O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Ensaio sobre a Morte

Autor:
Marcos Paulo de Oliveira Santos

Fonte:
O Mensageiro

ARTIGOS

     

“Quereis conhecer o segredo da morte.

Mas como podereis descobri-lo se não o procurardes no coração da vida?

A coruja, cujos olhos, feitos para a noite, são velados ao dia, não pode descortinar o mistério da luz.

Se quereis realmente contemplar o espírito da morte, abri amplamente as portas de vosso coração ao corpo da vida.

Pois a vida e a morte são uma e a mesma coisa, como o rio e o mar são uma e a mesma coisa.

Na profundeza de vossas esperanças e aspirações dorme vosso silencioso conhecimento do além;

E como sementes sonhando sob a neve, assim vosso coração sonha com a primavera.

Confiai nos sonhos, pois neles se ocultam as portas da eternidade.

Vosso temor da morte é semelhante ao temor do camponês quando comparece diante do rei, e este lhe estende a mão em sinal de consideração.

Não se regozija o camponês, apesar do seu temor, de receber as insígnias do rei?

Contudo, não está ele mais atento ao seu temor do que à distinção recebida?

Pois, que é morrer senão expor-se, desnudo, aos ventos e dissolver-se no sol?

E que é cessar de respirar senão libertar o hálito de suas marés agitadas, a fim de que se levante e se expanda e procure a Deus livremente?

É somente quando beberdes do rio do silêncio que podereis realmente cantar.

É somente quando atingirdes o cume da montanha que começareis a subir.

É quando a terra reivindicar vossos membros que podereis verdadeiramente dançar.”

Gibran Khalil Gibran.

Chega um determinado momento da existência do ser humano que lhe parece não haver mais pressão psicológica do coração e do pensamento. Os sonhos são deixados de lado. As novas esperanças são empanadas pela idade madura. A vida parece estacionar... os filhos já estão mais ou menos encaminhados, já não se têm desafios naturais da vida familiar, as horas, semanas, meses e anos passam uniformes e indiferentes. Esse quadro de apatia é comum em muitos de nós, que ainda não aprendemos a cultivar o tempo precioso no labor do bem individual e coletivo. E nas valiosas conquistas do espírito.

Lendo a obra “Obreiros da Vida Eterna”, de André Luiz, espírito, ditada ao saudoso Chico Xavier, encontramos: “Nossos amigos da esfera carnal são ainda muito ignorantes para o trato com a morte. (...) É por isso que, por enquanto, os mortos que entregam despojos aos solitários necrotérios da indigência são muito mais felizes.” (pg.224)

Tal assertiva provocou-nos grande impacto. O que fez com que refletíssemos. Estamos suficientemente educados para a morte? A magna questão nos inquietava dia após dia. Concluímos que não, a despeito dos valorosos ensinamentos espíritas.

Por isso resolvemos contribuir, modestamente, com o pensamento espírita cristão através deste singelo ensaio.

Chegará o dia, inexorável, em que deixaremos o ninho planetário.

Refletir sobre essa transição natural é de suma importância.

Deste modo, fizemos um recorte de algumas obras do Espiritismo e breves comentários acerca da temática (que não se esgotam! Ao contrário, fomentam o debate fraterno nos estudos sistematizados da doutrina espírita). É necessário que o (a) amigo (a) leitor (a) compreenda que não se encontram elencadas diretrizes jactanciosas com a presunção de ensinar um fenômeno que será ímpar para cada um de nós. É importante saber o que está descrito ricamente na literatura espírita para que no momento da crise da morte não nos desesperemos. Mas, todas as nuances do momento dependerão do nosso modus vivendi enquanto ainda encarnados... A morte não é nenhuma mensageira de transformações. Cada um morre conforme vive.

O que é a morte?
 

Durante um largo período da história terrestre, a morte era considerada a cessação do funcionamento cardíaco e respiratório.

De fato, o cérebro sofre danos irreversíveis se privado de oxigênio por mais de quatro minutos. Deste modo, na antiguidade, o critério utilizado era somente analisar essa função (a respiração) para constatar a morte de uma pessoa.

Com o advento científico-tecnológico, particularmente os aparelhos de ventilação mecânica, foi possível reverter um quadro de parada respiratória. De tal modo que, as pessoas que antes eram consideradas mortas, graças aos aparelhos e medicamentos voltavam à vida orgânica.

A partir da década de 1960 tornou-se mais importante ainda estabelecer o momento da morte, visto ser exeqüível já naquele momento o transplante de órgãos.

A partir disso, as autoridades médicas do mundo estabeleceram que a morte orgânica ocorre quando há “perda completa e irreversível do tronco cerebral”. Ou seja, quando o órgão cerebral não mais apresenta atividades (que são detectadas por aparelhos específicos) tem-se a morte. Embora, os outros órgãos possam estar em pleno funcionamento.

Temor da Morte
 

O preclaro Codificador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, na obra “O Céu e o Inferno” teve ensejo de refletir e escrever sobre o temor da morte que aqui expressamos.

Ele inicia sua explicação asseverando-nos que é intuitiva a certeza da imortalidade da alma em todos os seres humanos, independente do contexto cultural em que se vive. Do silvícola ao ser humano considerado mais civilizado, a crença da vida após a desagregação molecular é uma certeza inconteste. A despeito dessa sentinela interior a cantar a imortalidade em nossas mentes e corações, ainda perdura o sentimento de temor ao fenômeno da morte. Por que isso ocorre? Vejamos o que nos diz o egrégio Codificador na obra referida:

1. Efeito da sabedoria Divina.

Há em toda criatura, notadamente, no ser humano um instinto de conservação. Esse instinto é um efeito da sabedoria Divina, porque tem por objetivo evitar que nos retiremos prematuramente da existência material.

O fragor das lutas cotidianas, a sobrevivência, os “caprichos” da vida, o trabalho, a família e a esperança no porvir, entre outros fatores, dão sentido psicológico a existência terrestre e faz com que não abandone-mo-la.

2. Noção insuficiente da Vida Futura.

Refletir e tentar compreender o porvir são de fundamental importância para aqueles que se dedicam aos estudos espiritistas. Muitas vezes, realizamos uma leitura superficial dos fenômenos de desencarnação na literatura sem nos atentarmos para as entrelinhas. Um sem-número de vezes não conseguimos adestrar a nossa mente a verdade inconteste do espírito imortal, porque damos mais valor as coisas que nos afetam as impressões sensoriais aos fatos espirituais que acompanham o ser humano desde que o primeiro homem habitou a Terra...

Dar mais valor ao espírito é a meta do ser humano hodierno. Não se pode mais olvidar essa questão.

3. Educação.

Historicamente o ser humano tem recebido uma educação não muito confortadora a respeito do porvir. Foi apresentado um paraíso ocioso e entediante, calcado em uma beatitude contemplativa; um inferno eterno e repleto de torturas terríveis; um Deus punitivo, vingativo... entre outros fatos. Allan Kardec assevera ainda:

“Os séculos sucedem-se aos séculos e não há para tais desgraçados sequer o lenitivo de uma esperança e, o que mais atroz é, não lhes aproveita o arrependimento. De outro lado, as almas combalidas e aflitas do purgatório aguardam a intercessão dos vivos que orarão ou farão orar por elas, sem nada fazerem de esforço próprio para progredirem.” (pg.23)

As práticas exteriores, o batismo para ser salvo, a “compra” de induções que servem de intermédio para gozos eternos etc., correspondem ao que nos foi passado historicamente. Trata-se de uma educação obtusa, que nos castra a razão.

E, o menor raciocínio, leva-nos a crer que não passam de questiúnculas da moralidade inferior do ser humano. Não se coadunam com a prática da caridade do indivíduo, a sua transformação moral, a sua contribuição para a edificação de um mundo melhor etc.

4. Apego aos bens materiais.

O apego aos bens materiais é um reflexo da histórica educação equivocada que temos recebido. Vivemos em um mundo “coisificado”. É mais atrativo ter coisas, do que sermos pessoas melhores. Buscamos incessantemente a fortuna, os prazeres sensoriais, a graxa da comida pesada, o álcool, etc. Damos valor a coisas tão insignificantes, que sob a nossa ótica errônea é difícil delimitar a fronteira entre o supérfluo e o necessário. Gostaríamos de abrir um parêntese para reproduzir a poesia de Fernando Correia Pina que reflete essa situação que vivemos no mundo. Vejamos:

Saldo Negativo
 

Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu que amputar uma perna, a frio, de um africano. Passa mais fome um francês com três refeições por dia que um sudanês com um rato por semana.

É muito mais doente um alemão com gripe que um indiano com lepra. Sofre muito mais uma americana com caspa que uma iraquiana sem leite para os filhos.

É mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga que roubar o pão da boca de um tailandês. É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça que queimar uma floresta inteira no Brasil.

É muito mais intolerável o xador de uma muçulmana que o drama de mil desempregados em Espanha. É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco que a de água potável em dez aldeias do Sudão.

É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda que a de insulina nas Honduras. É mais revoltante um português sem celular que um moçambicano sem livros para estudar.

É mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu que a demolição de um lar na Palestina.

Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês e isto não são versos; isto são débitos numa conta sem provisão do Ocidente.

O canto do poeta português reflete o mundo caótico em que vivemos e a inversão dos valores que cultuamos. O apego aos bens materiais é de tal natureza que somos incapazes (com raras e honrosas exceções) de nos sensibilizar com os nossos irmãos desafortunados. Desde que a situação negativa não nos atinja, tudo está muito bem. Só conhecemos o drama do outro, quando o vivenciamos. E a coisificação da vida terrestre é um óbice a melhor compreensão da vida futura.

O fenômeno da morte é encarado mais negativamente do que com esperança. As cerimônias que a envolvem são repletas de cenas tristes e que de certo modo causam pavor. A idéia de perda rodeia-nos a todo o momento, porém, faz-se mister que essa lúgubre idéia desapareça. A perda não existe. Mas, apenas, uma breve saudade que se acabará tão logo chegue o momento do reencontro ensejado pela morte.
 

 

Treino para a morte

O capítulo “Treino para a morte” presente na obra “Cartas e Crônicas”, psicografada por Francisco Cândido Xavier e de autoria do espírito Irmão X, é uma síntese da nossa conduta antes da grande viagem.

Primeiramente, o ínclito comentarista do Além se vê incapacitado para a tarefa de trazer algumas informações importantes para o nosso comportamento antes da desencarnação. Porém, devido aos seus inúmeros textos de beleza incomum, somos inclinados a seguir as suas seguras orientações que apresentamos mais abaixo.

O que almeja Irmão X no texto mencionado é sugerir mudanças ainda cristalizadas em nós e que, de certa maneira, são obstáculos difíceis quando nos encontramos na erraticidade.

Diz-nos: “Comece a renovação de seus costumes pelo prato de cada dia. Diminua gradativamente a volúpia de comer a carne dos animais. O cemitério na barriga é um tormento, depois da grande transição. O lombo de porco ou o bife de vitela, temperados com sal e pimenta, não nos situam muito longe dos nossos antepassados, os tamoios e os ciapós, que se devoravam uns aos outros. Os excitantes largamente ingeridos constituem outra perigosa obsessão.” (pg. 22)

A temática sobre a ingestão ou não de carne já é velha conhecida daqueles que se dedicam aos estudos espiritualistas . Todas as nossas idiossincrasias são levadas conosco para o mundo espiritual. Refletir sobre a nossa alimentação e tentar modificá-la, tornando-a melhor, é uma tarefa que não podemos mais postergar.

Afirma com muita propriedade o espírito Irmão X que nós devemos modificar a nossa alimentação paulatinamente. Quando fazemos apontamentos sobre essa questão da alimentação carnívora em nossos estudos e/ou artigos publicados recebemos as críticas dos confrades espíritas de que o importante é a transformação moral. É óbvio que os valores morais têm prioridade! Nem discutimos tal questão, mas não podemos ignorar os ensinamentos e recomendações sobejamente divulgados pelos espíritos benfeitores que fazem tais afirmativas para a nossa própria evolução e melhoria. Além do espírito Irmão X, temos ainda a sábia recomendação de Emmanuel, mentor do saudoso Chico Xavier, que na obra “O Consolador” afirma: “A ingestão das vísceras dos animais é um erro de enormes conseqüências, do qual derivaram numerosos vícios da nutrição humana. É de lastimar semelhante situação, mesmo porque, se o estado de materialidade da criatura exige a cooperação de determinadas vitaminas, esses valores nutritivos podem ser encontrados nos produtos de origem vegetal, sem a necessidade absoluta dos matadouros e frigoríficos.” (questão 129).

Acreditamos que a assertiva de Emmanuel é bastante clara e objetiva. Os recursos de que necessitamos podem ser encontrados em recursos vegetais. O advento científico e tecnológico propiciaram ao ser humano hodierno a capacidade de extrair tais recursos da natureza, de onde se segue que não é mais necessário as terríveis mortes a que são submetidos os pobres animais. Por fim, o espírito André Luiz, também pela sublime mediunidade de Chico Xavier, na obra “Nosso Lar” narra-nos os problemas causados pela alimentação no mundo espiritual. Afirma-nos o espírito que em um determinado período da história da colônia “Nosso Lar” os recém-desencarnados “queriam mesas lautas, bebidas excitantes, dilatando velhos vícios terrenos.” (pg. 55). Somente um ministério, o denominado “Ministério da União Divina”, manteve-se incólume as tentações das viciações que os espíritos recém-libertos da indumentária carnal para lá levavam. Em suma, foi um trabalho hercúleo do governador da colônia para organizá-la ante o caos. Houve diversos protestos, tentativa de invasões dos irmãos infelizes que habitavam o Umbral, etc. Houve a necessidade da convocação de espíritos benfeitores que ensinaram os espíritos recalcitrantes a se alimentarem corretamente e com equilíbrio.

Alguns amigos já tiveram ensejo de dizer-nos quando exemplificamos o caso de “Nosso Lar”: “Quando eu estiver do outro lado, eu vou me preocupar com isso.” Mas é imperioso entendermos que a morte não traz mudanças extraordinárias. Ao contrário, continuamos a ser o que sempre fomos, só que em outra vibração energética.

Por isso, o alerta desses espíritos para que tenhamos força de vontade para modificarmos vícios lamentáveis que ainda carregamos, caso contrário, teremos grandes dificuldades na erraticidade. Assim, o alcoolismo, o tabagismo, a ingestão carnívora, a sexolatria, a drogadição, os excessos de toda ordem constituem graves obstáculos para evolvimento do recém-liberto.

Outro apontamento relevante de Irmão X é o seguinte: “Se você possui algum dinheiro ou detém alguma posse terrestre, não adie doações, caso esteja realmente inclinado a fazê-las. Grandes homens, que admirávamos no mundo pela habilidade e poder com que concretizavam importantes negócios, aparecem, junto de nós, em muitas ocasiões, à maneira de crianças desesperadas por não mais conseguirem manobrar os talões de cheque.” (pg. 23).

Trata-se de um alerta importantíssimo, porque nada levaremos de material ao mundo espiritual. Apenas os conhecimentos adquiridos, as amizades ou desafetos, os valores morais, enfim.

Então, por que de tanto egoísmo de nossa parte? Enquanto tantos irmãos se debatem de fome, sede, frio na noite caliginosa do mundo, nós nos empanturramos com os nossos excessos; consumimos cada vez mais e mais; acumulamos objetos materiais que muitas vezes não usamos e que ficam esquecidos em nossos armários fadados a destruição do tempo; das traças...

