. Todos que têm a
oportunidade de vê-lo não querem mais sair do seu lado. Poderíamos
dizer que esse Ser de Luz é o mentor da pessoa, a qual afinizada por
recônditos laços de fraternidade e amor, sente-se muito querida. Esse
mentor é o responsável por dar direcionamento a vida dessa pessoa,
como por exemplo retornar ou não ao corpo físico, realizar uma revisão
da romagem terrestre, etc.
7. A
Revisão da Vida: “Quando a revisão da vida acontece, não há mais
nenhuma ambientação física. No lugar, há uma revisão panorâmica da
vida num plano tridimensional, totalmente colorido, onde a pessoa pode
rever cada uma das coisas que fez em sua vida.” (pg. 25). Além dessa
revisão mental dos pormenores fatos da vida, a pessoa é capaz de
sentir os efeitos de suas ações. Se realizou o bem para alguém, sente
a alegria e a paz interior. Se causou mal através de uma palavra,
gesto ou atitude tem a mesma sensação da pessoa ofendida. Assim,
encontramos um juiz dentro de nós mesmos, chamado de consciência.
Essas análises causam significativas mudanças nas pessoas que sofreram
uma EQM.
8.
Ascensão Rápida ao Céu: “Devo dizer que nem todas as pessoas que têm
uma EQM passam pela experiência do túnel. Algumas relatam uma sensação
de ‘flutuar’ na qual elas sobem rapidamente aos céus, vendo o universo
de uma perspectiva possível apenas para satélites e astronautas.” (pg.
26). Cada experiência é “sui generis” e a sensação de ascensão rápida
ao céu é o resultado natural das propriedades do perispírito, que
devido a sua textura fluídica torna exeqüível a volitação, ainda que a
pessoa que passa pela EQM não saiba dizer como se processa tal
fenômeno. Muitas vezes ela encontra o suporte de benfeitores amigos
que a transportam para regiões elevadas, fora do orbe terrestre.
9.
Relutância em Voltar: “Para muitas pessoas, a EQM é tão agradável que
elas não querem voltar. Como conseqüência, costumam ficar muito bravas
com seus médicos por trazê-las de volta.” (pg. 27). Após conhecer,
ainda que palidamente, as belezas do mundo espiritual e a fraternidade
que reina entre seus habitantes as pessoas não querem mais voltar ao
mundo de dor, lutas e sofrimentos que é a Terra. Porém, são movidas
por uma estranha energia no sentido de modificar comportamentos para
melhor acertarem e conquistarem novamente esse “El Dourado” do espaço.
10.
Tempo e Espaço Diferentes: “... as pessoas que passaram por uma EQM
dizem que o tempo é altamente comprimido e nada semelhante ao tempo
que observamos em nossos relógios. Essas pessoas o descrevem como
‘estar na eternidade’.” (pg. 28). Por devassarem outra dimensão,
diferente em diversos aspectos da nossa, a questão da temporalidade
também é diferente. Cada dimensão espiritual apresenta o seu tempo
específico.
Por
fim, algumas considerações finais sobre Raymond Moody.
Ele
constatou que em alguns casos, muito menos freqüentes, algumas pessoas
que sofreram EQM puderam visualizar o futuro. Assim, seriam capazes de
dizer tudo o que aconteceria consigo mesmas ou ainda teriam a sensação
de já terem vivenciado determinadas situações (déjà vu). Esses casos
são bastante raros, mas já foram registrados na literatura desse
pesquisador e outros que estudam a mesma temática.
Outro
fato importante é a mudança profunda que a EQM causa nas pessoas que a
vivenciaram. As pessoas voltam com valores renovados, procuram amar
incondicionalmente todas as manifestações de vida. E, também, procuram
conhecer ao máximo, ou seja, matriculam-se em cursos, procuram ler
avidamente (mesmo que não gostassem antes da leitura), enfim. Afirmam
que somente o amor e o conhecimento são o que verdadeiramente levamos
para a outra dimensão. Corroboram, portanto, as assertivas do Espírito
Verdade quando disse para amarmo-nos e instruirmo-nos. Bem como
Emmanuel e outros, que afirmam que o sentimento e a razão são as duas
asas que nos levarão ao Criador.
A
contribuição de Raymond Moody ao mundo acadêmico foi e continua a ser
bastante preciosa. Ele foi juntamente com Kübler-Ross os responsáveis
pela disseminação da imortalidade da vida no mundo científico. Graças
a ambos e outros tantos a ciência começa a atentar para tais verdades.
O (a)
amigo (a) leitor (a) que desejar estudar mais a respeito da temática
deve lê-lo, porque ele nos traz ensinamentos valorosos.
Alguns Casos na Literatura Espírita
Os
casos aqui elencados têm por objetivo exemplificar o que estudamos até
aqui. Não tivemos a pretensão de abordar os casos de toda a literatura
espírita, o que constituiria um trabalho sobre-humano. E, também, os
comentários após os casos selecionados não encerram outras visões que
os (as) amigos (as) leitores (as) podem ter e que nos tenham passado
despercebido.
Obra:
Há dois mil anos – Francisco Cândido Xavier - Emmanuel
Caso
Flamínio
“O
moribundo, por sua vez, com a profunda lucidez espiritual dos que se
aproximam da morte, com plena consciência da situação e dos seus
deveres, entendeu a atitude silenciosa do filho estremecido e, tomando
a mão da jovem, que se inclinava afetuosamente sobre o seu peito,
apertou as mãos de ambos de encontro ao coração, murmurando com íntima
alegria:
-
Isso é mais... uma razão... para que eu parta... tranqüilo... Tu,
Agripa hás de ser também... muito feliz... e tu... meu caro... Públio...
junto de Lívia... haverás de viver...
Todavia, um soluço mais forte escapara-se-lhe inopinadamente e a
sucessão dos singultos violentos e dolorosos obrigou-o a calar-se,
enquanto Calpúrnia se ajoelhava e lhe cobria as mãos de beijos...
Lívia, também genuflexa, olhava para o alto como se desejasse
descobrir os seus arcanos. A seus olhos, apresentava-se aquela câmara
mortuária repleta de vultos luminosos e de outras sombras
indefiníveis, que deslizavam tranqüilamente em torno do moribundo.
Orou no imo dalma, rogando a Jesus força e paz, luz e misericórdia
para o grande amigo que partia. Nesse instante, lobrigou a radiosa
figura de Simeão, rodeada de claridade azulina e resplandecente.
Flamínio agonizava...
À
medida que transcorriam os minutos, os olhos se lhe tornavam vítreos e
descoloridos. Todo o corpo transudava um suor abundante, que alagava o
linho alvíssimo das cobertas.
Lívia
notou que todas as sombras presentes se haviam também ajoelhado e
somente o vulto imponente de Simeão ficara de pé, como se fora uma
sentinela divina, colocando as mãos radiosas na fronte abatida do
moribundo. Notou, então, que seus lábios se entreabriram para a
oração, ao mesmo tempo que doces palavras lhe chegavam, nítidas, aos
ouvidos espirituais:
- Pai
Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o
vosso reino de misericórdia e seja feita a vossa vontade, assim na
Terra como nos céus!...
Nesse
instante, Flamínio Severus deixava escapar o último suspiro. Marmórea
palidez lhe cobriu os traços fisionômicos, ao mesmo tempo que uma
infinita serenidade se estampava na sua máscara cadavérica, como se a
alma generosa houvesse partido para a mansão dos bem-aventurados e dos
justos.
Somente Lívia, com a sua crença e a sua fé, pôde conservar-se de ânimo
sereno, entre quantos a rodeavam no doloroso transe. Públio Lentulus,
entre lágrimas comovedoras, certificava-se de haver perdido o melhor e
o maior dos amigos. Nunca mais a voz de Flamínio lhe falaria das mais
belas equações filosóficas, sobre os problemas grandiosos do destino e
da dor, nas correntes intermináveis da vida. E, enquanto se abriam as
portas do palácio para as homenagens da sociedade romana; e enquanto
se celebravam solenes exéquias implorando a proteção dos manes do
morto, seu coração de amigo considerava a realidade dolorosa de se
haver rasgado, para sempre, uma das mais belas páginas afetivas, no
livro da sua vida, dentro da escuridão espessa e impenetrável dos
segredos de um túmulo.” (pg. 263-265)
Comentários
A
figura notável de Flamínio teve o ensejo de ser amparada pelos bons
espíritos, a despeito da sua crença politeísta oriunda da educação que
recebera em Roma. Somente Lívia logrou visualizar os seres celestes
que vieram buscar o bondoso amigo de Públio Lentulus e demais
personagens da obra.
Muitos de nós, espíritas, apesar de todos os conhecimentos recebidos
desencarnamos em situações lamentáveis, porque não vivenciamos os
ensinamentos da Codificação. Muitos irmãos de outras crenças vivenciam
o amor Divino à sua maneira e saem de consciência limpa do orbe
planetário.
Apesar da descrição um tanto quanto dolorosa do passamento de Flamínio,
notamos que o seu desencarne foi “bom”. Pode parecer piegas tal
classificação, mas é o melhor vocábulo que achamos para denominar um
passamento assistido pelos espíritos nobres. O que ocorre é que muitas
vezes a imagem cadavérica que deslumbramos pode não ser muito
agradável aos nossos olhos de encarnados, a nossa visão limitada, mas
o mecanismo de desencarne pode ser belíssimo. E assim foi do nobre
amigo. A figura imponente de Simeão assessorava o nobre amigo que
devassou o Infinito.
Outro
ponto não menos importante é a questão da mediunidade no momento
grave. Segundo inúmeros pesquisadores da temática, aqueles que estão
nos minutos derradeiros podem ter sua mediunidade aflorada por estarem
mais desprendidos de seus corpos. O que nos faz pensar sobre a nossa
conduta na Terra e o que poderemos vislumbrar no Além.
Faz-nos refletir também sobre os minutos preciosos que temos para os
últimos acertos, as palavras de perdão, as considerações etc. Cada
minuto na matéria é um tesouro da Divindade.
Caso
Calpúrnia
“É
possível que minha pobre alma, já semiliberta, esteja participando dos
incompreendidos mistérios da vida do além-túmulo e talvez seja por
isso que, hoje pela manhã, vi a figura de Flamínio neste quarto!...
Era muito cedo e eu estava só, com as minhas meditações e as minhas
preces!...
Nesse
ínterim, a palavra da enferma tornara-se entrecortada de profundas
emoções que a dominavam, enquanto Públio Lentulus chorava, em doloroso
silêncio.
-
Sim... – prosseguiu Calpúrnia, depois de longa pausa –, no meio de uma
luz difusa e azulada, vi Flamínio a estender-me os braços carinhosos e
compassivos... No olhar, observei-lhe a mesma expressão habitual de
ternura e, na voz, o timbre familiar, inesquecível... Avisou-me que
dentro de dois dias penetrarei os mistérios indevassáveis da morte,
mas essa revelação no meu fim próximo não me podia surpreender...
porque, para mim... que há tantos anos vivo no meu exílio de saudades
e sombras... acrescido das continuadas angústias da enfermidade longa
e dolorosa... a certeza da morte constitui supremo consolo...
Confortada pelas doces promessas da visão, as quais se auguravam esse
brando alívio para breves horas... perguntei ao espírito de Flamínio
sobre a dúvida cruel que me dilacerava há tantos anos... Bastou que a
argüisse mentalmente, para que a radiosa entidade me dissesse em alta
voz... meneando a cabeça num gesto delicado... como a exprimir
infinita e dolorosa tristeza: ‘Calpúrnia, em má hora duvidaste daquela
a quem deverias amar... e proteger como a filha querida e carinhosa...
porque Lívia... é uma criatura imaculada e inocente...’
