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Herculano Pires, um
dos mais renomados espíritas do nosso tempo, lutou a vida toda para
fazer entender que a Doutrina Espírita chegou para se integrar à
cultura do mundo e contribuir para a sua renovação. Diz ele: "A
nossa doutrina não é uma realidade, entranhada nas estruturas
atuais. É um arquétipo carregado de futuro, um vir-a-ser que se
projeta precisamente no que ainda não é, na rota das aspirações em
demanda. Confundi-la com as estruturas peremptas deste mundo de
transição e querer sujeitá-las às normas e modelos do que já foi
é tentar prendê-la no círculo vicioso dos abortos culturais".
Há cento e quarenta
e um anos, ouvimos os grandes estudiosos do Espiritismo falando sobre
a importância da cultura espírita e seu sopro renovador. Aqueles que
mais compreenderam essa realidade se tornaram porta voz do pensamento
de Kardec, oferecendo para as novas gerações a oportunidade de
raciocinarem em termos amplos, macros. O tempo passa e vai colocando
sobre esses pensadores um véu, tornando-os míticos para uns e
totalmente desconhecidos para outros. Por isso, é preciso trazê-los
de volta ao cenário humano em que viveram, no esforço de não deixar
que morram definitivamente. Isso seria de um prejuízo incalculável.
Tanto na Europa
quanto no Brasil, o Espiritismo viveu suas épocas específicas, que
marcaram a presença de inteligências exponenciais ligadas ao
pensamento doutrinário, seja trabalhando no sentido de sua
comprovação, seja divulgando-a nos meios intelectuais ou
interpretando-o para as massas.
Tivemos aqui os
nossos desbravadores, como Antonio Gonçalves da Silva
"Batuíra" e Cairbar Schutel, ambos no Estado de São Paulo,
e seus correspondentes em outras regiões do País. Foram eles
sucedidos por pensadores de grande capacidade, destacando-se Deolindo
Amorim, Antonio Imbassahy e Herculano Pires, para não estender muito
a lista.
A fase atual mostra a
ausência dessas grandes inteligências e uma das formas de suprir
esse prejuízo é o esforço de estudo, pesquisa e atividades
coletivas, com vistas a difundir a doutrina buscando cada vez mais
atingir as massas e tendo por base e orientação o manancial
interpretativo deixado por essas inteligências. Não podemos
prescindir delas! No caso específico de Herculano Pires, que Chico
Xavier considerou o homem que melhor compreendeu Kardec, encontramos
um pensamento que procura observar a Doutrina Espírita do ponto de
vista macro e que nos retira da solidão do acanhado espaço
provinciano mental para nos remeter às alturas.
Com ele conseguimos
compreender o Espiritismo em cada detalhe, sem, contudo, perder de
vista a sua totalidade. É dessa forma que podemos verificar que o
apego aos detalhes e a discussão das partes sem consideração com o
todo provoca lamentável perda de tempo, demonstrando, por outro lado,
uma grave incompreensão cultural do Espiritismo. O vir-a-ser de
Herculano é claro: a doutrina nascente ainda busca o seu espaço
devido no plano cultural. Não pode, entretanto, ser ela confundida
com as estruturas atuais, as quais veio renovar. O seu primeiro passo
para o conquista do lugar é dado nas instituições espíritas,
centros e associações. Ela aí se funda e cria a sua realidade,
estabelecendo uma nova linguagem e uma nova forma de comunicação
entre os seres. Os obstáculos que lhe são impostos aí, resultam da
luta cultural estabelecida pelos interesses humanos, especialmente por
parte daqueles que, não tendo alcançado uma condição de
entendimento global do Espiritismo, deixam vazar para o ambiente
normas e modelos baseados nessa cultura anterior. Antes, seria preciso
criar as formas de implantação da doutrina tendo por base ela
própria.
Isso, porém,
no lugar de invalidar totalmente a realidade do Espiritismo, mais a
comprova. Vista em sua globalidade, a doutrina tende a levar as
criaturas a superar as preocupações exageradas com as partes, como
por exemplo se perderam em discussões estéreis sobre ser ou não o
Espiritismo uma Religião, ou então como aqueles que pretendem
conferir à filosofia, à ciência ou à parte moral uma importância
maior que os outros aspectos.
O Espiritismo como
ingrediente cultural renovador leva as criaturas a entenderem o mundo,
sua realidade ampla visível e invisível, as interferências que
estes dois planos exercem um sobre o outro, as intercorrências
naturais deles e suas conseqüências no processo evolutivo individual
e coletivo. Tudo isto, independe dos gostos particulares sobre
aspectos doutrinários ou sobre instituições, porque está acima das
partes e não dispensa nenhuma delas. Esta é uma visão global que
conduz o ser a dar importância igual aos diversos princípios
doutrinários, sobrepondo o geral ao particular. O crescente interesse
pela espiritualidade, que se nota indiscutivelmente na sociedade e
pode ser visto em movimentos diversos, que procuram levar as questões
do Espírito ao estudo e análise em empresas e instituições outras
onde essas coisas até então não eram cogitadas, mostra bem a
assertativa de Herculano sobre a "rota das aspirações em
demanda".
Enquanto o
Espiritismo não participa aí, deixa o espaço para ocupação das
velhas teorias religiosas. Quando ele aí penetrar, resolverá todas
as dúvidas de maneira objetiva e proporcionará o avanço da
atividade profissional. Mas, não se pode desejar fazê-lo penetrar
nesses redutos animado do sentido místico e defasado oriundo da
cultura envelhecida, como o desejam alguns. Para participar neste
campo, como em tantos outros, é preciso que seja levado como um
ingrediente cultural capaz de acrescer novos valores e substituir
antigos valores.
Este mesmo trabalho
pode e deve ser feito nos meios espíritas mais retrógrados. É,
portanto, também por isso que precisamos de pensadores como Herculano
Pires, que conseguem nos arrancar do estágio acomodado em que nos
situamos e nos faz caminhar, mesmo que pesadamente, na rota da razão
assentada por Kardec. Com esses pensadores nos enriquecemos; sem eles,
permanecemos um pouco mais pobres.
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