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O
aumento da criminalidade nos dias atuais, em proporções
verdadeiramente alarmantes, podemos dizer no mundo inteiro, está
provocando muito interesse pela Criminologia, que era a bem dizer uma
ciência circunscrita ao domínio dos especialistas. Principalmente
depois da II Guerra Mundial, com maior explosão da violência, ora na
forma primária de eliminação brutal, ora com requintes de perversidade
friamente calculada, a preocupação como crime tomou-se um estado de
espírito generalizado, porque todos estão inquietos, para não dizer
amedrontados. Não é um problema apenas dos grandes centros urbanos,
pois também há violência e crime nas zonas rurais e menos populosas.
Mas a
incidência é maior e mais freqüente nas cidades de população mais
concentrada, onde é mais forte a confluência de fatores
predisponentes. E nenhum sistema de vigilância e defesa da pessoa
humana consegue conter a impetuosidade do crime. Estamos diante de
verdadeiro fenômeno de patologia social, sob este ponto de vista. A
sociedade tem o seu lado bom, nas manifestações de pureza, dignidade,
amor ao próximo, mas tem as suas doenças, como nos organismos
biológicos. E a criminalidade é uma dessas doenças.
Justamente por causa das dolorosas circunstâncias em que se encontra a
sociedade, a Criminologia deixou de ser simples disciplina acadêmica,
então configurada nos círculos mais restritos de estudos, e passou a
ser, na realidade, um campo aberto a vários tipos de inquirições e
reflexões sérias.
E
quem é, no momento, que não está querendo as luzes de uma ciência que
seja capaz de oferecer soluções, ou, pelo menos, explicar as causas da
criminalidade, que é um problema absorvente? Mas a Criminologia,
justamente por ser uma ciência, e toda ciência há de passar por um
processo de evolução, não pode indicar uma receita única nem consagrar
uma fórmula geral e definitiva. Entre os especialistas, há muita
discussão, notadamente quanto às causas. Seja como for, ela está em
seu grande momento. Até mesmo no ângulo da cultura geral, que é o mais
comum, suas elucidações atualmente se fazem muito necessárias.
Aliás, como nenhuma outra ciência, a Criminologia não é em tudo por
tudo autônoma, como se fosse uma ilha sem comunicação. Tem, ela,
necessariamente, relações com diversos ramos do conhecimento
científico. Com o Direito antes de tudo, não apenas no campo penal,
mas na própria estrutura jurídica, porque estuda um fenômeno que
ameaça o equilíbrio social. Com a Endocrinologia, ao mesmo tempo,
porque o estudo das glândulas está cada vez mais associado à etiologia
criminal. O psiquismo, além do componente espiritual que existe na
personalidade humana, com sua bagagem reencarnatório, depende da
tiróide e das glândulas sexuais, como é sabido, daí a síntese de
Nicola Pende: A beleza - harmonia das formas ; A saúde - harmonia das
funções; A bondade - harmonia dos sentimentos; A sabedoria - harmonia
da inteligência.
Como
vínhamos dizendo, a Criminologia tem relações com a Psiquiatria porque
fere diretamente o aspecto patológico da criminalidade. Com a
Psicologia, porque o estudo da delinqüência tem muito o que ver com a
repercussão dos distúrbios glandulares no psiquismo e, portanto, na
definição da personalidade doentia. Com a Sociologia, porque não se
pode interpretar o fenômeno da criminalidade com abstração do meio
social e das influências concorrentes na sociedade. Com a
Antropologia, em suma, porque os padrões de cultura, com os seus
valores, atualmente estão sendo levados muito em conta nas reações
contundentes.
*
Não se pode ter uma visão única do problema criminal.
Os
próprios mestres no assunto, pelo que se lê, estão divididos quanto
aos fatores determinantes. Enquanto os autores que se fixam muito na
Endocrinologia atribuem às glândulas uma força preponderante na
delinqüência, dando a impressão de que o indivíduo levado ao crime é
um joguete de seu sistema endócrino e, portanto, irresponsável, desde
que determinada glândula não esteja funcionando bem, os partidários da
explicação social já entendem que a força determinante está nas
pressões do meio em que vive. Neste caso, é o meio social, e não os
distúrbios glandulares que deve ser responsabilizado pelo caldo
gerador da criminalidade. Outras opiniões existem encarando o problema
pelo lado patológico capitulando o criminoso entre os doentes...