Nesse
instante... – continuou a enferma, com alguma dificuldade –, tal foi a
impressão dolorosa de minhalma... com a surpresa da resposta... que
não mais lobriguei a visão carinhosa e consoladora... como se fosse
repentinamente chamada às tristes realidades da vida prática.
A
velha matrona tinha os olhos marejados de lágrimas, enquanto o senador
se entregava silenciosamente ao pranto de suas comoções penosas.
(...)
Havia
muito que a enferma era atacada, subitamente, de periódicas e
prolongadas dispnéias.
(...)
Calpúrnia, porém, parecia atacada pelas últimas aflições que a
levariam ao túmulo. Por vinte e quatro horas consecutivas, o peito
arfou sibilante, como se a caixa torácica estivesse prestes a rebentar
sob o impulso de uma força indomável e misteriosa.
Ao
fim de um dia e uma noite de azáfama e angústias, a doente parecia
haver experimentado ligeira melhora. A respiração fazia-se menos
penosa e os olhos revelavam grande serenidade, embora todo o corpo
estivesse salteado de manchas azuladas e violáceas, prenunciando a
morte. Apenas a afonia continuava, mas, em dado instante, fez um gesto
com a mão, chamando Lívia à cabeceira com a terna familiaridade dos
antigos tempos. A esposa do senador atendeu ao apelo silencioso,
ajoelhando-se, com os olhos cheios de lágrimas e compreendendo, pela
intuição espiritual, que era chegado o instante doloroso da despedida.
Via-se que Calpúrnia desejava falar, inutilmente. Foi então que cingiu
Lívia, amorosamente, contra o peito, osculando-lhe os cabelos e a
fronte num esforço supremo e, colando os lábios ao seu ouvido,
balbuciou com infinita ternura: - ‘Lívia, perdoa-me!’ Somente a
interpelada escutara o brando cicio da agonizante. Foram essas as
derradeiras palavras de Calpúrnia. Dir-se-ia que sua alma valorosa
necessitava, tão-somente, daquele último apelo para conseguir
desvencilhar-se da Terra, elevando-se ao Paraíso.
Abraçada à incansável amiga, a agonizante depôs novamente a cabeça nas
almofadas, para sempre. Suor abundante transbordava de todo o seu
corpo, que se aquietou de leve para a suprema rigidez cadavérica e,
daí a minutos, seus olhos se fecharam, como se se preparassem para um
grande sono. A respiração foi-se extinguindo brandamente, enquanto uma
lágrima pesada e branca lhe rolava nas faces enrugadas, como um raio
divino da luz que lhe clarificava a noite do túmulo. (pg. 327-331)
Comentários
Os
últimos momentos são marcados por singulares ensinamentos, por isso
que todos os minutos na Terra são demasiadamente valiosos aos
espíritos que nela estagiam.
Calpúrnia, nobre amiga de Lívia e Públio, a despeito da sua condição
de profitente dos deuses romanos possuía nobres sentimentos em seu
coração e caracterizava-se por atitudes benevolentes. Por isso, logrou
a paz ruma ao Infinito.
A
mediunidade é a sensibilidade em captar em maior ou menor intensidade
as interferências espirituais. E varia de indivíduo para indivíduo. É
interessante o fenômeno nos moribundos, uma das explicações é a
frouxidão dos laços que retêm o espírito ao corpo denso. Deste modo, é
possível ter experiências agradáveis ou desagradáveis. (Como veremos
no Caso Cavalcante). Tudo depende da sintonia de cada um e as
companhias que cativou ao longo da romagem terrena.
Outro
fato relevante na narrativa de Calpúrnia é o perdão. Essa atitude
reiteradas vezes mencionada pelo Mestre de Nazaré e por Ele
exemplificada é constantemente vilipendiada por nós, quando ainda
dispomos de tempo para reconciliarmo-nos com as inimizades do caminho.
Existem duas maneiras de perdoar bastante distintas: o perdão dos
lábios e o perdão do coração. Nesse contexto Calpúrnia pediu perdão
com todas as forças de seu coração o que foi prontamente atendida pela
bondosa Lívia.
Mas,
há muitos de nós, que afirmamos perdoar, mas nos comprazemos em ver o
mal das pessoas que nos pedem perdão. Ou, ainda, dizemos perdoar na
condição de nunca mais nos encontrarmos com tais pessoas. A conduta do
espírita-cristão pede o perdão emanado do coração e do pensamento
bondoso. Não impõe condições, porque sabe que Deus perdoará a medida
em que houver perdoado. Essa passagem de Calpúrnia enche-nos de
profundos ensinamentos.
Caso
Lívia
“O
venerável apóstolo de Antioquia entestou a fileira com serenidade
valorosa. Seu coração elevava-se ao infinito, em orações sinceras e
fervorosas. Em poucos instantes, todos os prisioneiros se encontravam
reunidos à entrada da arena, saturados de uma força moral que, até
então, lhes era desconhecida. É que, detrás daquelas púrpuras
suntuosas e além daqueles risos estridentes e impropérios sinistros,
estava uma legião de mensageiros celestes fortalecendo as energias
espirituais dos que iam sucumbir de morte infamante, para regar a
semente do Cristianismo com as suas lágrimas fecundas. Uma estrada
luminosa, invisível aos olhos mortais, abrira-se nas claridades do
firmamento e, por ela, descia todo um exército de arcanjos do Divino
Mestre, para aureolar com as bênçãos da sua glória os valorosos
trabalhadores da causa.
Sob
os aplausos delirantes e ensurdecedores da turba numerosa, soltaram-se
os leões famintos, para a espantosa cena de impiedade, de pavor e
sangue, mas nenhum dos apóstolos desconhecidos, que iam morrer no
depravado festim de Nero, sentiu as torturas angustiosas de tão
horrenda morte, porque o brando anestésico das potências divinas lhes
balsamizou o coração dorido e dilacerado no tormentoso momento.
Fustigados pela angústia e pela aflição do instante derradeiro, ante o
público sanguinário, os míseros sacrificados não tiveram tempo de se
reunir na arena dolorosa. As feras famintas pareciam tocadas de
horrível ansiedade. E enquanto se estraçalhavam corpos misérrimos,
Domício Nero mandava que todos os coros de dançarinos e todos os
músicos celebrassem o espetáculo com os cânticos e bailados de Roma
vitoriosa.
Incluindo-se a considerável assistência que se aglomerava nas colinas,
quase meio milhão de pessoas vibrava em aplausos ensurdecedores e
espantosos, enquanto duas centenas de criaturas humanas tombavam
espostejadas...
Ingressando na arena, Lívia ajoelhara-se defronte do grande e suntuoso
pavilhão do Imperador, onde buscou lobrigar o vulto do esposo, pela
derradeira vez, a fim de guardar no fundo dalma a dolorosa expressão
daquele último quadro, junto da imagem íntima de Jesus Crucificado,
que inundava de emoções serenas o seu pobre coração dilacerado no
minuto supremo. Pareceu-lhe divisar, confusamente, na doce claridade
do crepúsculo, a figura ereta do senador coroado de rosas, como os
triunfadores e, quando seus lábios se entreabiram numa última prece
misturada de lágrimas ardentes que lhe borbulhavam dos olhos, viu-se
repentinamente envolvida pelas patas selvagens de um monstro. Não
sentira, porém, qualquer comoção violenta e rude, que assinala
comumente o minuto obscuro da morte. Figurou-se-lhe haver
experimentado ligeiro choque, sentindo-se agora embalada nuns braços
de névoa translúcida, que ela contemplou altamente surpreendida.
Buscou certificar-se da sua posição, dentro do circo, e reconheceu, a
seu lado, a nobre figura de Simeão, que lhe sorria divinamente,
dando-lhe a silenciosa e doce certeza de haver transposto o limiar da
Eternidade.
Naquele instante, dentro do camarim de honra do Imperador, Públio
Lentulus sentiu no coração inexprimível angústia. No turbilhão daquele
ensurdecedor vozerio, o senador nunca sentira tão fundo desalento e
tão amargo desencanto da vida. Horrorizavam-lhe agora aqueles
tremendos espetáculos homicidas, de pavor e morte. Sem que pudesse
explicar o motivo, seu pensamento voltou à Galiléia longínqua,
figurando-se-lhe divisar, novamente, a suave figura do Messias de
Nazaré, quando lhe afirmava: - Todos os poderes do teu Império são bem
fracos e todas as suas riquezas bem miseráveis!...” (pg.364-365)
(...)
“Reportando-nos à dolorosa e comovedora cena do sacrifício dos
mártires cristãos, na arena do circo, somos compelido a acompanhar a
entidade de Lívia na sua augusta trajetória para o Reino de Jesus.
Nunca
os horizontes da Terra forma brindados com paisagens de tanta beleza,
como as que se abriram nas esferas mais próximas do planeta, quando da
partida em massa dos primeiros apóstolos do Cristianismo, exterminados
pela impiedade humana, nos tempos áureos e gloriosos da consoladora
doutrina do Nazareno.
Naquele dia, quando as feras famintas estraçalhavam os indefesos
adeptos das idéias novas, toda uma legião de espíritos sábios e
benevolentes, sob a égide do Divino Mestre, lhes rodeava os corações
dilacerados no martírio, saturando-os de força, resignação e coragem
para o supremo testemunho de sua fé.
Sobre
as nefastas paixões desencadeadas naquela assistência ignorante e
impiedosa, desdobravam os poderes do céu o manto infinito de sua
misericórdia, e além daquele vozerio sinistro e ensurdecedor havia
vozes que abençoavam, proporcionando aos mártires do Senhor uma fonte
de suaves e ditosas consolações.
Entardecia já, quando tombavam as últimas vítimas ao choque brutal dos
leões furiosos e implacáveis.
Abrindo os olhos entre os braços carinhosos do seu velho e generoso
amigo, Lívia compreendera, imediatamente, a consumação do angustioso
transe. Simeão tinha nos lábios um sorriso divino e lhe acariciava os
cabelos, paternalmente, com meiguice e doçura. Estranha emoção
vibrava, porém, na alma liberta da esposa do senador, que se viu presa
de lágrimas dolorosas. A seu lado notou, com penosa surpresa, os
despojos sangrentos do corpo dilacerado e entendeu, embora o seu
espanto, o doce mistério da ressurreição espiritual, de que falava
Jesus nas suas lições divinas. Desejou falar, de modo a traduzir seus
pensamentos mais íntimos e, todavia, tinha o coração repleto de
emoções indefiníveis e angustiosas. Aos poucos, notou que, da arena
ensangüentada, se erguiam entidades, qual a sua própria, ensaiando
passos vacilantes, amparadas, porém, por criaturas etéreas, aureoladas
de graça incomparável, como jamais contemplara em qualquer
circunstância da vida. Aos seus olhos desapareceu o cenário colorido e
tumultuoso do circo da ignomínia e aos ouvidos não mais ressoaram as
gargalhadas irônicas e perversas dos espectadores impiedosos. Notou
que, do firmamento constelado, fluía uma luz misericordiosa e
compassiva, afigurando-se-lhe que nova claridade, desconhecida na
Terra, se acendera maravilhosamente dentro da noite. Imensa multidão
de seres, que lhe pareciam alados, cercava-os a todos enchendo o
ambiente de vibrações divinas.
Deslumbrada, viu, então, que entre a Terra e o Céu se formava radioso
caminho...
Através de uma esteira de luz intraduzível, que não chegara a ofuscar
o brilho caricioso e terno das estrelas que bordavam, cintilando, o
azul macio do firmamento, observou novas legiões espirituais que
desciam, celeremente, das maravilhosas regiões do Infinito...
Empolgados com as sonoridades delicadas daquele ambiente
indescritível, seus ouvidos escutaram, então, sublimes melodias do
plano invisível, como se, de envolta com liras e flautas, harpas e
alaúdes, cantassem no Alto as divinas toutinegras do Paraíso,
projetando as alegrias siderais nas paisagens escuras e tristes da
Terra...