É um forte apelo desse espírito para que comecemos a nos desfazer das coisas materiais. E é preferível mesmo que as doações, para aqueles que possuem altas somas em dinheiro ou bens materiais, sejam feitas ainda em vida material, sem consciência de culpa, com desprendimento e amor. Para que não haja contratempos desagradáveis quando da grande viagem.

Até mesmo o amor deve ser com moderação. Ele nos diz: “... não se apegue demasiado aos laços consangüíneos. Ame sua esposa, seus filhos e seus parentes com moderação, na certeza de que, um dia, você estará ausente deles e de que, por isso mesmo, agirão quase sempre em desacordo com a sua vontade, embora lhe respeitem a memória.” (pg. 23).

Esse é um ensinamento difícil, porque muitas vezes o nosso “amor” é recheado pelo egoísmo. Mas, devemos compreender que quem ama verdadeiramente, liberta! É capaz de renunciar para a felicidade alheia. Deste modo, o nosso amor deve ser comedido na certeza de que um dia nos reencontraremos e que também pertencemos a uma família muita maior, sob a égide do Criador.

Por fim, ele nos insta a vivenciarmos a religião que abraçamos, seja ela qual for. A responsabilidade de quem já conhece o caminho do bem é maior e, do outro lado, a consciência será a grande juíza de nossos atos. E não poderemos alegar falta de conhecimento, porque todas as religiões levam ao Pai, ensinam o amor. Vivenciá-lo na prática constante do bem é a nossa função aqui na Terra. Devemos praticar o bem sem a presunção de querer agradar a todos, porque nem o mestre Nazareno logrou fazê-lo. O trabalho edificante apaga qualquer mágoa, qualquer problema e nos ensina a servir na obra da Criação. Não era sem motivo que o preclaro Codificador estabeleceu que “fora da caridade não há salvação!”.

Inumação ou Cremação?

Perde-se nas páginas do tempo da humanidade a origem da cremação. As antigas civilizações realizavam-na respeitando seus respectivos costumes e crenças.

É uma problemática complexa para a sociedade ocidental ainda caracterizada historicamente pela pusilanimidade e o materialismo.

Discussões a parte, compete ao próprio interessado, em vida, realizar o seu pedido formalmente a família e, se possível, registrar em cartório. Porém, se não for possível, cabe à vontade familiar o destino dos despojos, respeitando os princípios religiosos, éticos e morais do desencarnado.

Assim, a doutrina espírita preconiza que se deve dar um tempo considerável nos casos de cremação. No mínimo 72 horas. Porque nem todos os espíritos se desvencilham facilmente do corpo o que pode acarretar tormentos no além para a alma ainda pouco evolvida (como a maioria de nós).

Chegará um dia na evolução terrestre que não mais ocuparemos espaços gigantescos com cadáveres, sob pena de sofrermos os efeitos de tal procedimento (contaminações do solo e lençóis freáticos, ocupação de vasta área que poderia ser utilizada para outro fim, etc.). Cultuaremos o respeito e o carinho aos que partiram na intimidade do coração. Enviando-lhes bons pensamentos. E eles (desencarnados) em contrapartida sentir-se-ão bastante felizes em nos verem resignados e compelidos a caridade, porque doaríamos seus pertences aos mais necessitados materialmente. Desvencilhando-nos dos atavismos.

 

Apontamentos de Elisabeth Kübler-Ross

A notável psiquiatra foi a precursora no tratamento humanizado aos pacientes terminais. Nasceu em 1926, na Suíça. E enveredou-se no campo da Medicina. Foi a partir de Elisabeth Kübler-Ross que se começou a pensar sobre a dignidade dos doentes que devassariam o invisível. A sua missão foi dar dignidade aos pacientes e, também, cantar a imortalidade da vida ao meio acadêmico.

Na obra “A Roda da Vida” encontramos curiosa passagem narrada por ela mesma. Vejamos:

(...)

“O mistério logo se esclareceu. Minha amiga e seu marido, um arquiteto conhecido, moravam numa linda casa em estilo espanhol. Assim que entre, abraçaram-me e demonstraram alívio por eu ter conseguido chegar. Havia alguma possibilidade de que não conseguisse? Antes que tivesse tempo de perguntar qual era o problema, levaram-me para a sala e fizeram-me sentar numa cadeira. O marido de minha amiga sentou-se diante de mim e balançou o corpo para frente e para trás até entrar em transe. Lancei um olhar indagador para minha amiga.

- Ele é médium – disse.

Ao ouvir isso, tive certeza de que a confusão logo se esclareceria e voltei minha atenção para o marido dela. Seus olhos estavam fechados, tinha uma expressão muito sério no rosto e, quando o espírito tomou conta dele, parecia que tinha envelhecido cem anos.

- Deu certo trazer você até aqui – disse, com uma voz agora estranha, de uma pessoa mais velha, e carregada de urgência. - É fundamental que você não protele mais. Seu trabalho sobre a morte e o morrer está terminado. Agora, está na hora de iniciar sua segunda tarefa.

Escutar pacientes ou médiuns nunca fora problema para mim, mas compreender o que diziam às vezes levava algum tempo.

- O que está querendo dizer, qual é a minha segunda tarefa? – perguntei.

- Está na hora de você dizer ao mundo que a morte não existe – afirmou.

Apesar de saber que a função dos guias é unicamente nos ajudar a cumprir nosso destino e as promessas que fizemos a Deus, eu protestei. Precisava de mais explicações. Precisava saber por que tinham me escolhido. Afinal de contas, era conhecida em todo o mundo como a Mulher da Morte e do Morrer. De que jeito voltaria atrás e diria a todos que a morte não existe?

- Por que eu? – perguntei. - Por que não escolheram um pastor ou alguém assim?

O espírito demonstrou sinais de impaciência. Observou que tinha sido eu mesma quem escolhera o trabalho que realizaria nesta vida na Terra.

- Estou apenas dizendo a você que está na hora – disse. E em seguida enumerou uma lista enorme de razões pelas quais eu era a pessoa destinada a realizar aquela tarefa:

- Teria de ser uma pessoa ligada à medicina e à ciência, não à teologia ou à religião, pois estas não fizeram o que deveriam apesar de terem tido oportunidades mais do que suficientes nos últimos dois mil anos. Teria de ser uma mulher e não um homem. E alguém que não tivesse medo. E alguém que tivesse acesso a muita gente e fosse capaz de transmitir a sensação de estar falando pessoalmente com cada um.

- É tudo. Está na hora – concluiu. - Você tem muito o que assimilar.

Isto era indiscutível. Depois de uma xícara de chá, minha amiga, seu marido e eu, esgotados física e emocionalmente, fomos para nossos quartos. Ao ficar só, vi que tinha sido chamada ali por aquela razão específica. Nada acontece por acaso.” (pg. 233-235)
 

Ela estabeleceu em suas pesquisas um modelo, que ficou denominado de Modelo Kübler-Ross ou os Cinco Estágios da Dor da Morte:
 

1. Primeiro estágio – Negação ou Isolamento: É um mecanismo de defesa da mente diante da dor da morte. Variam de indivíduo para indivíduo a duração e a intensidade dessa dor e, também, como as pessoas ao seu redor encaram tal situação. É uma defesa do ego.

Trata-se de um momento muito delicado que exige uma educação espiritual de todos nós, para que aprendamos a aceitar os Desígnios do Sempiterno.

2. Segundo estágio – Raiva: É um momento em que o instinto de preservação da vida nos arma, muitas vezes sem sabermos. É um reflexo da nossa educação basal deficiente. É, pois, a agressão com aqueles que estão próximos de nós. É a agressão contra nós mesmos e contra o Criador. É a impotência diante de uma situação inexorável. É o questionamento muitas vezes doentio: “Por que comigo, se tem tanta gente ruim pra morrer?”.

É um momento que exige bastante paciência dos familiares e amigos. E, também, varia em sua durabilidade de pessoa para pessoa.

3. Terceiro estágio – Barganha: Devido a insegurança psicológica, a pessoa que se encontra às portas da morte, deixa-se contaminar pela barganha. Tenta fazer uma “troca” com o Criador. Diante da incapacidade de oferecer-Lhe algo melhor, a pessoa promete dedicar-se a caridade, aos asilos, às crianças carentes, hospitais, igrejas, templos religiosos, abandonar vícios etc. A pessoa implora a Deus para que lhe dê tempo maior sobre a Terra e em troca dar-Lhe-ia uma vida reta na prática do bem.

4. Quarto estágio – Depressão: O desânimo, o desinteresse, o choro e outros são reflexos do quadro psicológico denominado depressão. Todos nós sentimos alguma vez em maior ou menor grau esses sintomas diante de uma “perda”. A pessoa que se vê impotente diante da verdade inequívoca da morte, passa por esse estágio que perdura conforme a sua conduta mental e os ensinamentos que porventura tenha recebido.

5. Quinto estágio – Aceitação: É um momento de serenidade ante a verdade. A Medicina hodierna vem destinando a sua atenção aos cuidados desses pacientes e seus familiares, para que tenham um momento de tranqüilidade e paz; sem desesperação.

Em suas pesquisas, ela constatou também que a morte ocorre em diversas fases. Quais sejam:

1. Fase um: “As pessoas flutuavam para fora de seus corpos.” (pg. 211) Nesses casos as pessoas têm consciência de tudo o que ocorre ao redor. Conseguem descrever os comentários a seu respeito e todos os detalhes da transição; têm uma forma etérea; sentem-se plenas, ou seja, mesmo aquelas que têm algum problema físico (exemplo: paralíticos), conseguem se estabelecer alegremente.

2. Fase dois: “Nesse ponto, as pessoas já haviam deixado seus corpos para trás e diziam que se encontravam em um estado de vida depois da morte que só pode ser definido como espírito e energia. Sentiam-se reconfortadas ao descobrir que nenhum ser humano jamais morre sozinho.” (pg. 212). Essa fase caracteriza-se pela alegria da imortalidade da alma. Pela certeza de que não se morre sozinho, ou seja, sempre temos a companhia a que fizermos jus durante o nosso estágio terrestre. A doutora Ross também afirma nessa passagem que muitos ao pensarem em seus familiares, viam-se juntos deles. Eram transportados com a rapidez do pensamento. O que nos insta a pensarmos com harmonia e amor sobre aqueles que partem. E, também, a policiarmos os nossos comentários.

3. Fase três: “Guiados por seu anjo da guarda, meus pacientes passavam então para a terceira fase, entrando no que costumava ser descrito como um túnel, ou um portão intermediário, embora as pessoas mencionassem uma grande variedade de outras imagens: uma ponte, um desfiladeiro em uma montanha, um bonito riacho – basicamente o que era mais confortador para cada um. Criavam essas imagens com energia psíquica e, no final, viam uma luz brilhante.” (pg. 213). A força do nosso pensamento esconde mistérios que ainda não logramos conhecer. Nessa fase, a doutora Ross mostra-nos da importância da nossa casa mental. De almejarmos construções mentais positivas, edificantes. O que nos é confortador é que em suas pesquisas, muitos de seus pacientes viram-se diante de seus mentores ou guias espirituais que muito os amavam. Demonstrando-lhes a imensidão do Infinito e um amor incondicional, que cada um interpretava a sua maneira, conforme a experiência religiosa que tinha vivenciado na Terra (uns diziam ser esse amor de Buda, outros de Jesus Cristo, outros de Deus), etc. Nessa fase também ocorrem as primeiras visualizações do mundo espiritual, das suas colônias, hábitos, costumes, funcionamento, enfim, sobejamente descritas na literatura espírita.

4. Fase quatro: “Nesse estágio, as pessoas passavam por uma revisão de suas vidas, um processo no qual se viam diante da totalidade de suas vidas. Repassavam cada ação, palavra e pensamento. As razões de cada uma de suas decisões, pensamentos e ações tornava-se compreensível.” (pg. 214) Nessa fase, ocorre uma retrospectiva das nossas ações. O que nos faz refletir sobre a relevância de bem utilizarmos o nosso livre-arbítrio. Ou seja, que contribuição podemos dar para o meio em que vivemos? É um momento de pensarmos sobre o tempo de que dispomos aqui na Terra, para quando devassarmos o Infinito, termos boas recordações da vida planetária. E não criarmos remorsos... O tribunal Divino está em nossas consciências. Quando morremos no plano terrestre e adentramos o mundo espiritual somos convidados por essa mesma consciência, onde jaz as leis de Deus, para uma reflexão sobre o tempo que passamos na Terra. Não era sem sentido a assertiva: “A cada será dado segundo suas obras.”

A contribuição de Elisabeth Kübler-Ross ao mundo acadêmico é inegável.

Tratam-se de experiências belíssimas no contato com seus pacientes e que ficaram legadas em narrativas nos seus diversos livros. Sugerimos a leitura atenciosa de todas as obras dessa mulher extraordinária, para que o (a) amigo (a) leitor (a) tenha uma boa noção do magnífico trabalho dessa mulher, que por questões óbvias não pudemos dissecar da forma que gostaríamos.

 

Apontamentos de Raymond Moody

Raymond Moody, renomado pesquisador norte-americano, trouxe valorosas contribuições para o pensamento acadêmico. Suas principais idéias estão nos livros “A Vida Depois da Vida” e “A Luz que vem do Além”, a primeira tornou-se best-seller bastante premiada.

Suas pesquisas recaíram sobre as pessoas que estiveram à beira da morte, mas que por vários motivos conseguiram retornar a vida material. Ele denominou tal fenômeno de Experiência de Quase-Morte. Tal acontecimento é caracterizado por um conjunto de experiências por ele detectadas junto aos diversos pacientes a que atendeu ou observou.

Uma ou mais características que corroboram o fenômeno de Experiência de Quase-Morte, ou seja, não há a obrigatoriedade de acontecer em seqüência ou que todas aconteçam.

Vejamos essas sintomatologias constatadas por Raymond:

1. Sensação de estar morto: “Muitas pessoas não percebem que a experiência de quase-morte que estão vivenciando está ligada à morte. Elas se vêem flutuando acima do seu corpo, olhando para ele a uma certa distância, e, de repente, sentem medo e/ou confusão.” (pg. 20). Essa confusão ou receio é fruto do desconhecimento da existência espiritual. Ainda carecemos da educação para a imortalidade da vida. O que o Dr. Raymond detectou em suas pesquisas não são propriamente “descobertas”. Ele deu uma nova roupagem para o meio acadêmico, ainda bastante rígido. Vale, portanto, considerar que devido a sensibilidade maior ou menor de diversas pessoas, elas podem sim desdobrarem-se e verem-se fora do corpo, inclusive dar detalhes de tudo o que se passa no ambiente.

2. Paz e Ausência de Dor: “Enquanto o paciente está encarnado, freqüentemente pode haver dor intensa. Mas quando os ‘fios são cortados’ há uma sensação real de paz e ausência de dor.” (pg. 22). Os fios energéticos que unem o corpo material e o perispírito não são “cortados”, caso contrário, teríamos a morte de fato. Esses fios são “afrouxados” e o ser que passa por tal experiência sente-se com maior lucidez e liberdade, porque vivencia ainda que palidamente as delícias do espírito. Deste modo, e, levando-se em consideração a bagagem moral de cada um, tem-se a ausência de dor. Porque a dor ocorre, predominantemente, na matéria. A dor do espírito é moral.

