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Andrew
Jackson Davis foi um dos homens mais notáveis de que temos uma
informação exata. Nascido
em 1826 nas margens do Hudson, sua mãe era uma criatura
deseducada, com tendências visionárias aliadas à superstição
vulgar; seu pai era um borracho, trabalhador em couros.
Escreveu detalhes de sua própria infância num livro
curioso: “A Vara Mágica”, que nos revela a vida primitiva e
dura das províncias americanas na primeira metade do século
passado. O povo era
rude e deseducado, mas o seu lado espiritual era muito vivo:
parecia estar sempre pronto para alcançar algo novo.
Foi nesses distritos rurais de Nova York que, no espaço
de poucos anos, se desenvolveram o Mormonismo e o Espiritismo.
Jamais
houve um rapaz com menos disposições favoráveis do que Davis.
Era fraco de corpo e pobre de mente.
Fora dos livros da escola primária, apenas se lembrava
de um livro que sempre lia até os dezesseis anos de idade.
Entretanto, naquela criatura mirrada dormiam tais forças
espirituais, que antes dos vinte anos tinha escrito um dos
livros mais profundos e originais de filosofia jamais
produzidos. Poderia
haver mais clara prova de que nada tinha vindo dele mesmo e de
que não passava de um conduto, através do qual fluía o
conhecimento daquele vasto reservatório que dispõe de tão
incompreensíveis dispositivos?
O valor de uma Joanna D'Arc, a santidade de uma Tereza, a
sabedoria de um Jackson Davis, os poderes supranormais de um
Daniel Home, tudo vem da mesma fonte.
Nos
seus últimos anos de infância começaram a se desenvolver os
poderes psíquicos de Davis.
Como Jeanne d*Arc, ouvia vozes no campo – vozes gentis
que lha davam bons conselhos e conforto.
À clarividência seguiu-se a clariaudiência.
Por ocasião da morte de sua mãe, teve uma notável visão
de uma casa muito amável, numa região brilhante, que imaginou
ser o lugar para onde sua mãe tinha ido.
Entretanto, sua completa capacidade foi despertada por
uma circunstância: veio à sua aldeia um saltimbanco que exibia
as maravilhas do mesmerismo.
Fez uma experiência com Davis e também com muitos
outros jovens rústicos que quiseram provar aquela sensação.
Logo foi constatado que Davis possuía notável poder de
clarividência. Estes
não foram desenvolvidos pelo adepto do mesmerismo, mas por um
alfaiate local, um certo Livingstone, que parece ter sido um
pensador avançado. Ele
ficou tão intrigado com os dons do seu sensitivo que abandonou
o seu próspero negócio e devotou todo o seu tempo ao trabalho
com Davis, empregando a sua clarividência no diagnóstico de
doenças. Davis
havia desenvolvido essa força, comum entre os psiquistas, de
ver sem olhos, inclusive aquelas coisas que não podiam ser
vistas pela visão humana.
À princípio, o dom era usado como uma espécie de
divertimento, na leitura de cartas e relógios de uma assistência
rústica, tendo o sensitivo os olhos vendados.
Neste
caso, qualquer parte do corpo pode exercer a função de ver.
A razão disso talvez seja que o corpo etéreo ou
espiritual, que possui os mesmos órgãos que o físico, este
total ou parcialmente desprendido e registre a impressão. Desde que pode tomar tal atitude, ou andar à volta, pode ver
de qualquer ponto. É
uma explicação para casos como o que o autor encontrou no
Norte da Inglaterra, onde Tom Tyrrell, o famoso médium,
costumava andar à volta da sala, olhando os quadros, de
costas para as paredes onde os mesmos estavam pendurados.
Se em tais casos os olhos etéreos vêm uma réplica etérea
dos mesmos, temos um dos muitos problemas que deixamos à
posteridade.