Seu
espírito, como que impulsado por energia misteriosa, conseguiu, então,
manifestar as emoções mais íntimas e mais queridas.
(...)
Naquele instante, porém, uma força incompreensível parecia impelir
para as Alturas quantos ali se conservavam sem a pesada indumentária
da Terra...
Lívia
sentiu que o terreno lhe faltava e que todo o seu ser volitava em
pleno espaço, experimentando estranhas sensações, embora fortemente
amparada pelos braços generosos do venerando amigo.
Era,
de fato, uma radiosa caravana de entidades puríssimas, que se elevava
em conjunto, através daquele cintilante caminho traçado de luz, em
pleno éter!...” (pg. 385-387)
Comentários
Lívia
e os primeiros cristão, devido aos valores morais conquistados em
existências pregressas, foram eleitos para a edificação da fé nascente
(O Cristianismo). Seus exemplos de martírio e abnegação espantavam os
que se deleitavam com os espetáculos cruéis.
Por
detrás daquela turba esfaimada e das feras famintas, legiões
espirituais assessoravam aqueles que deveriam dar o testemunho
supremo. Por isso, os primeiros cristãos possuíam uma força intrínseca
que nem mesmo eles poderiam compreender. Eles não experimentaram as
dores do quadro dantesco. Eram rapidamente assistidos pelos espíritos
benfeitores e levados ao verdadeiro Reino de Deus.
No
contexto atual não precisamos ser imolados nos circos da ignorância,
temos liberdade de pensamento, liberdade de locomoção, liberdade
política e religiosa, entretanto, poucos de nós damos a Vida ao
Messias. Poucos de nós acolhemos aqueles que necessitam; ou envidamos
esforços para a melhoria moral; ou ainda para o equilíbrio familiar; a
luta contra a violência, a prostituição, a drogadição... Poucos de nós
damos o nosso testemunho em favor Daquele que foi crucificado por nós.
Caso
Públio Lentulus
“Plínio chegava, afinal, para o instante derradeiro. Flávia Lentúlia
apertou-o carinhosamente nos braços, enquanto o velho senador
semi-asfixiado tomava as mãos do filho, abraçando-se os três num
amplexo derradeiro.
Flávia e Plínio quiseram falar, mas grossa camada de cinzas penetrava
o interior, pelas fendas enormes da vila meio destruída...
Mais
um estremeção do solo e as colunas que ainda restavam de pé se
abateram sobre os três, roubando-lhes as últimas energias e fazendo-os
cair assim, enlaçados para sempre, sob um montão de escombros...
Naquelas sombras espessas, todavia, pairavam criaturas aladas e leves,
em atitudes de prece, ou confortando ativamente o coração abatido dos
míseros condenados à destruição.
Sobre
os três corpos soterrados permanecia a entidade radiosa de Lívia,
junto de numerosos companheiros que cooperavam, com devotamento e
precisão, nos serviços de desprendimento total dos moribundos.
Pousando as mãos luminosas e puras na fronte abatida do companheiro
exausto e agonizante, Lívia elevou os olhos ao firmamento enegrecido e
orou com a suavidade da sua fé e dos seus sentimentos diamantinos.
(...)
E,
enquanto Lívia orava, o senador abraçado aos filhos, já cadáveres,
desferia o último gemido, com pesada lágrima a lhe cintilar nos olhos
mortos...
Numerosas legiões de seres espirituais volitaram por vários dias, nos
céus caliginosos e tristes de Pompéia.
Ao
cabo de longas perturbações, Públio Lentulus e filhos despertaram, ali
mesmo, sobre o túmulo nevoento da cidade morta.
Em
vão o senador invocou a presença de Ana ou de algum outro servo, na
penosa ilusão da vida material, persistindo em seu organismo psíquico
as impressões da cegueira material, que representara o longo suplício
dos seus anos derradeiros, na indumenta da carne.
(...)
Embora as dedicações constantes de Lívia, havia já alguns dias que seu
espírito se encontrava presa de pesadelos angustiosos, nos primeiros
instantes da vida do Além, assistido, porém, continuamente por
Flamínio e outros companheiros abnegados, que o aguardavam no plano
espiritual.
Contudo, depois daquelas súplicas sinceras que lhe fluíam do mais
recôndito do coração, sentiu que seu mundo interior se desanuviara...
Junto dos filhos queridos, recobrou a visão e reconheceu os entes
amados, com lágrimas de amor e reconhecimento, nos pórticos do
além-túmulo.” (pg. 490-493)
Comentários
É
comum no recém-liberto as impressões ainda da vida material. A
natureza não dá saltos e processo de adaptação na erraticidade é
paulatino. Assim, a vestimenta, a alimentação, os conhecimentos, as
sensações ainda da vida material, entre outros, são fatores comuns no
mundo dos imortais.
Entretanto, é imperioso estudarmos profundamente tais casos narrados
na literatura espírita.
Se
tivermos condutas positivas no bem, nos trabalhos de caridade (sem
interesses mesquinhos, mas com a nobre idéia de ser útil na Seara do
Cristo) e, também, se estudarmos os profundos ensinamentos que os
espíritos nos trazem, certamente, será bem mais fácil a nossa
adaptação ao mundo espiritual.
Públio Lentulus nos derradeiros anos de sua existência havia se
tornado cego e devido aos múltiplos reveses por que passou, começou a
voltar seu pensamento para os ensinamentos do Cristo e nos heróicos
exemplos dos primeiros cristãos. Ele passava horas na companhia de
Ana, a escrava fiel e bondosa, e de sua filha, que também se tornara
cega, refletindo e discutindo fraternalmente os ensinamentos do
Cristo.
Quando lhe chegou o instante supremo da desencarnação, por um período
considerável, ainda sentia-se cego. O processo de mudança e adaptação
ao mundo espiritual ocorrem aos poucos. Porém, precisamos considerar
que tudo reflete o pensamento e os valores morais conquistados. Há
inúmeros casos que apesar da limitação física ou da patologia
existente, quando do momento do desencarne, o espírito pode
apresentar-se num perispírito perfeito, sem as manifestações atávicas
da Terra. Isso depende da evolução de cada um.
Obra:
Voltei – Francisco Cândido Xavier - Jacob
Caso
Jacob
(...)
“Identificava-me em singulares processos de desdobramento.
Recluso, na impossibilidade de receber os amigos para conversações e
entendimentos mais demorados, em várias ocasiões me vi fora do corpo
exausto, buscando aproximar-me deles.
Nas
últimas trintas horas, reconheci-me em posição mais estranha. Tive a
idéia de que dois corações me batiam no peito. Um deles, o de carne,
em ritmo descompassado, quase a parar, como relógio sob indefinível
perturbação, e o outro pulsava, mais equilibrado, mais profundo...
A
visão comum alterava-se. Em determinados instantes, a luz invadia-me
em clarões subitâneos, mas, por minutos de prolongada duração,
cercava-me densa neblina.
O
conforto da câmara de oxigênio não me subtraía as sensações de
estranheza.
Observei que frio intenso veio ferir-me as extremidades. Não seria a
integral extinção da vida corpórea?
Procurei acalmar-me, orar intimamente e esperar. Após sincera rogativa
a Jesus para que me não desamparasse, comecei a divisar à esquerda a
formação de um depósito de substância prateada, semelhante a gaze
tenuíssima...
Não
poderia dizer se era dia ou se era noite em torno de mim, tal o
nevoeiro em que me sentia mergulhado, quando notei que duas mãos
caridosas me submetiam a passes de grande corrente. À medida que se
desdobravam, de alto a baixo, detendo-se com particularidade no tórax,
diminuíam-se-me as impressões de angústia. Lembrei, com força, o Irmão
Andrade, atribuindo-lhe o benefício, e implorei-lhe mentalmente se
fizesse ouvir, ajudando-me.
Qual
se estivesse sofrendo melindrosa intervenção cirúrgica, sob máscara
pesada, ouvi alguém a confortar-me: ‘Não se mexa! Silêncio!
Silêncio!...’
Concluí que o término da resistência orgânica era questão de minutos.
Não
se estendeu o alívio, por muito tempo.
Passei a registrar sensações de esmagamento no peito.
As
mãos do passista espiritual concentravam-se-me agora no cérebro.
Demoraram-se, quase duas horas, sobre os contornos da cabeça. Suave
sensação de bem-estar voltou a dominar-me, quando experimentei abalo
indescritível na parte posterior do crânio. Não era uma pancada.
Semelhava-se a um choque elétrico, de vastas proporções, no íntimo da
substância cerebral. Aquelas mãos amorosas, por certo, haviam desfeito
algum laço forte que me retinha ao corpo de carne...
Senti-me no mesmo instante subjugado por energias devastadoras.
A que
comparar o fenômeno?
A
imagem mais aproximada é a de uma represa, cujas comportas fossem
arrancadas repentinamente.
Vi-me
diante de tudo o que eu havia sonhado, arquitetado e realizado na
vida. Insignificantes idéias que emitira, tanto quanto meus atos
mínimos, desfilavam, absolutamente precisos, ante meus olhos aflitos,
como se me fossem revelados de roldão, por estranho poder, numa câmara
ultra-rápida instalada dentro de mim. Transformara-se-me o pensamento
num filme cinematográfico misteriosa e inopinadamente desenrolado, a
desdobrar-se, com espantosa elasticidade, para seu criador assombrado,
que era eu mesmo.
(...)
Senti-me sozinho e amedrontei-me. Esforcei-me por gritar, implorando
socorro, porém os músculos não mais me obedeceram.
Busquei abrigar-me na prece, mas o poder de coordenação escapava-me.
Não
conseguiria precisar se eu era um homem a morrer ou um náufrago a
debater-se em substância desconhecida, sob extenso nevoeiro.
Naquele intraduzível conflito, lembrei mais insistentemente o dever de
orar nas circunstâncias mais duras... Rememorei a passagem evangélica
em que Jesus acalma a tempestade, perante os companheiros espavoridos,
rogando ao Céu salvação e piedade...
Forças de auxílio dos nossos protetores espirituais, irmanadas à minha
confiança, sustaram as perturbações. Braços vigorosos, não obstante
invisíveis para mim, como que me reajustavam no leito. Aflição
asfixiante, contudo, oprimia-me o íntimo. Ansiava por libertar-me.
Chorava conturbado, jungido ao corpo desfalecente, quando tênue luz se
fez perceptível ao meu olhar. Em meio do suor copioso lobriguei minha
filha Marta a estender-me os braços.” (pg. 29-32)
Comentários
Temos
nessa obra monumental a rica descrição de Irmão Jacob sobre o próprio
desencarne e suas primeiras impressões no mundo espiritual. Em
narrativa similar a de André Luiz, ele nos trás exemplificações que
merecem meditação.
A
primeira que podemos destacar do trecho supracitado, diz respeito a
mediunidade dos moribundos. Ou seja, a maior sensibilidade do
organismo perispiritual diante do fenômeno da morte. Nele causou
estranheza a sensação de dois corações ainda trabalhando: o físico em
ritmo descompassado e o perispiritual dentro da funcionalidade normal.
Outra
sensação desagradável e que merece a nossa atenção foi o enregelamento
orgânico e que foi sentido pelo espírito ainda não liberto da matéria.
Nesse estágio, uma considerável flora microscópica já iniciava o
processo de decomposição, embora ainda houvesse fluido vital no
organismo físico. Há, em verdade, uma luta do corpo físico para que o
senhor espiritual não o deixe.
A
questão temporal também é um fator que nos causa estranheza nos
primeiros instantes de desligamento. Não é possível identificar o
tempo, visto ser o tempo no mundo espiritual diferente do terrestre.
Os
mecanismos envolvidos no processo desencarnatório variam de espírito
para espírito, acreditamos que as narrativas de Irmão Jacob falam por
si mesmas e não nos deteremos em todas as nuances do fenômeno.