3. A Experiência de sentir-se fora do corpo: “Freqüentemente, quando o médico diz ‘Nós o perdemos’, o paciente passa por uma mudança completa de perspectiva. Ele se sente levantar e pode ver o próprio corpo abaixo dele.” (pg. 22). Já mencionamos no item 1 o por que disso. Reforçamos ainda que devido a força de vontade do paciente é possível deslocar-se para qualquer lugar. Assim, há experiências de pessoas que desejavam muitíssimo irem para a sala de espera, onde estavam os familiares, e, eram capazes de descrever tudo o que ocorria com impressionante riqueza de detalhes.

4. A Experiência do Túnel: “A experiência do túnel geralmente acontece depois da separação do corpo. (...) as pessoas passam pelo ‘corte das amarras’ e pela ‘experiência de estar fora do corpo’ antes de realmente perceberem que isso tudo está relacionado à morte.” (pg. 23). Essa experiência é mais famosa descrita por Raymond Moody. Grande parte daqueles que passaram pela EQM afirma experimentar tal sensação, que se configura não só como um túnel. Mas, também, de outras formas como escadas, pontes etc.

5. Pessoas de Luz: “Depois de atravessar o túnel, a pessoa geralmente encontra Seres de Luz. Esses seres não são feitos de luz comum. Eles brilham com uma luminosidade linda e intensa, que parece permear tudo e encher a pessoa de amor.” (pg. 24). A luz dessas pessoas, característica dos espíritos benevolentes, não causa constrangimento ao ser que sofre uma EQM e tem oportunidade de encontrá-los. Ao contrário, essa luz é confundida com o amor. São seres que se preocupam com a harmonia interior do indivíduo e o infunde de alegria e paz.

6. O Ser de Luz: “Depois de encontrar vários Seres de Luz, a pessoa que passa por uma EQM encontra um Ser Supremo de Luz.” (pg. 25). Dependendo da formação religiosa do indivíduo esse Ser de Luz recebe uma denominação, por exemplo, Jesus, Deus, Buda, Alá etc. O fato é que esse Ser de Luz transmite uma paz e um amor totais. Todos que têm a oportunidade de vê-lo não querem mais sair do seu lado. Poderíamos dizer que esse Ser de Luz é o mentor da pessoa, a qual afinizada por recônditos laços de fraternidade e amor, sente-se muito querida. Esse mentor é o responsável por dar direcionamento a vida dessa pessoa, como por exemplo retornar ou não ao corpo físico, realizar uma revisão da romagem terrestre, etc.

7. A Revisão da Vida: “Quando a revisão da vida acontece, não há mais nenhuma ambientação física. No lugar, há uma revisão panorâmica da vida num plano tridimensional, totalmente colorido, onde a pessoa pode rever cada uma das coisas que fez em sua vida.” (pg. 25). Além dessa revisão mental dos pormenores fatos da vida, a pessoa é capaz de sentir os efeitos de suas ações. Se realizou o bem para alguém, sente a alegria e a paz interior. Se causou mal através de uma palavra, gesto ou atitude tem a mesma sensação da pessoa ofendida. Assim, encontramos um juiz dentro de nós mesmos, chamado de consciência. Essas análises causam significativas mudanças nas pessoas que sofreram uma EQM.

8. Ascensão Rápida ao Céu: “Devo dizer que nem todas as pessoas que têm uma EQM passam pela experiência do túnel. Algumas relatam uma sensação de ‘flutuar’ na qual elas sobem rapidamente aos céus, vendo o universo de uma perspectiva possível apenas para satélites e astronautas.” (pg. 26). Cada experiência é “sui generis” e a sensação de ascensão rápida ao céu é o resultado natural das propriedades do perispírito, que devido a sua textura fluídica torna exeqüível a volitação, ainda que a pessoa que passa pela EQM não saiba dizer como se processa tal fenômeno. Muitas vezes ela encontra o suporte de benfeitores amigos que a transportam para regiões elevadas, fora do orbe terrestre.

9. Relutância em Voltar: “Para muitas pessoas, a EQM é tão agradável que elas não querem voltar. Como conseqüência, costumam ficar muito bravas com seus médicos por trazê-las de volta.” (pg. 27). Após conhecer, ainda que palidamente, as belezas do mundo espiritual e a fraternidade que reina entre seus habitantes as pessoas não querem mais voltar ao mundo de dor, lutas e sofrimentos que é a Terra. Porém, são movidas por uma estranha energia no sentido de modificar comportamentos para melhor acertarem e conquistarem novamente esse “El Dourado” do espaço.

10. Tempo e Espaço Diferentes: “... as pessoas que passaram por uma EQM dizem que o tempo é altamente comprimido e nada semelhante ao tempo que observamos em nossos relógios. Essas pessoas o descrevem como ‘estar na eternidade’.” (pg. 28). Por devassarem outra dimensão, diferente em diversos aspectos da nossa, a questão da temporalidade também é diferente. Cada dimensão espiritual apresenta o seu tempo específico.

Por fim, algumas considerações finais sobre Raymond Moody.

Ele constatou que em alguns casos, muito menos freqüentes, algumas pessoas que sofreram EQM puderam visualizar o futuro. Assim, seriam capazes de dizer tudo o que aconteceria consigo mesmas ou ainda teriam a sensação de já terem vivenciado determinadas situações (déjà vu). Esses casos são bastante raros, mas já foram registrados na literatura desse pesquisador e outros que estudam a mesma temática.

Outro fato importante é a mudança profunda que a EQM causa nas pessoas que a vivenciaram. As pessoas voltam com valores renovados, procuram amar incondicionalmente todas as manifestações de vida. E, também, procuram conhecer ao máximo, ou seja, matriculam-se em cursos, procuram ler avidamente (mesmo que não gostassem antes da leitura), enfim. Afirmam que somente o amor e o conhecimento são o que verdadeiramente levamos para a outra dimensão. Corroboram, portanto, as assertivas do Espírito Verdade quando disse para amarmo-nos e instruirmo-nos. Bem como Emmanuel e outros, que afirmam que o sentimento e a razão são as duas asas que nos levarão ao Criador.

A contribuição de Raymond Moody ao mundo acadêmico foi e continua a ser bastante preciosa. Ele foi juntamente com Kübler-Ross os responsáveis pela disseminação da imortalidade da vida no mundo científico. Graças a ambos e outros tantos a ciência começa a atentar para tais verdades.

O (a) amigo (a) leitor (a) que desejar estudar mais a respeito da temática deve lê-lo, porque ele nos traz ensinamentos valorosos.

 

Alguns Casos na Literatura Espírita

Os casos aqui elencados têm por objetivo exemplificar o que estudamos até aqui. Não tivemos a pretensão de abordar os casos de toda a literatura espírita, o que constituiria um trabalho sobre-humano. E, também, os comentários após os casos selecionados não encerram outras visões que os (as) amigos (as) leitores (as) podem ter e que nos tenham passado despercebido.

Obra: Há dois mil anos – Francisco Cândido Xavier - Emmanuel

Caso Flamínio

“O moribundo, por sua vez, com a profunda lucidez espiritual dos que se aproximam da morte, com plena consciência da situação e dos seus deveres, entendeu a atitude silenciosa do filho estremecido e, tomando a mão da jovem, que se inclinava afetuosamente sobre o seu peito, apertou as mãos de ambos de encontro ao coração, murmurando com íntima alegria:

- Isso é mais... uma razão... para que eu parta... tranqüilo... Tu, Agripa hás de ser também... muito feliz... e tu... meu caro... Públio... junto de Lívia... haverás de viver...

Todavia, um soluço mais forte escapara-se-lhe inopinadamente e a sucessão dos singultos violentos e dolorosos obrigou-o a calar-se, enquanto Calpúrnia se ajoelhava e lhe cobria as mãos de beijos...

Lívia, também genuflexa, olhava para o alto como se desejasse descobrir os seus arcanos. A seus olhos, apresentava-se aquela câmara mortuária repleta de vultos luminosos e de outras sombras indefiníveis, que deslizavam tranqüilamente em torno do moribundo. Orou no imo dalma, rogando a Jesus força e paz, luz e misericórdia para o grande amigo que partia. Nesse instante, lobrigou a radiosa figura de Simeão, rodeada de claridade azulina e resplandecente.

Flamínio agonizava...

À medida que transcorriam os minutos, os olhos se lhe tornavam vítreos e descoloridos. Todo o corpo transudava um suor abundante, que alagava o linho alvíssimo das cobertas.

Lívia notou que todas as sombras presentes se haviam também ajoelhado e somente o vulto imponente de Simeão ficara de pé, como se fora uma sentinela divina, colocando as mãos radiosas na fronte abatida do moribundo. Notou, então, que seus lábios se entreabriram para a oração, ao mesmo tempo que doces palavras lhe chegavam, nítidas, aos ouvidos espirituais:

- Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino de misericórdia e seja feita a vossa vontade, assim na Terra como nos céus!...

Nesse instante, Flamínio Severus deixava escapar o último suspiro. Marmórea palidez lhe cobriu os traços fisionômicos, ao mesmo tempo que uma infinita serenidade se estampava na sua máscara cadavérica, como se a alma generosa houvesse partido para a mansão dos bem-aventurados e dos justos.

Somente Lívia, com a sua crença e a sua fé, pôde conservar-se de ânimo sereno, entre quantos a rodeavam no doloroso transe. Públio Lentulus, entre lágrimas comovedoras, certificava-se de haver perdido o melhor e o maior dos amigos. Nunca mais a voz de Flamínio lhe falaria das mais belas equações filosóficas, sobre os problemas grandiosos do destino e da dor, nas correntes intermináveis da vida. E, enquanto se abriam as portas do palácio para as homenagens da sociedade romana; e enquanto se celebravam solenes exéquias implorando a proteção dos manes do morto, seu coração de amigo considerava a realidade dolorosa de se haver rasgado, para sempre, uma das mais belas páginas afetivas, no livro da sua vida, dentro da escuridão espessa e impenetrável dos segredos de um túmulo.” (pg. 263-265)
 

Comentários

A figura notável de Flamínio teve o ensejo de ser amparada pelos bons espíritos, a despeito da sua crença politeísta oriunda da educação que recebera em Roma. Somente Lívia logrou visualizar os seres celestes que vieram buscar o bondoso amigo de Públio Lentulus e demais personagens da obra.

Muitos de nós, espíritas, apesar de todos os conhecimentos recebidos desencarnamos em situações lamentáveis, porque não vivenciamos os ensinamentos da Codificação. Muitos irmãos de outras crenças vivenciam o amor Divino à sua maneira e saem de consciência limpa do orbe planetário.

Apesar da descrição um tanto quanto dolorosa do passamento de Flamínio, notamos que o seu desencarne foi “bom”. Pode parecer piegas tal classificação, mas é o melhor vocábulo que achamos para denominar um passamento assistido pelos espíritos nobres. O que ocorre é que muitas vezes a imagem cadavérica que deslumbramos pode não ser muito agradável aos nossos olhos de encarnados, a nossa visão limitada, mas o mecanismo de desencarne pode ser belíssimo. E assim foi do nobre amigo. A figura imponente de Simeão assessorava o nobre amigo que devassou o Infinito.

Outro ponto não menos importante é a questão da mediunidade no momento grave. Segundo inúmeros pesquisadores da temática, aqueles que estão nos minutos derradeiros podem ter sua mediunidade aflorada por estarem mais desprendidos de seus corpos. O que nos faz pensar sobre a nossa conduta na Terra e o que poderemos vislumbrar no Além.

Faz-nos refletir também sobre os minutos preciosos que temos para os últimos acertos, as palavras de perdão, as considerações etc. Cada minuto na matéria é um tesouro da Divindade.
 

Caso Calpúrnia
 

“É possível que minha pobre alma, já semiliberta, esteja participando dos incompreendidos mistérios da vida do além-túmulo e talvez seja por isso que, hoje pela manhã, vi a figura de Flamínio neste quarto!... Era muito cedo e eu estava só, com as minhas meditações e as minhas preces!...

Nesse ínterim, a palavra da enferma tornara-se entrecortada de profundas emoções que a dominavam, enquanto Públio Lentulus chorava, em doloroso silêncio.

- Sim... – prosseguiu Calpúrnia, depois de longa pausa –, no meio de uma luz difusa e azulada, vi Flamínio a estender-me os braços carinhosos e compassivos... No olhar, observei-lhe a mesma expressão habitual de ternura e, na voz, o timbre familiar, inesquecível... Avisou-me que dentro de dois dias penetrarei os mistérios indevassáveis da morte, mas essa revelação no meu fim próximo não me podia surpreender... porque, para mim... que há tantos anos vivo no meu exílio de saudades e sombras... acrescido das continuadas angústias da enfermidade longa e dolorosa... a certeza da morte constitui supremo consolo... Confortada pelas doces promessas da visão, as quais se auguravam esse brando alívio para breves horas... perguntei ao espírito de Flamínio sobre a dúvida cruel que me dilacerava há tantos anos... Bastou que a argüisse mentalmente, para que a radiosa entidade me dissesse em alta voz... meneando a cabeça num gesto delicado... como a exprimir infinita e dolorosa tristeza: ‘Calpúrnia, em má hora duvidaste daquela a quem deverias amar... e proteger como a filha querida e carinhosa... porque Lívia... é uma criatura imaculada e inocente...’

Nesse instante... – continuou a enferma, com alguma dificuldade –, tal foi a impressão dolorosa de minhalma... com a surpresa da resposta... que não mais lobriguei a visão carinhosa e consoladora... como se fosse repentinamente chamada às tristes realidades da vida prática.

A velha matrona tinha os olhos marejados de lágrimas, enquanto o senador se entregava silenciosamente ao pranto de suas comoções penosas.

(...)

Havia muito que a enferma era atacada, subitamente, de periódicas e prolongadas dispnéias.

(...)

Calpúrnia, porém, parecia atacada pelas últimas aflições que a levariam ao túmulo. Por vinte e quatro horas consecutivas, o peito arfou sibilante, como se a caixa torácica estivesse prestes a rebentar sob o impulso de uma força indomável e misteriosa.

Ao fim de um dia e uma noite de azáfama e angústias, a doente parecia haver experimentado ligeira melhora. A respiração fazia-se menos penosa e os olhos revelavam grande serenidade, embora todo o corpo estivesse salteado de manchas azuladas e violáceas, prenunciando a morte. Apenas a afonia continuava, mas, em dado instante, fez um gesto com a mão, chamando Lívia à cabeceira com a terna familiaridade dos antigos tempos. A esposa do senador atendeu ao apelo silencioso, ajoelhando-se, com os olhos cheios de lágrimas e compreendendo, pela intuição espiritual, que era chegado o instante doloroso da despedida. Via-se que Calpúrnia desejava falar, inutilmente. Foi então que cingiu Lívia, amorosamente, contra o peito, osculando-lhe os cabelos e a fronte num esforço supremo e, colando os lábios ao seu ouvido, balbuciou com infinita ternura: - ‘Lívia, perdoa-me!’ Somente a interpelada escutara o brando cicio da agonizante. Foram essas as derradeiras palavras de Calpúrnia. Dir-se-ia que sua alma valorosa necessitava, tão-somente, daquele último apelo para conseguir desvencilhar-se da Terra, elevando-se ao Paraíso.

