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A
ação de Deus se desvela no Universo, tanto no mundo físico
quanto no mundo moral; não há um único ser que não seja
objeto de sua solicitude. Nós
a vimos manifestar-se nessa majestosa lei do progresso que
preside à evolução dos seres e das coisas, levando-os a um
estado sempre mais perfeito.
Essa ação se mostra igualmente na história dos povos.
Pode-se seguir, através dos tempos, essa marcha
grandiosa, esse impulso da humanidade para o bem, para o melhor.
Sem dúvida, há nesta marcha secular muito
desfalecimentos e recuos, muitas horas tristes e sombrias; não
se deve, porém, esquecer de que o homem é livre em suas ações.
Seus males são quase sempre a conseqüência de erros,
de seus estados de inferioridade.
Não
é uma escolha providencial que designa os homens destinados a
produzir as grandes inovações, os descobrimentos que
contribuem para o desenvolvimento da obra civilizadora?
Esses descobrimentos se encadeiam; aparecem, um depois
dos outros, de maneira metódica, regular, à medida que podem
enxertar-se com êxito aos progressos anteriores.
O
que demonstra, de modo brilhante, a intervenção de Deus na
História, é o aparecimento, no tempo próprio, nas horas
solenes, desses grandes missionários, que vêm estender a mão
aos homens e os repor na senda perdida, ensinando-lhes a lei
moral, a fraternidade, o amor de seus semelhantes, dando-lhes o
grande exemplo do sacrifício de si pela causa de todos...
.....
E ficaremos surpreendidos e maravilhados, avançando nesta senda
esquecida, de reconhecer, de descobrir que Deus não é abstração
metafísica, vago ideal perdido nas profundezas do sonho, ideal
que não existe, conforme o dizem Vacherot e Renan, senão
quando nele pensamos. Não;
Deus é um ser vivo, sensível, consciente.
Deus é uma realidade ativa.
Deus é nosso pai, nosso guia, nosso condutor, nosso
melhor amigo; por poço que lhe dirijamos nossos apelos e que
lhe abramos nosso coração, Ele nos esclarecerá com a sua luz,
nos aquecerá no seu amor, expandirá sobre nós sua alma
imensa, sua alma rica de todas as perfeições; por Ele e
n’Ele somente nos sentiremos felizes e verdadeiramente irmãos;
fora d’Ele só encontraremos obscuridade, incerteza, decepção,
dor e miséria moral.
(Leon
Denis – O Grande Enigma)
Os
grandes fatos da moderna ciência têm, por conseguinte,
transformado a idéia de Deus, apresentando-o, ao demais, sob um
aspecto bem diverso do encarado até agora.
Esse aspecto é ao mesmo tempo, mais grandioso e mais difícil
de aprender. E,
contudo, nós podemos ao menos conceber, senão esboçar, o
conjunto dessa metamorfose progressiva.
A
ignorância havia humanizado Deus e a ciência diviniza-O – se
é que o pleonasmo não escandaliza os senhores gramáticos.
Outrora, Deus foi homem; hoje, Deus é Deus.
A fé do carvoeiro ainda tão gabada, não é mais a
verdadeira fé. O
credo quia absurdum é absurdo duplicado.
O Ser Supremo, criado à imagem do homem, hoje vê
apagar-se, pouco a pouco, essa imagem, substituída por uma
realidade sem forma. Pois
a forma, a definição, o tempo, a duração, a medida, o grau
de potência ou atividade, a descrição, o conhecimento, não
mais se aplicam a Deus e mal começam a ser percebidos.
O próprio nome oculta uma idéia incompleta e preciso
fora falar de Deus sem nomeá-lo.
Outrora, Júpiter empunhava o raio, Apolo conduzia o Sol,
Netuno senhoreava os mares... Na idolatria dos budistas, Deus
ressuscitava um morto, ouvir um surdo, crescer um carvalho numa
noite, emergir d’água um afogado... Desvendava a um estático
as zonas do terceiro céu, imunizava do fogo, são e salvo, um
santo mártir, transportava um pregador, num abrir e fechar de
olhos, a cem léguas de distância, e derrogava, a cada momento,
as suas próprias, eternas leis... Ainda hoje, lá no Tibet longínquo,
adoram Maitreya. A
mão deste Deus refreia as ondas enfurecidas, abençoa um
exercito e amaldiçoa o rival; dirige as chuvas em rogativas de
procissões e, qual hábil jardineiro, rega aqui, ensombra ali,
poda acolá, ajusta, enxerta, combina, seleciona e mantém um
cadastro heráldico de nomes e datas.
A maioria dos crentes em Deus o conceituam como um
super-homem, alhures assentado acima das nossas cabeças,
presidindo os nossos atos.
Dotado de excelente vista e não inferior ouvido, mantém
as rédeas do mundo e, em caso de necessidade, chama um anjo
serviçal e o envia a consertar qualquer peça desarranjada do
seu mecanismo. A
darmos crédito às tradições do Damapadam e às inscrições
d’Aschoca, o Buda tem um filho – Bodisatva – mediador
assentado à sua direita, além de uma terceira pessoa
- Buda – Manouschi – “a realização de Deus pelo
homem”. Todos
eles vivem nas alturas do Nirvana eterno, rodeados de Espíritos,
tronos, apóstolos, mártires, pontífices, confessores, dominações,
potências, magos do culto precursor, videntes da filosofia
sakhya, que foram purificados, etc.; tudo isso eternamente
esquematizado e graduado, segundo os méritos de uma vida efêmera.
A
história da idéia de Deus mostra-nos que ela sempre foi
relativa ao grau intelectual dos povos e de seus legisladores,
correspondendo aos movimentos, aos progressos espirituais da
humanidade. Descendo
pelo curso dos tempos, assistimos sucessivamente aos
desfalecimentos e tergiversações dessa idéia imperecível,
que, às vezes fulgurantes e outras vezes eclipsada, pode,
todavia, ser identificada sempre, nos fastos da humanidade.
Notamos, então, que esta idéia relativa difere do
absoluto único, sem o qual é impossível, hoje, conceber-se a
personalidade divina.
Esse
absoluto – importa afirmá-lo nestas últimas páginas – é
o absoluto mesmo e nós não o conhecemos.
Ele não é o Varouna dos Árias, o Elim dos Egípcios, o
Tien dos Chineses, o Ahoura-Mazda dos Persas, o Brama ou Buda
dos Indianos, o Jeová dos Hebreus, o Zeus dos Gregos, o Júpiter
dos Latinos, nem o que os pintores da Idade Média entronizaram
na cúspide dos céus.
Nosso
Deus é um Deus ainda desconhecido, que o era para os Vedas e
para os sábios do Areópago de Atenas.
A noção de alguns eminentes pais da Igreja cristã e de
alguns esclarecidos teólogos modernos, aproxima-se, mais que
outras quaisquer, desse Deus desconhecido.
Mas, como compreendê-lo, quando nenhum Espírito criado,
nem mesmo os anjos (se é que existem), poderiam fazê-lo?
(Camille
Flammarion – Deus na Natureza)
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