Livingstone,
a principio, usou Davis para diagnósticos médicos. Descrevia como o corpo humano se tornava transparente aos
seus olhos espirituais, que pareciam funcionar do centro de sua
testa. Cada órgão
aparecia claramente e com uma radiação especial e peculiar,
que se obscurecia em caso de doença.
Para a mentalidade médica ortodoxa, com a qual muito
simpatizava o autor, tais poderes são passíveis de abrir uma
porta para o charlatanismo e ainda o inclina a admitir que tudo
quanto foi dito por Davis tivesse corroborado pela própria
experiência de Mr. Bloomfield de Melbourne, que descreveu ao
autor a admiração de que ficou possuído, quando sua força se
manifestou subitamente, na rua, lhe mostrando detalhes anatômicos
das pessoas que andavam à sua frente.
Tão bem verificados Têm sido tais poderes, que não é
raro verem-se médicos tomar clarividentes aos seus serviços,
como auxiliares para o diagnóstico.
Diz Hipócrates: “A alma vê de olhos fechados as afecções
sofridas pelo corpo”. Assim,
ao que parece, os antigos sabiam algo a respeito de tais métodos.
As observações de Davis não se circunscreviam aos que
se achavam em sua presença; sua alma ou corpo etéreo podia
libertar-se pela ação magnética de seu empresário e ser
mandada como um pombo-correio, na certeza de que regressaria com
a informação desejada. Além
da missão humanitária em que geralmente se empenhava, às
vezes vagava livremente; então descrevia, em magníficas
passagens, como via a Terra translúcida, abaixo dele, com os
grandes veios de depósitos minerais, como que brilhando através
de massas de metal fundido, cada qual com a sua radiação
peculiar.
É
notável que nessa fase inicial da experiência psíquica de
Davis, não tivesse ele a recordação daquilo que tinha visto
em transe. Contudo, essa recordação era registrada no seu
subconsciente e, posteriormente, a recuperava com clareza.
Com o tempo tornou-se uma fonte de informações para os
outros, posto que ficasse ignorada para si próprio.
Até
então o seu desenvolvimento se havia processado de maneira não
incomum e que podia ser comparado com a experiência de qualquer
estudioso de psiquismo. Foi
quando ocorreu um episódio inteiramente novo e que é
minuciosamente descrito na sua autobiografia.
Em resumo, os fatos foram os seguintes: na tarde de 6 de
março de 1844, Davis foi subitamente tomado por uma força que
o fez voar da pequena cidade de Poughkeepsie, onde vivia, e
fazer uma pequena viagem no estado de semitranse.
Quando voltou à consciência, encontrava-se entre
montanhas agrestes e aí, diz ele, encontrou dois anciãos, com
os quais entrou em íntima e elevada comunhão, um sobre
medicina e outra sobre moral.
Esteve ausente toda a noite e, quando indagou de outras
pessoas na manhã seguinte, disseram-lhe que tinha estado nas
Montanhas de Catskill, há cerca de quarenta milhas de casa.
A história tem todas as aparências de uma experiência
subjetiva, um sonho ou uma visão, e ninguém hesitaria em
considera-la como tal, se não fosse o detalhe de seu regresso e
da refeição que tomou a seguir.
Uma alternativa seria que o vôo para as montanhas fosse
uma realidade e, as entrevistas, um sonho.
Diz ele que, posteriormente identificou seus dois
mentores como sendo Galeno e Swedenborg, o que é interessante,
por ser o primeiro contato com os mortos, por ele próprio
reconhecidos. Todo
o episódio pareceu visionário e não teve qualquer ligação
com o notável futuro desse homem.
Davis
verificou maiores forças a se agitarem em si mesmo e foi
avisado de que, quando lhe faziam perguntas sérias, enquanto se
achava em transe “mesmérico”, sempre respondia:
“Responderei a isto em meu livro”.
Aos dezenove anos sentiu chegado o momento de escrever.
A influência magnética de Livingstone, por isso ou por
aquilo, parece que não era adequada para tal fim.
