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A Providencia
é a solicitude de Deus para com as suas criaturas. Ele está em
toda parte, tudo vê e tudo preside, mesmo às coisas mais
mínimas. É nisto que consiste a ação providencial.
Como pode Deus,
tão grande, tão poderoso, tão superior a tudo, imiscuir-se em
pormenores ínfimos, preocupar-se com os menores atos e os
menores pensamentos de cada indivíduo? Esta a interrogação
que a si mesmo dirige o incrédulo, concluindo por dizer que,
admitida a existência de Deus, só se pode admitir, quanto à
sua ação, que ela se exerça sobre as leis gerais do Universo;
que este funcione de toda a eternidade em virtude dessas leis,
às quais toda criatura se acha submetida na esfera de suas
atividades, sem que haja mister a intervenção incessante da
Providência.
Providência
é, neste mundo, tudo o que se faz dispondo as coisas de modo
que se realizem objetivos de ordem e harmonia, visando o bem e a
felicidade das criaturas, com a plena satisfação das suas
reais necessidades, sejam físicas ou espirituais.
Deus, em
relação às suas criaturas, é a própria Providência, na sua
mais alta expressão, infinitamente acima de todas as
possibilidades humanas. Deus tudo fez e tudo faz a bem de suas
criaturas. Imprimiu-lhes na consciência as leis morais de
trabalho, reprodução, conservação e destruição - esta não
abusiva, mas equilibrada - como também a lei de sociedade,
obedecendo a qual, devem organizar-se em famílias ou em mais
amplas comunidades sociais, em cujo seio vão cumprir deveres,
ligados todos àquelas leis morais e ainda às de
progresso,igualdade e liberdade, em seu justo e mais elevado
sentido e, a própria felicidade pela livre observância dessas
leis e o cumprimento dos correspondentes deveres, e ele só é
infeliz quando descumpre ou com elas se desarmoniza. Faz o homem
tudo o que quer, utilizando-se do livre- arbítrio que a Divina
Providência lhe confere para construir ativa e meritoriamente o
seu destino; mas é também plenamente responsável pelos atos
praticados, devendo arcar com todas as conseqüências deles
decorrentes, sejam estas felizes ou infelizes. Parece, então,
que se opõem à Providência Divina e o livre-arbítrio humano.
Mas não! Deus concede o livre-arbítrio ao homem para que ele
acrescente à sua felicidade o mérito da iniciativa e
espontaneidade, no trabalho, na busca do próprio bem, na livre
escolha do caminho reto para o conseguir. A tudo Deus realmente
provê, mas não quer inativa a sua criatura, recebendo
passivamente a Graça Divina, e sim que a busque por si mesma,
conquistando através de perseverantes esforços a felicidade e
o progresso. Pelo uso do seu livre-arbítrio, a alma fixa o
próprio destino, prepara as suas alegrias ou dores. Jamais,
porém, no curso de sua marcha - na provação amargurada ou no
seio da luta ardente das paixões -, lhe será negado o socorro
divino. Nunca deve esmorecer, pois, por mais indigna que se
julgue; desde que em si desperta a vontade de voltar ao bom
caminho, à estrada sagrada, a Providência dar-lhe-á auxilio e
proteção.
A Providência
é o Espírito Superior, é o Anjo velando sobre o infortúnio,
é o Consolador invisível, cujas inspirações reaquecem o
coração gelado pelo desespero, cujos fluidos vivificantes
sustentam o viajor prostrado pela fadiga; é o farol aceso no
meio da noite, para a salvação dos que erram sobre o mar
tempestuoso da vida. A Providência é, ainda, principalmente, o
Amor Divino derramando-se a flux sobre suas criaturas. Que
solicitude, que previdência nesse amor!
A alma é
criada para a felicidade, mas, para poder apreciar essa
felicidade, para conhecer-lhe o justo valor, deve conquista-la
por si própria e, para isso, precisa desenvolver as potências
encerradas em seu próprio íntimo. Sua liberdade de ação e
sua responsabilidade aumentam com a própria elevação, porque,
quanto mais se esclarece, mais pode e deve conformar o
exercício de suas forças pessoais com as leis que regem o
Universo.
A liberdade do
ser se exerce, portanto, dentro de um círculo limitado: de um
lado, pelas exigências da lei natural, que não pode sofrer
alteração alguma e mesmo nenhum desarranjo na ordem do mundo;
de outro, por seu próprio passado, cujas conseqüências lhes
refluem através dos tempos, até a completa reparação. Em
caso algum o exercício da liberdade humana pode obstar a
execução dos planos divinos: do contrário, a ordem das coisas
será a cada instante perturbada. Acima de nossas percepções
limitadas e variáveis, a ordem imutável do Universo prossegue
e mantem-se. Quase sempre julgamos um mal aquilo que para nós
é o verdadeiro bem. Se a ordem natural das coisas tivesse de
amoldar-se aos nossos desejos, que horríveis alterações daí
não resultariam?
O primeiro uso
que o homem fizesse da liberdade absoluta seria para afastar de
si as causas de sofrimento e para se assegurar, desde logo, uma
vida de felicidade. Ora, se há males que a inteligência humana
tem o dever de conjurar, de destruir - por exemplo, os que são
provenientes da condição terrestre -, outros há inerentes à
nossa natureza moral, que somente dor e compreensão podem
vencer; tais são os vícios. Nestes casos, torna-se a dor uma
escola ou, antes, um remédio indispensável: as provas sofridas
não são mais que distribuição eqüitativa da justiça
infalível.
Mas a Providência Divina, em relação à Humanidade terrestre,
ainda se manifestou quando Deus nos confiou a Jesus, como
discípulos a um Mestre e como ovelhas a um Pastor. Com que
solicitude e paciência infinita Ele nos vem, desde então,
ensinando e conduzindo, através de séculos e milênios! Não
estamos em momento algum desamparados ou à nossa sorte
abandonados.
Divina
Providência, que nos acompanhas através de vidas sucessivas,
objetivando o nosso progresso e a nossa ascensão, mesmo quando
nos fazes sofrer - pois, se por força da Lei, as
conseqüências dos nossos desmandos, pela própria Lei seremos
devolvidos à paz e à felicidade, beneficiados pela dor
redentora, enriquecidos de experiência e de sabedoria -, desde
o momento em que Te reconhecemos e nos conscientizamos da Tua
imanência numa Lei Sábia e Soberana, que estabelece tudo para
o nosso bem, louvamos Àquele de quem emanas, na imensidão da
Sua Justiça e do Seu Amor!
Allan Kardec
- "A Gênese"
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