Se é
verdade que nenhuma explicação daria, por si só, a chave da
interpretação certa, não deixa de ser verdade, entretanto, que em
todas elas, pelo menos em síntese, há observações válidas e, por isso
mesmo, não podem ser desprezadas na consideração global do problema.
Que o
organismo tem muita influência no comportamento, não há dúvida, pois a
experiência cotidiana está aí, apresentando casos e mais casos. A
desordem do mecanismo de certa glândula pode determinar atitudes
irrefletidas e violentas. Quando há um órgão doente, poucos,
relativamente, são os indivíduos que são capazes de controlar seus
impulsos ou medir as conseqüências de seus arrebatamentos ou de suas
depressões. Não é sem motivo que o jargão corrente fala em indivíduos
de "maus bofes"...
Dizem
os entendidos que o fígado é responsável por muitos desatinos e
destemperos de linguagem. Entendamos que ainda não chegamos a analisar
o tema sob a ática espírita.
Faremos isto mais adiante. O caso é que há muita correspondência entre
o psíquico e o orgânico. Nem é preciso recorrer a tratados de
Psicologia ou de Fisiologia para saber disto. Os casos estão na
experiência comum.
Na
avaliação, porém, dos fatores sociais, que são atualmente dos mais
sensíveis, está bem claro que a miséria (não propriamente a pobreza)
concorre intensamente para a criminalidade. E a miséria material
predispõe à miséria moral.
Uma
criatura faminta, abandonada e desesperada, revoltada contra tudo e
contra todos, não tem condições de discernir em relação a princípios
morais. Guia-se pelo instinto de sobrevivência, mas cegamente,
disposta a enfrentar todos os riscos. Têm razão, portanto, devemos
reconhecer sensatamente, os que enfocam muito a força dos fatores
sociais na criminalidade. Como, porém, o ser humano é muito complexo,
e cada criatura é um mundo próprio e desconhecido, naturalmente
nenhuma posição interpretativa deve ser tomada em sentido absoluto ou
integral, ao que nos parece.
Dentro do quadro social, por exemplo, ao lado da miséria, que aumenta
espantosamente ( ! ), há outros elementos que também devem pesar
bastante na conjuntura.
Um
deles, constantemente proclamado, é a ignorância, e, com efeito, até
certo ponto ela, a ignorância, contribui muito para o aumento de atos
violentos. Mas o crime não é fruto exclusivo da ignorância. Quantos
crimes, e crimes tenebrosos, estão ocorrendo constantemente entre
elementos de países considerados "altamente civilizados"?!...
Porventura são analfabetos todos os malfeitores que enchem as crônicas
criminais em diversos países da América e da Europa, a despeito da
cadeira-elétrica, e de outros meios repressivos de eliminação?
Evidentemente - não ! Claro que se deve combater a ignorância, já que
a instrução é uma das necessidades básicas da sociedade. Todavia, é
indispensável erradicar, antes de tudo, as causas da criminalidade.
*
É agora que entra a Doutrina Espírita.
Veja-se a questão 930 de O Livro dos Espíritos:
"Numa
sociedade organizada segundo a Lei do Cristo ninguém deve morrer de
fome".
O que
está faltando na civilização é, justamente a Mensagem do Cristo.
Ataca-se muito a ignorância, mas é necessário observar e sentir o
problema da criminalidade através de uma conjuntura, e não por um
aspecto apenas. É muito importante abrir escolas, o primeiro
empreendimento ou seja, o foco inicial de luz. Todavia, o simples
preparo intelectual sem uma boa educação, sem uma formação moral capaz
de penetrar a alma, sem amor, pode transformar-se em instrumento
perigoso, se o homem não souber fazer bom uso do que aprende. Assim, o
caso não é instruir, apenas, porque a instrução é um meio, não é o fim
em si. O caso é educar, acima de tudo. Como já se disse muitas vezes,
a instrução informa ao passo que a educação forma.
Nesta
linha de idéias, podemos fazer uma verificação muito expressiva. O
pensamento da Doutrina Espírita sobre esses problemas, que estão
atormentando a Humanidade atual, foi expresso há mais de cem anos e,
nada obstante, retrata o que está acontecendo hoje. Leia-se o
comentário de Allan Kardec à questão 685 do mesmo livro já citado,
tocando exatamente no desemprego como fator de convulsão social.