Então foi escolhido o Dr. Lyon como novo magnetizador;
este abandonou o consultório e foi a Nova York com o seu
protegido, onde procurou o Reverendo William Fishbough,
convidando-o para servir de secretário.
Parece que essa escolha intuitiva era justificada, pois
este logo abandonou o seu trabalho e aceitou o convite.
Então, preparado o aparelho, Lyon submetia diariamente o
jovem a transes magnéticos e suas manifestações eram
registradas pelo fiel secretário. Não havia dinheiro nem publicidade no assunto, de modo que
nem o mais cético dos críticos poderia deixar de admitir que a
ocupação e os objetivos desses três homens constituíssem um
maravilhoso contraste com a preocupação material de fazer
dinheiro que os rodeava. Eles
buscavam o mais além. E
que é o que podia fazer o homem demais nobre?
Há que levar em conta que um tubo não pode conter mais
do que lhe permite o seu diâmetro.
O diâmetro de Davis era muito diferente de Swedenborg.
Cada um recebia conhecimento quando num estado de iluminação.
Mas Swedenborg era o homem mais instruído da Europa,
quando Davis era um jovem tão ignorante quanto se podia
encontrar no Estado de Nova York.
A revelação de Swedenborg talvez fosse maior, posto
que, muito provavelmente, pontilhada por seus próprios
conhecimentos. A
revelação de Davis era, comparativamente, um milagre maior.
O
Dr. George Bush, professor de hebraico na Universidade de Nova
York, uma das testemunhas quando eram recebidas as orações em
transe, assim escreve: : “Afirmo solenemente que ouvi Davis
citar corretamente a língua hebraica em suas palestras, e
demonstrar um conhecimento de geologia muito mais admirável
numa pessoa da sua idade, ainda quando tivesse devotado anos a
esse estudo; discutia,
com grande habilidade, as mais profundas questões de
arqueologia histórica e bíblica, de mitologia, da origem e das
afinidades das línguas, da marcha da civilização entre as várias
nações da Terra, de modo que faziam honra a qualquer estudante
daquela idade, mesmo que, para as alcançar, tivesse consultado
todas as bibliotecas da cristandade;
realmente, se ele tivesse adquirido todas as informações
que externa em sua conferência, não em dois anos, desde que
deixou o banco de sapateiro, mas em toda a sua vida, com a maior
assiduidade no estudo, nenhum prodígio intelectual de que o
mundo tem notícia, por um instante seria comparável com este,
muito embora nenhum volume, nenhuma página tenha sido
publicada”.
Eis
um admirável retrato de Davis na época.
E Bush chama-nos a atenção para o seu equipamento,
quando diz: “A circunferência de sua cabeça é
demasiadamente pequena. Se o tamanho fosse a medida da força,
então a capacidade mental desse jovem seria limitadíssima. Os
pulmões são fracos e atrofiados. Não viveu num ambiente
refinado; suas maneiras eram grosseiras e rústicas. Não tinha
lido senão um livro. Nada conhece de gramática ou das regras
de linguagem nem esteve em contato com pessoas dos meios literários
ou científicos”.
Tal
era o moço de dezenove anos, do qual jorrava então uma
catadupa de palavras e de idéias, abertas à crítica, não por
sua simplicidade, mas por serem demasiado complexas e envoltas
em termos científicos, conquanto sempre com um fio consistente
de raciocínio e de método.
Vem
a propósito falar do subconsciente, embora isto geralmente
tenha sido tomado como idéias aparentemente recebidas e
submergidas. Se, por exemplo, o desenvolvido Davis pudesse recordar o que
tinha acontecido em seus transes durante os seus dias de não
desenvolvimento, teríamos um claro exemplo de emergência
daquelas impressões sepultadas.