Abraçada à incansável amiga, a agonizante depôs novamente a cabeça nas almofadas, para sempre. Suor abundante transbordava de todo o seu corpo, que se aquietou de leve para a suprema rigidez cadavérica e, daí a minutos, seus olhos se fecharam, como se se preparassem para um grande sono. A respiração foi-se extinguindo brandamente, enquanto uma lágrima pesada e branca lhe rolava nas faces enrugadas, como um raio divino da luz que lhe clarificava a noite do túmulo. (pg. 327-331)
 

Comentários

Os últimos momentos são marcados por singulares ensinamentos, por isso que todos os minutos na Terra são demasiadamente valiosos aos espíritos que nela estagiam.

Calpúrnia, nobre amiga de Lívia e Públio, a despeito da sua condição de profitente dos deuses romanos possuía nobres sentimentos em seu coração e caracterizava-se por atitudes benevolentes. Por isso, logrou a paz ruma ao Infinito.

A mediunidade é a sensibilidade em captar em maior ou menor intensidade as interferências espirituais. E varia de indivíduo para indivíduo. É interessante o fenômeno nos moribundos, uma das explicações é a frouxidão dos laços que retêm o espírito ao corpo denso. Deste modo, é possível ter experiências agradáveis ou desagradáveis. (Como veremos no Caso Cavalcante). Tudo depende da sintonia de cada um e as companhias que cativou ao longo da romagem terrena.

Outro fato relevante na narrativa de Calpúrnia é o perdão. Essa atitude reiteradas vezes mencionada pelo Mestre de Nazaré e por Ele exemplificada é constantemente vilipendiada por nós, quando ainda dispomos de tempo para reconciliarmo-nos com as inimizades do caminho. Existem duas maneiras de perdoar bastante distintas: o perdão dos lábios e o perdão do coração. Nesse contexto Calpúrnia pediu perdão com todas as forças de seu coração o que foi prontamente atendida pela bondosa Lívia.

Mas, há muitos de nós, que afirmamos perdoar, mas nos comprazemos em ver o mal das pessoas que nos pedem perdão. Ou, ainda, dizemos perdoar na condição de nunca mais nos encontrarmos com tais pessoas. A conduta do espírita-cristão pede o perdão emanado do coração e do pensamento bondoso. Não impõe condições, porque sabe que Deus perdoará a medida em que houver perdoado. Essa passagem de Calpúrnia enche-nos de profundos ensinamentos.

 

Caso Lívia

“O venerável apóstolo de Antioquia entestou a fileira com serenidade valorosa. Seu coração elevava-se ao infinito, em orações sinceras e fervorosas. Em poucos instantes, todos os prisioneiros se encontravam reunidos à entrada da arena, saturados de uma força moral que, até então, lhes era desconhecida. É que, detrás daquelas púrpuras suntuosas e além daqueles risos estridentes e impropérios sinistros, estava uma legião de mensageiros celestes fortalecendo as energias espirituais dos que iam sucumbir de morte infamante, para regar a semente do Cristianismo com as suas lágrimas fecundas. Uma estrada luminosa, invisível aos olhos mortais, abrira-se nas claridades do firmamento e, por ela, descia todo um exército de arcanjos do Divino Mestre, para aureolar com as bênçãos da sua glória os valorosos trabalhadores da causa.

Sob os aplausos delirantes e ensurdecedores da turba numerosa, soltaram-se os leões famintos, para a espantosa cena de impiedade, de pavor e sangue, mas nenhum dos apóstolos desconhecidos, que iam morrer no depravado festim de Nero, sentiu as torturas angustiosas de tão horrenda morte, porque o brando anestésico das potências divinas lhes balsamizou o coração dorido e dilacerado no tormentoso momento.

Fustigados pela angústia e pela aflição do instante derradeiro, ante o público sanguinário, os míseros sacrificados não tiveram tempo de se reunir na arena dolorosa. As feras famintas pareciam tocadas de horrível ansiedade. E enquanto se estraçalhavam corpos misérrimos, Domício Nero mandava que todos os coros de dançarinos e todos os músicos celebrassem o espetáculo com os cânticos e bailados de Roma vitoriosa.

Incluindo-se a considerável assistência que se aglomerava nas colinas, quase meio milhão de pessoas vibrava em aplausos ensurdecedores e espantosos, enquanto duas centenas de criaturas humanas tombavam espostejadas...

Ingressando na arena, Lívia ajoelhara-se defronte do grande e suntuoso pavilhão do Imperador, onde buscou lobrigar o vulto do esposo, pela derradeira vez, a fim de guardar no fundo dalma a dolorosa expressão daquele último quadro, junto da imagem íntima de Jesus Crucificado, que inundava de emoções serenas o seu pobre coração dilacerado no minuto supremo. Pareceu-lhe divisar, confusamente, na doce claridade do crepúsculo, a figura ereta do senador coroado de rosas, como os triunfadores e, quando seus lábios se entreabiram numa última prece misturada de lágrimas ardentes que lhe borbulhavam dos olhos, viu-se repentinamente envolvida pelas patas selvagens de um monstro. Não sentira, porém, qualquer comoção violenta e rude, que assinala comumente o minuto obscuro da morte. Figurou-se-lhe haver experimentado ligeiro choque, sentindo-se agora embalada nuns braços de névoa translúcida, que ela contemplou altamente surpreendida. Buscou certificar-se da sua posição, dentro do circo, e reconheceu, a seu lado, a nobre figura de Simeão, que lhe sorria divinamente, dando-lhe a silenciosa e doce certeza de haver transposto o limiar da Eternidade.

Naquele instante, dentro do camarim de honra do Imperador, Públio Lentulus sentiu no coração inexprimível angústia. No turbilhão daquele ensurdecedor vozerio, o senador nunca sentira tão fundo desalento e tão amargo desencanto da vida. Horrorizavam-lhe agora aqueles tremendos espetáculos homicidas, de pavor e morte. Sem que pudesse explicar o motivo, seu pensamento voltou à Galiléia longínqua, figurando-se-lhe divisar, novamente, a suave figura do Messias de Nazaré, quando lhe afirmava: - Todos os poderes do teu Império são bem fracos e todas as suas riquezas bem miseráveis!...” (pg.364-365)

(...)

“Reportando-nos à dolorosa e comovedora cena do sacrifício dos mártires cristãos, na arena do circo, somos compelido a acompanhar a entidade de Lívia na sua augusta trajetória para o Reino de Jesus.

Nunca os horizontes da Terra forma brindados com paisagens de tanta beleza, como as que se abriram nas esferas mais próximas do planeta, quando da partida em massa dos primeiros apóstolos do Cristianismo, exterminados pela impiedade humana, nos tempos áureos e gloriosos da consoladora doutrina do Nazareno.

Naquele dia, quando as feras famintas estraçalhavam os indefesos adeptos das idéias novas, toda uma legião de espíritos sábios e benevolentes, sob a égide do Divino Mestre, lhes rodeava os corações dilacerados no martírio, saturando-os de força, resignação e coragem para o supremo testemunho de sua fé.

Sobre as nefastas paixões desencadeadas naquela assistência ignorante e impiedosa, desdobravam os poderes do céu o manto infinito de sua misericórdia, e além daquele vozerio sinistro e ensurdecedor havia vozes que abençoavam, proporcionando aos mártires do Senhor uma fonte de suaves e ditosas consolações.

Entardecia já, quando tombavam as últimas vítimas ao choque brutal dos leões furiosos e implacáveis.

Abrindo os olhos entre os braços carinhosos do seu velho e generoso amigo, Lívia compreendera, imediatamente, a consumação do angustioso transe. Simeão tinha nos lábios um sorriso divino e lhe acariciava os cabelos, paternalmente, com meiguice e doçura. Estranha emoção vibrava, porém, na alma liberta da esposa do senador, que se viu presa de lágrimas dolorosas. A seu lado notou, com penosa surpresa, os despojos sangrentos do corpo dilacerado e entendeu, embora o seu espanto, o doce mistério da ressurreição espiritual, de que falava Jesus nas suas lições divinas. Desejou falar, de modo a traduzir seus pensamentos mais íntimos e, todavia, tinha o coração repleto de emoções indefiníveis e angustiosas. Aos poucos, notou que, da arena ensangüentada, se erguiam entidades, qual a sua própria, ensaiando passos vacilantes, amparadas, porém, por criaturas etéreas, aureoladas de graça incomparável, como jamais contemplara em qualquer circunstância da vida. Aos seus olhos desapareceu o cenário colorido e tumultuoso do circo da ignomínia e aos ouvidos não mais ressoaram as gargalhadas irônicas e perversas dos espectadores impiedosos. Notou que, do firmamento constelado, fluía uma luz misericordiosa e compassiva, afigurando-se-lhe que nova claridade, desconhecida na Terra, se acendera maravilhosamente dentro da noite. Imensa multidão de seres, que lhe pareciam alados, cercava-os a todos enchendo o ambiente de vibrações divinas.

Deslumbrada, viu, então, que entre a Terra e o Céu se formava radioso caminho...

Através de uma esteira de luz intraduzível, que não chegara a ofuscar o brilho caricioso e terno das estrelas que bordavam, cintilando, o azul macio do firmamento, observou novas legiões espirituais que desciam, celeremente, das maravilhosas regiões do Infinito...

Empolgados com as sonoridades delicadas daquele ambiente indescritível, seus ouvidos escutaram, então, sublimes melodias do plano invisível, como se, de envolta com liras e flautas, harpas e alaúdes, cantassem no Alto as divinas toutinegras do Paraíso, projetando as alegrias siderais nas paisagens escuras e tristes da Terra...

Seu espírito, como que impulsado por energia misteriosa, conseguiu, então, manifestar as emoções mais íntimas e mais queridas.

(...)

Naquele instante, porém, uma força incompreensível parecia impelir para as Alturas quantos ali se conservavam sem a pesada indumentária da Terra...

Lívia sentiu que o terreno lhe faltava e que todo o seu ser volitava em pleno espaço, experimentando estranhas sensações, embora fortemente amparada pelos braços generosos do venerando amigo.

Era, de fato, uma radiosa caravana de entidades puríssimas, que se elevava em conjunto, através daquele cintilante caminho traçado de luz, em pleno éter!...” (pg. 385-387)

Comentários

Lívia e os primeiros cristão, devido aos valores morais conquistados em existências pregressas, foram eleitos para a edificação da fé nascente (O Cristianismo). Seus exemplos de martírio e abnegação espantavam os que se deleitavam com os espetáculos cruéis.

Por detrás daquela turba esfaimada e das feras famintas, legiões espirituais assessoravam aqueles que deveriam dar o testemunho supremo. Por isso, os primeiros cristãos possuíam uma força intrínseca que nem mesmo eles poderiam compreender. Eles não experimentaram as dores do quadro dantesco. Eram rapidamente assistidos pelos espíritos benfeitores e levados ao verdadeiro Reino de Deus.

No contexto atual não precisamos ser imolados nos circos da ignorância, temos liberdade de pensamento, liberdade de locomoção, liberdade política e religiosa, entretanto, poucos de nós damos a Vida ao Messias. Poucos de nós acolhemos aqueles que necessitam; ou envidamos esforços para a melhoria moral; ou ainda para o equilíbrio familiar; a luta contra a violência, a prostituição, a drogadição... Poucos de nós damos o nosso testemunho em favor Daquele que foi crucificado por nós.

Caso Públio Lentulus

“Plínio chegava, afinal, para o instante derradeiro. Flávia Lentúlia apertou-o carinhosamente nos braços, enquanto o velho senador semi-asfixiado tomava as mãos do filho, abraçando-se os três num amplexo derradeiro.

Flávia e Plínio quiseram falar, mas grossa camada de cinzas penetrava o interior, pelas fendas enormes da vila meio destruída...

Mais um estremeção do solo e as colunas que ainda restavam de pé se abateram sobre os três, roubando-lhes as últimas energias e fazendo-os cair assim, enlaçados para sempre, sob um montão de escombros...

Naquelas sombras espessas, todavia, pairavam criaturas aladas e leves, em atitudes de prece, ou confortando ativamente o coração abatido dos míseros condenados à destruição.

Sobre os três corpos soterrados permanecia a entidade radiosa de Lívia, junto de numerosos companheiros que cooperavam, com devotamento e precisão, nos serviços de desprendimento total dos moribundos.

Pousando as mãos luminosas e puras na fronte abatida do companheiro exausto e agonizante, Lívia elevou os olhos ao firmamento enegrecido e orou com a suavidade da sua fé e dos seus sentimentos diamantinos.

(...)

E, enquanto Lívia orava, o senador abraçado aos filhos, já cadáveres, desferia o último gemido, com pesada lágrima a lhe cintilar nos olhos mortos...

Numerosas legiões de seres espirituais volitaram por vários dias, nos céus caliginosos e tristes de Pompéia.

Ao cabo de longas perturbações, Públio Lentulus e filhos despertaram, ali mesmo, sobre o túmulo nevoento da cidade morta.

Em vão o senador invocou a presença de Ana ou de algum outro servo, na penosa ilusão da vida material, persistindo em seu organismo psíquico as impressões da cegueira material, que representara o longo suplício dos seus anos derradeiros, na indumenta da carne.

(...)

Embora as dedicações constantes de Lívia, havia já alguns dias que seu espírito se encontrava presa de pesadelos angustiosos, nos primeiros instantes da vida do Além, assistido, porém, continuamente por Flamínio e outros companheiros abnegados, que o aguardavam no plano espiritual.

Contudo, depois daquelas súplicas sinceras que lhe fluíam do mais recôndito do coração, sentiu que seu mundo interior se desanuviara... Junto dos filhos queridos, recobrou a visão e reconheceu os entes amados, com lágrimas de amor e reconhecimento, nos pórticos do além-túmulo.” (pg. 490-493)

 

Comentários

É comum no recém-liberto as impressões ainda da vida material. A natureza não dá saltos e processo de adaptação na erraticidade é paulatino. Assim, a vestimenta, a alimentação, os conhecimentos, as sensações ainda da vida material, entre outros, são fatores comuns no mundo dos imortais.

Entretanto, é imperioso estudarmos profundamente tais casos narrados na literatura espírita.

Se tivermos condutas positivas no bem, nos trabalhos de caridade (sem interesses mesquinhos, mas com a nobre idéia de ser útil na Seara do Cristo) e, também, se estudarmos os profundos ensinamentos que os espíritos nos trazem, certamente, será bem mais fácil a nossa adaptação ao mundo espiritual.

Públio Lentulus nos derradeiros anos de sua existência havia se tornado cego e devido aos múltiplos reveses por que passou, começou a voltar seu pensamento para os ensinamentos do Cristo e nos heróicos exemplos dos primeiros cristãos. Ele passava horas na companhia de Ana, a escrava fiel e bondosa, e de sua filha, que também se tornara cega, refletindo e discutindo fraternalmente os ensinamentos do Cristo.

Quando lhe chegou o instante supremo da desencarnação, por um período considerável, ainda sentia-se cego. O processo de mudança e adaptação ao mundo espiritual ocorrem aos poucos. Porém, precisamos considerar que tudo reflete o pensamento e os valores morais conquistados. Há inúmeros casos que apesar da limitação física ou da patologia existente, quando do momento do desencarne, o espírito pode apresentar-se num perispírito perfeito, sem as manifestações atávicas da Terra. Isso depende da evolução de cada um.

Obra: Voltei – Francisco Cândido Xavier - Jacob

Caso Jacob

(...) “Identificava-me em singulares processos de desdobramento.

