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PREFÁCIO
Sócrates foi,
provavelmente, o maior filósofo de todos os tempos. Ele viveu em
Atenas, na Grécia, por volta de 500 anos antes do nascimento de
Jesus. Durante os seus 70 anos de vida ele procurou ensinar, através
de diálogos, as verdades espirituais eternas, questionando sempre as
falsas tradições da cultura helenística.
Acabou despertando ódios
e inimizades entre os detentores do poder e da cultura, que procuraram
incriminá-lo com falsas acusações. Essas acusações acabaram
levando-o a um julgamento que culminou com a sua condenação e morte
através da ingestão de cicuta (um poderosos veneno).
O texto a seguir foi
condensado da "Apologia de Sócrates", escrita por Platão,
que foi o seu principal discípulo. Ele descreve o julgamento de Sócrates,
apresentando a sua defesa e suas considerações finais, após a
sentença de condenação.
Três foram os seus
acusadores, que atuaram como advogados de acusação ou promotores.O júri
que o condenou era composto de 501 cidadãos de Atenas, sendo que 281
votaram contra ele e 220 a favor. Se 31 votos fossem transferidos da
acusação para a defesa, ele teria sido absolvido (ficando o placar
251 a 250).
O destino dos três
acusadores de Sócrates foi trágico: Meleto foi condenado à morte;
Anito foi exilado e apedrejado pelo povo; Lícon suicidou-se.
Posteriormente foi erigida uma estátua em homenagem a Sócrates em
uma praça de Atenas.
Allan Kardec
considera Sócrates e Platão como precursores do Cristianismo e do próprio
Espiritismo, como pode se ver na Introdução de "O Evangelho
Segundo o Espiritismo". Emmanuel, no livro "A Caminho da
Luz", revela que "a condenação de Sócrates foi uma dessas
causas transcendentes de dolorosas e amargas provações coletivas,
para todos os espíritos que participaram dela...".
A DEFESA
Não sei, cidadãos
de Atenas, o que vocês sentiram pela influência de meus acusadores;
o fato de eles discursarem com tanta convicção me fez esquecer de
mim mesmo. Posso garantir, porém, que nada disseram de verdadeiro.
Recapitulemos, de início,
qual é a acusação, de onde nasce a calúnia contra mim. É necessário
ler a ata de acusação jurada por estes acusadores:
"Sócrates
comete crime, investigando indiscretamente as coisas terrenas e as
celestes, e tornando mais forte a razão mais débil, e ensinando aos
outros."
Na realidade, nada
disso tem fundamento e, se têm ouvido de alguém que eu instruo e
ganho dinheiro com isso, também não é verdade.
Algum de nós, aqui,
poderia talvez se opor a mim: "Enfim, Sócrates, o que é que você
faz? De onde nasceram essas calúnias? Se não tivesse se ocupado em
coisa alguma diferente das coisas que fazem os outros, na verdade não
teria ganho tal fama e não teriam nascido acusações. Diga, pois, o
que é isso, a fim de que não julguem a esmo".
Acontece que
Xenofonte, uma vez indo a Delfos, ousou interrogar o oráculo e
perguntou-lhe se havia alguém mais sábio do que eu. Ora, a pitonisa
respondeu que não havia ninguém mais sábio.
Ao ouvir isso,
pensei: "O que queria dizer o deus e qual é o sentido das suas
palavras? Sei bem que não sou sábio, nem muito nem pouco. O que quer
dizer, pois, afirmando que eu sou o mais sábio?" E fiquei por
muito tempo sem saber o verdadeiro sentido de suas palavras. Depois de
grande fadiga, resolvi investigar a significação do seguinte modo.
Fui a um daqueles
detentores da sabedoria, com a intenção de refutar, por meio deles,
o oráculo e, com tais provas, opor-lhe a minha resposta: "Este
é mais sábio que eu, enquanto você disse que sou eu o mais sábio".
Examinando esse homem
- não importa o nome, mas era um dos políticos - e falando com ele,
parecia ser um verdadeiro sábio para muitos e, principalmente, para
si mesmo. Procurei demonstrar-lhe que ele parecia sábio sem o ser.
Daí veio o ódio dele e de muitos dos presentes aqui contra mim.
Então, pus-me a
considerar comigo mesmo, que eu sou mais sábio do que esse homem,
pois que, nenhum de nós sabe nada de belo e de bom, mas aquele homem
acredita saber alguma coisa sem sabê-la, enquanto eu, como não sei
nada, também estou certo de não saber. Parece, pois, que eu seja
mais sábio do que ele nisso: não acredito saber aquilo que não
sei.
Em seguida, fui a
outro daqueles que possuem ainda mais sabedoria que esse, e me pareceu
que todos são a mesma coisa. Daí veio o ódio também a este e a
muitos outros.
Depois prossegui sem
mais me deter, embora vendo, amargurado e temeroso, que estava sendo
odiado; mas, também, me parecia dever dar mais valor à resposta do
deus. Para procurar, pois, o que queria dizer o oráculo, eu devia ir
a todos aqueles que diziam saber qualquer coisa.
E então me aconteceu
o seguinte: procurando segundo o critério do deus, pareceu-me que os
que tinham mais reputação eram os mais desprovidos e que, os
considerados ineptos, eram homens mais capazes quanto à sabedoria.