Mas seria abusar das palavras falar de um inconsciente
quando tratamos com alguma coisa que, por meios normais, jamais
poderia alcançar qualquer extrato da mente, consciente ou
inconsciente. Eis o
começo da grande revelação psíquica de Davis, que se
derramou, ocasionalmente, por muitos livros, todos compreendidos
pelo nome de “Filosofia Harmônica”.
Por sua natureza e por sua posição nos estudos psíquicos,
deles trataremos noutro lugar.
Nessa
fase de sua vida, pretende Davis haver estado sob a influência
direta da entidade que posteriormente identificou como sendo
Swedenborg – nome muito pouco familiar naquele tempo.
De vez em quando recebia um aviso, pela clarividência,
“para subir à montanha”. Essa montanha se acha situada na
outra margem do Hudson, oposta a Poughkeepsie.
Aí na montanha pretende ele que se encontrava a
conversava com uma figura venerável. Parece que não houve qualquer indício de materialização e
o incidente não teve analogia em nossa experiência psíquica,
salvo se – e temos que falar com toda a reverência – também
o Cristo subiu a um monte e entrou em comunhão com as formas de
Moisés e de Elias.
Nisso
a analogia parece completa.
Não
parece que Davis tenha sido absolutamente um homem religioso, no
sentido comum e convencional, embora se achasse saturado de forças
verdadeiramente espirituais.
Seus pontos de vista, até onde é possível
acompanha-lo, eram de crítica franca em relação à revelação
bíblica e, na pior das hipóteses, honesto, honrado, incorruptível,
ansioso pela verdade e consciente de sua responsabilidade pela
sua divulgação.
Durante
dois anos, seu subconsciente continuou ditando o livro sobre os
segredos da Natureza, enquanto o consciente Davis adquiriu um
pouco de auto-educação em Nova York, com ocasionais visitas
restauradoras à Poughkeepsie.
Tinha começado chamar a atenção de algumas pessoas sérias
e Edgard Allan Poe era um de seus visitantes.
Seu desenvolvimento psíquico continuava e antes dos
vinte e um anos tinha chegado ao ponto de não mais necessitar
de alguém para cair em transe; realizava-o sozinho. Por fim, sua memória subconsciente se tinha aberto e ele se
tornou capaz de abarcar o largo alcance de suas experiências.
Foi então que se assentou ao lado de uma senhora
agonizante e observou todos os detalhes da partida da alma; sua
magnífica descrição nos dá no primeiro volume de “A Grande
Harmonia”. Conquanto
sua descrição tenha aparecido numa separata, não é tão
conhecida quanto deveria sê-lo. Um pequeno resumo deve ser interessante para o leitor.
Começa
ele por uma consoladora reflexão sobre os vôos de sua própria
alma, que eram morte em todos os sentidos, salvo quanto à duração,
e lhe haviam mostrado que a experiência era “interessante e
deliciosa” e que aqueles sintomas que parecem sinais de
sofrimento não passam de reflexos inconscientes do corpo e não
têm significação. Diz
então, como, havendo-se jogado antes naquilo que se chama de
“Condição Superior”, havia observado as etapas do lado
espiritual. “O
olho material vê apenas o que é material, e o espiritual o que
é espiritual”. Como,
porém, tudo tem uma contra-partida espiritual, o resultado é o
mesmo. Assim, se um Espírito vem a nós, não é a nós que ele vê,
mas o nosso corpo etéreo, que é, aliás, uma réplica do nosso
corpo material.
Foi
esse corpo etéreo que Davis viu emergindo do envoltório de
protoplasma da pobre moribunda, que finalmente ficou vazio no
leito, como a enrugada crisálida, depois que a borboleta se
libertou. O
processo começou por uma extrema concentração no cérebro,
que
se
foi tornando cada vez mais luminoso, enquanto as extremidades se
tornavam escuras. É
provável que o homem nunca pense tão claramente ou seja tão
intensamente cônscio quanto depois que todos os meios de indicação
de seus pensamentos o abandonaram.