Recluso, na impossibilidade de receber os amigos para conversações e entendimentos mais demorados, em várias ocasiões me vi fora do corpo exausto, buscando aproximar-me deles.

Nas últimas trintas horas, reconheci-me em posição mais estranha. Tive a idéia de que dois corações me batiam no peito. Um deles, o de carne, em ritmo descompassado, quase a parar, como relógio sob indefinível perturbação, e o outro pulsava, mais equilibrado, mais profundo...

A visão comum alterava-se. Em determinados instantes, a luz invadia-me em clarões subitâneos, mas, por minutos de prolongada duração, cercava-me densa neblina.

O conforto da câmara de oxigênio não me subtraía as sensações de estranheza.

Observei que frio intenso veio ferir-me as extremidades. Não seria a integral extinção da vida corpórea?

Procurei acalmar-me, orar intimamente e esperar. Após sincera rogativa a Jesus para que me não desamparasse, comecei a divisar à esquerda a formação de um depósito de substância prateada, semelhante a gaze tenuíssima...

Não poderia dizer se era dia ou se era noite em torno de mim, tal o nevoeiro em que me sentia mergulhado, quando notei que duas mãos caridosas me submetiam a passes de grande corrente. À medida que se desdobravam, de alto a baixo, detendo-se com particularidade no tórax, diminuíam-se-me as impressões de angústia. Lembrei, com força, o Irmão Andrade, atribuindo-lhe o benefício, e implorei-lhe mentalmente se fizesse ouvir, ajudando-me.

Qual se estivesse sofrendo melindrosa intervenção cirúrgica, sob máscara pesada, ouvi alguém a confortar-me: ‘Não se mexa! Silêncio! Silêncio!...’

Concluí que o término da resistência orgânica era questão de minutos.

Não se estendeu o alívio, por muito tempo.

Passei a registrar sensações de esmagamento no peito.

As mãos do passista espiritual concentravam-se-me agora no cérebro. Demoraram-se, quase duas horas, sobre os contornos da cabeça. Suave sensação de bem-estar voltou a dominar-me, quando experimentei abalo indescritível na parte posterior do crânio. Não era uma pancada. Semelhava-se a um choque elétrico, de vastas proporções, no íntimo da substância cerebral. Aquelas mãos amorosas, por certo, haviam desfeito algum laço forte que me retinha ao corpo de carne...

Senti-me no mesmo instante subjugado por energias devastadoras.

A que comparar o fenômeno?

A imagem mais aproximada é a de uma represa, cujas comportas fossem arrancadas repentinamente.

Vi-me diante de tudo o que eu havia sonhado, arquitetado e realizado na vida. Insignificantes idéias que emitira, tanto quanto meus atos mínimos, desfilavam, absolutamente precisos, ante meus olhos aflitos, como se me fossem revelados de roldão, por estranho poder, numa câmara ultra-rápida instalada dentro de mim. Transformara-se-me o pensamento num filme cinematográfico misteriosa e inopinadamente desenrolado, a desdobrar-se, com espantosa elasticidade, para seu criador assombrado, que era eu mesmo.

(...)

Senti-me sozinho e amedrontei-me. Esforcei-me por gritar, implorando socorro, porém os músculos não mais me obedeceram.

Busquei abrigar-me na prece, mas o poder de coordenação escapava-me.

Não conseguiria precisar se eu era um homem a morrer ou um náufrago a debater-se em substância desconhecida, sob extenso nevoeiro.

Naquele intraduzível conflito, lembrei mais insistentemente o dever de orar nas circunstâncias mais duras... Rememorei a passagem evangélica em que Jesus acalma a tempestade, perante os companheiros espavoridos, rogando ao Céu salvação e piedade...

Forças de auxílio dos nossos protetores espirituais, irmanadas à minha confiança, sustaram as perturbações. Braços vigorosos, não obstante invisíveis para mim, como que me reajustavam no leito. Aflição asfixiante, contudo, oprimia-me o íntimo. Ansiava por libertar-me. Chorava conturbado, jungido ao corpo desfalecente, quando tênue luz se fez perceptível ao meu olhar. Em meio do suor copioso lobriguei minha filha Marta a estender-me os braços.” (pg. 29-32)
 

Comentários

Temos nessa obra monumental a rica descrição de Irmão Jacob sobre o próprio desencarne e suas primeiras impressões no mundo espiritual. Em narrativa similar a de André Luiz, ele nos trás exemplificações que merecem meditação.

A primeira que podemos destacar do trecho supracitado, diz respeito a mediunidade dos moribundos. Ou seja, a maior sensibilidade do organismo perispiritual diante do fenômeno da morte. Nele causou estranheza a sensação de dois corações ainda trabalhando: o físico em ritmo descompassado e o perispiritual dentro da funcionalidade normal.

Outra sensação desagradável e que merece a nossa atenção foi o enregelamento orgânico e que foi sentido pelo espírito ainda não liberto da matéria. Nesse estágio, uma considerável flora microscópica já iniciava o processo de decomposição, embora ainda houvesse fluido vital no organismo físico. Há, em verdade, uma luta do corpo físico para que o senhor espiritual não o deixe.

A questão temporal também é um fator que nos causa estranheza nos primeiros instantes de desligamento. Não é possível identificar o tempo, visto ser o tempo no mundo espiritual diferente do terrestre.

Os mecanismos envolvidos no processo desencarnatório variam de espírito para espírito, acreditamos que as narrativas de Irmão Jacob falam por si mesmas e não nos deteremos em todas as nuances do fenômeno.

Existem padrões comuns aos diversos desencarnes, um deles por ele narrado e confirmado pelos outros exemplos de diversos pesquisadores é a visão panorâmica: dos pequenos atos, palavras e pensamentos emitidos por ele em sua existência terrestre aos grandes eventos da sua vida desfilaram como que numa tela cinematográfica.

Posteriormente, diante das desagradáveis sensações que experimentou, ele buscou o recurso da prece mental. Precioso auxílio que devemos buscar no momento supremo.

As revelações da obra “Voltei” são interessantíssimas e merecem a leitura dos (as) amigos (as) leitores (as).

Para finalizar o trecho por nós destacado, gostaríamos de pontuar as lúcidas explicações do Dr. Bezerra de Meneses a respeito de determinadas energias que ele denominou de “fluidos gravitantes”. São energias que ainda não compreendemos oriundas das rogativas mentais dos encarnados parentes e amigos do morto que acabam por dificultar o processo de libertação, bem como as densas energias presentes nos objetos de uso pessoal, que foram por nós utilizados, que criam uma espécie de campo energético, exigindo de nós renúncia dos bens materiais. (pg. 41)

Obra: Obreiros da Vida Eterna – Francisco Cândido Xavier – André Luiz

O espírito André Luiz, por intermédio da saudosa pena de Chico Xavier, teve ensejo de apresentar-nos rico material a respeito da desencarnação. Analisemo-lo:
 

Caso Dimas

“O transe era, sem dúvida, melindroso.

A esposa do médium, ao pé dele, não obstante prolongadas vigílias e sacrifícios estafantes, que a expressão fisionômica denunciava, mantinha-se firme a seu lado, olhos vermelhos de chorar, emitindo forças de retenção amorosa que prendiam o moribundo em vasto emaranhado de fios cinzentos, dando-nos a impressão de peixe encarcerado em rede caprichosa.

(...)

Reparei que o moribundo se encontrava já em dolorosas condições. Plenamente desorganizado, o fígado começava definitivamente a paralisar suas funções. O estômago, o pâncreas e o duodeno apresentavam anomalias estranhas. Os rins pareciam praticamente mortos. Os glomérulos prendiam-se aos ramos arteriais como pequeninos botões arroxeados; os tubos coletores, enrijecidos, prenunciavam o fim do corpo. Sintomas de gangrena pesavam em toda a atmosfera orgânica.

O que mais impressionava, porém, era a movimentação da fauna microscópica. Corpúsculos das mais variadas espécies nadavam nos líquidos acumulados no ventre, concentrando-se particularmente no ângulo hepático, como a buscarem alguma coisa, com avidez, nas vizinhanças da vesícula.

O coração trabalhava com dificuldade. Enfim, o enfraquecimento atingira o auge.

─ Precisamos fornecer-lhe melhoras fictícias – asseverou o dirigente de nossas atividades –, tranqüilizando-lhe os parentes aflitos. A câmara está repleta de substâncias mentais torturantes.

O Assistente principiou, então, a exercer intensivamente sua influência.

Dimas, de raciocínio obnubilado pela dor, não divisava a nossa presença. Os atritos celulares, pelo rápido desenvolvimento dos vírus portadores do coma, impediam-lhe percepções claras. As proveitosas faculdades mediúnicas que ele possuía haviam caído em temporário eclipse, ante os choques do sofrimento. Era, porém, extremamente sensível à atuação magnética.

Pouco a pouco, com a interferência de Jerônimo, o amigo acalmou-se, respirou em ritmo quase normal...

(...)

Em vista das melhoras obtidas, houve expansão de júbilo familiar. O médico foi chamado. Radiante, o clínico asseverou que os prognósticos contrariavam suposições anteriores. Renovou as indicações, dispensou os anestésicos e recomendou ao pessoal doméstico que entregasse o doente ao repouso absoluto. Dimas acusava melhoras surpreendentes. Era razoável, portanto, que a câmara fosse deixada em silêncio para que ele tivesse um sono reparador.

O esculápio atendia-nos ao desejo.

Em breves minutos, o compartimento ficou solitário, facilitando-nos o serviço.

O Assistente distribuiu trabalho a todos nós. Hipólito e Luciana, depois de tecerem uma rede fluídica de defesa, em torno do leito, para que as vibrações mentais inferiores fossem absorvidas, permaneceram em prece ao lado, enquanto eu mantinha a destra sobre o plexo solar do agonizante.

─ Iniciaremos, agora, as operações decisivas – declarou-nos Jerônimo, resoluto –, antes, porém, forneçamos ao nosso amigo a oportunidade da oração final.

O Assistente tocou-o, demoradamente, na parte posterior do cérebro. Vimos que o agonizante passou a emitir pensamentos luminosos e belos. Não nos via, nem nos ouvia, de maneira direta, mas conservava a intuição clara e ativa. Sob o controle de Jerônimo, experimentou imperiosa necessidade de orar e, embora os lábios cansados prosseguissem imóveis, assinalamos a rogativa mental que endereçava ao Divino Mestre...” (pg.204-208)

Após a aparição de uma nobre anciã, que era mãe do moribundo, narra-nos André Luiz:

“O Assistente comentou a urgência da tarefa que nos aguardava e confiou-lhe o depósito querido.

Em breves instantes, tínhamos perante os olhos inolvidável quadro afetivo. Sentara-se a velhinha no leito, depondo a cabeça do moribundo no regaço acolhedor, afagando-a com as mãos cariciosas.

Em virtude do reforço valioso no setor da colaboração, Hipólito e Luciana, atendendo ao nosso dirigente, foram velar pelo sono da esposa, para que as suas emissões mentais não nos alterassem o esforço.

No recinto, permanecemos os três apenas.

Dimas, experimentando indefinível bem-estar no regaço materno, parecia esquecer, agora, todas as mágoas, sentindo-se amparado como criança semi-inconsciente, quase feliz. Ordenou Jerônimo que me conservasse vigilante, de mãos coladas à fronte do enfermo, passando, logo após, ao serviço complexo e silencioso de magnetização. Em primeiro lugar, insensibilizou inteiramente o vago, para facilitar o desligamento nas vísceras. A seguir, utilizando passes longitudinais, isolou todo o sistema nervoso simpático, neutralizando, mais tarde, as fibras inibidoras no cérebro. (...)

─ Segundo você sabe, há três regiões orgânicas fundamentais que demandam extremo cuidado nos serviços de liberação da alma: o centro vegetativo, ligado ao ventre, como sede das manifestações fisiológicas; o centro emocional, zona dos sentimentos e desejos, sediado no tórax, e o centro mental, mais importante por excelência, situado no cérebro. (...)

Aconselhando-me cautela na ministração de energias magnéticas à mente do moribundo, começou a operar sobre o plexo solar, desatando laços que localizavam forças físicas. Com espanto, notei que certa porção de substância leitosa extravasava do umbigo, pairando em torno. Esticaram-se os membros inferiores, com sintomas de esfriamento.

Dimas gemeu, em voz alta, semi-inconsciente.

Acorreram amigos, assustados. Sacos de água quente foram-lhe apostos nos pés. Mas, antes que os familiares entrassem em cena, Jerônimo, com passes concentrados sobre o tórax, relaxou os elos que mantinham a coesão celular no centro emotivo, operando sobre determinado ponto do coração, que passou a funcionar como bomba mecânica, desreguladamente. Nova cota de substância desprendia-se do corpo, do epigastro à garganta, mas reparei que todos os músculos trabalhavam fortemente contra a partida da alma, opondo-se à libertação das forças motrizes, em esforço desesperado, ocasionando angustiosa aflição ao paciente. O campo físico oferecia-nos resistência, insistindo pela retenção do senhor espiritual.

Com a fuga do pulso, foram chamados os parentes e o médico, que acorreram pressurosos. No regaço maternal, todavia, e sob nossa influenciação direta, Dimas não conseguiu articular palavras ou concatenar raciocínios.

Alcançáramos o coma, em boas condições.

O Assistente estabeleceu reduzido tempo de descanso, mas volveu a intervir no cérebro. Era a última etapa. Concentrando todo o seu potencial de energia na fossa romboidal, Jerônimo quebrou alguma coisa que não pude perceber com minúcias, e brilhante chama violeta-dourada desligou-se da região craniana, absorvendo, instantaneamente, a vasta porção de substância leitosa já exteriorizada. Quis fitar a brilhante luz, mas confesso que era difícil fixá-la, com rigor. Em breves instantes, porém, notei que as forças em exame eram dotadas de movimento plasticizante. A chama mencionada transformou-se em maravilhosa cabeça, em tudo idêntica à do nosso amigo em desencarnação, constituindo-se, após ela, todo o corpo perispiritual de Dimas, membro a membro, traço a traço. E, à medida que o novo organismo ressurgia ao nosso olhar, a luz violeta-dourada, fulgurante no cérebro, empalidecia gradualmente, até desaparecer, de todo, como se representasse o conjunto dos princípios superiores da personalidade, momentaneamente recolhidos a um único ponto, espraiando-se, em seguida, através de todos os escaninhos do organismo perispirítico, assegurando, desse modo, a coesão dos diferentes átomos, das novas dimensões vibratórias.

Dimas-desencarnado elevou-se alguns palmos acima de Dimas-cadáver, apenas ligado ao corpo através de leve cordão prateado, semelhante a sutil elástico, entre o cérebro de matéria densa, abandonado, e o cérebro de matéria rarefeita do organismo liberto.

A genitora abandonou o corpo grosseiro, rapidamente, e recolheu a nova forma, envolvendo-a em túnica de tecido muito branco, que trazia consigo.