Finalmente, também
procurei os artífices e devo dizer que os achei instruídos em muitas
e belas coisas. Eles, realmente, eram dotados de conhecimentos que eu
não tinha e eram muito mais sábios do que eu. Contudo os bons artífices
tinham o mesmo defeito dos poetas: pelo fato de exercitar bem a própria
arte, cada um pretendia ser sapientíssimo, também, nas outras coisas
de maior importância e esse erro obscurecia o seu saber.
Dessa investigação,
cidadão atenienses, me vieram muitas inimizades e, tão odiosas e
graves, que delas se originaram outras tantas calúnias como também
me foi atribuída a qualidade de sábio. E totalmente empenhado em tal
investigação, não tenho tido tempo de fazer nada de apreciável,
nem nos negócios públicos, nem nos privados, mas encontro-me em
extrema pobreza, por causa do serviço do deus.
Além disso, os
jovens com maior disponibilidade de tempo, seguindo-me
espontaneamente, gostam de ouvir-me examinar os homens. Eles, muitas
vezes, me imitam por sua própria conta e decidem também examinar os
outros, encontrando grande quantidade daqueles que acreditam saber
alguma coisa mas pouco ou nada sabem. Daí, aqueles que são
examinados encolerizam-se e, por essa razão, dizem que há um tal Sócrates
que corrompe os jovens.
Saibam, quantos o
queiram, que por esse motivo sou odiado; e que digo a verdade, e que
tal é a calúnia contra mim e tais são as causas.
Cidadãos de Atenas,
creio que vocês não têm nenhum bem maior do que este meu serviço
do deus. Por toda a parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos,
a não se preocuparem exclusivamente com o corpo e com as riquezas,
como devem se preocupar com a alma, para que ela seja o melhor possível.
Se eu corrompo os
jovens com esses discursos, tais raciocínios são prejudiciais; mas
se alguém disser que digo outras coisas que não essas, não diz a
verdade. Por isso lhes digo que, absolvendo-me ou não, não farei
outra coisa, nem que tenha de morrer muitas vezes.
Dessa forma, parece
que o deus me designou à cidade com a tarefa de despertar, persuadir
e repreender cada um de vocês, por toda a parte, durante todo o dia.
É possível que vocês, irritados como aqueles que são despertados
quando no melhor do sono, levianamente me condenem à morte, para
dormirem o resto da vida.
E assim, encarrego
vocês e ao deus de julgar a mim, do modo que puder ser o melhor para
mim e para vós.
A CONDENAÇÃO
A minha
impassibilidade, cidadãos de Atenas, diante da minha condenação
deriva, entre muitas razões, que eu contava com isso, e até me
espanto do número de votos dos dois partidos. Por mim, não
acreditava que a diferença fosse assim pequena.
Os meus acusadores
pedem, para mim, a pena de morte. Que contraproposta eu lhes farei?
Que pena ou multa mereço eu? O que convém a um pobre benemérito que
tem necessidade de estar em paz para lhes poder exortar ao caminho
reto?
Para um homem assim
conviria que fosse nutrido e mantido pelo Estado. Ele merece-o bem
mais que um de vocês que tenha sido vencedor nos Jogos Olímpicos.
Este vencedor faz com que se sintam felizes; eu, porém, faço
com que vocês sejam felizes!
Por não terem
esperado um pouco mais, vocês irão obter a fama e a acusação de
haverem sido os assassinos de um sábio, de Sócrates. Porque, quem
quiser lhes desaprovar me chamará de sábio, embora eu não o seja.
Pois bem, se tivessem esperado um pouco de tempo, a coisa seria
resolvida por si mesma: vejam vocês a minha idade.
Talvez, senhores, o
difícil não seja fugir da morte. Bem mais difícil é fugir da
maldade, que corre mais veloz que a morte. Eu, preguiçoso e velho,
fui apanhado pela mais lenta: a morte. Já os meus acusadores, válidos
e leves, foram apanhados pela mais veloz: a maldade.
Assim, eu me vejo
condenado à morte por vocês; vocês, condenados de verdade,
criminosos de improbidade e de injustiça. Eu estou dentro da minha
pena, vocês dentro da sua.
E estamos longe de
julgar retamente, quando pensamos que a morte é um mal. Porque morrer
é uma destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma
existência, nenhuma consciência do que quer que seja; ou, como se
costuma dizer, a morte é uma mudança de existência e uma migração
deste lugar para outro.
Se, de fato, não há
sensação alguma, mas é como um sono, a morte é como um presente,
porquanto todo o tempo se resume em uma única noite.
Se a morte, porém,
é como uma passagem deste para outro lugar e se lá se encontram
todos os mortos, qual o bem que poderia existir maior do que este?
Quero morrer muitas vezes, se isso é verdade, pois para mim a
conversação acolá seria maravilhosa. Isso constituiria indescritível
felicidade.
Vocês devem
considerar esta única verdade: que não é possível haver algum mal
para um homem de bem, nem durante sua vida, nem depois de morto. Por
isso mesmo, o que aconteceu hoje a mim não é devido ao acaso, mas é
a prova de que para mim era melhor morrer agora e ser libertado das
coisas deste mundo. Por essa razão não estou zangado com aqueles que
votaram contra mim, nem contra meus acusadores.
Mas
já é hora de irmos: eu para a morte, e vocês para viverem. Mas quem
vai para melhor sorte é segredo, exceto para Deus.
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