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Há
mais de dois mil anos... Em Esparta, uma comissão avaliava o direito
de viver das crianças, decidindo pelo seu extermínio se houvesse
alguma anormalidade. Caso houvesse, eram consideradas sub-humanas. A
idéia de normal excluía, assim, qualquer diferença que fugisse aos
padrões guerreiros do tempo. Passados tantos séculos, voltamos a
querer, por meio do aborto, exterminar o que pode vir a ser diferente?
Quando se tenta matar os anencéfalos estamos (todos sabem disso)
começando algo que pode justificar a morte para qualquer diferença
tida como "anormalidade".
E
esse extermínio se disfarça sob o nome de uma cínica liberdade da
mulher - liberdade de matar? Ou uma não menos terrível forma de manter
os ideais capitalistas de acumulação de bens nas mãos de poucos:
matando os pobres ainda no útero de suas mães. Estamos a querer fazer
justiça social matando os filhos e filhas das classes empobrecidas?
Sob a farsa que se chama "morte à anormalidade" (aos anencéfalos e
etc.) abrimos a cena da saúde pública para os interesses aborteiros da
indústria de cosméticos e outras?
Quando Luiz Bassuma e Henrique Afonso propõem no Congresso Nacional
uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), para investigar quem está
financiando a promoção do aborto no Brasil - por que calaram suas
vozes? E as nossas vozes, o que estamos a dizer sobre isso?
Evidente que se quer começar sutilmente, com a aprovação do aborto dos
anencéfalos, essa venda da vida para a indústria (que compraria seus
corpinhos vivinhos, como se faz nos países onde o aborto foi
aprovado). A morte aos bebês anencéfalos (bebês que se detecta terem
problemas ou "serem defeituosos", como se fossem peça de uma
indústria) é um modo estratégico de se entregar a vida das crianças à
morte, em nome do lucro, travestido de argumentos vários. Lembremos:
os argumentos eugênicos de Hitler poderão ser reencenados se chegarmos
a ponto de permitir que se mate desde o útero crianças que podem vir a
nascer com problemas. Dentro em pouco se diria que uma criança que
tiver tal genoma é melhor que morra & e se sabe que a vida é um bem
indisponível a essa guerra feita como se fosse razão de Estado.
Sabe-se que os seres humanos merecem viver, quaisquer que sejam suas
diferenças e que os problemas mudam com o tempo, com os cuidados
sociais e os encontros com o Outro. Os sujeitos humanos não vêm
programados pela biologia; pensar isso seria um retrocesso de séculos,
além de uma inverdade.
Uma
estudiosa da inclusão ouviu um casal dizer que tinham vergonha de sair
com seu filho diferente (psicótico) porque parecia que todos o
olhavam. Entre tantas coisas que se poderia dizer sobre estes
fantasmas dos pais, como se diz em linguagem da psicologia, a
educadora (Cristina Kupfer) colocou com clareza para o casal: - "Vocês
deveriam ficar orgulhosos! Deviam dizer aos outros pais que eles
deviam agradecer-lhes porque vocês estão se dando ao trabalho de criar
seu filho com problemas em nome de um princípio, o de que todos têm
direito à vida! Com isso, estão garantindo que esse princípio seja
lembrado e preservado, o que beneficia todos os pais de hoje e os pais
de filhos que ainda estão por vir!"
Pergunto: como se sabe o que nossos filhos farão ou se serão algo de
"diferente"? Os problemas transcendem sua aparição nos genomas; são
questões da condição humana; tarefas da evolução do espírito,
acrescentamos. A defesa da vida requer que pensemos não apenas na
nossa condição de cidadãos que têm direito à vida, mas exige que
preservemos um princípio ético e civilizatório: o direito de todos têm
de viver.
Os
argumentos eugênicos ("eliminar os que têm defeito") já nos levaram às
atrocidades do fascismo, que o mundo viveu como barbárie, em escala
mundial. Dizer não ao aborto é dizer não aos fascismos, em suas faces
encobridoras e dizer sim à vida. É tentar políticas públicas para
trabalhos com sexualidade e juventudes, planejamento familiar, além de
uma luta sempre vigilante para transformações sociais mais profundas.
Olhe:
assegurar que uma criança "com problema" viva é garantir que ninguém
terá o poder de decidir sobre a vida ou a morte de quem quer que seja;
é garantir também que o Estado, a quem cabe garantir a vida dos
cidadãos, preserve esse direito, o direito inviolável de viver, já
garantido na Constituição brasileira. É preciso não deixar que o
próprio Estado venha a burlar esse direito sobre o qual se assenta
nossa Constituição. Segundo, garantir a vida a todos e, em especial, a
uma criança com problemas é garantir que todas as demais de todas as
gerações que virão vivam também. E que os argumentos da indústria não
se sobreponham às bases éticas dos direitos humanos.
O
pensamento espírita nos coloca a necessidade de lutarmos pela defesa
da vida. Na fecundação, quando o espermatozóide encontra o óvulo, um
espírito está designado para a reencarnação, que observa fielmente a
justiça divina, nos seus imortais parâmetros. A vida no corpo de carne
é etapa fundamental para o ser espiritual que somos e obedece à Lei
sublime de causa e efeito que orienta o ser imortal a caminho para a
perfeição, cujo maior modelo é Jesus, o meigo nazareno. O corpo é
instrumento que o espírito precisa para alcançar sua sublime
aprendizagem do amor e os pais estão comprometidos com a problemática
dos espíritos que renascem em seus braços. O recém-nascido anencéfalo
tem sobrevida curta, de horas a poucos meses, mas esta experiência lhe
é necessária e, assim, toda dificuldade do Espírito merece nosso mais
profundo amor e trabalho no bem. As leis de Deus são de justiça. Deus
não joga dados, como observou Einstein. É preciso considerar o estudo
das leis espirituais que regem a vida - e o espiritismo contribui para
a construção dessa compreensão. Por que não apostar na vida e nas
possibilidades do Amor que nos aponta o Cristo planetário? Ah, o amor:
essa palavra humana e divina.
Ângela Bessa Linhares, professora da Faculdade de Educação da UFC e
membro da Federação Espírita do Estado do Ceará.
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