Para os nossos amigos encarnados, Dimas morrera, inteiramente. Para nós outros, porém, a operação era ainda incompleta. O Assistente deliberou que o cordão fluídico deveria permanecer até ao dia imediato, considerando as necessidades do ‘morto’, ainda imperfeitamente preparado para desenlace mais rápido.” (pg. 209-212)

 

Comentários

É, indubitavelmente, uma das histórias mais belas e ricas de ensinamento da literatura espiritualista. Destacamos alguns pontos que achamos interessante. Primeiramente, o poder do pensamento de nós encarnados sobre o moribundo. É sobejamente conhecido de todos que se dedicam aos estudos espiritistas o poder do pensamento, uma vez que o mesmo é matéria. Infelizmente, apenas temos consideráveis conhecimentos teóricos. No campo prático, entretanto, a situação se nos apresenta de forma inversa. Não estamos acostumados a emitir forças mentais positivas e nobres.

Assim, o pensamento de angústia dos familiares de Dimas retinham-no ao corpo denso. E era de tal natureza essas emissões mentais, que verdadeiras teias acinzentadas eram formadas em torno do leito do agonizante, o que dificultava sobremaneira o seu desenlace. Houve a necessidade da intervenção do mentor da equipe de socorro para o desligamento.

Um segundo ponto não menos importante diz respeito a melhora fictícia. A despeito da atividade microscópica estar avançada no corpo físico de Dimas, a espiritualidade maior com o intuito de tranqüilizar os familiares e facilitar o desprendimento do moribundo, realizou essa aparente melhora o que trouxe alegria aos familiares e ao médico que o assistia.

Quando a calma se restabeleceu no ambiente, eles começaram a atuar no processo de libertação.

Um terceiro ponto por nós destacado, diz respeito a rede fluídica de defesa criada pelos companheiros da equipe. Essa rede tinha por objetivo proteger o desencarnante de emissões mentais negativas, o que dificultaria sobremodo a sua transição. Mais uma vez, somos forçados a refletir sobre o poder do pensamento em nossas vidas e ações. Discipliná-lo é tarefa improrrogável para todos nós. Para atingir tal desiderato, podemos e devemos entrar em contato com as forças superiores da vida através da oração.

O processo de libertação ocorre paulatinamente o que faz meditarmos a respeito de magnas questões que muitas vezes ignoramos quando somos tomados pela morte. Como é o caso esclarecido no livro “Obreiros da Vida Eterna”, por nós destacado: “As imagens contidas nas evocações das palestras incidem sobre a mente do desencarnado, mantido em repouso depois de rápido mergulho na contemplação dos fatos alusivos à existência finda. Não somente as imagens. Por vezes, nossos amigos presentes, fecundos nas conversações sem proveito, exumem, com tamanho calor, a lembrança de certos fatos, que trazem até aqui alguns dos protagonistas já desencarnados.” (pg. 219). As nossas conversas e emanações mentais têm tal poder, que mesmo os amigos espirituais aplicando recursos terapêuticos para que o benefício do sono se faça presente no recém-desencarnado, tal momento que deveria ser de reequilíbrio, é povoado de pesadelos. Como ocorreu com Dimas.

Por fim, fizemos um esboço sobre os três pontos importantíssimos para a libertação do desencarnante:

Se analisarmos bem, não temos tido (com raras e honrosas exceções) um comportamento exemplar no que tange a esses três centros apresentados por André Luiz. O Centro Vegetativo, sede das manifestações fisiológicas, um sem-número de vezes é utilizado de maneira equivocada por todos nós. Não temos uma educação alimentar adequada, ainda nos debatemos na problemática do sexo, etc. O outro campo também importante, o Centro Emocional, sede dos sentimentos e desejos, tem sido de igual modo menosprezado por nós. Porque ainda não logramos ao equilíbrio emocional adequado, temos sentimentos inferiores, etc. Por fim, o Centro Mental, o mais relevante, constantemente é bombardeado por nossas emissões mentais negativas.

As descrições de André Luiz não devem ser refletidas apenas nos campos da fisiologia e anatomia humanas. Mas, também, depreendidas sob a ótica moral, ou seja, o que podemos fazer para tornar esses centros de força mais equilibrados e, conseqüentemente, facilitarmos a nossa desencarnação? Essa é uma das muitas reflexões que devemos passar em revista como fazia Santo Agostinho.
 

Caso Fábio


“(...)

─ Fábio permanece em excelente forma – esclareceu-nos o orientador – e não exigirá cooperação complexa. Preparou, com relação ao acontecimento, não somente a si mesmo, senão também os parentes, que, ao invés de nos preocuparem, como acontece comumente, serão úteis colaboradores de nossa tarefa.

(...)

A sós com o doente e a esposa, que tentavam conciliar o sono, encetamos o serviço de libertação.

Enquanto Silveira amparava o filho, com inexcedível carinho, Jerônimo aplicou ao enfermo passes anestesiantes. Fábio sentiu-se bafejado por deliciosas sensações de repouso. Em seguida, o Assistente deteve-se em complicada operação magnética sobre os órgãos vitais da respiração e observei a ruptura de importante vaso. O paciente tossiu e, num átimo, o sangue fluiu-lhe à boca aos borbotões.

Dona Mercedes levantou-se, assustada, mas o esposo, falando dificilmente, tranqüilizou-a:

- Pode chamar o médico... entretanto, Mercedes... não se preocupe... é justamente o fim...

Enquanto prosseguia Jerônimo separando o organismo perispiritual do corpo débil, Dona Mercedes pediu o socorro de um vizinho, que saiu, prestativo, em busca do clínico especializado.

O médico não tardou, trazido celeremente por automóvel, mas embalde aplicaram a solução de adrenalina, a sangria no braço, os sinapismos nos pés e as ventosas secas no peito. O sangue em golfadas rubras, fluía sempre, sempre...

Reparei que Jerônimo repetia o processo de libertação praticado em Dimas, mas com espantosa facilidade. Depois da ação desenvolvida sobre o plexo solar, o coração e o cérebro, desatado o nó vital, Fábio fora completamente afastado do corpo físico. Por fim, brilhava o cordão fluídico-prateado, com formosa luz. Amparado pelo genitor, o recém-liberto descansava, sonolento, sem consciência exata da situação.

Supus que o caso de Dimas se repetiria, ali, minudência por minudência; porém, uma hora depois da desencarnação, Jerônimo cortou o apêndice luminoso.

- Está completamente livre – declarou meu orientador, satisfeito.

O pai enternecido depositou sobre a fronte do filho desencarnado, em brando sono, um beijo repassado de amor e entregou-o a Jerônimo, asseverando:

- Não desejo que ele me reconheça de pronto. Não seria aproveitável levá-lo agora a recordações do passado. Encontrá-lo-ei mais tarde, quando tenha de partir da instituição socorrista para as zonas mais altas. Pode conduzi-lo sem perda de tempo. Incumbir-me-ei de velar pelo cadáver, inutilizando os derradeiros resíduos vitais contra o abuso de qualquer entidade inconsciente e perversa.

O Assistente agradeceu, emocionado, e partimos, conduzindo o sagrado depósito que nos fora confiado.

Enquanto prosseguíamos, espaço acima, contemplei, respeitoso, o primeiro anúncio da aurora e, observando Fábio adormecido, tive a impressão de que gloriosos portos do Céu se iluminavam de sol para receber aquele homem, de sublime exemplo cristão, que subia vitorioso, da Terra...” (pg. 240-254).
 

Comentários

O desencarne de Fábio é rico de beleza, por ser considerado a exemplificação do amor. Seus familiares, preparados diante da imortalidade da vida, não o prendiam com rogativas egoístas e desequilibradas. Ao contrário, colaboraram com sinceras rogativas ao Criador para que o seu momento fosse o mais tranqüilo e pacífico possível. Não fizeram de seus sentimentos grilhões, (como muitos de nós fazemos), mas energias positivas que colaboraram no processo de libertação.

Fábio soube aproveitar a indumentária carnal e o tempo disponível no labor do bem. E, por isso mesmo, teve ensejo de um desencarne feliz. Tanto foi positivo, que passada 1 hora já se encontrava liberto do corpo material e fora levado ao posto socorrista a que fazia jus. O mesmo não ocorreu com Dimas, que não tinha uma base familiar adequada que o auxiliasse no momento grave. A participação familiar no caso Fábio, além do seu mérito individual, fizeram com que o seu desencarne fosse rápido e harmônico. E esse é o fator mais relevante da nossa breve análise, a educação familiar diante da morte. Enquanto militamos no movimento espírita, devemos educar corretamente nossos familiares e a nós mesmos para que no momento oportuno saibamos utilizar os conhecimentos adquiridos na Terceira Revelação.

Outro ponto a se considerar é a atitude do genitor de Fábio que iria inutilizar “os derradeiros resíduos vitais contra o abuso de qualquer entidade inconsciente e perversa.” É uma informação que muitas vezes passa despercebida por nós durante as leituras de romances espíritas. É necessário considerar que mesmo desligado do corpo material, este ainda mantém uma quantidade de energia mais ou menos considerável. Os espíritos ignorantes e perversos podem se utilizar dessas energias vitais para fins ignóbeis e, até mesmo, vampirizar os despojos materiais. De onde se segue que devemos ter bastante cuidado durante a nossa romagem terrestre e, também, devemos ter um comportamento profundamente cristão nas cerimônias de enterro ou cremação para que essas energias que ainda permanecem no corpo, voltem para a natureza de maneira harmônica e que nenhum ser espiritual maldoso se aproprie dela.


Caso Cavalcante

“(...)

O intestino inspirava repugnância e compaixão. Qual estranho vaso destinado a fermentação, continha o ceco trilhões de bacilos de variadas espécies. Profundo desequilíbrio afetava as funções dos vasos sangüíneos e linfáticos no intestino delgado. O cólon transverso e o descendente semelhavam-se a pequenos túneis, repletos das mais diversas coletividades microbianas. As vilosidades permaneciam cheias de sangue purulento, e, de quando em quando, abriam-se veias mais frágeis, provocando abundante hemorragia. Em todo o aparelho intestinal, verificava-se o gradual desaparecimento do tônus das fibras. O pâncreas não mais tolerava qualquer trabalho, na desintegração dos alimentos, e o estômago deixava perceber avançada incapacidade. As glândulas gástricas jaziam quase inertes. Distúrbios destrutivos campeavam no fígado, onde animálculos vorazes se valiam da progressiva ausência de controle psíquico, manifestando-se ao léu, como microscópicos salteadores em sanha festiva.

O doente, por fim, já não suportava nenhuma alimentação. O estômago expulsava até a própria água simples, deixando-o exausto, em vista do tremendo esforço despendido nos reiterados acessos de vômito.

O sistema nervoso central e o abdominal, bem como os sistemas autônomos, acusavam desarmonia crescente.

Reconhecia, entretanto, ali, naquele agonizante que teimava em viver de qualquer modo no corpo físico, o gigantesco poder da mente, que, em admirável decreto da vontade, estabelecia todo o domínio possível nos órgãos e centros vitais em decadência franca.” (pg. 268-269).
 

Comentários

É belo o organismo físico do ser humano. Causa-nos espanto a harmonia existente entre os órgãos. E, ao menor desequilíbrio de um, todos os demais começam também a se desequilibrar. André Luiz elenca os diversos processos patológicos no caso Cavalcante com bastante propriedade e sabedoria que lhe são peculiares.

Atentemos, porém, ao poder mental do desencarnante. Sua força mental em manter-se vivo na matéria densa era tal, que ele mesmo dificultou o seu processo de libertação. Trazia a consciência de culpa porque sua mulher o havia abandonado. Desejava a paz interior, reconciliando-se com ela e recobrando as energias (não queria de nenhum modo morrer naquelas circunstâncias). Temia a morte!

Outra cena chocante do dramático desencarne de Cavalcante é a impaciência do padre que a muito custo ouvia seus últimos pensamentos. Seu estado orgânico já era bastante debilitado e emanava odor bem desagradável. E, a falta de caridade daquele homem que havia realizado uma promessa de servir ao próximo na condição de padre, espanta-nos. Como se não bastasse sua irritação, ele juntamente com o esculápio eram favoráveis a eutanásia para aliviar a condição do moribundo.

André Luiz diz-nos: “A cena chocava-me pelo desrespeito. Ambos os profissionais, o da Religião e o da Ciência, notavam situações meramente superficiais, incapazes de penetração nos sagrados mistérios da alma.” (pg. 217). Da parte espiritual, os benfeitores trabalhavam arduamente para trazer ao moribundo a paz e o equilíbrio necessários.

Debalde Cavalcante invocou uma “irmã de caridade” que atendia naquele hospital. Buscava no coração feminino a sensibilidade e a consolação que o padre não lhe ofereceu. Porém, a “irmã de caridade” lhe tratou com frieza e rispidez, além de passar nas narinas desinfetante para poder se aproximar do moribundo.

Muitos de nós, independentemente de que religião somos profitentes, adotamos inúmeras condutas de desrespeito e até mesmo violência para aqueles que carecem de atenção, carinho e consolo na hora extrema ou em quaisquer outras circunstâncias. Por alguns momentos somos tomados pela “amnésia da indiferença” e olvidamos que um dia enfrentaremos a hora extrema. Assim, quando o momento chega também desejaríamos que alguém estivesse ao nosso lado a nos consolar.

A força mental de Cavalcante em viver no corpo que já não correspondia bem era gigantesca, então os mentores espirituais tiveram que provocar-lhe uma hemorragia na região do intestino a fim de que ele se desvencilhasse melhor da indumentária física e, mais sensibilizado à realidade espiritual, pudesse visualizar a esposa que seria levada pela equipe para que ele recobrasse a paz interior que há muito buscava.

Como teria uma percepção espiritual melhor, infelizmente, ele estaria sujeito aos dolorosos quadros de vampirismo da enfermaria onde se encontrava. O que fez com que padecesse de dolorosos sofrimentos. Os amigos espirituais, por fim, vendo a luta intrínseca do moribundo decidiram levar-lhe a esposa já desencarnada, mas em condições espirituais lamentáveis.

Após um diálogo comovente, ela teve que ser retirada do ambiente o que fez com que Cavalcante delirasse ainda mais, causando “compaixão” no médico que desconhecia as leis do Sempiterno. E que resolveu aplicar-lhe uma injeção compassiva. Debalde os benfeitores espirituais tentaram libertá-lo rapidamente, porque a injeção fez o moribundo calar. “Inteiriçaram-se-lhe os membros, vagarosamente. Imobilizou-se a máscara facial. Fizeram-se vítreos os olhos móveis. Cavalcante, para o espectador comum estava morto. Não para nós, entretanto. A personalidade desencarnante estava presa ao corpo inerte, em plena inconsciência e incapaz de qualquer reação.” (pg. 280-281).

O personagem do nosso caso de estudo só pôde ser liberto completamente decorridas vinte horas e, ainda assim, não sabia o que se passava, achava-se aturdido e necessitava de preciosos cuidados médicos no mundo espiritual.

Devido aos seus valores morais, Cavalcante obteve auxílio dos benfeitores espirituais. Porém, o seu medo e a sua força mental contrária a morte impuseram-lhe fortes dores. Ademais, o esculápio desconhecedor das leis espirituais e pensando erroneamente que lhe daria paz, optou pela eutanásia.

Há vasto material na literatura espírita que aborda a eutanásia, não nos delongaremos aqui. Cabe salientarmos, apenas, que a eutanásia é contrária a lei divina e, por conseqüência, aos ensinamentos espíritas-cristãos.

Cessar a vida orgânica com o intuito de acabar com o sofrimento do moribundo ou diante de patologias graves é um erro gravíssimo de conseqüências inenarráveis. Somente a Deus é dado o direito de iniciar a vida, bem como o momento exato do fim da vida material. Destarte, não compete a ninguém intervir na Lei Maior do Criador, sob pena de responder nos tribunais divinos tais atitudes irrefletidas. A eutanásia não traz alívio ou supressão do sofrimento, ao contrário, traz nova e mais atrozes dores.

