O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
O Julgamento de Sócrates

Autor:
Marco Antônio Fonseca Conceição
Piracicaba - SP
(colaborador)

Fonte:
O Mensageiro

ARTIGOS

       

PREFÁCIO

Sócrates foi, provavelmente, o maior filósofo de todos os tempos. Ele viveu em Atenas, na Grécia, por volta de 500 anos antes do nascimento de Jesus. Durante os seus 70 anos de vida ele procurou ensinar, através de diálogos, as verdades espirituais eternas, questionando sempre as falsas tradições da cultura helenística.

Acabou despertando ódios e inimizades entre os detentores do poder e da cultura, que procuraram incriminá-lo com falsas acusações. Essas acusações acabaram levando-o a um julgamento que culminou com a sua condenação e morte através da ingestão de cicuta (um poderosos veneno).

O texto a seguir foi condensado da "Apologia de Sócrates", escrita por Platão, que foi o seu principal discípulo. Ele descreve o julgamento de Sócrates, apresentando a sua defesa e suas considerações finais, após a sentença de condenação.

Três foram os seus acusadores, que atuaram como advogados de acusação ou promotores.O júri que o condenou era composto de 501 cidadãos de Atenas, sendo que 281 votaram contra ele e 220 a favor. Se 31 votos fossem transferidos da acusação para a defesa, ele teria sido absolvido (ficando o placar 251 a 250).

O destino dos três acusadores de Sócrates foi trágico: Meleto foi condenado à morte; Anito foi exilado e apedrejado pelo povo; Lícon suicidou-se. Posteriormente foi erigida uma estátua em homenagem a Sócrates em uma praça de Atenas.

Allan Kardec considera Sócrates e Platão como precursores do Cristianismo e do próprio Espiritismo, como pode se ver na Introdução de "O Evangelho Segundo o Espiritismo". Emmanuel, no livro "A Caminho da Luz", revela que "a condenação de Sócrates foi uma dessas causas transcendentes de dolorosas e amargas provações coletivas, para todos os espíritos que participaram dela...".

A DEFESA

Não sei, cidadãos de Atenas, o que vocês sentiram pela influência de meus acusadores; o fato de eles discursarem com tanta convicção me fez esquecer de mim mesmo. Posso garantir, porém, que nada disseram de verdadeiro.

Recapitulemos, de início, qual é a acusação, de onde nasce a calúnia contra mim. É necessário ler a ata de acusação jurada por estes acusadores:

"Sócrates comete crime, investigando indiscretamente as coisas terrenas e as celestes, e tornando mais forte a razão mais débil, e ensinando aos outros."

Na realidade, nada disso tem fundamento e, se têm ouvido de alguém que eu instruo e ganho dinheiro com isso, também não é verdade.

Algum de nós, aqui, poderia talvez se opor a mim: "Enfim, Sócrates, o que é que você faz? De onde nasceram essas calúnias? Se não tivesse se ocupado em coisa alguma diferente das coisas que fazem os outros, na verdade não teria ganho tal fama e não teriam nascido acusações. Diga, pois, o que é isso, a fim de que não julguem a esmo".

Acontece que Xenofonte, uma vez indo a Delfos, ousou interrogar o oráculo e perguntou-lhe se havia alguém mais sábio do que eu. Ora, a pitonisa respondeu que não havia ninguém mais sábio.

Ao ouvir isso, pensei: "O que queria dizer o deus e qual é o sentido das suas palavras? Sei bem que não sou sábio, nem muito nem pouco. O que quer dizer, pois, afirmando que eu sou o mais sábio?" E fiquei por muito tempo sem saber o verdadeiro sentido de suas palavras. Depois de grande fadiga, resolvi investigar a significação do seguinte modo.

Fui a um daqueles detentores da sabedoria, com a intenção de refutar, por meio deles, o oráculo e, com tais provas, opor-lhe a minha resposta: "Este é mais sábio que eu, enquanto você disse que sou eu o mais sábio".

Examinando esse homem - não importa o nome, mas era um dos políticos - e falando com ele, parecia ser um verdadeiro sábio para muitos e, principalmente, para si mesmo. Procurei demonstrar-lhe que ele parecia sábio sem o ser. Daí veio o ódio dele e de muitos dos presentes aqui contra mim.

Então, pus-me a considerar comigo mesmo, que eu sou mais sábio do que esse homem, pois que, nenhum de nós sabe nada de belo e de bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada, também estou certo de não saber. Parece, pois, que eu seja mais sábio do que ele nisso: não acredito saber aquilo que não sei.

Em seguida, fui a outro daqueles que possuem ainda mais sabedoria que esse, e me pareceu que todos são a mesma coisa. Daí veio o ódio também a este e a muitos outros.

Depois prossegui sem mais me deter, embora vendo, amargurado e temeroso, que estava sendo odiado; mas, também, me parecia dever dar mais valor à resposta do deus. Para procurar, pois, o que queria dizer o oráculo, eu devia ir a todos aqueles que diziam saber qualquer coisa.

E então me aconteceu o seguinte: procurando segundo o critério do deus, pareceu-me que os que tinham mais reputação eram os mais desprovidos e que, os considerados ineptos, eram homens mais capazes quanto à sabedoria.