Reproduzamos o texto do Codificador:
"Dizer que o homem deve trabalhar não é dizer tudo. É preciso que
aquele que tira a subsistência de seu trabalho, encontre em que
ocupar-se. E isto nem sempre se dá. Quando se generaliza a falta de
trabalho, o caso toma as proporções de um flagelo, como a fome." E não
é a dura realidade do momento? Mas o Codificador vai mais longe quando
afirma, no mesmo trecho mais o seguinte: "A ciência econômica procura
o remédio no equilíbrio entre a produção e o consumo. Mas este
equilíbrio, admitido que se tomasse possível, terá sempre
intermitência e durante os intervalos os trabalhadores devem viver. Há
um elemento que não foi suficientemente considerado na balança e sem o
qual a ciência econômica não passa de teoria: a educação".
Educação puramente formal ou de verniz?
Obviamente que não. Por isso mesmo, Allan Kardec frisa bem o seu
pensamento: "Não a educação intelectual, mas a educação moral; não a
educação livresca, mas a que consiste na arte de formar caracteres,
que dá hábitos. " Kardec próprio define a educação como sendo o
conjunto de hábitos adquiridos.
*
Apesar da grande contribuição dos tratadistas, cada vez mais
preocupados com as causas e a expansão da criminalidade no mundo,
embora entre eles haja interpretações divergentes, não podemos perder
de vista a orientação básica do ensino espírita. Já vimos que a
Criminologia é uma ciência que se socorre ora do Direito, ora da
Psiquiatria, da Psicologia, da Sociologia e assim por diante. A
Psiquiatria, por exemplo, tem meios para revelar o quadro patológico
dos indivíduos portadores de desequilíbrios, ainda que as aparências
nem sempre denunciem anormalidades. Criminalidade e insanidade são
termos muito próximos, tanto que esta última atenua a culpabilidade,
pois o doente mental é um irresponsável.
Mas a
Psicologia, embora ocupe uma área vizinha, tem outras lentes de
análise, com as quais identifica certos delinqüentes como tipos
recalcados ou frustrados, sempre inconformados e desajustados em
qualquer grupo social.
Envenenados espiritualmente pelas frustrações ou pelo despeito, tais
elementos podem provocar conflitos de conseqüências imprevisíveis por
motivos pueris.
Há
outras visões do problema. Os chamados crimes de honra, por exemplo,
sob o pretexto de lavar a honra com sangue, embora tenham sido
incentivados muitas vezes pelo irracionalismo de uma personalidade
doentia - podem estar vinculados, ainda que remotamente, a três
fatores conjugados, a saber: preconceito, declínio social e defeito de
educação.
Muitas lutas de família, noutros tempos, tiveram como ponto de partida
exatamente o empenho da honra! Nesta categoria, é bom acentuar, já
foram catalogados muitos homens bem intelectualizados, e não apenas
analfabetos.
Logo,
o caso não é apenas de ignorância. Por causa de um preconceito
enraizado (de cor ou de raça, de posição social também), quando é
aceito e imposto pelo grupo, condiciona o indivíduo de tal maneira que
ele é capaz de odiar, brigar e até matar alguém porque a alma está
enceguecida. A noção de honra passada pelos valores do grupo social só
admite uma única opção digna: a desforra física!
Assim, se a educação é falha ou convencional, porque calcada em
discriminações preconceituosas ostensivas, temos aí um ponto de
referência muito sensível para o estudo da criminalidade, cujas
origens não podem ser procuradas apenas na Psiquiatria, nas faixas das
doenças chamadas de "personalidades mórbidas". Os valores que o
indivíduo cultiva, não raro através de uma herança social que passa de
geração a geração, têm esses valores muita influência no
comportamento. Isto porque, para não discrepar dos padrões do grupo ou
das concepções dominantes na sociedade em que vive, muita gente agride
na presunção de estar sendo fiel às idéias que lhe modelaram a
personalidade pois sob essa predominância de idéias é que se elaborou
todo o processo de sua educação. Desta maneira, conflitos fechados
podem tornar-se abertos, criando incompatibilidades irreconciliáveis.
Uma vez exacerbadas, qualquer motivo serve de estopim de uma explosão
emocional. O conflito degenera em crime.