Existem padrões comuns aos diversos desencarnes, um deles por ele
narrado e confirmado pelos outros exemplos de diversos pesquisadores é
a visão panorâmica: dos pequenos atos, palavras e pensamentos emitidos
por ele em sua existência terrestre aos grandes eventos da sua vida
desfilaram como que numa tela cinematográfica.
Posteriormente, diante das desagradáveis sensações que experimentou,
ele buscou o recurso da prece mental. Precioso auxílio que devemos
buscar no momento supremo.
As
revelações da obra “Voltei” são interessantíssimas e merecem a leitura
dos (as) amigos (as) leitores (as).
Para
finalizar o trecho por nós destacado, gostaríamos de pontuar as
lúcidas explicações do Dr. Bezerra de Meneses a respeito de
determinadas energias que ele denominou de “fluidos gravitantes”. São
energias que ainda não compreendemos oriundas das rogativas mentais
dos encarnados parentes e amigos do morto que acabam por dificultar o
processo de libertação, bem como as densas energias presentes nos
objetos de uso pessoal, que foram por nós utilizados, que criam uma
espécie de campo energético, exigindo de nós renúncia dos bens
materiais. (pg. 41)
Obra:
Obreiros da Vida Eterna – Francisco Cândido Xavier – André Luiz
O
espírito André Luiz, por intermédio da saudosa pena de Chico Xavier,
teve ensejo de apresentar-nos rico material a respeito da
desencarnação. Analisemo-lo:
Caso
Dimas
“O
transe era, sem dúvida, melindroso.
A
esposa do médium, ao pé dele, não obstante prolongadas vigílias e
sacrifícios estafantes, que a expressão fisionômica denunciava,
mantinha-se firme a seu lado, olhos vermelhos de chorar, emitindo
forças de retenção amorosa que prendiam o moribundo em vasto
emaranhado de fios cinzentos, dando-nos a impressão de peixe
encarcerado em rede caprichosa.
(...)
Reparei que o moribundo se encontrava já em dolorosas condições.
Plenamente desorganizado, o fígado começava definitivamente a
paralisar suas funções. O estômago, o pâncreas e o duodeno
apresentavam anomalias estranhas. Os rins pareciam praticamente
mortos. Os glomérulos prendiam-se aos ramos arteriais como pequeninos
botões arroxeados; os tubos coletores, enrijecidos, prenunciavam o fim
do corpo. Sintomas de gangrena pesavam em toda a atmosfera orgânica.
O que
mais impressionava, porém, era a movimentação da fauna microscópica.
Corpúsculos das mais variadas espécies nadavam nos líquidos acumulados
no ventre, concentrando-se particularmente no ângulo hepático, como a
buscarem alguma coisa, com avidez, nas vizinhanças da vesícula.
O
coração trabalhava com dificuldade. Enfim, o enfraquecimento atingira
o auge.
─
Precisamos fornecer-lhe melhoras fictícias – asseverou o dirigente de
nossas atividades –, tranqüilizando-lhe os parentes aflitos. A câmara
está repleta de substâncias mentais torturantes.
O
Assistente principiou, então, a exercer intensivamente sua influência.
Dimas, de raciocínio obnubilado pela dor, não divisava a nossa
presença. Os atritos celulares, pelo rápido desenvolvimento dos vírus
portadores do coma, impediam-lhe percepções claras. As proveitosas
faculdades mediúnicas que ele possuía haviam caído em temporário
eclipse, ante os choques do sofrimento. Era, porém, extremamente
sensível à atuação magnética.
Pouco
a pouco, com a interferência de Jerônimo, o amigo acalmou-se, respirou
em ritmo quase normal...
(...)
Em
vista das melhoras obtidas, houve expansão de júbilo familiar. O
médico foi chamado. Radiante, o clínico asseverou que os prognósticos
contrariavam suposições anteriores. Renovou as indicações, dispensou
os anestésicos e recomendou ao pessoal doméstico que entregasse o
doente ao repouso absoluto. Dimas acusava melhoras surpreendentes. Era
razoável, portanto, que a câmara fosse deixada em silêncio para que
ele tivesse um sono reparador.
O
esculápio atendia-nos ao desejo.
Em
breves minutos, o compartimento ficou solitário, facilitando-nos o
serviço.
O
Assistente distribuiu trabalho a todos nós. Hipólito e Luciana, depois
de tecerem uma rede fluídica de defesa, em torno do leito, para que as
vibrações mentais inferiores fossem absorvidas, permaneceram em prece
ao lado, enquanto eu mantinha a destra sobre o plexo solar do
agonizante.
─
Iniciaremos, agora, as operações decisivas – declarou-nos Jerônimo,
resoluto –, antes, porém, forneçamos ao nosso amigo a oportunidade da
oração final.
O
Assistente tocou-o, demoradamente, na parte posterior do cérebro.
Vimos que o agonizante passou a emitir pensamentos luminosos e belos.
Não nos via, nem nos ouvia, de maneira direta, mas conservava a
intuição clara e ativa. Sob o controle de Jerônimo, experimentou
imperiosa necessidade de orar e, embora os lábios cansados
prosseguissem imóveis, assinalamos a rogativa mental que endereçava ao
Divino Mestre...” (pg.204-208)
Após
a aparição de uma nobre anciã, que era mãe do moribundo, narra-nos
André Luiz:
“O
Assistente comentou a urgência da tarefa que nos aguardava e
confiou-lhe o depósito querido.
Em
breves instantes, tínhamos perante os olhos inolvidável quadro
afetivo. Sentara-se a velhinha no leito, depondo a cabeça do moribundo
no regaço acolhedor, afagando-a com as mãos cariciosas.
Em
virtude do reforço valioso no setor da colaboração, Hipólito e
Luciana, atendendo ao nosso dirigente, foram velar pelo sono da
esposa, para que as suas emissões mentais não nos alterassem o
esforço.
No
recinto, permanecemos os três apenas.
Dimas, experimentando indefinível bem-estar no regaço materno, parecia
esquecer, agora, todas as mágoas, sentindo-se amparado como criança
semi-inconsciente, quase feliz. Ordenou Jerônimo que me conservasse
vigilante, de mãos coladas à fronte do enfermo, passando, logo após,
ao serviço complexo e silencioso de magnetização. Em primeiro lugar,
insensibilizou inteiramente o vago, para facilitar o desligamento nas
vísceras. A seguir, utilizando passes longitudinais, isolou todo o
sistema nervoso simpático, neutralizando, mais tarde, as fibras
inibidoras no cérebro. (...)
─
Segundo você sabe, há três regiões orgânicas fundamentais que demandam
extremo cuidado nos serviços de liberação da alma: o centro
vegetativo, ligado ao ventre, como sede das manifestações
fisiológicas; o centro emocional, zona dos sentimentos e desejos,
sediado no tórax, e o centro mental, mais importante por excelência,
situado no cérebro. (...)
Aconselhando-me cautela na ministração de energias magnéticas à mente
do moribundo, começou a operar sobre o plexo solar, desatando laços
que localizavam forças físicas. Com espanto, notei que certa porção de
substância leitosa extravasava do umbigo, pairando em torno.
Esticaram-se os membros inferiores, com sintomas de esfriamento.
Dimas
gemeu, em voz alta, semi-inconsciente.
Acorreram amigos, assustados. Sacos de água quente foram-lhe apostos
nos pés. Mas, antes que os familiares entrassem em cena, Jerônimo, com
passes concentrados sobre o tórax, relaxou os elos que mantinham a
coesão celular no centro emotivo, operando sobre determinado ponto do
coração, que passou a funcionar como bomba mecânica, desreguladamente.
Nova cota de substância desprendia-se do corpo, do epigastro à
garganta, mas reparei que todos os músculos trabalhavam fortemente
contra a partida da alma, opondo-se à libertação das forças motrizes,
em esforço desesperado, ocasionando angustiosa aflição ao paciente. O
campo físico oferecia-nos resistência, insistindo pela retenção do
senhor espiritual.
Com a
fuga do pulso, foram chamados os parentes e o médico, que acorreram
pressurosos. No regaço maternal, todavia, e sob nossa influenciação
direta, Dimas não conseguiu articular palavras ou concatenar
raciocínios.
Alcançáramos o coma, em boas condições.
O
Assistente estabeleceu reduzido tempo de descanso, mas volveu a
intervir no cérebro. Era a última etapa. Concentrando todo o seu
potencial de energia na fossa romboidal, Jerônimo quebrou alguma coisa
que não pude perceber com minúcias, e brilhante chama violeta-dourada
desligou-se da região craniana, absorvendo, instantaneamente, a vasta
porção de substância leitosa já exteriorizada. Quis fitar a brilhante
luz, mas confesso que era difícil fixá-la, com rigor. Em breves
instantes, porém, notei que as forças em exame eram dotadas de
movimento plasticizante. A chama mencionada transformou-se em
maravilhosa cabeça, em tudo idêntica à do nosso amigo em
desencarnação, constituindo-se, após ela, todo o corpo perispiritual
de Dimas, membro a membro, traço a traço. E, à medida que o novo
organismo ressurgia ao nosso olhar, a luz violeta-dourada, fulgurante
no cérebro, empalidecia gradualmente, até desaparecer, de todo, como
se representasse o conjunto dos princípios superiores da
personalidade, momentaneamente recolhidos a um único ponto,
espraiando-se, em seguida, através de todos os escaninhos do organismo
perispirítico, assegurando, desse modo, a coesão dos diferentes
átomos, das novas dimensões vibratórias.
Dimas-desencarnado elevou-se alguns palmos acima de Dimas-cadáver,
apenas ligado ao corpo através de leve cordão prateado, semelhante a
sutil elástico, entre o cérebro de matéria densa, abandonado, e o
cérebro de matéria rarefeita do organismo liberto.
A
genitora abandonou o corpo grosseiro, rapidamente, e recolheu a nova
forma, envolvendo-a em túnica de tecido muito branco, que trazia
consigo.
Para
os nossos amigos encarnados, Dimas morrera, inteiramente. Para nós
outros, porém, a operação era ainda incompleta. O Assistente deliberou
que o cordão fluídico deveria permanecer até ao dia imediato,
considerando as necessidades do ‘morto’, ainda imperfeitamente
preparado para desenlace mais rápido.” (pg. 209-212)
Comentários
É,
indubitavelmente, uma das histórias mais belas e ricas de ensinamento
da literatura espiritualista. Destacamos alguns pontos que achamos
interessante. Primeiramente, o poder do pensamento de nós encarnados
sobre o moribundo. É sobejamente conhecido de todos que se dedicam aos
estudos espiritistas o poder do pensamento, uma vez que o mesmo é
matéria. Infelizmente, apenas temos consideráveis conhecimentos
teóricos. No campo prático, entretanto, a situação se nos apresenta de
forma inversa. Não estamos acostumados a emitir forças mentais
positivas e nobres.
Assim, o pensamento de angústia dos familiares de Dimas retinham-no ao
corpo denso. E era de tal natureza essas emissões mentais, que
verdadeiras teias acinzentadas eram formadas em torno do leito do
agonizante, o que dificultava sobremaneira o seu desenlace. Houve a
necessidade da intervenção do mentor da equipe de socorro para o
desligamento.
Um
segundo ponto não menos importante diz respeito a melhora fictícia. A
despeito da atividade microscópica estar avançada no corpo físico de
Dimas, a espiritualidade maior com o intuito de tranqüilizar os
familiares e facilitar o desprendimento do moribundo, realizou essa
aparente melhora o que trouxe alegria aos familiares e ao médico que o
assistia.
Quando a calma se restabeleceu no ambiente, eles começaram a atuar no
processo de libertação.