Finalmente, também procurei os artífices e devo dizer que os achei instruídos em muitas e belas coisas. Eles, realmente, eram dotados de conhecimentos que eu não tinha e eram muito mais sábios do que eu. Contudo os bons artífices tinham o mesmo defeito dos poetas: pelo fato de exercitar bem a própria arte, cada um pretendia ser sapientíssimo, também, nas outras coisas de maior importância e esse erro obscurecia o seu saber.

Dessa investigação, cidadão atenienses, me vieram muitas inimizades e, tão odiosas e graves, que delas se originaram outras tantas calúnias como também me foi atribuída a qualidade de sábio. E totalmente empenhado em tal investigação, não tenho tido tempo de fazer nada de apreciável, nem nos negócios públicos, nem nos privados, mas encontro-me em extrema pobreza, por causa do serviço do deus.

Além disso, os jovens com maior disponibilidade de tempo, seguindo-me espontaneamente, gostam de ouvir-me examinar os homens. Eles, muitas vezes, me imitam por sua própria conta e decidem também examinar os outros, encontrando grande quantidade daqueles que acreditam saber alguma coisa mas pouco ou nada sabem. Daí, aqueles que são examinados encolerizam-se e, por essa razão, dizem que há um tal Sócrates que corrompe os jovens.

Saibam, quantos o queiram, que por esse motivo sou odiado; e que digo a verdade, e que tal é a calúnia contra mim e tais são as causas.

Cidadãos de Atenas, creio que vocês não têm nenhum bem maior do que este meu serviço do deus. Por toda a parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos, a não se preocuparem exclusivamente com o corpo e com as riquezas, como devem se preocupar com a alma, para que ela seja o melhor possível.

Se eu corrompo os jovens com esses discursos, tais raciocínios são prejudiciais; mas se alguém disser que digo outras coisas que não essas, não diz a verdade. Por isso lhes digo que, absolvendo-me ou não, não farei outra coisa, nem que tenha de morrer muitas vezes.

Dessa forma, parece que o deus me designou à cidade com a tarefa de despertar, persuadir e repreender cada um de vocês, por toda a parte, durante todo o dia. É possível que vocês, irritados como aqueles que são despertados quando no melhor do sono, levianamente me condenem à morte, para dormirem o resto da vida.

E assim, encarrego vocês e ao deus de julgar a mim, do modo que puder ser o melhor para mim e para vós.

A CONDENAÇÃO

A minha impassibilidade, cidadãos de Atenas, diante da minha condenação deriva, entre muitas razões, que eu contava com isso, e até me espanto do número de votos dos dois partidos. Por mim, não acreditava que a diferença fosse assim pequena.

Os meus acusadores pedem, para mim, a pena de morte. Que contraproposta eu lhes farei? Que pena ou multa mereço eu? O que convém a um pobre benemérito que tem necessidade de estar em paz para lhes poder exortar ao caminho reto?

Para um homem assim conviria que fosse nutrido e mantido pelo Estado. Ele merece-o bem mais que um de vocês que tenha sido vencedor nos Jogos Olímpicos. Este vencedor faz com que se sintam felizes; eu, porém, faço com que vocês sejam felizes!

Por não terem esperado um pouco mais, vocês irão obter a fama e a acusação de haverem sido os assassinos de um sábio, de Sócrates. Porque, quem quiser lhes desaprovar me chamará de sábio, embora eu não o seja. Pois bem, se tivessem esperado um pouco de tempo, a coisa seria resolvida por si mesma: vejam vocês a minha idade.

Talvez, senhores, o difícil não seja fugir da morte. Bem mais difícil é fugir da maldade, que corre mais veloz que a morte. Eu, preguiçoso e velho, fui apanhado pela mais lenta: a morte. Já os meus acusadores, válidos e leves, foram apanhados pela mais veloz: a maldade.

Assim, eu me vejo condenado à morte por vocês; vocês, condenados de verdade, criminosos de improbidade e de injustiça. Eu estou dentro da minha pena, vocês dentro da sua.

E estamos longe de julgar retamente, quando pensamos que a morte é um mal. Porque morrer é uma destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja; ou, como se costuma dizer, a morte é uma mudança de existência e uma migração deste lugar para outro.

Se, de fato, não há sensação alguma, mas é como um sono, a morte é como um presente, porquanto todo o tempo se resume em uma única noite.

Se a morte, porém, é como uma passagem deste para outro lugar e se lá se encontram todos os mortos, qual o bem que poderia existir maior do que este? Quero morrer muitas vezes, se isso é verdade, pois para mim a conversação acolá seria maravilhosa. Isso constituiria indescritível felicidade.

Vocês devem considerar esta única verdade: que não é possível haver algum mal para um homem de bem, nem durante sua vida, nem depois de morto. Por isso mesmo, o que aconteceu hoje a mim não é devido ao acaso, mas é a prova de que para mim era melhor morrer agora e ser libertado das coisas deste mundo. Por essa razão não estou zangado com aqueles que votaram contra mim, nem contra meus acusadores.

Mas já é hora de irmos: eu para a morte, e vocês para viverem. Mas quem vai para melhor sorte é segredo, exceto para Deus.