Mais
uma vez se confirma, então, a visão realista de Allan Kardec, quando
realça a importância da educação. Mas de uma educação que seja capaz
de corrigir preconceitos e substituir velhas noções deformadas. O
conceito de honra, distorcido por uma formação profundamente
prejudicada por idéias preconceituosas, já provocou tragédias em
ambientes desde os mais obscuros até nas camadas mais esclarecidas
(pelo menos é o que se presume) da sociedade.
Quando, por outro lado, a educação mediante as informações atinentes à
vida espiritual e aos valores morais consegue modificar este conceito
e formar uma mentalidade nova, mais arejada, mais espiritualizada,
naturalmente não será difícil compreender que ninguém lava a honra com
sangue !... Embora honra seja um valor muito subjetivo, não deve ser
entendida como o melindre que se sente ferido até mesmo por uma
palavra inadvertida justamente por ser conceito alimentado de
prevenções e de desconfianças artificiais. Não. Honra deve ser
compreendida como dignidade, como nobreza espiritual, fora e muito
acima das criações convencionais. Sendo assim, não pode ser lavada com
sangue, como é previsto naqueles grupos sociais onde se admite ou
mesmo se impõe o revide brutal.
*
Se o
meio social tem realmente influência em muitos conflitos sangrentos,
há quem atribua ao meio natural, por sua vez, alguma participação no
problema criminal, encarado no âmbito regional ou por contingências
mesológicas ou ambientais de ordem local. O que se pretende por assim
dizer é que as condições físicas (a terra, a paisagem, a topografia,
etc.) de certo modo agravam as reações coletivas e individuais.
Nesta
ordem de idéias, dá-se o clima, por exemplo, um quinhão de
interferência nos ímpetos de agressividade, de impaciência, de
rebeldia. Diz-se que a temperatura muito quente pode precipitar uma
crise de conseqüências fatais, pois o calor altera o estado de
espírito e a reflexão serena, segundo a hipótese aqui referida.
Concomitantemente, a teoria do determinismo geográfico, teoria que,
aliás, chegou a formar escola e teve ilustres adeptos, condiciona
muito o caráter de certos movimentos à configuração do terreno. Se há
entrechoques surpreendentes sob o calor intenso, também há conflitos
tremendos sob estação fria. Há quem mate por causa da fome, tanto faz
na planície quanto na montanha, no inverno ou na primavera. Há quem
mate de ódio ou de medo...
E
quantos já se desviaram apenas pelo desejo de se tomarem famosos ou
aparecerem nos jornais! É o reflexo de um psiquismo primário. (...)
Justamente por ser um desvio da normalidade, conjugado a causas muito
complexas, a criminalidade é um desafio não somente ao Estado e aos
especialistas, mas a todos quantos pensam seriamente na melhoria do
homem, seja qual for o plano social ou intelectual em que se encontre.
A
ótica, porém, não pode ser a mesma em todas as circunstâncias. E antes
de terminar nossas considerações com a luz da Doutrina Espírita
clareando o nosso entendimento, de passagem lembraríamos ainda algumas
sugestões clássicas, já bastante discutidas. Senão, vejamos ainda:
Se
alguns interpretam a tendência maléfica da hereditariedade por via do
equipamento genético, outros (como César Lombroso na famosa teoria do
criminoso nato) acreditavam na conformação craniana. Neste particular,
a Doutrina Espírita é de uma clareza insofismável quando nos ensina
que os pais transmitem uma contribuição de traços e de elementos
plasmadores da organização morfológica (cor da pele, tipo de cabelos,
formato do nariz, cor dos olhos, etc.). Os pais não transmitem nunca
as qualidades espirituais nem os compromissos pretéritos.
*
A
Doutrina Espírita fornece-nos valiosos subsídios para a compreensão da
criminalidade. Vejamos que subsídios são estes: a) no cômputo geral
dos fatores desta problemática tão atual em nossos dias, o ser humano
sofre, até certo ponto, a influência do corpo e, por isso, as reações
e atitudes muitas vezes têm relações estreitas com distúrbios e
deficiências físicas; b) o ser humano absorve ao mesmo tempo
influências diversas, e não apenas glandulares, pois nele se polarizam
reflexos do meio físico, do meio social, do acervo cultural, assim
como da educação e da crença religiosa; c) sendo o ser humano, porém,
um ser reencarnado, com personalidade, com compromissos e experiências
próprias, pois os Espíritos são desiguais, é natural que cada qual
reaja de um modo e, por isso mesmo, nem todos cedem passiva e
facilmente a influências do organismo ou do ambiente.