Um
terceiro ponto por nós destacado, diz respeito a rede fluídica de
defesa criada pelos companheiros da equipe. Essa rede tinha por
objetivo proteger o desencarnante de emissões mentais negativas, o que
dificultaria sobremodo a sua transição. Mais uma vez, somos forçados a
refletir sobre o poder do pensamento em nossas vidas e ações.
Discipliná-lo é tarefa improrrogável para todos nós. Para atingir tal
desiderato, podemos e devemos entrar em contato com as forças
superiores da vida através da oração.
O
processo de libertação ocorre paulatinamente o que faz meditarmos a
respeito de magnas questões que muitas vezes ignoramos quando somos
tomados pela morte. Como é o caso esclarecido no livro “Obreiros da
Vida Eterna”, por nós destacado: “As imagens contidas nas evocações
das palestras incidem sobre a mente do desencarnado, mantido em
repouso depois de rápido mergulho na contemplação dos fatos alusivos à
existência finda. Não somente as imagens. Por vezes, nossos amigos
presentes, fecundos nas conversações sem proveito, exumem, com tamanho
calor, a lembrança de certos fatos, que trazem até aqui alguns dos
protagonistas já desencarnados.” (pg. 219). As nossas conversas e
emanações mentais têm tal poder, que mesmo os amigos espirituais
aplicando recursos terapêuticos para que o benefício do sono se faça
presente no recém-desencarnado, tal momento que deveria ser de
reequilíbrio, é povoado de pesadelos. Como ocorreu com Dimas.
Por
fim, fizemos um esboço sobre os três pontos importantíssimos para a
libertação do desencarnante:
Se analisarmos bem, não temos tido (com raras e honrosas exceções) um
comportamento exemplar no que tange a esses três centros apresentados
por André Luiz. O Centro Vegetativo, sede das manifestações
fisiológicas, um sem-número de vezes é utilizado de maneira equivocada
por todos nós. Não temos uma educação alimentar adequada, ainda nos
debatemos na problemática do sexo, etc. O outro campo também
importante, o Centro Emocional, sede dos sentimentos e desejos, tem
sido de igual modo menosprezado por nós. Porque ainda não logramos ao
equilíbrio emocional adequado, temos sentimentos inferiores, etc. Por
fim, o Centro Mental, o mais relevante, constantemente é bombardeado
por nossas emissões mentais negativas.
As
descrições de André Luiz não devem ser refletidas apenas nos campos da
fisiologia e anatomia humanas. Mas, também, depreendidas sob a ótica
moral, ou seja, o que podemos fazer para tornar esses centros de força
mais equilibrados e, conseqüentemente, facilitarmos a nossa
desencarnação? Essa é uma das muitas reflexões que devemos passar em
revista como fazia Santo Agostinho.
Caso
Fábio
“(...)
─
Fábio permanece em excelente forma – esclareceu-nos o orientador – e
não exigirá cooperação complexa. Preparou, com relação ao
acontecimento, não somente a si mesmo, senão também os parentes, que,
ao invés de nos preocuparem, como acontece comumente, serão úteis
colaboradores de nossa tarefa.
(...)
A sós
com o doente e a esposa, que tentavam conciliar o sono, encetamos o
serviço de libertação.
Enquanto Silveira amparava o filho, com inexcedível carinho, Jerônimo
aplicou ao enfermo passes anestesiantes. Fábio sentiu-se bafejado por
deliciosas sensações de repouso. Em seguida, o Assistente deteve-se em
complicada operação magnética sobre os órgãos vitais da respiração e
observei a ruptura de importante vaso. O paciente tossiu e, num átimo,
o sangue fluiu-lhe à boca aos borbotões.
Dona
Mercedes levantou-se, assustada, mas o esposo, falando dificilmente,
tranqüilizou-a:
-
Pode chamar o médico... entretanto, Mercedes... não se preocupe... é
justamente o fim...
Enquanto prosseguia Jerônimo separando o organismo perispiritual do
corpo débil, Dona Mercedes pediu o socorro de um vizinho, que saiu,
prestativo, em busca do clínico especializado.
O
médico não tardou, trazido celeremente por automóvel, mas embalde
aplicaram a solução de adrenalina, a sangria no braço, os sinapismos
nos pés e as ventosas secas no peito. O sangue em golfadas rubras,
fluía sempre, sempre...
Reparei que Jerônimo repetia o processo de libertação praticado em
Dimas, mas com espantosa facilidade. Depois da ação desenvolvida sobre
o plexo solar, o coração e o cérebro, desatado o nó vital, Fábio fora
completamente afastado do corpo físico. Por fim, brilhava o cordão
fluídico-prateado, com formosa luz. Amparado pelo genitor, o
recém-liberto descansava, sonolento, sem consciência exata da
situação.
Supus
que o caso de Dimas se repetiria, ali, minudência por minudência;
porém, uma hora depois da desencarnação, Jerônimo cortou o apêndice
luminoso.
-
Está completamente livre – declarou meu orientador, satisfeito.
O pai
enternecido depositou sobre a fronte do filho desencarnado, em brando
sono, um beijo repassado de amor e entregou-o a Jerônimo, asseverando:
- Não
desejo que ele me reconheça de pronto. Não seria aproveitável levá-lo
agora a recordações do passado. Encontrá-lo-ei mais tarde, quando
tenha de partir da instituição socorrista para as zonas mais altas.
Pode conduzi-lo sem perda de tempo. Incumbir-me-ei de velar pelo
cadáver, inutilizando os derradeiros resíduos vitais contra o abuso de
qualquer entidade inconsciente e perversa.
O
Assistente agradeceu, emocionado, e partimos, conduzindo o sagrado
depósito que nos fora confiado.
Enquanto prosseguíamos, espaço acima, contemplei, respeitoso, o
primeiro anúncio da aurora e, observando Fábio adormecido, tive a
impressão de que gloriosos portos do Céu se iluminavam de sol para
receber aquele homem, de sublime exemplo cristão, que subia vitorioso,
da Terra...” (pg. 240-254).
Comentários
O
desencarne de Fábio é rico de beleza, por ser considerado a
exemplificação do amor. Seus familiares, preparados diante da
imortalidade da vida, não o prendiam com rogativas egoístas e
desequilibradas. Ao contrário, colaboraram com sinceras rogativas ao
Criador para que o seu momento fosse o mais tranqüilo e pacífico
possível. Não fizeram de seus sentimentos grilhões, (como muitos de
nós fazemos), mas energias positivas que colaboraram no processo de
libertação.
Fábio
soube aproveitar a indumentária carnal e o tempo disponível no labor
do bem. E, por isso mesmo, teve ensejo de um desencarne feliz. Tanto
foi positivo, que passada 1 hora já se encontrava liberto do corpo
material e fora levado ao posto socorrista a que fazia jus. O mesmo
não ocorreu com Dimas, que não tinha uma base familiar adequada que o
auxiliasse no momento grave. A participação familiar no caso Fábio,
além do seu mérito individual, fizeram com que o seu desencarne fosse
rápido e harmônico. E esse é o fator mais relevante da nossa breve
análise, a educação familiar diante da morte. Enquanto militamos no
movimento espírita, devemos educar corretamente nossos familiares e a
nós mesmos para que no momento oportuno saibamos utilizar os
conhecimentos adquiridos na Terceira Revelação.
Outro
ponto a se considerar é a atitude do genitor de Fábio que iria
inutilizar “os derradeiros resíduos vitais contra o abuso de qualquer
entidade inconsciente e perversa.” É uma informação que muitas vezes
passa despercebida por nós durante as leituras de romances espíritas.
É necessário considerar que mesmo desligado do corpo material, este
ainda mantém uma quantidade de energia mais ou menos considerável. Os
espíritos ignorantes e perversos podem se utilizar dessas energias
vitais para fins ignóbeis e, até mesmo, vampirizar os despojos
materiais. De onde se segue que devemos ter bastante cuidado durante a
nossa romagem terrestre e, também, devemos ter um comportamento
profundamente cristão nas cerimônias de enterro ou cremação para que
essas energias que ainda permanecem no corpo, voltem para a natureza
de maneira harmônica e que nenhum ser espiritual maldoso se aproprie
dela.
Caso
Cavalcante
“(...)
O
intestino inspirava repugnância e compaixão. Qual estranho vaso
destinado a fermentação, continha o ceco trilhões de bacilos de
variadas espécies. Profundo desequilíbrio afetava as funções dos vasos
sangüíneos e linfáticos no intestino delgado. O cólon transverso e o
descendente semelhavam-se a pequenos túneis, repletos das mais
diversas coletividades microbianas. As vilosidades permaneciam cheias
de sangue purulento, e, de quando em quando, abriam-se veias mais
frágeis, provocando abundante hemorragia. Em todo o aparelho
intestinal, verificava-se o gradual desaparecimento do tônus das
fibras. O pâncreas não mais tolerava qualquer trabalho, na
desintegração dos alimentos, e o estômago deixava perceber avançada
incapacidade. As glândulas gástricas jaziam quase inertes. Distúrbios
destrutivos campeavam no fígado, onde animálculos vorazes se valiam da
progressiva ausência de controle psíquico, manifestando-se ao léu,
como microscópicos salteadores em sanha festiva.
O
doente, por fim, já não suportava nenhuma alimentação. O estômago
expulsava até a própria água simples, deixando-o exausto, em vista do
tremendo esforço despendido nos reiterados acessos de vômito.
O
sistema nervoso central e o abdominal, bem como os sistemas autônomos,
acusavam desarmonia crescente.
Reconhecia, entretanto, ali, naquele agonizante que teimava em viver
de qualquer modo no corpo físico, o gigantesco poder da mente, que, em
admirável decreto da vontade, estabelecia todo o domínio possível nos
órgãos e centros vitais em decadência franca.” (pg. 268-269).
Comentários
É
belo o organismo físico do ser humano. Causa-nos espanto a harmonia
existente entre os órgãos. E, ao menor desequilíbrio de um, todos os
demais começam também a se desequilibrar. André Luiz elenca os
diversos processos patológicos no caso Cavalcante com bastante
propriedade e sabedoria que lhe são peculiares.
Atentemos, porém, ao poder mental do desencarnante. Sua força mental
em manter-se vivo na matéria densa era tal, que ele mesmo dificultou o
seu processo de libertação. Trazia a consciência de culpa porque sua
mulher o havia abandonado. Desejava a paz interior, reconciliando-se
com ela e recobrando as energias (não queria de nenhum modo morrer
naquelas circunstâncias). Temia a morte!
Outra
cena chocante do dramático desencarne de Cavalcante é a impaciência do
padre que a muito custo ouvia seus últimos pensamentos. Seu estado
orgânico já era bastante debilitado e emanava odor bem desagradável.
E, a falta de caridade daquele homem que havia realizado uma promessa
de servir ao próximo na condição de padre, espanta-nos. Como se não
bastasse sua irritação, ele juntamente com o esculápio eram favoráveis
a eutanásia para aliviar a condição do moribundo.
André
Luiz diz-nos: “A cena chocava-me pelo desrespeito. Ambos os
profissionais, o da Religião e o da Ciência, notavam situações
meramente superficiais, incapazes de penetração nos sagrados mistérios
da alma.” (pg. 217). Da parte espiritual, os benfeitores trabalhavam
arduamente para trazer ao moribundo a paz e o equilíbrio necessários.
Debalde Cavalcante invocou uma “irmã de caridade” que atendia naquele
hospital. Buscava no coração feminino a sensibilidade e a consolação
que o padre não lhe ofereceu. Porém, a “irmã de caridade” lhe tratou
com frieza e rispidez, além de passar nas narinas desinfetante para
poder se aproximar do moribundo.
Muitos de nós, independentemente de que religião somos profitentes,
adotamos inúmeras condutas de desrespeito e até mesmo violência para
aqueles que carecem de atenção, carinho e consolo na hora extrema ou
em quaisquer outras circunstâncias. Por alguns momentos somos tomados
pela “amnésia da indiferença” e olvidamos que um dia enfrentaremos a
hora extrema. Assim, quando o momento chega também desejaríamos que
alguém estivesse ao nosso lado a nos consolar.
