O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Palavra Humana e Divina

Autor:
Ângela Bessa Linhares

Fonte:
O Mensageiro

ARTIGOS

 

Há mais de dois mil anos... Em Esparta, uma comissão avaliava o direito de viver das crianças, decidindo pelo seu extermínio se houvesse alguma anormalidade. Caso houvesse, eram consideradas sub-humanas. A idéia de normal excluía, assim, qualquer diferença que fugisse aos padrões guerreiros do tempo. Passados tantos séculos, voltamos a querer, por meio do aborto, exterminar o que pode vir a ser diferente? Quando se tenta matar os anencéfalos estamos (todos sabem disso) começando algo que pode justificar a morte para qualquer diferença tida como "anormalidade".

E esse extermínio se disfarça sob o nome de uma cínica liberdade da mulher - liberdade de matar? Ou uma não menos terrível forma de manter os ideais capitalistas de acumulação de bens nas mãos de poucos: matando os pobres ainda no útero de suas mães. Estamos a querer fazer justiça social matando os filhos e filhas das classes empobrecidas? Sob a farsa que se chama "morte à anormalidade" (aos anencéfalos e etc.) abrimos a cena da saúde pública para os interesses aborteiros da indústria de cosméticos e outras?

Quando Luiz Bassuma e Henrique Afonso propõem no Congresso Nacional uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), para investigar quem está financiando a promoção do aborto no Brasil - por que calaram suas vozes? E as nossas vozes, o que estamos a dizer sobre isso?

Evidente que se quer começar sutilmente, com a aprovação do aborto dos anencéfalos, essa venda da vida para a indústria (que compraria seus corpinhos vivinhos, como se faz nos países onde o aborto foi aprovado). A morte aos bebês anencéfalos (bebês que se detecta terem problemas ou "serem defeituosos", como se fossem peça de uma indústria) é um modo estratégico de se entregar a vida das crianças à morte, em nome do lucro, travestido de argumentos vários. Lembremos: os argumentos eugênicos de Hitler poderão ser reencenados se chegarmos a ponto de permitir que se mate desde o útero crianças que podem vir a nascer com problemas. Dentro em pouco se diria que uma criança que tiver tal genoma é melhor que morra & e se sabe que a vida é um bem indisponível a essa guerra feita como se fosse razão de Estado.

Sabe-se que os seres humanos merecem viver, quaisquer que sejam suas diferenças e que os problemas mudam com o tempo, com os cuidados sociais e os encontros com o Outro. Os sujeitos humanos não vêm programados pela biologia; pensar isso seria um retrocesso de séculos, além de uma inverdade.

Uma estudiosa da inclusão ouviu um casal dizer que tinham vergonha de sair com seu filho diferente (psicótico) porque parecia que todos o olhavam. Entre tantas coisas que se poderia dizer sobre estes fantasmas dos pais, como se diz em linguagem da psicologia, a educadora (Cristina Kupfer) colocou com clareza para o casal: - "Vocês deveriam ficar orgulhosos! Deviam dizer aos outros pais que eles deviam agradecer-lhes porque vocês estão se dando ao trabalho de criar seu filho com problemas em nome de um princípio, o de que todos têm direito à vida! Com isso, estão garantindo que esse princípio seja lembrado e preservado, o que beneficia todos os pais de hoje e os pais de filhos que ainda estão por vir!"

Pergunto: como se sabe o que nossos filhos farão ou se serão algo de "diferente"? Os problemas transcendem sua aparição nos genomas; são questões da condição humana; tarefas da evolução do espírito, acrescentamos. A defesa da vida requer que pensemos não apenas na nossa condição de cidadãos que têm direito à vida, mas exige que preservemos um princípio ético e civilizatório: o direito de todos têm de viver.

Os argumentos eugênicos ("eliminar os que têm defeito") já nos levaram às atrocidades do fascismo, que o mundo viveu como barbárie, em escala mundial. Dizer não ao aborto é dizer não aos fascismos, em suas faces encobridoras e dizer sim à vida. É tentar políticas públicas para trabalhos com sexualidade e juventudes, planejamento familiar, além de uma luta sempre vigilante para transformações sociais mais profundas.

Olhe: assegurar que uma criança "com problema" viva é garantir que ninguém terá o poder de decidir sobre a vida ou a morte de quem quer que seja; é garantir também que o Estado, a quem cabe garantir a vida dos cidadãos, preserve esse direito, o direito inviolável de viver, já garantido na Constituição brasileira. É preciso não deixar que o próprio Estado venha a burlar esse direito sobre o qual se assenta nossa Constituição. Segundo, garantir a vida a todos e, em especial, a uma criança com problemas é garantir que todas as demais de todas as gerações que virão vivam também. E que os argumentos da indústria não se sobreponham às bases éticas dos direitos humanos.

O pensamento espírita nos coloca a necessidade de lutarmos pela defesa da vida. Na fecundação, quando o espermatozóide encontra o óvulo, um espírito está designado para a reencarnação, que observa fielmente a justiça divina, nos seus imortais parâmetros. A vida no corpo de carne é etapa fundamental para o ser espiritual que somos e obedece à Lei sublime de causa e efeito que orienta o ser imortal a caminho para a perfeição, cujo maior modelo é Jesus, o meigo nazareno. O corpo é instrumento que o espírito precisa para alcançar sua sublime aprendizagem do amor e os pais estão comprometidos com a problemática dos espíritos que renascem em seus braços. O recém-nascido anencéfalo tem sobrevida curta, de horas a poucos meses, mas esta experiência lhe é necessária e, assim, toda dificuldade do Espírito merece nosso mais profundo amor e trabalho no bem. As leis de Deus são de justiça. Deus não joga dados, como observou Einstein. É preciso considerar o estudo das leis espirituais que regem a vida - e o espiritismo contribui para a construção dessa compreensão. Por que não apostar na vida e nas possibilidades do Amor que nos aponta o Cristo planetário? Ah, o amor: essa palavra humana e divina.

Ângela Bessa Linhares, professora da Faculdade de Educação da UFC e membro da Federação Espírita do Estado do Ceará.