Então o novo corpo começa a emergir, a começar pela
cabeça. Em breve
se acha completamente livre, de pé ao lado de seu cadáver, com
os pés próximos à cabeça e com uma faixa luminosa vital,
correspondente ao cordão umbilical.
Quando o cordão se rompe, uma pequena porção é
absorvida pelo cadáver, assim o preservando da imediata putrefação.
Quanto ao corpo etéreo, leva algum tempo até adaptar-se
ao novo ambiente, até passar pela porta aberta.
“Eu a vi passar para a sala contígua, através da
porta e da casa, erguer-se no espaço... Depois que saiu da
casa, encontrou dois Espíritos amigos, da região espiritual
que, depois de um terno reconhecimento e de um entendimento
entre os três, da mais graciosa das maneiras, começou a subir
obliquamente pelo envoltório etéreo do nosso globo.
Marchavam juntos tão naturalmente, tão fraternalmente,
que me custava imaginar que se librassem no ar: pareciam subir
pela encosta de uma montanha gloriosa e familiar. Continuei a olha-los, até que a distância os fechou aos
meus olhos”.
Tal
a visão da morte, tal qual a percebeu Andrew Jackson Davis –
muito diferente daquela treva horrível que por tanto tempo
obsidiou a imaginação humana.
Se isto é verdade, podemos voltar nossas simpatias para
o Dr. Hodgson e a sua exclamação: “Custa-me suportar a
espera”. Mas é verdade? Apenas devemos dizer
que há muita evidência a corrobora-la.
Muitas
pessoas que caem em estado cataléptico, ou que estiveram tão
doentes que chegaram ao estado de coma, trouxeram impressões
muito concordes com a descrição de Davis, posto que outras
tivessem voltado com o cérebro inteiramente vazio.
Quando
em Cincinnati, em 1923, o autor esteve em contato com uma tal
Mrs. Monk, que tinha sido, pelos médicos, dada como morta, e
que durante cerca de uma hora havia experimentado a vida “post-mortem”,
antes que um capricho da sorte a devolvesse à vida, ela
escreveu um pequeno relato de sua experiência, no qual recorda
uma vívida lembrança de ter saído do quarto, exatamente como
descreve Davis, e do fio prateado que continuava unindo sua alma
viva ao seu corpo comatoso.
Um notável caso foi publicado na revista “Light”, de
15 de março de 1922, no qual cinco filhas de uma senhora
agonizante, todas clarividentes, viram e descreveram o processo
da morte de sua mãe. Aqui
também a descrição do processo era muito semelhante àquele
descrito, posto haja algumas diferenças entre este último e
outros casos, para sugerir que a seqüência dos acontecimentos
nem sempre é regida pelas mesmas leis. Outra variante de
extremo interesse encontra-se num desenho feito por uma criança
médium, que pinta a alma deixando o corpo, e é descrito no
trabalho de Mrs. De Morgan, “Da Matéria Ao Espírito”.
Este livro, de prefácio pelo célebre matemático Prof.
De Morgan, é um dos trabalhos
pioneiro no movimento espírita na Grã-Bretanha.
Quando se pensa que foi publicado em 1863, sente-se um
peso no coração pelo sucesso daquelas forças de obstrução,
tão fortemente refletidas na imprensa, que tem conseguido
durante tantos anos colocar-se entre a mensagem de Deus e a raça
humana.
A
força profética de Davis apenas pode ser desconhecida pelos céticos
que ignoram os fatos. Antes
de 1856 profetizou detalhadamente o aparecimento do automóvel e
da máquina de escrever. Em
seu livro “Penetralia”, lê-se o seguinte: - Pergunta:
“Poderá o utilitarismo fazer descobertas em outra direção
da locomoção?”
-
"Sim: buscam-se nestes dias carros e transportes
coletivos que correrão por estradas rurais – sem cavalos, sem
vapor, sem qualquer força natural visível – movendo-se com
alta velocidade e com muito mais segurança do que atualmente.