A
força mental de Cavalcante em viver no corpo que já não correspondia
bem era gigantesca, então os mentores espirituais tiveram que
provocar-lhe uma hemorragia na região do intestino a fim de que ele se
desvencilhasse melhor da indumentária física e, mais sensibilizado à
realidade espiritual, pudesse visualizar a esposa que seria levada
pela equipe para que ele recobrasse a paz interior que há muito
buscava.
Como
teria uma percepção espiritual melhor, infelizmente, ele estaria
sujeito aos dolorosos quadros de vampirismo da enfermaria onde se
encontrava. O que fez com que padecesse de dolorosos sofrimentos. Os
amigos espirituais, por fim, vendo a luta intrínseca do moribundo
decidiram levar-lhe a esposa já desencarnada, mas em condições
espirituais lamentáveis.
Após
um diálogo comovente, ela teve que ser retirada do ambiente o que fez
com que Cavalcante delirasse ainda mais, causando “compaixão” no
médico que desconhecia as leis do Sempiterno. E que resolveu
aplicar-lhe uma injeção compassiva. Debalde os benfeitores espirituais
tentaram libertá-lo rapidamente, porque a injeção fez o moribundo
calar. “Inteiriçaram-se-lhe os membros, vagarosamente. Imobilizou-se a
máscara facial. Fizeram-se vítreos os olhos móveis. Cavalcante, para o
espectador comum estava morto. Não para nós, entretanto. A
personalidade desencarnante estava presa ao corpo inerte, em plena
inconsciência e incapaz de qualquer reação.” (pg. 280-281).
O
personagem do nosso caso de estudo só pôde ser liberto completamente
decorridas vinte horas e, ainda assim, não sabia o que se passava,
achava-se aturdido e necessitava de preciosos cuidados médicos no
mundo espiritual.
Devido aos seus valores morais, Cavalcante obteve auxílio dos
benfeitores espirituais. Porém, o seu medo e a sua força mental
contrária a morte impuseram-lhe fortes dores. Ademais, o esculápio
desconhecedor das leis espirituais e pensando erroneamente que lhe
daria paz, optou pela eutanásia.
Há
vasto material na literatura espírita que aborda a eutanásia, não nos
delongaremos aqui. Cabe salientarmos, apenas, que a eutanásia é
contrária a lei divina e, por conseqüência, aos ensinamentos
espíritas-cristãos.
Cessar a vida orgânica com o intuito de acabar com o sofrimento do
moribundo ou diante de patologias graves é um erro gravíssimo de
conseqüências inenarráveis. Somente a Deus é dado o direito de iniciar
a vida, bem como o momento exato do fim da vida material. Destarte,
não compete a ninguém intervir na Lei Maior do Criador, sob pena de
responder nos tribunais divinos tais atitudes irrefletidas. A
eutanásia não traz alívio ou supressão do sofrimento, ao contrário,
traz nova e mais atrozes dores.
Caso
Adelaide
“
(...)
Adelaide, porém, parecia não depender de algemas físicas. Não
consegui, por minha vez, auscultar-lhe o espesso organismo, porque a
nobre missionária, em virtude do avançado enfraquecimento do corpo,
abandonava-o ao primeiro sinal de nossa presença, colocando-se, junto
de nós, em sadia palestra.
(...)
Na
antevéspera do desenlace, tive ocasião de observar a extrema
simplicidade do abnegado Bezerra de Menezes, que se encontrava em
visita de reconforto junto à servidora fiel.
- Não
desejo dificultar o serviço de meus benfeitores – dizia ela, algo
triste –, e, por isso, estimaria conservar boa forma espiritual no
supremo instante do corpo.
-
Ora, Adelaide – considerou o apóstolo da caridade –, morrer é muito
mais fácil que nascer. Para organizar, na maioria das circunstâncias,
são precisos, geralmente, infinitos cuidados; para desorganizar,
contudo, basta por vezes leve empurrão. Em ocasiões como esta, a
resolução é quase tudo. Ajuda a você mesma, libertando a mente dos
elos que a imantam a pessoas, acontecimentos, coisas e situações da
vida terrena. Não se detenha. Quando for chamada, não olhe para trás.
(...)
Não
sabia que alguém pudesse efetuar semelhante tarefa, sem concurso
alheio, mas o orientador veio em socorro de minha perplexidade,
esclarecendo:
─ A
cooperação de nosso plano é indispensável no ato conclusivo da
liberação; todavia, o serviço preliminar do desenlace, no plexo solar
e mesmo no coração, pode, em vários casos, ser levado a efeito pelo
próprio interessado, quando este haja adquirido, durante a experiência
terrestre, o preciso treinamento com a vida espiritual mais elevada.
Não há, portanto, motivo para surpresa. Tudo depende de preparo
adequado no campo da realização.” (pg. 296-297)
Comentários
Os
elevados valores morais e as ações realizadas no orbe terrestre pela
irmã Adelaide, tornaram-na apta a realizar o próprio desencarne, sem
sofrimentos, sem dores. Suave como um pássaro rumo às amplidões do
céu.
Essa
é a modalidade de desencarne que almejamos, mas para lograrmos êxito
faz-se mister que trabalhemos constantemente no bem para merecermos o
concurso dos benfeitores amigos.
Seus
amigos diversos foram reunidos no plano espiritual, no momento do sono
físico, para que recebessem a confirmação de que o seu desencarne se
avizinhava. Foi lhes solicitado que não dificultassem o processo de
desencarnação por conta dos “fluidos gravitantes”. Todos despertaram
com a sensação de tranqüilidade nos desígnios de Deus. E passaram a
emitir pensamentos nobres para a gentil senhora.
Obra:
Violetas na Janela – Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho – Patrícia
Caso
Patrícia
“Por
muitas vezes acordei para logo em seguida adormecer. Neste período
desperta, observei o local onde estava. Era um quarto com paredes
claras e uma janela fechada. O local estava na penumbra. Sentia-me
extremamente bem. Ouvia a voz do meu pai, ou melhor, sentia as
palavras: ‘Patrícia, filha querida, dorme tranqüila, amigos velam por
você. Esteja em Paz.’ Embora estar palavras fossem ditas com muito
carinho, eram ordens. Sentia-me protegida e amparada.
Estava deitada numa cama alta como as dos hospitais, branca e
confortável. Acordava e dormia.
Até
que despertei de fato. Sentei no leito. Virei a cabeça devagar
observando o quarto e foi então que vi ao meu leito, sentado numa
poltrona, um senhor. Quando o olhei, ele sorriu, agradavelmente.
Apalpei-me, ajeitando-me entre os lençóis alvos e levemente
perfumados. Estava vestida com meu pijama azul de malha. Arrumei com
as mãos meus cabelos.
‘Onde
será que estou?’ – pensei.
Não
conhecia o local e nem aquele senhor, que calmamente continuava a
sorrir. Não tive medo e nem me apavorei. Fiquei calada por minutos,
tentando entender. (...)
Estava calma, ter acordado num lugar desconhecido e com aquele
estranho ao meu lado pareceu-me natural. (...)
Ia
levantar, era domingo, inverno, final de férias. Sentei na minha cama
para trocar meu pijama quente por outra roupa, quando senti uma
tonteira. Minha cama estava encostada na parede e foi nela que apoiei
a cabeça. Parecia que algo explodia dentro de minha cabeça. Estas
sensações foram por segundos. Vi e ouvi por instantes, sem definir
quem fosse, pessoas ao meu lado. (...)
Senti
que seguraram minhas mãos, como também senti mãos sobre minha cabeça.
-
Dorme, dorme...
Dormi
realmente. As lembranças acabaram como por encanto. O fato é que
estava num quarto que não era o meu, diante de Maurício. Olhei para
todos os lados. Entendera, não foi preciso ele responder, Maurício
somente me ajudou a lembrar. Desencarnei. Estava tão calma que
estranhei. Suspirei. O melhor é assumir. Não sabia que iria
desencarnar um dia? Voltei a indagar a Maurício, como se fosse um
assunto banal.
- Que
aconteceu? De que desencarnei?
- Uma
veia rompeu no seu cérebro. Tem que haver um motivo para o corpo
morrer quando é vencido o prazo de o espírito ficar encarnado. Foi por
um aneurisma cerebral.
-
Onde estou?
- Na
Colônia São Sebastião. No Hospital. Na parte de Recuperação.
-
Recupero-me de quê?
- De
nada, você está ótima, aqui está somente para se adaptar. Patrícia,
lembra de sua avó Amaziles? Ela está aqui e quer vê-la.
(...)
[Conversa de Maurício e Patrícia]
-
Você desencarnou há dezesseis dias. Dorme muito porque estamos
atendendo a um pedido de seu pai, que nos pediu que a adormecêssemos
nestes dias.
- Por
quê?
-
Achamos que é melhor para você. Assim, neste período difícil que é
para os encarnados a perda de um ente querido, você dormindo não
sente.
-
Estão sofrendo muito?
- É
natural que sofram. Seu desencarne foi rápido, não esperavam, você
estava tão bem. Não deve se preocupar, o tempo se encarrega de
suavizar todas as dores.
-
Acho que vou dormir de novo.
Acomodei-me e dormi. Meu sono era tranqüilo e gostoso. (pg.13-19)
Comentários
Não
foi sem motivo que o nobre espírito Verdade disse-nos nas fulgurantes
páginas da Codificação: “Espíritas! amai-vos, este o primeiro
ensinamento; instruí-vos, este o segundo.”
O
espírito Patrícia trazia no âmago as qualidades morais que a
caracterizavam. Desde a mais tenra idade teve contato com a Doutrina
dos Imortais e, nada obstante os conhecimentos adquiridos, colocou-os
em prática. Demonstrando que a teoria deve ser consubstanciada em ação
no bem.
Ela
contou com a dedicação de benfeitores da espiritualidade maior, devido
aos nobres valores morais conquistados e ao apoio incondicional de sua
família, notadamente da figura paterna que por causa da sua fé
inquebrantável e suas interseções mentais positivas fizeram com que
ela tivesse um bom apoio post mortem.
Outro
fato não menos importante é o conhecimento da realidade espiritual,
que fez com que a menina Patrícia não se assustasse diante da nova
condição. O conhecimento da imortalidade dá ao ser humano cônscio dos
seus deveres uma forte tranqüilidade, quando comparamos com aqueles
que ignoram as questões espirituais quando estão na indumentária
carnal. O ser humano hodierno não pode mais ignorar tais questões,
porque não sabemos quando seremos chamados de retorno à Pátria
Espiritual.
Outro
dado curioso apontado por Patrícia é o período em que estava
convalescente. Embora, tivesse todo o amparo dos amigos espirituais,
ela ainda não dispunha de energias suficientes para levantar-se. E,
quando o fez, sentiu-se tonta e a sensação desagradável no interior da
cabeça, como que se algo estivesse “explodindo”. Ao que foi
prontamente socorrida pelos amigos espirituais. Ainda eram resquícios
da recente desencarnação, por isso ela passou consideráveis dias
dormindo, assim não sentiria as rogativas dos parentes desencarnados
que ainda sofriam por seu desenlace repentino, embora muito a
apoiassem mentalmente.
A
saudade mesmo nos mais equilibrados é revestida de um “quantum” de
energia que ignoramos. E não sabemos o que esse sentimento nobre pode
causar naqueles que partem. Deste modo, o comportamento da família de
Patrícia foi o mais acertado: envolvê-la em preces e pensamentos
dúlcidos.
Posteriormente, ela discorre em sua obra como foram seus momentos de
adaptação, suas aprendizagens, os novos amigos conquistados etc.
