O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
O Poeta de Nazaré

Autor:
Luiz Gonzaga Pinheiro

Fonte:
Livro: 20 Temas Espíritas Empolgantes

ARTIGOS

         

"Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra."

Jesus

 

Que me importa saber se o poeta nasceu em Belém? Não são todos os lugares santificados? Que alteração traz para o poema do monte, se ele foi recitado na planície ou no planalto? Ficaria o poeta menor, por não ser filho de Davi?  Teria menor valor a sua obra, se ele fosse fruto de uma concepção, ou seria isso um ato de humildade que mais o engrandeceria? Na verdade, o bom fruto é invariavelmente nascido de uma árvore boa.  Interessa-nos profundamente o que o poeta disse e fez; tudo o mais é secundário, polêmica inócua.

Os que se apegam a esses detalhes, fantasiando ou divinizando a figura do poeta que quis ser o filho do homem, desviam-se da verdadeira substância da boa nova, que são seus ensinamentos. Para nós, o poeta não é Deus e nunca quis que assim o considerassem. Ele foi o Espírito de maior magnitude que nos visitou, em missão específica de trazer uma nova visão de Deus.  Ele é o farol da Humanidade, o modelo de perfeição a ser seguido e imitado.  Daí a ser Deus a distância é incomensurável.

“Por que me chamais de bom? Bom só Deus o é”. “Na casa do meu Pai há muitas moradas”. “Olhai as aves no céu, não semeiam nem ceifam, mas nosso Pai Celestial as alimenta”. Dezenas de vezes, em sua obra poético-moral-filosófica, Jesus denominou-se filho do homem; portanto, filho de Deus, como qualquer um de nós. Um irmão nosso mais experiente, mais sábio, de maior destaque na evolução espiritual. Alguém conhecedor profundo das leis que regem o planeta, um cientista sideral, um dirigente de mundos, um coordenador responsável pela evolução de um planeta, plasmando com seu amor a beleza que o sustentará.

Foi nessa condição de responsável pela criação e evolução da Terra, que Jesus nos visitou em corpo e Espírito, sem derrogar as leis (Não vim destruir a lei), inclusive as genéticas.  Sabia que iria sofrer, desde as intempéries e agressões do meio, até a ignorância de seus irmãos.  Mas poeta não se intimida com sofrimento, faz dele mais um motivo de inspiração para sua arte.  E veio das estrelas.  Não é onde moram os poetas?  E trouxe o poema do amor maior para a Terra.  “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão fartos”. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque obterão misericórdia”. Ah! Poeta.  Pastor divino, médico de nossas almas, companheiro de todos os instantes, a fome de justiça ainda é a maior entre nós.  Sem justiça, nunca haverá o afago da paz.  Ajuda-nos em nossa fragilidade.  Ensina-nos a nos esquecer de lembrar de você apenas no Natal, para levá-lo conosco em qualquer caminho, mesmo o da prisão ou da morte por amor à Justiça.  Poeta!  Às vezes acordamos com saudade de você.  Até parece que um dia o conhecemos. No entanto, sabemos que essa sensação é por associá-lo a um pôr-do-sol, uma flor, uma chuva... Sabemos que não voltarás fisicamente para nós em nossa casa. Como poderia vir, se estará conosco até o final dos séculos? Está conosco em Espírito e verdade e isso é tudo.  Caso você retornasse fisicamente e fosse para um templo espírita, muitos atirariam pedras, e embusteiro seria o seu nome.  Mas se optasse por ir a uma igreja, outros templos enviariam protestos, e farsante seria o seu nome.  Caso não se definisse por uma religião (rótulo) qualquer, a grande maioria o acusaria, e mistificador seria o seu nome. Você teve muitos nomes: místico, profeta, carpinteiro, filho de Deus... mas para nós, você sempre foi o poeta da vida.  “Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida”.  A sua obra é um hino à vida. Coram os anos, dobrem-se os sinos sobre infinitas sepulturas, nesse trespassar de berço e túmulo, você será sempre o nosso poeta favorito.

“Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. É ainda a Justiça, o respeito aos direitos de cada um a pedagogia cativante do amor ao próximo.  Todos temos direitos e deveres.  É preciso que os pratos da balança se equilibrem, assim como Deus faz com o Espírito do homem, obedecendo à proporção entre o fardo e o ombro. É a compaixão. “Qual de vós que tendo cem ovelhas e perdendo uma, não deixa as 99 e vai atrás da ovelha perdida?” Ninguém está órfão da lei de amor. Embora, muitas vezes, sem ser notado, o amor lhe siga os passos exercendo a função que lhe é própria: amar.

É a solidariedade. “Vinde a mim todos vós que estais aflitos e sobrecarregados e eu vos aliviarei”.  É a dor. “E deram-lhe chicotadas... e puseram-lhe espinhos”.  É o perdão.  “Pai! perdoa-lhes pois não sabem o que fazem”. É a morte. “E um soldado lhe cravou a lança”.  É a vida.  “Olha as minhas mãos! E Tomé as tocou”. Poeta! acho que nunca saberemos o que foi feito com o seu corpo.  Um corpo morto se decompõe e seus elementos voltam à Terra. É o pó que volta ao pó. Mas que nos importa isso? Você provou a existência do corpo espiritual, o mesmo com que aparecia em ambientes fechados e, às vezes, sob aparência não identificada pelos próprios discípulos. Depois você se foi de vez para a sua estrela, de onde vela por nós. E a sua cruz, antes tida apenas como instrumento de flagelação, passou a ser luminoso sinal de ascensão para mundos felizes.

Nós nos veremos um dia, poeta. Um dia em que o som seja de flauta, o branco seja neve e o amor dos homens haja destruído todos os punhais.  Um dia em que possamos ouvir de você:

“A felicidade já é desse mundo”.