Os veículos serão acionados por uma estranha, bonita e
simples misturas de gases aquosos – tão facilmente
condensados, tão simplesmente inflamados e tão ligados à máquina,
que de certo modo se assemelham as nossas, que ficarão ocultos
e serão manejados entre as rodas da frente.
Tais veículos evitarão muitos embaraços atualmente
experimentados pela gente que vive em regiões pouco povoadas.
O primeiro requisito para essas locomotivas de chão serão
boas estradas, nas quais, com a sua máquina, sem cavalos, a
gente pode viajar com muita rapidez. Esses carros me parecem de construção pouco complicada”.
-
A seguir, perguntaram: - “Percebe algum plano que
permita acelerar a maneira de escrever?”.
-
“Sim. Quase me sinto inclinado a inventar um psicógrafo
automático, isto é, uma alma escritora artificial.
Pode ser construída assim como um piano, com uma série
de teclas, cada uma para um som elementar; um teclado mais baixo
para fazer uma combinação.
Assim, em vez de tocar uma peça de música, pode-se
escrever um sermão ou um poema”.
Do
mesmo modo, respondendo a uma pergunta relativa ao que era então
chamado “navegação atmosférica”, sentiu-se profundamente
impressionado “porque o mecanismo necessário – para
atravessar as correntes de ar, de modo que se possa navegar tão
fácil, segura e agradavelmente quanto os pássaros – depende
de uma força motriz. Essa
força virá. Não
só acionará a locomotiva sobre os trilhos, e os carros na
estrada, mas também os veículos aéreos que atravessarão o céu,
de país para país”.
O
aparecimento do Espiritismo foi predito nos seus “Princípios
da Natureza”, publicado em 1847, onde diz:
“É
verdade que os Espíritos se comunicam entre si, quando um está
no corpo e outro em esferas mais altas – e, também, quando
uma pessoa em seu corpo é inconsciente do influxo e, assim não
pode se convencer do fato.
Não levará muito tempo para que essa verdade se
apresente como viva demonstração dessa era, ao mesmo tempo,
que o íntimo dos homens será aberto e estabelecida a comunicação
espírita, tal qual a desfrutam os habitantes de Marte, Júpiter
e Saturno”.
Nesta
matéria os ensinamentos de Davis eram definitivos, embora se
deva admitir que uma boa parte de seu trabalho é vaga e difícil
de ler, porque desfigurada pelo emprego de vocábulos longos e
ocasionalmente inventados por ele.
Entretanto, são de um alto nível moral e intelectual, e
pode ser melhor descrito como um atualizado Cristianismo, com a
ética do Cristo aplicada aos problemas modernos e inteiramente
coberto de quaisquer traços de dogmas.
A “Religião Documentária”, como a chama Davis, em
sua opinião absolutamente não é uma religião.
Tal nome só deve ser aplicado ao produto pessoal da razão
e da espiritualidade. Tal
a linha geral do ensino, misturado com muitas revelações da
Natureza exposto em sucessivos livros da “Filosofia Harmônica”,
a que se seguiram “Revelações Divinas da Natureza” e que
tomaram os anos seguintes de sua vida.
Muitos de seus ensinos apareceram num jornal estranho,
chamado “Univercoelum” e em conferências proferidas para
dar a conhecer as suas revelações.
Em
suas visões espirituais, Davis viu uma disposição do universo
que corresponde aproximadamente à que foi apresentada pó
Swedenborg, adicionada pelo ensino posterior dos espíritos e
aceita pelos espíritas. Viu
uma vida semelhante à da Terra, uma vida que pode ser chamada
semimaterial, com prazeres e objetivos adequados à nossa
natureza, que de modo algum se havia transformado pela morte.
Viu estudo para estudiosos, tarefas geniais para os enérgicos,
arte para os artistas, beleza para os amantes da Natureza,
repouso para os cansados. Viu
fases graduadas da vida espiritual, através das quais,
lentamente, se sobe para o sublime e para o celestial.