Os
desencarnes violentos
Caso
Rosana Maria T. Lara
Extraído de “ANTE O FUTURO” – Chico Xavier e Rubens Germinlesi, IDEAL.
Desencarnada em acidente aviatório de grandes proporções nas
imediações de Fortaleza, CE.
“Mãezinha, quanto tomamos o avião para Fortaleza efetivamente nem de
leve imaginei pudéssemos ser protagonistas do acontecimento que não
sei qualificar.
Compreendendo que as Leis de Deus são exatas e se cumprem com
segurança; por isso, não desejo grafar uma carta alarmista, em que o
pânico seja chamado a senhorear o ânimo dos que a lerem. Renato e eu
trocávamos idéias pela noite adentro, enquanto o nosso Affonso e o
nosso Júlio descansavam. Se estivéssemos numa paisagem de guerra, não
seríamos tomados de tamanho assombro. O primeiro estampido no choque
da máquina com o corpo da serra me pareceu o grito lancinante de
alguém anunciando-nos a morte. Renato abraçou-se a mim evidentemente
com a idéia de proteger-me contra qualquer eventualidade, no entanto,
esse gesto dele perdurou por um instante só. Outros brados do avião se
fizeram seguidos por uma dispersão de tudo o que éramos nós e de toda
a bagagem de mão que havíamos acomodados no interior.
Tive
a idéia de que a velocidade do avião era tamanha que o contato
indescritível do aparelho com a dureza da terra imprimia um estranho
movimento a nós todos e a tudo o que nos cercava. Explico-me assim
porque a ligeireza daquele engenho enorme passou a comandar-nos,
atirando-nos à distância e nada mais vi senão a queda ao longe, na
qual me senti esfacelar, a princípio, para depois reconstituir-me.
Ouvia
vozes de criaturas beneméritas a pedir-nos calma e fé na Divina
Providência e sem que me fosse possível retirar um dedo sob o controle
de minha própria vontade, fui deposta em maca tipo bangüê no interior
da qual entrei num sono longo, do qual despertei num
aposento-enfermaria de grandes proporções. As lágrimas haviam
desaparecido de meus olhos, e por mais as procurasse para exprimir o
sofrimento que me chegava à sensibilidade, após conscientizar-me, não
os encontrei. Tinha a cabeça pesada e ocupada por visões estranhas e
naquele mal-estar indefinível que me possuiu, seria impossível para
mim coordenar idéias ou palavras com as quais pudesse me dirigir às
enfermeiras que deslizavam ali em silêncio. Tive medo. Quis gemer, no
entanto, a minha voz morrera na garganta.
Indagava de mim própria o que teria ocorrido, mas não dispunha de
meios para qualquer manifestação. Aquelas santas mulheres que iam e
vinham perceberam que o medo me ocupara todos os espaços da própria
alma e aos poucos, me ensinaram de novo a balbuciar palavras.
Perguntei por meus pais, pela mãe Ivonete e pelos nossos entes amados
do coração.
Eram
os primeiros vocábulos que me escapavam da boca e fui informada de que
voltáramos todos, os que viajávamos na máquina gigante, à Vida
Espiritual. Esforcei-me. Ganhei novas energias e indaguei do Renato.
Vim a saber que ele, Affonso e Júlio se encontravam em um local
diferente. Sofri o que o seu maternal coração e a querida Mãe Ivonete
podem imaginar até que, depois de providências sobre providências, fui
transportada para perto dos amigos e do meu irmão, a fim de vê-los. A
cena que se desenrolou não pode ser descrita, por falta de
terminologia que nos corresponda ao espanto. A muito custo
levantei-me, necessitando de alguém que me escorasse e as queridas
Mãezinhas aqui presentes conseguiram imaginar o sofrimento sem limites
que me tomou o coração. Em horas semelhantes apenas a confiança em
Deus me renovava as energias para ouvir o que me contavam... Não
procurei estender minha visita. O receio de conturbar-me me empolgava
a cabeça. Impossível associar idéias e traçar novos rumos, quando
estávamos abatidos, sem cousa alguma por preservar ou defender que não
fosse as nossas almas transidas de dor. Um amigo nos exortou à
paciência de profundidade, convidando-nos a pensar e com esse
estímulo, foi possível iniciar a nossa conversa. O Affonso e o Júlio
falavam em Dulce e Maria do Carmo, enquanto o Renato me tomava as
mãos. Então, como se as nossas formas últimas se entrelaçassem,
conseguimos chorar, qual se o pranto fosse um poder capaz de
aliviar-nos os corações. Não mais nos achávamos nas cercanias da
Aratanha, porque o refúgio a que fôramos conduzidos era um lugar
ameno, adequado a se pensar na importância da calma após a tempestade.
Saber-nos no corpo real, de que o corpo físico é apenas uma imperfeita
exteriorização, espantou-nos, de vez que, em nosso entendimento,
conservávamos-nos tais quais éramos. Não nos sentíamos leves porque a
dor nos pesava em todo o Ser, entretanto, com os dias a tensão
emocional de que nos víamos possuídos cedeu lugar a uma serenidade que
atribuo à influência das preces de muitos amigos em nosso novo
ambiente.”
Comentários
O
fator surpresa é a maior dor diante das pessoas que desencarnam de
modo violento. Não esperam a morte, muitas vezes considerada
“prematura”. Os familiares e amigos são tomados pela revolta, quando
não têm conhecimentos espirituais suficientes que lhes dêem resignação
e fé no porvir. Pelas próprias características do planeta Terra e de
seus habitantes ainda teremos tristes quadros como os descritos acima.
Esclarece-nos Emmanuel que “a desencarnação por acidentes, os casos
fulminantes de desprendimento proporcionam sensações muito dolorosas à
alma desencarnada, em vista da situação de surpresa ante os
acontecimentos supremos e irremediáveis. Quase sempre, em tais
circunstâncias, a criatura não se encontra devidamente preparada e o
imprevisto da situação lhe traz emoções amargas e terríveis.” (questão
152- pg. 95)
Compete-nos a oração sincera e os pensamentos de resignação, força, fé
e paz aos espíritos que são tirados do orbe terrestre nessas
condições, porque suas dores são indescritíveis.
Devemos refletir também a respeito da nossa oração e pensamentos
diários. Não era sem motivo que o Mestre afirmava: “Orai e Vigiai”.
Esse ensinamento se aplica a todos os contextos de nossas vidas e é a
atitude que devemos ter diuturnamente, porque não sabemos quando
iremos ao mundo espiritual e nem a forma como se dará tal evento.
Os
suicidas
Debalde os espíritos benfeitores e pesquisadores do mundo alertam-nos
sobre o suicídio. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS),
por nós analisados de 2007, cerca de 3000 pessoas cometem suicídio por
dia, o que significa que a cada 30 segundos uma pessoa atenta contra a
própria vida .
A
gênese de tal comportamento é multifatorial e bastante complexa, como
transtornos psicológicos, depressão, álcool, drogas, contextos
socioeconômicos, educacionais, antecedentes genéticos e biológicos da
família, fanatismo político e/ou religioso, etc. Deste modo é
fundamental atacar na prevenção do problema.
Acrescentamos ainda aos números espantosos da OMS, os suicídios
inconscientes que são incontáveis e que devido a falta de conhecimento
das leis divinas ceifam milhares de vidas.
Devido aos dados alarmantes foi estabelecido o Dia Mundial de
Prevenção ao Suicídio, realizado no dia 10 de setembro de cada ano.
Equipes multidisciplinares do mundo inteiro, organizações de defesa da
vida, movimentos políticos e religiosos divulgam mensagens de
prevenção ao terrífico ato; oferecem apoio para as pessoas de “risco”
e os familiares que enfrentam a lastimável perda, entre outras
atividades nobres que são desenvolvidas. Existem ainda grupos de apoio
pela vida, que oferecem serviços de atenção através do telefone para
pessoas que se sentem sozinhas e são atormentadas pelas idéias
suicidas.
O
suicídio sempre foi abordado pelos grandes escritores, que tentaram
tingir as páginas de suas obras com as problemáticas humanas.
Sófocles, um dos ícones da tragédia clássica, em “Antígona” conta-nos
uma história eivada de suicídios.
William Shakespeare também aborda o suicídio em “Romeu e Julieta”.
O
escritor alemão Goethe, por exemplo, narra-nos a história do jovem
Werther, que não logrando êxito no amor com Carlota opta pelo
suicídio. Conta-se que diversos jovens da Alemanha identificando-se
com o arquétipo de Goethe, suicidaram-se também. O que fez com que a
obra fosse proibida em algumas regiões.
Em
outro clássico da literatura mundial, “Trabalhadores do Mar”, temos a
figura de Gilliatt que sofrendo o tacão da desilusão de não poder se
casar com a amada Déruchette opta pela morte voluntária no mar.
Em
“Anna Karenina”, do famoso escritor russo Leon Tolstói, a personagem
principal por uma série de fatores bem abordados pelo autor atira-se
sobre os trilhos de um trem.
E
tantos outros exemplos existentes na literatura mundial que
caracterizaram um período histórico do pensamento humano. Não podemos
recriminar esses escritores e fazermos uma leitura anacrônica de suas
obras, que estavam contaminadas pelas idéias dos respectivos momentos
históricos a que vieram a lume. Muitos desses escritores, no mundo
espiritual, tiveram ensejo de reparar os equívocos inconscientemente
cometidos como, por exemplo, León Tolstói. E agora lutam para propagar
a mensagem do Evangelho do Cristo. Não nos compete o julgamento
anacrônico das obras desses notáveis escritores quando encarnados.
Sob a
ótica espírita, temos as seguras considerações de Emmanuel, mentor de
Chico Xavier, que afirma:
“A
primeira decepção que os aguarda [os suicidas] é a realidade da vida
que se não extingue com as transições da morte do corpo físico, vida
essa agravada por tormentos pavorosos, em virtude de sua decisão
tocada de suprema rebeldia.
Suicidas há que continuam experimentando os padecimentos físicos da
última hora terrestre, em seu corpo somático, indefinidamente. Anos a
fio, sentem as impressões terríveis do tóxico que lhes aniquilou as
energias, a perfuração do cérebro pelo corpo estranho partido da arma
usada no gesto supremo, o peso das rodas pesadas sob as quais se
atiraram na ânsia de desertar da vida, a passagem das águas
silenciosas e tristes sobre os seus despojos, onde procuraram o olvido
criminoso de suas tarefas no mundo e, comumente, a pior emoção do
suicida é a de acompanhar, minuto a minuto, o processo da decomposição
do corpo abandonado no seio da terra, verminado e apodrecido.
De
todos os desvios da vida humana o suicídio é, talvez, o maior deles
pela característica de falso heroísmo, de negação absoluta da lei do
amor e de suprema rebeldia à vontade de Deus, cuja justiça nunca se
fez sentir, junto dos homens, sem a luz da misericórdia.” (questão
154m pg. 97).
Todos
os casos de suicídio, sem exceção, são lamentáveis, extremamente
dolorosos e tristes para o espírito imortal. Não selecionamos nenhum
caso da literatura para estudo de caso, por acharmos que as obras em
si e os pensamentos seguros dos benfeitores espirituais já descrevem a
trágica situação com bastante propriedade. Caso o (a) amigo (a) leitor
(a) deseje aprofundar os conhecimentos sobre tal assunto, sugerimos a
leitura da obra “Memórias de um Suicida”, de Camilo Castelo Branco,
psicografada por Yvonne A. Pereira. É uma obra monumental que retrata
a dolorosa vida do escritor português que deu cabo a própria
existência carnal e, também, narra-nos os diversos casos de outros
irmãos que como ele desafiaram as leis imutáveis do Criador.