Com
esta perspectiva, diante dos textos espíritas, não podemos atribuir
aos fatores orgânicos e ambientais uma influência determinante ou
inevitável em todos os casos. Não. Há influências, sim, pois os
elementos internos e externos interagem no envolvimento da criatura
humana. Mas a predominância desses elementos nas atitudes depende
muito da situação espiritual. E se assim não fosse, teríamos de negar,
forçosamente, o livre-arbítrio.
Se,
de fato, há criaturas que são como que jogadas pelo temperamento e
pelas injunções do meio em que vivem, como se fossem robôs, muitas
outras, contrariamente, embora tenham doenças incuráveis, ou defeitos
que não possam ser corrigidos, conseguem superar as deficiências e
dominar os nervos, como se diz na linguagem coloquial. Há o
determinismo da contenção física ou emocional, sim, porém o
livre-arbítrio também existe no fato de o paciente não ceder, não se
deixar arrebatar.
Onde
está, conseqüentemente, a causa da diferença de reações naqueles que
vivem nos mesmos meios e trazem no corpo os mesmos problemas?
Pela
lógica da reencarnação, a diferença está na desigualdade dos
Espíritos. Os Espíritos reencarnam em situações diversas: provas,
missões, expiações... É certo que o organismo exerce influência no
Espírito, mas a influência é recíproca. Quanto mais se desenvolve o
Espírito, moral e intelectualmente, menos forte será a ação da matéria
em suas inclinações. Este ponto aparece muito bem explanado em O Livro
dos Espíritos, questão 367 e seguintes. O determinismo, portanto, é
relativo, assim como o livre-arbítrio. Mas não se excluem. Demais, não
há fatalidade naquilo que diz respeito aos atos morais, como também
aprendemos em O Livros dos Espíritos na questão 861.
*
(...)
Se, realmente, os fatores orgânicos, emocionais, ambientais ou
mesológicos, onde se enquadram também os sociais, se estes fatores
estão associados a certas atitudes violentas, convém notar, por outro
lado, que a educação, a fé esclarecida, o bom exemplo, o tratamento
afetivo contornam muitos problemas e neutralizam o ódio e a revolta.
Quando a criatura humana é despertada ou encontra a sua estrada de
Damasco - modifica-se profundamente. A fera humana, dominada pelo
desespero ou pelo instinto sanguinário, pode transformar-se no homem
cordato e prestante, se for bem orientado em relação à vida espiritual
e à Justiça Divina. A Mensagem do Cristo penetra nas almas mais rudes,
como nos corações mais endurecidos. A sugestão muito insistente pode
desviar muita gente do bom caminho e abrir um abismo para os crimes;
mas também a sugestão caridosa, dirigida no sentido de fazer o Bem, é
uma força poderosa e, por isso mesmo, capaz de contrabalançar os
efeitos da sugestão ruinosa.
(...)
Os diagnósticos sociais ainda não se interessam pelo argumento
reencarnacionista, mas também não explicam satisfatoriamente as
antipatias e aversões entre irmãos, entre pais e filhos, entre
colegas, etc. Por que se repelem irmãos do mesmo sangue? Se, afinal,
não houve neste mundo, motivo para este ódio, qual a causa? Herança?
Avaria de alguma glândula? Estrutura cerebral? Não há explicação
fisiológica porque é problema inerente ao espírito. São criaturas
rivais, de outras existências, agora reencarnadas sob o mesmo teto
para o necessário reajustamento. As antipatias podem levar à luta e ao
crime, mas podem ser desfeitas pela mudança de idéias, quando cada
qual cai em si e toma a disposição de apagar a "mancha" do passado. O
progresso há de vir, mais cedo ou mais tarde...
A
supremacia do Espírito, ao estancar os assomos de agressividade, é uma
prova de que o homem não é um autômato. A lição de Hahnemann (o
fundador da Homeopatia) em comunicação dada em 1863 e constante do
livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo IX, n° l0, acerca da
cólera, vem ajustar-se inteiramente ao nosso raciocínio de que o corpo
e o Espírito se relacionam muito nas atitudes da criatura humana.
