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Antes do Espiritismo, errônea
ou muito imprecisa, vaga e confusa era a idéia que se fazia da
alma humana.
Erradamente considerada como
efeito e não causa pelos materialistas, estes viam nos fenômenos
psicológicos, dela dependentes, apenas o resultado da atividade
funcional do sistema nervoso do homem. Um decantado, mas mal
compreendido paralelismo psicofisicológico parecia justificar
esse modo de ver, porquanto, de fato, lesado o cérebro ou a
medula espinhal, ou os nervos, perturbam-se as funções
superiores da consciência, o pensamento lógico, o juízo, o
raciocínio, a memória, as sensações e percepções, bem como a
afetividade e a motilidade voluntária, instalando-se a demência,
os delírios, as alucinações, a amnésia, as incoordenações
motoras, a disatria, as paralisias, a afasia, a insensibilidade
e mesmo o coma. Foram, assim, os homens de ciência,
principalmente os fisiologistas e os psicólogos, os médicos e os
psiquiatras, levados a um erro fundamental, que foi inverterem
os papéis do corpo e da alma, dando primazia àquele que,
entretanto, é apenas instrumento desta para as suas atividades,
enquanto encarnada.
Seria a alma, então, mero
efeito do funcionamento do corpo material.
Ainda erradamente foi
confundida a alma com o princípio da vida orgânica pelos
vitalistas, os quais, dando, embora, à alma vital o caráter de
causa da vida, não explicam o atributo essencial da alma humana,
que é a consciência individual, resultante da faculdade
cognitiva ou inteligente do ser humano. A inteligência nada tem
a ver com a matéria orgânica, nem tão pouco com o princípio
vital, que ainda é substância material, embora sutil e dinâmica,
donde emana a força vital, mas não a inteligência e, muito
menos, a razão lógica, a afetividade e o senso moral, todas
faculdades superiores, inexistentes nos outros seres vivos e
organizados, vegetais ou animais, pelo menos no grau em que
esplendem no homem racional e moral.
Finalmente, foi a alma
considerada como um ser real e distinto, causa e não efeito de
toda atividade psicológica e moral do homem, pelos
espiritualistas. Estes compreendem-na como um ser imaterial,
distinto do corpo perecível e a ele sobrevivente, mas
imaginando-a ainda, erroneamente, criada com o corpo e para esse
exclusivamente, ao qual se liga durante a vida física e dele se
desprende quando morre, para seguir um destino do qual se fazem
idéias muito vagas, mais por tradição do que pelo convencimento
da razão ou qualquer espécie de comprovação.
Esta concepção se aproxima um
pouco da verdade, porque dá à alma humana a qualidade e o papel
que ela realmente tem, de causa espiritual de toda a vida
psicológica e moral do homem, concebendo-a ainda como eterna e
imortal, portanto, sobrevivente ao corpo material perecível; mas
ela peca por um erro fundamental, que só por si tem gravíssimas
e danosas conseqüências, especialmente no que tange à vida
moral: limita o horizonte da alma humana a uma só existência
corporal, condicionando o seu patrimônio intelectual e moral a
essa existência única, sem levar em conta o acervo de aquisições
do passado dessa alma, uma vez que a não considera preexistente
ao corpo atual, vinda de passar por numerosas outras existências
em outros tantos corpos, nas quais acumulou variadas
experiências pretéritas valiosíssimas. Fixa, em conseqüência, o
seu destino – feliz ou desgraçado -, neste mundo e no outro, de
uma maneira irrevogável e na mais estrita dependência de
condições que são muito pessoais para cada indivíduo,
extraordinariamente variáveis e aparentemente fora de qualquer
lei de causalidade justa e equânime.
Com Allan Kardec, porém, e a
codificação do Espiritismo – que foi a sua obra missionária –
raiou no mundo a aurora de uma Nova Era, a Era do Espírito, e a
conceituação de alma humana recebeu, então, brilhante luz. Sim,
depois da demonstração experimental da existência de um mundo
espiritual primitivo e dos Espíritos, que são os seus
habitantes, pela própria manifestação destes através dos
fenômenos mediúnicos, depois que os próprios Espíritos, pois,
vieram revelar o que eles verdadeiramente são, qual a sua
natureza, como podem manifestar-se e se comunicar com os homens,
qual é também o seu destino e como se realiza esse destino – que
é progredir através de sucessivas encarnações em mundos
materiais e em corpos carnais – depois desses admiráveis
conhecimentos, sobre o Espírito, pode ser dada a verdadeira
definição de alma humana. Essa definição, embora extremamente
simples, pode considerar-se magistral. Vamos aprecia-la nas
próprias palavras do Codificador, citando os textos
correspondentes de “O Livro dos Espíritos”:
134. Que é alma?
Um Espírito encarnado.
((...) b) – Que seria o nosso
corpo se não tivesse alma?
-
Simples massa de carne sem
inteligência, tudo o que quiserdes, exceto um
homem.
Admira-se nestes textos a
limpidez da Doutrina Espírita a respeito do que seja a alma do
homem.
A alma humana é um Espírito
encarnado.
É incrível que em definição
tão simples possa encerrar-se tão grande verdade! Com efeito, a
ela se aplica tudo o que os próprios Espíritos ensinaram a
respeito do Espírito. Pelos textos pode concluir-se que a sua
essência é puramente espiritual, pois até o perispírito, segundo
os mesmos textos, é simples invólucro semimaterial que a
acompanha nas suas diversas encarnações neste mundo, mas que ela
despirá, também, um dia quando, por ter-se mais altamente
graduado, puder encarnar em mundo mais evoluído, trocando-o por
outro menos denso, formado com fluidos ambientes desse mundo
melhor. Encarnando e reencarnando num mundo material e em
sucessivos mundos cada vez menos materiais e mais elevados, tem
a alma por objetivo supremo o seu progresso espiritual até
atingir total libertação da matéria e da necessidade da
encarnação.
É, pois, a alma humana um ser
real, individual, independente e autônomo, de natureza puramente
espiritual e que tem por destino grandioso progredir sempre,
alteando-se cada vez mais em conhecimentos e em virtudes,
realizando-o através de múltiplas existências corporais, nas
quais se depura e se eleva gradualmente até que, por fim, se
liberta totalmente da necessidade de encarnar, por ter-se
tornado Espírito puro, atingindo o topo da Escala Espírita,
passando a fruir uma felicidade incomparável e inimaginável pelo
homem terreno.
Com Allan Kardec, pois, a Nova
Era do Espírito – que ele iniciou – abriram-se as perspectivas
novas para o Espírito humano. Com a sua conceituação da alma,
tornou-se a Doutrina Espírita a doutrina da esperança, pois
descerrou aos olhos dos homens um futuro verdadeiramente feliz e
promissor.
Ele é bem o Consolador que
Jesus prometeu à Humanidade!
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