Os
numes responsáveis pela edificação do mundo estabelecem em “O
Evangelho Segundo o Espiritismo” que:
“A
calma e a resignação hauridas da maneira de considerar a vida
terrestre e da confiança no futuro dão ao espírito uma serenidade que
é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio.” (pg. 108)
E
ainda dentro dessa linha de raciocínio afirmam: “... considerável já é
o número dos que têm sido, pelo Espiritismo, obstados de suicidar-se,
podendo daí concluir-se que, quando todos os homens forem espíritas,
deixará de haver suicídios conscientes.” (pg. 110).
E,
modestamente, acrescentamos ao pensamento dos benfeitores amigos, que
o Espiritismo também é um poderoso preservativo contra os suicídios
inconscientes que infelizmente ainda é a causa de muitos desencarnes
prematuros na Terra. Assim, mesmo diante das terríveis injunções da
vida material, perseveremos e acreditemos no porvir. Não devemos
cometer um ato extremo de desrespeito a Deus e aos amigos e familiares
que nos querem bem e torcem pela nossa vitória. Bem como devemos
envidar todas as nossas forças para prevenir que outras pessoas o
cometam também.
Conduta perante o Desencarne
O
espírito André Luiz teve ensejo de estabelecer algumas diretrizes
seguras acerca do nosso comportamento diante da desencarnação na obra
“Conduta Espírita”. Aqui, faremos alguns apontamentos, calcados no
pensamento do nobre espírito.
Antes
que sejamos visitados pela barca de Caronte, faz-se mister que
deixemos preparadas questões a respeito de testamentos, resoluções,
entre outros, que poderiam trazer-nos dissabores no além-túmulo, por
causa da luta insana dos parentes por bens terrenos.
Devemos dispensar o tempo necessário para a inumação ou a cremação,
porque nem todos os espíritos se desprendem prontamente do corpo e
poderiam experimentar sensações desagradáveis. Deste modo, além da
atenção do tempo para tal desiderato, são necessários também a prece e
a emissão de bons pensamentos aos que jazem inertes diante de nossos
olhos materiais. As conversas fúteis, os comentários infelizes, os
tratos comerciais, entre outros, devem ser evitados diante do morto.
A
prece deve vir do coração puro. Devemos nesse caso mobilizar os nobres
sentimentos adormecidos em nossa alma, para que brotem e ganhem força
em cada palavra pronunciada ou simplesmente pelo pensamento.
É
recomendada também, por André Luiz, a dispensa de aparatos, pompas,
flores, imagens etc., é mais enobrecedor realizar donativos às
instituições assistenciais, sem sectarismos. A saudade deve ser
transformada em prática ainda mais vigorosa no bem, porque a vida
continua para aqueles que ficam na Terra e para aqueles que já são
estrelas... Assim sendo, o bem comum é o elo que nos mantêm ainda mais
próximos daqueles que partem na certeza de que nos reencontraremos
mais ou menos dias.
Por
fim, devemos ter tranqüilidade e acreditar nos Desígnios de Deus que
sabe o que nos é melhor. A imortalidade do ser é uma verdade que não
podemos mais refutar.
Considerações Finais
Alerta-nos Emmanuel que “A morte não apresenta perturbações à
consciência reta e ao coração amante da verdade e do amor dos que
viveram na Terra tão-somente para o cultivo da prática do bem, nas
suas variadas formas e dentro das mais diversas crenças. Que o
espiritista cristão não considere o seu título de aprendiz de Jesus
como um simples rótulo, ponderando a exortação evangélica – ‘muito se
pedirá de quem muito recebeu’, preparando-se nos conhecimentos e nas
obras do bem, dentro das experiências do mundo para a sua vida futura,
quando a noite do túmulo houver descerrado aos seus olhos espirituais
a visão da verdade, em marcha para as realizações da vida imortal.”
(questão 150 – O Consolador).
Com
esse pensamento, gostaríamos de agradecer ao (a) amigo (a) leitor (a)
pela paciência em ler esse breve ensaio que teve por objetivo
tão-somente trazer de forma didática e clara as questões pertinentes à
morte. Óbvio que não esgotamos o assunto que, pela própria natureza da
temática, é amplo e complexo. Porém, acreditamos que ao menos os
recursos básicos para profundas reflexões foram enfeixados.
Instamos a todos nós a praticarmos o bem constantemente, porque
morreremos conforme tivermos vivido na Terra. E a vida reta no Bem é o
“passaporte” para um desencarne suave e feliz. “... entendemos que as
vivências das pessoas, ao longo da encarnação, determinam processos de
libertação ou de encarceramento moral, fazendo-as merecedoras de
experiências suaves e alentadoras ou deixando-as submetidas a
injunções dolorosas. É por isso que, em cada reencarnação, o espírito
traz delineado também o tipo de desencarnação ao qual se deixou atar
em virtude do modo de vida adotado em seu recente ou distanciado
pretérito. Pelo que cada um faz da vida terrena, durante a sua
trajetória corporal, formam-se mapas de necessidades e de conquistas
que se estendem para os programas desencarnatórios.” (Raul Teixeira;
Camilo, pg. 84-85).
A
nós, que abraçamos a Doutrina Espírita, um cuidado especial para que
não tenhamos desencarnes lamentáveis devido ao abandono de
compromissos assumidos na Vida Maior. Não teremos melhores condições
por sermos espíritas, mas pelo o que fizermos por merecer diante dos
ensinamentos inefáveis da Terceira Revelação. Os conhecimentos
oriundos do Espiritismo devem ser transformados em ações no Bem
individual e coletivo. De nada adianta pregarmos sobre o amor, a
caridade, a paciência etc., se não envidamos esforços para adquirir
tais valores morais.
É
triste a condição de muitos de nós, espíritas, no mundo espiritual
porque a despeito dos inúmeros conhecimentos adquiridos, protelamos as
possibilidades de edificação de um mundo melhor. Que nós façamos jus
aos conhecimentos recebidos e que o Autor da Vida nos abençoe sempre.
Referências Bibliográficas Consultadas e Comentadas
CARVALHO, Vera Lúcia Marinzeck de. Violetas na Janela. São Paulo:
Petit, 1994.
Romance singelo e belo que se tornou best-seller no meio espírita. É a
narrativa do espírito Patrícia, jovem espírita, que desencarnou aos
dezenove anos. Porém, devido aos valores morais conquistados na última
existência e em vidas pregressas, contou com o apoio dos espíritos
amigos e da família encarnada (também espírita) que emitia nobres
pensamentos a sua nova situação, o que fez com que o seu desencarne
fosse um despertar tranqüilo em uma situação confortadora e melhor.
Narra-nos, deste modo, seus vários aprendizados na erraticidade.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, ou, a Justiça Divina segundo o
Espiritismo. 45. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira,
2000.
Obra do preclaro Codificador Allan Kardec, lançada em 1865, de leitura
obrigatória para todos aqueles que almejam conhecer o Espiritismo.
Trata-se de uma análise incomparável das doutrinas sobre a passagem da
vida corporal à vida espiritual. Versa, ainda, sobre as penalidades,
recompensas futuras, sobre os anjos e demônios, entre outros. Além de
exemplos de inúmeros espíritos a respeito de suas situações
além-túmulo.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 120. ed. Rio de
Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2002.
Livro que traz as explicações das máximas morais do Cristo e sua
concordância com o Espiritismo. Além de demonstrá-las aos diversos
contextos da vida. É uma obra de cabeceira de todos nós. Representa
porto-seguro para aqueles que se debatem na ignorância e carecem das
palavras coerentes, lúcidas e benfeitoras do Cristo e dos bons
espíritos.
KÜBLER-ROSS, Elisabeth. A Roda da Vida: memórias do viver e do morrer.
Rio de Janeiro: GMT, 1998.
É
uma obra-prima da mulher notável que se dedicou ao fenômeno da morte e
o morrer. Demonstra toda a trajetória da sua vida de exemplos
benéficos para todos nós e afirma de modo inequívoco que a morte não
existe. É uma leitura obrigatória para todos aqueles que almejam
conhecer um pouco da vida da doutora Ross, que foi e continuará a ser
um exemplo para todos nós.
TEIXEIRA, José Raul. O sentido das desencarnações. In: Desafios da
Vida Familiar. 2.ed. Niterói, Rio de Janeiro: Fráter, 2003.
Obra que traz preciosa reflexão do espírito Camilo a respeito do
sentido das desencarnações. Além disso, no formato de perguntas e
respostas, são abordados diversos temas relevantes para a convivência
fraterna no cadinho do lar. Inúmeras questões importantes foram
dirigidas ao espírito Camilo, que por meio da mediunidade de Raul
Teixeira, respondeu com mestria. Vale a pena conferir essa obra.
VIEIRA, Waldo. Conduta Espírita. 22. ed. Rio de Janeiro: Federação
Espírita Brasileira, 2000.
É
uma obra de “cabeceira” de todos nós, espíritas. Devemos introjetar os
ensinamentos ali adquiridos e colocá-los em prática. Tratam-se de
diretrizes singelas e seguras a respeito do nosso comportamento em
diversos contextos sociais. Dessa obra retiramos os comentários do
espírito André Luiz a respeito do nosso comportamento diante do
desencarne.
XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. 52. ed. Rio de Janeiro:
Federação Espírita Brasileira, 2002.
É
a primeira obra de uma série fabulosa, ditada pelo espírito André
Luiz. Conta-nos suas primeiras impressões no além-túmulo, traz-nos
revelações importantes acerca do mundo espiritual, seus habitantes,
costumes etc. É uma obra que merece ser lida e que faz jus ao seu
sucesso editorial.
XAVIER, Francisco Cândido. Obreiros da Vida Eterna. 23. ed. Rio de
Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1998.
Continuação da Série Nosso Lar, o espírito André Luiz, mais
experimentado no mundo espiritual, estuda diversos casos de
desencarnação e demonstra-nos que a morte não modifica ninguém.
Fala-nos também dos obreiros do Nosso Senhor Jesus Cristo que
trabalham de forma hercúlea minimizando os sofrimentos de muitos
espíritos, combatendo as trevas, renovando as criaturas etc. É uma
obra com a beleza que só o espírito da envergadura de André Luiz
poderia transmitir.
XAVIER, Francisco Cândido. Há Dois Mil Anos. 47. ed. Rio de Janeiro:
Federação Espírita Brasileira, 2006.
Um
Best-seller do movimento espírita. Tratam-se de episódios da História
do Cristianismo do Século I. Ditado pelo espírito Emmanuel, que
naquela ocasião revestia-se de Públius Lentulus. É uma obra de beleza
incomparável e que narra-nos fatos surpreendentes e de profundos
ensinamentos.
XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. 18. ed. Rio de Janeiro:
Federação Espírita Brasileira, 1997.
Obra que elenca uma série de temas abordados na forma de perguntas e
respostas propostas ao espírito Emmanuel. Diversos assuntos das
Ciências Humanas são abordados, além de temas sobre a Dor, a Evolução,
as Religiões, Jesus, etc. É uma obra que, indubitavelmente,
complementa a Codificação Kardequiana.
XAVIER, Francisco Cândido. Voltei. 26. ed. Rio de Janeiro: Federação
Espírita Brasileira, 2007.
Romance ditado pelo Irmão Jacob. Conta-nos suas primeiras impressões
além-túmulo. Ele, que era possuidor de vasto conhecimento espírita e
possuía méritos espirituais, conta-nos suas surpresas, suas adaptações
à nova condição na erraticidade, entre outros.
XAVIER, Francisco Cândido. Cartas e Crônicas. 8. ed. Rio de Janeiro:
Federação Espírita Brasileira, 1991.
Preciosas e belas páginas ditadas pelo espírito Irmão X, que têm por
objetivo maior a nossa edificação no mundo. Assim, encontramos
ensinamentos que nos instam a transformação interior que não deve ser
prorrogada por nenhum de nós. É uma obra riquíssima e cada crônica ou
carta nela presente traz-nos inúmeros ensinamentos.
|