Caso Adelaide

“ (...)

Adelaide, porém, parecia não depender de algemas físicas. Não consegui, por minha vez, auscultar-lhe o espesso organismo, porque a nobre missionária, em virtude do avançado enfraquecimento do corpo, abandonava-o ao primeiro sinal de nossa presença, colocando-se, junto de nós, em sadia palestra.

(...)

Na antevéspera do desenlace, tive ocasião de observar a extrema simplicidade do abnegado Bezerra de Menezes, que se encontrava em visita de reconforto junto à servidora fiel.

- Não desejo dificultar o serviço de meus benfeitores – dizia ela, algo triste –, e, por isso, estimaria conservar boa forma espiritual no supremo instante do corpo.

- Ora, Adelaide – considerou o apóstolo da caridade –, morrer é muito mais fácil que nascer. Para organizar, na maioria das circunstâncias, são precisos, geralmente, infinitos cuidados; para desorganizar, contudo, basta por vezes leve empurrão. Em ocasiões como esta, a resolução é quase tudo. Ajuda a você mesma, libertando a mente dos elos que a imantam a pessoas, acontecimentos, coisas e situações da vida terrena. Não se detenha. Quando for chamada, não olhe para trás.

(...)

Não sabia que alguém pudesse efetuar semelhante tarefa, sem concurso alheio, mas o orientador veio em socorro de minha perplexidade, esclarecendo:

─ A cooperação de nosso plano é indispensável no ato conclusivo da liberação; todavia, o serviço preliminar do desenlace, no plexo solar e mesmo no coração, pode, em vários casos, ser levado a efeito pelo próprio interessado, quando este haja adquirido, durante a experiência terrestre, o preciso treinamento com a vida espiritual mais elevada. Não há, portanto, motivo para surpresa. Tudo depende de preparo adequado no campo da realização.” (pg. 296-297)
 

Comentários

Os elevados valores morais e as ações realizadas no orbe terrestre pela irmã Adelaide, tornaram-na apta a realizar o próprio desencarne, sem sofrimentos, sem dores. Suave como um pássaro rumo às amplidões do céu.

Essa é a modalidade de desencarne que almejamos, mas para lograrmos êxito faz-se mister que trabalhemos constantemente no bem para merecermos o concurso dos benfeitores amigos.

Seus amigos diversos foram reunidos no plano espiritual, no momento do sono físico, para que recebessem a confirmação de que o seu desencarne se avizinhava. Foi lhes solicitado que não dificultassem o processo de desencarnação por conta dos “fluidos gravitantes”. Todos despertaram com a sensação de tranqüilidade nos desígnios de Deus. E passaram a emitir pensamentos nobres para a gentil senhora.

Obra: Violetas na Janela – Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho – Patrícia
 

Caso Patrícia

“Por muitas vezes acordei para logo em seguida adormecer. Neste período desperta, observei o local onde estava. Era um quarto com paredes claras e uma janela fechada. O local estava na penumbra. Sentia-me extremamente bem. Ouvia a voz do meu pai, ou melhor, sentia as palavras: ‘Patrícia, filha querida, dorme tranqüila, amigos velam por você. Esteja em Paz.’ Embora estar palavras fossem ditas com muito carinho, eram ordens. Sentia-me protegida e amparada.

Estava deitada numa cama alta como as dos hospitais, branca e confortável. Acordava e dormia.

Até que despertei de fato. Sentei no leito. Virei a cabeça devagar observando o quarto e foi então que vi ao meu leito, sentado numa poltrona, um senhor. Quando o olhei, ele sorriu, agradavelmente.

Apalpei-me, ajeitando-me entre os lençóis alvos e levemente perfumados. Estava vestida com meu pijama azul de malha. Arrumei com as mãos meus cabelos.

‘Onde será que estou?’ – pensei.

Não conhecia o local e nem aquele senhor, que calmamente continuava a sorrir. Não tive medo e nem me apavorei. Fiquei calada por minutos, tentando entender. (...)

Estava calma, ter acordado num lugar desconhecido e com aquele estranho ao meu lado pareceu-me natural. (...)

Ia levantar, era domingo, inverno, final de férias. Sentei na minha cama para trocar meu pijama quente por outra roupa, quando senti uma tonteira. Minha cama estava encostada na parede e foi nela que apoiei a cabeça. Parecia que algo explodia dentro de minha cabeça. Estas sensações foram por segundos. Vi e ouvi por instantes, sem definir quem fosse, pessoas ao meu lado. (...)

Senti que seguraram minhas mãos, como também senti mãos sobre minha cabeça.

- Dorme, dorme...

Dormi realmente. As lembranças acabaram como por encanto. O fato é que estava num quarto que não era o meu, diante de Maurício. Olhei para todos os lados. Entendera, não foi preciso ele responder, Maurício somente me ajudou a lembrar. Desencarnei. Estava tão calma que estranhei. Suspirei. O melhor é assumir. Não sabia que iria desencarnar um dia? Voltei a indagar a Maurício, como se fosse um assunto banal.

- Que aconteceu? De que desencarnei?

- Uma veia rompeu no seu cérebro. Tem que haver um motivo para o corpo morrer quando é vencido o prazo de o espírito ficar encarnado. Foi por um aneurisma cerebral.

- Onde estou?

- Na Colônia São Sebastião. No Hospital. Na parte de Recuperação.

- Recupero-me de quê?

- De nada, você está ótima, aqui está somente para se adaptar. Patrícia, lembra de sua avó Amaziles? Ela está aqui e quer vê-la.

(...)

[Conversa de Maurício e Patrícia]
 

- Você desencarnou há dezesseis dias. Dorme muito porque estamos atendendo a um pedido de seu pai, que nos pediu que a adormecêssemos nestes dias.

- Por quê?

- Achamos que é melhor para você. Assim, neste período difícil que é para os encarnados a perda de um ente querido, você dormindo não sente.

- Estão sofrendo muito?

- É natural que sofram. Seu desencarne foi rápido, não esperavam, você estava tão bem. Não deve se preocupar, o tempo se encarrega de suavizar todas as dores.

- Acho que vou dormir de novo.

Acomodei-me e dormi. Meu sono era tranqüilo e gostoso. (pg.13-19)
 

Comentários

Não foi sem motivo que o nobre espírito Verdade disse-nos nas fulgurantes páginas da Codificação: “Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo.”

O espírito Patrícia trazia no âmago as qualidades morais que a caracterizavam. Desde a mais tenra idade teve contato com a Doutrina dos Imortais e, nada obstante os conhecimentos adquiridos, colocou-os em prática. Demonstrando que a teoria deve ser consubstanciada em ação no bem.

Ela contou com a dedicação de benfeitores da espiritualidade maior, devido aos nobres valores morais conquistados e ao apoio incondicional de sua família, notadamente da figura paterna que por causa da sua fé inquebrantável e suas interseções mentais positivas fizeram com que ela tivesse um bom apoio post mortem.

Outro fato não menos importante é o conhecimento da realidade espiritual, que fez com que a menina Patrícia não se assustasse diante da nova condição. O conhecimento da imortalidade dá ao ser humano cônscio dos seus deveres uma forte tranqüilidade, quando comparamos com aqueles que ignoram as questões espirituais quando estão na indumentária carnal. O ser humano hodierno não pode mais ignorar tais questões, porque não sabemos quando seremos chamados de retorno à Pátria Espiritual.

Outro dado curioso apontado por Patrícia é o período em que estava convalescente. Embora, tivesse todo o amparo dos amigos espirituais, ela ainda não dispunha de energias suficientes para levantar-se. E, quando o fez, sentiu-se tonta e a sensação desagradável no interior da cabeça, como que se algo estivesse “explodindo”. Ao que foi prontamente socorrida pelos amigos espirituais. Ainda eram resquícios da recente desencarnação, por isso ela passou consideráveis dias dormindo, assim não sentiria as rogativas dos parentes desencarnados que ainda sofriam por seu desenlace repentino, embora muito a apoiassem mentalmente.

A saudade mesmo nos mais equilibrados é revestida de um “quantum” de energia que ignoramos. E não sabemos o que esse sentimento nobre pode causar naqueles que partem. Deste modo, o comportamento da família de Patrícia foi o mais acertado: envolvê-la em preces e pensamentos dúlcidos.

Posteriormente, ela discorre em sua obra como foram seus momentos de adaptação, suas aprendizagens, os novos amigos conquistados etc.

Os desencarnes violentos
 

Caso Rosana Maria T. Lara

Extraído de “ANTE O FUTURO” – Chico Xavier e Rubens Germinlesi, IDEAL.
 

Desencarnada em acidente aviatório de grandes proporções nas imediações de Fortaleza, CE.

“Mãezinha, quanto tomamos o avião para Fortaleza efetivamente nem de leve imaginei pudéssemos ser protagonistas do acontecimento que não sei qualificar.

Compreendendo que as Leis de Deus são exatas e se cumprem com segurança; por isso, não desejo grafar uma carta alarmista, em que o pânico seja chamado a senhorear o ânimo dos que a lerem. Renato e eu trocávamos idéias pela noite adentro, enquanto o nosso Affonso e o nosso Júlio descansavam. Se estivéssemos numa paisagem de guerra, não seríamos tomados de tamanho assombro. O primeiro estampido no choque da máquina com o corpo da serra me pareceu o grito lancinante de alguém anunciando-nos a morte. Renato abraçou-se a mim evidentemente com a idéia de proteger-me contra qualquer eventualidade, no entanto, esse gesto dele perdurou por um instante só. Outros brados do avião se fizeram seguidos por uma dispersão de tudo o que éramos nós e de toda a bagagem de mão que havíamos acomodados no interior.

Tive a idéia de que a velocidade do avião era tamanha que o contato indescritível do aparelho com a dureza da terra imprimia um estranho movimento a nós todos e a tudo o que nos cercava. Explico-me assim porque a ligeireza daquele engenho enorme passou a comandar-nos, atirando-nos à distância e nada mais vi senão a queda ao longe, na qual me senti esfacelar, a princípio, para depois reconstituir-me.

Ouvia vozes de criaturas beneméritas a pedir-nos calma e fé na Divina Providência e sem que me fosse possível retirar um dedo sob o controle de minha própria vontade, fui deposta em maca tipo bangüê no interior da qual entrei num sono longo, do qual despertei num aposento-enfermaria de grandes proporções. As lágrimas haviam desaparecido de meus olhos, e por mais as procurasse para exprimir o sofrimento que me chegava à sensibilidade, após conscientizar-me, não os encontrei. Tinha a cabeça pesada e ocupada por visões estranhas e naquele mal-estar indefinível que me possuiu, seria impossível para mim coordenar idéias ou palavras com as quais pudesse me dirigir às enfermeiras que deslizavam ali em silêncio. Tive medo. Quis gemer, no entanto, a minha voz morrera na garganta.

Indagava de mim própria o que teria ocorrido, mas não dispunha de meios para qualquer manifestação. Aquelas santas mulheres que iam e vinham perceberam que o medo me ocupara todos os espaços da própria alma e aos poucos, me ensinaram de novo a balbuciar palavras.

Perguntei por meus pais, pela mãe Ivonete e pelos nossos entes amados do coração.

Eram os primeiros vocábulos que me escapavam da boca e fui informada de que voltáramos todos, os que viajávamos na máquina gigante, à Vida Espiritual. Esforcei-me. Ganhei novas energias e indaguei do Renato. Vim a saber que ele, Affonso e Júlio se encontravam em um local diferente. Sofri o que o seu maternal coração e a querida Mãe Ivonete podem imaginar até que, depois de providências sobre providências, fui transportada para perto dos amigos e do meu irmão, a fim de vê-los. A cena que se desenrolou não pode ser descrita, por falta de terminologia que nos corresponda ao espanto. A muito custo levantei-me, necessitando de alguém que me escorasse e as queridas Mãezinhas aqui presentes conseguiram imaginar o sofrimento sem limites que me tomou o coração. Em horas semelhantes apenas a confiança em Deus me renovava as energias para ouvir o que me contavam... Não procurei estender minha visita. O receio de conturbar-me me empolgava a cabeça. Impossível associar idéias e traçar novos rumos, quando estávamos abatidos, sem cousa alguma por preservar ou defender que não fosse as nossas almas transidas de dor. Um amigo nos exortou à paciência de profundidade, convidando-nos a pensar e com esse estímulo, foi possível iniciar a nossa conversa. O Affonso e o Júlio falavam em Dulce e Maria do Carmo, enquanto o Renato me tomava as mãos. Então, como se as nossas formas últimas se entrelaçassem, conseguimos chorar, qual se o pranto fosse um poder capaz de aliviar-nos os corações. Não mais nos achávamos nas cercanias da Aratanha, porque o refúgio a que fôramos conduzidos era um lugar ameno, adequado a se pensar na importância da calma após a tempestade. Saber-nos no corpo real, de que o corpo físico é apenas uma imperfeita exteriorização, espantou-nos, de vez que, em nosso entendimento, conservávamos-nos tais quais éramos. Não nos sentíamos leves porque a dor nos pesava em todo o Ser, entretanto, com os dias a tensão emocional de que nos víamos possuídos cedeu lugar a uma serenidade que atribuo à influência das preces de muitos amigos em nosso novo ambiente.”
 

Comentários

O fator surpresa é a maior dor diante das pessoas que desencarnam de modo violento. Não esperam a morte, muitas vezes considerada “prematura”. Os familiares e amigos são tomados pela revolta, quando não têm conhecimentos espirituais suficientes que lhes dêem resignação e fé no porvir. Pelas próprias características do planeta Terra e de seus habitantes ainda teremos tristes quadros como os descritos acima.

Esclarece-nos Emmanuel que “a desencarnação por acidentes, os casos fulminantes de desprendimento proporcionam sensações muito dolorosas à alma desencarnada, em vista da situação de surpresa ante os acontecimentos supremos e irremediáveis. Quase sempre, em tais circunstâncias, a criatura não se encontra devidamente preparada e o imprevisto da situação lhe traz emoções amargas e terríveis.” (questão 152- pg. 95)

Compete-nos a oração sincera e os pensamentos de resignação, força, fé e paz aos espíritos que são tirados do orbe terrestre nessas condições, porque suas dores são indescritíveis.

Devemos refletir também a respeito da nossa oração e pensamentos diários. Não era sem motivo que o Mestre afirmava: “Orai e Vigiai”. Esse ensinamento se aplica a todos os contextos de nossas vidas e é a atitude que devemos ter diuturnamente, porque não sabemos quando iremos ao mundo espiritual e nem a forma como se dará tal evento.

 

Os suicidas

Debalde os espíritos benfeitores e pesquisadores do mundo alertam-nos sobre o suicídio. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), por nós analisados de 2007, cerca de 3000 pessoas cometem suicídio por dia, o que significa que a cada 30 segundos uma pessoa atenta contra a própria vida .

A gênese de tal comportamento é multifatorial e bastante complexa, como transtornos psicológicos, depressão, álcool, drogas, contextos socioeconômicos, educacionais, antecedentes genéticos e biológicos da família, fanatismo político e/ou religioso, etc. Deste modo é fundamental atacar na prevenção do problema.