"Indubitavelmente - diz Hahnemann - temperamentos há que se prestam
mais que outros a atos violentos, como há músculos mais flexíveis, que
se prestam melhor aos atos de força. Não acrediteis, porém, que aí
reside a causa primordial da cólera. " E continua: "um Espírito
pacífico, ainda que num corpo bilioso, será sempre pacífico; um
Espírito violento, mesmo que num corpo linfático, não será brando..."
Vale a pena repetir o que este Espírito ensina na mensagem citada:
"O
corpo não dá cólera àquele que não a tem, do mesmo modo que não dá os
outros vícios. Todas as virtudes e todos os vícios são inerentes ao
Espírito. A não ser assim, onde estariam o mérito e a
responsabilidade? O homem deformado não pode tomar-se direito, porque
o Espírito nenhuma parte tem nisso. Mas pode modificar o que é do
Espírito, quando o quer com vontade firme." Se o homem não tivesse
possibilidades de se corrigir, ou de vencer a cólera, o desânimo, a
degradação moral, não haveria a lei do progresso, como arremata
Hahnemann.
É
certo que em muitos casos a obsessão incute idéias perniciosas ou
lança sementes de ódio ou de desconfiança.
Quando, porém, a vítima é bem preparada pelo esclarecimento e pela
educação espiritual, ela encontra forças, em si mesma, para reagir às
sugestões inferiores.
Convém destacar que o esforço empregado em penitenciárias e favelas,
junto a elementos considerados marginais, presta um auxílio
considerável à sociedade, exatamente porque é um trabalho de educação
e reforma interior. Muitos contraventores e criminosos foram
regenerados em prisões e até na vadiagem pela ação educativa e pela
suavidade da mensagem espírita, mensagem que reergue e reconduz à
normalidade sem imposição, sem o temor de castigos, mas pela clareza e
pela exemplificação do amor ao próximo. Muitos caíram ou se deixaram
devorar pelos vícios ou foram esbarrar nas grades da prisão justamente
porque não conheciam o Cristo. Sem qualquer preocupação de
proselitismo, a assistência espírita se reanima cada vez mais na
palavra do Cristo, principalmente aos doentes da alma.
Temos
aqui, para terminar, um dos mais edificantes exemplos da ação espírita
no campo criminal. É um documento que deve ficar na história do
Espiritismo no Brasil. O jornal A Flama Espírita, de Uberaba (Minas),
publicou uma carta do Dr. Wandyr de Assis, Promotor da Justiça da
cidade de Prata, também Minas (jornal de 21/10/ 8 li na qual a
autoridade judiciária agradece a eficiente e zelosa colaboração dos
espíritos junto aos detentos na Cadeia Pública.
É uma
carta escrita em termos tais, que nos comovem pela beleza do
depoimento e pela relevância dos fatos relatados. A carta do Promotor
é dirigida ao Grupo Espírita "Corações Unidos", daquela cidade
mineira. Afirma ele, com toda franqueza, que já verificou resultados
surpreendentes na recuperação de presas, encaminhando-os ao bom
caminho, mediante uma pregação sistemática e profícua. A declaração,
como estamos vendo, é de uma autoridade, que reconhece os beneficias
prestados pela assistência espírita na Cadeia.
Em
expressões repassadas de nobreza espiritual, apesar de sua condição de
católico romano praticante, o Promotor Wandyr de Assis realça o
trabalho espírita e toma como exemplo de regeneração o seguinte caso:
Será ainda lembrado o nosso amigo Célio de Oliveira, homem devotado ao
crime, incorrigível cidadão, que sempre se colocou diante dos guardas
e pedia para ser surrado, pois era indomável. Indiciado em mais de cem
delitos, entretanto, após algumas leituras do Evangelho e ouvir os
elucidários deste maravilhoso Grupo, deixara para trás o
embrutecimento de suas atitudes, para encontrar a paz o carinho e a
vida social.
Deixou a cadeia para se tornar realmente um homem de bem.
Sente-se muita inspiração cristã nas palavras do Dr. Wandyr de Assis.
Grande trabalho, portanto, realizado com zelo, dedicação e
perseverança. Mais uma prova de que a Doutrina Espírita educa e
reforma.
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