Levou a sua magnífica visão acima do presente universo
e o viu como este uma vez mais se dissolvia numa nuvem de fogo,
da qual se havia consolidado e, uma vez mais se consolidado para
formar o estágio no qual uma evolução mais alta teria lugar e
onde uma classe mais alta se iniciaria, do mesmo modo que
algures, a classe mais baixa.
Viu que esse processo se renovava muitas vezes, cobrindo
trilhões de anos e sempre trabalhando no sentido do refinamento
e da purificação. Descreveu
essas tarefas como anéis concêntricos em redor do mundo; mas
como admite que nem o tempo nem o espaço são claramente
definidos em suas visões, não devemos tomar a sua geografia
muito ao pé da letra. O
objetivo da vida é preparar para o adiantamento nesse tremendo
esquema: e o melhor método para o progresso humano é livrar-se
do pecado – não só dos pecados geralmente reconhecidos, mas
também dos pecados do fanatismo, da estreiteza de vistas e da
dureza, que são manchas especiais, não só na efêmera vida da
carne, mas na permanente vida do Espírito.
Para tal fim o retorno à vida simples, às crenças
simples e à fraternidade primitiva se tornam essenciais.
O dinheiro, o álcool, a luxúria, a violência e o
sacerdócio – no seu limitado sentido – constituem os
maiores empecilhos do progresso humano.
Há
que admitir-se que Davis, até onde se pode acompanhar a sua
vida, tenha vivido para suas idéias.
Era muito humilde, mas daquela matéria de que são
feitos os Santos. Sua
autobiografia vai apenas até 1857, de modo que teria pouco mais
de trinta anos quando a publicou.
Mas dá uma descrição muito completa e por vezes muito
involuntária de seu íntimo.
Era muito pobre, mas justo e caridoso.
Era muito sério, mas muito paciente na argumentação e
delicado na contradita.
Fizeram-se
as piores acusações que ele recorda com um sorriso de tolerância.
Dá uma informação completa de seus dois primeiros
casamentos, tão originais quanto tudo o mais a seu respeito,
mas que apenas depõem em seu favor. Desde a data em que termina “A Vara Mágica”, parece que
levou a mesma vida, alternando leitura e escrita, conquistando
cada vez mais prosélitos, até que morreu em 1910, na idade de
oitenta e quatro anos. Passou
os últimos anos de sua vida como diretor de uma pequena
livraria em Boston. O
fato de a sua “Filosofia Harmônica” ter tido uma das
quarenta edições nos Estados Unidos, constitui uma prova de
que a semente que lançou com tanta constância, não caiu em
terreno improdutivo.
Para
nós o que é importante é o papel representado por Davis no
começo da revelação espírita.
Ele começou a preparar o terreno, antes que se iniciasse
a revelação. Estava
claramente fadado a associar-se intimamente com ela, de vez que
conhecia a demonstração de Hydelsville, desde o dia em que
ocorreu. De suas
notas tomamos a passagem seguinte, que traz a data significativa
de 31 de março de 1848:
“Esta
madrugada um sopro quente passou pela minha face e ouvi uma voz
suave e forte, dizer: Irmão, um bom trabalho foi começado –
olha! Surgiu uma demonstração viva”.
Fiquei pensando o que queria dizer semelhante mensagem.
Era o começo do enorme movimento do qual participaria
como profeta. Suas
próprias forças do lado mental, eram supranormais, do mesmo
modo que as físicas o são do lado material.
Elas se completam. Era,
até o extremo de sua capacidade, a alma do movimento, o único
cérebro que tinha uma visão clara da mensagem, anunciada de
maneira tão nova como estranha.
Nenhum homem poderia receber aquela mensagem por inteiro,
porque é infinita e cada vez se ergue mais alto, à medida que
tomamos contato com seres mais elevados.