Acrescentamos ainda aos números espantosos da OMS, os suicídios inconscientes que são incontáveis e que devido a falta de conhecimento das leis divinas ceifam milhares de vidas.

Devido aos dados alarmantes foi estabelecido o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, realizado no dia 10 de setembro de cada ano. Equipes multidisciplinares do mundo inteiro, organizações de defesa da vida, movimentos políticos e religiosos divulgam mensagens de prevenção ao terrífico ato; oferecem apoio para as pessoas de “risco” e os familiares que enfrentam a lastimável perda, entre outras atividades nobres que são desenvolvidas. Existem ainda grupos de apoio pela vida, que oferecem serviços de atenção através do telefone para pessoas que se sentem sozinhas e são atormentadas pelas idéias suicidas.

O suicídio sempre foi abordado pelos grandes escritores, que tentaram tingir as páginas de suas obras com as problemáticas humanas.

Sófocles, um dos ícones da tragédia clássica, em “Antígona” conta-nos uma história eivada de suicídios.

William Shakespeare também aborda o suicídio em “Romeu e Julieta”.

O escritor alemão Goethe, por exemplo, narra-nos a história do jovem Werther, que não logrando êxito no amor com Carlota opta pelo suicídio. Conta-se que diversos jovens da Alemanha identificando-se com o arquétipo de Goethe, suicidaram-se também. O que fez com que a obra fosse proibida em algumas regiões.

Em outro clássico da literatura mundial, “Trabalhadores do Mar”, temos a figura de Gilliatt que sofrendo o tacão da desilusão de não poder se casar com a amada Déruchette opta pela morte voluntária no mar.

Em “Anna Karenina”, do famoso escritor russo Leon Tolstói, a personagem principal por uma série de fatores bem abordados pelo autor atira-se sobre os trilhos de um trem.

E tantos outros exemplos existentes na literatura mundial que caracterizaram um período histórico do pensamento humano. Não podemos recriminar esses escritores e fazermos uma leitura anacrônica de suas obras, que estavam contaminadas pelas idéias dos respectivos momentos históricos a que vieram a lume. Muitos desses escritores, no mundo espiritual, tiveram ensejo de reparar os equívocos inconscientemente cometidos como, por exemplo, León Tolstói. E agora lutam para propagar a mensagem do Evangelho do Cristo. Não nos compete o julgamento anacrônico das obras desses notáveis escritores quando encarnados.

Sob a ótica espírita, temos as seguras considerações de Emmanuel, mentor de Chico Xavier, que afirma:

“A primeira decepção que os aguarda [os suicidas] é a realidade da vida que se não extingue com as transições da morte do corpo físico, vida essa agravada por tormentos pavorosos, em virtude de sua decisão tocada de suprema rebeldia.

Suicidas há que continuam experimentando os padecimentos físicos da última hora terrestre, em seu corpo somático, indefinidamente. Anos a fio, sentem as impressões terríveis do tóxico que lhes aniquilou as energias, a perfuração do cérebro pelo corpo estranho partido da arma usada no gesto supremo, o peso das rodas pesadas sob as quais se atiraram na ânsia de desertar da vida, a passagem das águas silenciosas e tristes sobre os seus despojos, onde procuraram o olvido criminoso de suas tarefas no mundo e, comumente, a pior emoção do suicida é a de acompanhar, minuto a minuto, o processo da decomposição do corpo abandonado no seio da terra, verminado e apodrecido.

De todos os desvios da vida humana o suicídio é, talvez, o maior deles pela característica de falso heroísmo, de negação absoluta da lei do amor e de suprema rebeldia à vontade de Deus, cuja justiça nunca se fez sentir, junto dos homens, sem a luz da misericórdia.” (questão 154m pg. 97).

Todos os casos de suicídio, sem exceção, são lamentáveis, extremamente dolorosos e tristes para o espírito imortal. Não selecionamos nenhum caso da literatura para estudo de caso, por acharmos que as obras em si e os pensamentos seguros dos benfeitores espirituais já descrevem a trágica situação com bastante propriedade. Caso o (a) amigo (a) leitor (a) deseje aprofundar os conhecimentos sobre tal assunto, sugerimos a leitura da obra “Memórias de um Suicida”, de Camilo Castelo Branco, psicografada por Yvonne A. Pereira. É uma obra monumental que retrata a dolorosa vida do escritor português que deu cabo a própria existência carnal e, também, narra-nos os diversos casos de outros irmãos que como ele desafiaram as leis imutáveis do Criador.

Os numes responsáveis pela edificação do mundo estabelecem em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” que:

“A calma e a resignação hauridas da maneira de considerar a vida terrestre e da confiança no futuro dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio.” (pg. 108)

E ainda dentro dessa linha de raciocínio afirmam: “... considerável já é o número dos que têm sido, pelo Espiritismo, obstados de suicidar-se, podendo daí concluir-se que, quando todos os homens forem espíritas, deixará de haver suicídios conscientes.” (pg. 110).

E, modestamente, acrescentamos ao pensamento dos benfeitores amigos, que o Espiritismo também é um poderoso preservativo contra os suicídios inconscientes que infelizmente ainda é a causa de muitos desencarnes prematuros na Terra. Assim, mesmo diante das terríveis injunções da vida material, perseveremos e acreditemos no porvir. Não devemos cometer um ato extremo de desrespeito a Deus e aos amigos e familiares que nos querem bem e torcem pela nossa vitória. Bem como devemos envidar todas as nossas forças para prevenir que outras pessoas o cometam também.

 

Conduta perante o Desencarne
 

O espírito André Luiz teve ensejo de estabelecer algumas diretrizes seguras acerca do nosso comportamento diante da desencarnação na obra “Conduta Espírita”. Aqui, faremos alguns apontamentos, calcados no pensamento do nobre espírito.

Antes que sejamos visitados pela barca de Caronte, faz-se mister que deixemos preparadas questões a respeito de testamentos, resoluções, entre outros, que poderiam trazer-nos dissabores no além-túmulo, por causa da luta insana dos parentes por bens terrenos.

Devemos dispensar o tempo necessário para a inumação ou a cremação, porque nem todos os espíritos se desprendem prontamente do corpo e poderiam experimentar sensações desagradáveis. Deste modo, além da atenção do tempo para tal desiderato, são necessários também a prece e a emissão de bons pensamentos aos que jazem inertes diante de nossos olhos materiais. As conversas fúteis, os comentários infelizes, os tratos comerciais, entre outros, devem ser evitados diante do morto.

A prece deve vir do coração puro. Devemos nesse caso mobilizar os nobres sentimentos adormecidos em nossa alma, para que brotem e ganhem força em cada palavra pronunciada ou simplesmente pelo pensamento.

É recomendada também, por André Luiz, a dispensa de aparatos, pompas, flores, imagens etc., é mais enobrecedor realizar donativos às instituições assistenciais, sem sectarismos. A saudade deve ser transformada em prática ainda mais vigorosa no bem, porque a vida continua para aqueles que ficam na Terra e para aqueles que já são estrelas... Assim sendo, o bem comum é o elo que nos mantêm ainda mais próximos daqueles que partem na certeza de que nos reencontraremos mais ou menos dias.

Por fim, devemos ter tranqüilidade e acreditar nos Desígnios de Deus que sabe o que nos é melhor. A imortalidade do ser é uma verdade que não podemos mais refutar.

Considerações Finais
 

Alerta-nos Emmanuel que “A morte não apresenta perturbações à consciência reta e ao coração amante da verdade e do amor dos que viveram na Terra tão-somente para o cultivo da prática do bem, nas suas variadas formas e dentro das mais diversas crenças. Que o espiritista cristão não considere o seu título de aprendiz de Jesus como um simples rótulo, ponderando a exortação evangélica – ‘muito se pedirá de quem muito recebeu’, preparando-se nos conhecimentos e nas obras do bem, dentro das experiências do mundo para a sua vida futura, quando a noite do túmulo houver descerrado aos seus olhos espirituais a visão da verdade, em marcha para as realizações da vida imortal.” (questão 150 – O Consolador).

Com esse pensamento, gostaríamos de agradecer ao (a) amigo (a) leitor (a) pela paciência em ler esse breve ensaio que teve por objetivo tão-somente trazer de forma didática e clara as questões pertinentes à morte. Óbvio que não esgotamos o assunto que, pela própria natureza da temática, é amplo e complexo. Porém, acreditamos que ao menos os recursos básicos para profundas reflexões foram enfeixados.

Instamos a todos nós a praticarmos o bem constantemente, porque morreremos conforme tivermos vivido na Terra. E a vida reta no Bem é o “passaporte” para um desencarne suave e feliz. “... entendemos que as vivências das pessoas, ao longo da encarnação, determinam processos de libertação ou de encarceramento moral, fazendo-as merecedoras de experiências suaves e alentadoras ou deixando-as submetidas a injunções dolorosas. É por isso que, em cada reencarnação, o espírito traz delineado também o tipo de desencarnação ao qual se deixou atar em virtude do modo de vida adotado em seu recente ou distanciado pretérito. Pelo que cada um faz da vida terrena, durante a sua trajetória corporal, formam-se mapas de necessidades e de conquistas que se estendem para os programas desencarnatórios.” (Raul Teixeira; Camilo, pg. 84-85).

A nós, que abraçamos a Doutrina Espírita, um cuidado especial para que não tenhamos desencarnes lamentáveis devido ao abandono de compromissos assumidos na Vida Maior. Não teremos melhores condições por sermos espíritas, mas pelo o que fizermos por merecer diante dos ensinamentos inefáveis da Terceira Revelação. Os conhecimentos oriundos do Espiritismo devem ser transformados em ações no Bem individual e coletivo. De nada adianta pregarmos sobre o amor, a caridade, a paciência etc., se não envidamos esforços para adquirir tais valores morais.

É triste a condição de muitos de nós, espíritas, no mundo espiritual porque a despeito dos inúmeros conhecimentos adquiridos, protelamos as possibilidades de edificação de um mundo melhor. Que nós façamos jus aos conhecimentos recebidos e que o Autor da Vida nos abençoe sempre.


Referências Bibliográficas Consultadas e Comentadas

CARVALHO, Vera Lúcia Marinzeck de. Violetas na Janela. São Paulo: Petit, 1994.

Romance singelo e belo que se tornou best-seller no meio espírita. É a narrativa do espírito Patrícia, jovem espírita, que desencarnou aos dezenove anos. Porém, devido aos valores morais conquistados na última existência e em vidas pregressas, contou com o apoio dos espíritos amigos e da família encarnada (também espírita) que emitia nobres pensamentos a sua nova situação, o que fez com que o seu desencarne fosse um despertar tranqüilo em uma situação confortadora e melhor. Narra-nos, deste modo, seus vários aprendizados na erraticidade.
 

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, ou, a Justiça Divina segundo o Espiritismo. 45. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2000.

Obra do preclaro Codificador Allan Kardec, lançada em 1865, de leitura obrigatória para todos aqueles que almejam conhecer o Espiritismo. Trata-se de uma análise incomparável das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual. Versa, ainda, sobre as penalidades, recompensas futuras, sobre os anjos e demônios, entre outros. Além de exemplos de inúmeros espíritos a respeito de suas situações além-túmulo.
 

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 120. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2002.
 

Livro que traz as explicações das máximas morais do Cristo e sua concordância com o Espiritismo. Além de demonstrá-las aos diversos contextos da vida. É uma obra de cabeceira de todos nós. Representa porto-seguro para aqueles que se debatem na ignorância e carecem das palavras coerentes, lúcidas e benfeitoras do Cristo e dos bons espíritos.
 

KÜBLER-ROSS, Elisabeth. A Roda da Vida: memórias do viver e do morrer. Rio de Janeiro: GMT, 1998.

É uma obra-prima da mulher notável que se dedicou ao fenômeno da morte e o morrer. Demonstra toda a trajetória da sua vida de exemplos benéficos para todos nós e afirma de modo inequívoco que a morte não existe. É uma leitura obrigatória para todos aqueles que almejam conhecer um pouco da vida da doutora Ross, que foi e continuará a ser um exemplo para todos nós.
 

TEIXEIRA, José Raul. O sentido das desencarnações. In: Desafios da Vida Familiar. 2.ed. Niterói, Rio de Janeiro: Fráter, 2003.

Obra que traz preciosa reflexão do espírito Camilo a respeito do sentido das desencarnações. Além disso, no formato de perguntas e respostas, são abordados diversos temas relevantes para a convivência fraterna no cadinho do lar. Inúmeras questões importantes foram dirigidas ao espírito Camilo, que por meio da mediunidade de Raul Teixeira, respondeu com mestria. Vale a pena conferir essa obra.
 

VIEIRA, Waldo. Conduta Espírita. 22. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2000.

É uma obra de “cabeceira” de todos nós, espíritas. Devemos introjetar os ensinamentos ali adquiridos e colocá-los em prática. Tratam-se de diretrizes singelas e seguras a respeito do nosso comportamento em diversos contextos sociais. Dessa obra retiramos os comentários do espírito André Luiz a respeito do nosso comportamento diante do desencarne.
 

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. 52. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2002.
 

É a primeira obra de uma série fabulosa, ditada pelo espírito André Luiz. Conta-nos suas primeiras impressões no além-túmulo, traz-nos revelações importantes acerca do mundo espiritual, seus habitantes, costumes etc. É uma obra que merece ser lida e que faz jus ao seu sucesso editorial.
 

XAVIER, Francisco Cândido. Obreiros da Vida Eterna. 23. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1998.
 

Continuação da Série Nosso Lar, o espírito André Luiz, mais experimentado no mundo espiritual, estuda diversos casos de desencarnação e demonstra-nos que a morte não modifica ninguém. Fala-nos também dos obreiros do Nosso Senhor Jesus Cristo que trabalham de forma hercúlea minimizando os sofrimentos de muitos espíritos, combatendo as trevas, renovando as criaturas etc. É uma obra com a beleza que só o espírito da envergadura de André Luiz poderia transmitir.
 

XAVIER, Francisco Cândido. Há Dois Mil Anos. 47. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006.
 

Um Best-seller do movimento espírita. Tratam-se de episódios da História do Cristianismo do Século I. Ditado pelo espírito Emmanuel, que naquela ocasião revestia-se de Públius Lentulus. É uma obra de beleza incomparável e que narra-nos fatos surpreendentes e de profundos ensinamentos.
 

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. 18. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1997.

Obra que elenca uma série de temas abordados na forma de perguntas e respostas propostas ao espírito Emmanuel. Diversos assuntos das Ciências Humanas são abordados, além de temas sobre a Dor, a Evolução, as Religiões, Jesus, etc. É uma obra que, indubitavelmente, complementa a Codificação Kardequiana.

XAVIER, Francisco Cândido. Voltei. 26. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2007.

Romance ditado pelo Irmão Jacob. Conta-nos suas primeiras impressões além-túmulo. Ele, que era possuidor de vasto conhecimento espírita e possuía méritos espirituais, conta-nos suas surpresas, suas adaptações à nova condição na erraticidade, entre outros.

XAVIER, Francisco Cândido. Cartas e Crônicas. 8. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1991.
 

Preciosas e belas páginas ditadas pelo espírito Irmão X, que têm por objetivo maior a nossa edificação no mundo. Assim, encontramos ensinamentos que nos instam a transformação interior que não deve ser prorrogada por nenhum de nós. É uma obra riquíssima e cada crônica ou carta nela presente traz-nos inúmeros ensinamentos.