Mas Davis a interpretou tão bem para os seus dias e para
a sua geração que, mesmo agora, muito pouco pode ser
adicionado às suas concepções.
Tinha
ido além de Swedenborg, embora não possuísse o equipamento
mental deste, para abarcar os seus resultados.
Swedenborg havia visto o céu e o inferno tal como Davis
os vira e descrevera minuciosamente. Entretanto, Swedenborg não teve uma visão clara da posição
dos mortos e da verdadeira natureza do mundo dos Espíritos,
como a possibilidade de retorno, como foi revelado ao vidente
americano. Tal conhecimento veio lentamente a Davis.
Suas estranhas entrevistas com o que chamava de “Espíritos
Materializados” eram coisas excepcionais, das quais tirou
conclusões importantes. Só
mais tarde é que tomou contato com os atuais fenômenos espíritas,
cuja significação completa era capaz de ver.
Esse contato não foi estabelecido em Rochester, mas em
Stratford, no Connecticut, onde Davis foi testemunha dos fenômenos
“Poltergeist”, produzidos em casa de um clérigo, o Dr.
Phelps, no começo de 1850.
O seu estudo conduziu-o a escrever um panfleto –
“Filosofia do Comércio Com Os Espíritos”- mais tarde
desenvolvido num livro que encerra muita coisa que o mundo ainda
não aprendeu. Algumas
destas coisas, na sua sábia redução, devem ser recomendadas a
alguns espíritas. “O
Espiritismo é útil como uma vívida demonstração da existência
futura”, diz ele. “Os
Espíritos me ajudaram muitas vezes, mas nem controlaram a minha
pessoa, nem a minha razão.
Bondosamente podem realizar – e realizam – coisas
para os que vivem na Terra.
Mas, os benefícios só serão garantidos com a condição
de que lhes permitamos tornar-se nossos mestres e não nossos
donos – que os aceitemos como companheiros, mas não como
deuses a quem devemos adorar”.
Sábias palavras – e uma moderna verificação da
observação vital de São Paulo, de que o profeta não se deve
sujeitar aos seus próprios dons.
Para explicar adequadamente a vida de Davis, há que
ascender às condições supranormais.
Mesmo assim, entretanto, há explicações alternativas,
se forem considerados os seguintes fatos inegáveis:
1.
– Que ele proclama ter visto e ouvido a forma
materializada de Swedenborg, antes que soubesse algo de seus
ensinos.
2.
– Que alguma coisa possuía esse jovem ignorante, que
lhe deu muita sabedoria.
3.
– Que essa sabedoria cobriu os mesmos amplos e
universais domínios que eram característicos de Swedenborg.
4.
Mas que representavam um passo à frente, de vez que adicionavam
aquele conhecimento do poder do Espírito, que Swedenborg deve
ter atingido após a sua morte.
Considerando
estes quatro pontos, então,
não será admissível que Davis fosse controlado pelo
Espírito de Swedenborg? Bom
seria que a estimável, mas estreita e limitada Nova Igreja
tomasse essas possibilidades em consideração.
Se, porém, Davis ficar só, ou se for o reflexo de alguém
maior que ele, resta o fato de que era um milagre, o inspirado,
o culto, o deseducado apóstolo da nova revelação.
Sua influência foi tão permanente que o conhecido
artista e crítico Mr. E.Wake Cook, em seu notável livro
“Regressão em Arte”, classifica os ensinos de Davis como
uma influência moderna que poderia reorganizar o mundo.
Davis deixou uma profunda marca no Espiritismo.
“Terra e Verão”, por exemplo, como denominação
para o Paraíso e todo o sistema de Liceus, com a sua engenhosa
organização é de sua invenção.
Conforme a observação de Mr. Baseden Butt, “Mesmo
agora é difícil, senão impossível, avaliar todo o alcance de
sua influência”.
Doyle,
Sir. Arthur Conan “A
História do Espiritismo”.
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