O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Penas e Gozos Terrestres: Duração das Penas

Autor:
FEB

Fonte:
Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita - FEB

Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita
Baseado em Publicação da FEB

   

Nessa imensidão ilimitada, onde está o Céu?  Em toda parte.  Nenhum contorno lhe traça limites.  Os mundos adiantados são as últimas estações do seu caminho, que as virtudes franqueiam e os vícios interditam.  Ante este quadro grandioso que povoa o Universo, que dá a todas as coisas da criação um fim e uma razão de ser, quanto é pequena e mesquinha a doutrina que circunscreve a humanidade a um ponto imperceptível do espaço, que no-la mostra começando em dado instante para acabar igualmente com o mundo que a contém, não abrangendo mais que um minuto da eternidade.

Como é triste, fria, glacial essa doutrina quando nos mostra o resto do Universo, durante e depois da humanidade terrestre, sem vida, nem movimento, qual vastíssimo deserto imerso em profundo silêncio!  Como é desesperadora a perspectiva dos eleitos votados à contemplação perpétua, enquanto a maioria das criaturas padece tormentos sem-fim!  Como lacera os corações sensíveis a idéia dessa barreira entre mortos e vivos!  As almas ditosas, dizem, só pensam na sua felicidade, como as desgraçadas nas suas dores.  Admira que o egoísmo reine sobre a Terra quando no-lo mostram no Céu?

Oh! Quão mesquinha se nos afigura essa idéia da grandeza, do poder e da bondade de Deus!  Quanto é sublime a idéia que d’Ele fazemos pelo Espiritismo!  Quanto a sua doutrina engrandece as idéias e amplia o pensamento!  Mas, quem diz que ela é verdadeira?  A razão primeiro, a Revelação depois e, finalmente, a sua concordância com os progressos da ciência.  Entre duas doutrinas das quais uma amesquinha e a outra exalta os atributos de Deus; das quais uma só está em desacordo e a outra em harmonia com o progresso; das quais uma se deixa ficar na retaguarda enquanto a outra caminha, o bom-senso diz de que lado está a verdade.  Que, confrontando-as, consulte cada qual a consciência, e uma voz íntima lhe falará por ela.  Pois bem, essas aspirações íntimas são a voz de Deus, que não pode enganar os homens.  Mas, dir-se-á, por que Deus não lhes revelou de princípio toda a verdade?  Pela mesma razão porque se não ensina à infância o que se ensina aos de idade madura.

A revelação limitada foi suficiente a certo período da Humanidade, e Deus a proporciona gradativamente ao progresso e às forças do Espírito.

Os que recebem hoje uma revelação mais completa são os mesmos Espíritos que tiveram dela uma partícula em outros tempos e que de então por diante se engrandeceram em inteligência.

Antes de a ciência ter revelado aos homens as forças vivas da Natureza, a constituição dos astros, o verdadeiro papel da Terra e sua formação, poderiam eles compreender a imensidade do espaço e a pluralidade dos mundos?  Antes de a geologia comprovar a formação da Terra, poderiam os homens tirar-lhe o inferno das entranhas e compreender o sentido alegórico dos seis dias da Criação?  Antes de a Astronomia descobrir as leis que regem o Universo, poderiam compreender que não há alto nem baixo no espaço, que o céu não está acima das nuvens nem limitado pelas estrelas?  Poderiam identificar-se com a vida espiritual antes dos progressos da ciência psicológica?  Conceber depois da morte uma vida feliz ou desgraçada, a não ser em lugar circunscrito e sob uma forma material?  Não.  Compreendendo mais pelos sentidos que pelo pensamento, o Universo era muito vasto para a sua concepção; era preciso restringi-lo ao seu ponto de vista para alargá-lo mais tarde.  Uma revelação parcial tinha a sua utilidade, e, embora sábia até então, não satisfaria hoje.  O absurdo provém dos que pretendem poder governar os homens de pensamento, sem se darem conta do progresso das idéias, quais se fossem crianças.

O dogma da eternidade absoluta das penas é, portanto, incompatível com o progresso das almas, ao qual opõe uma barreira insuperável.  Esses dois princípios destroem-se, e a condição indeclinável da existência de um é o aniquilamento do outro.  Qual dos dois existe de fato?  A lei do progresso é evidente; não é uma teoria, é um fato corroborado pela experiência: é uma lei da natureza, divina, imprescritível.  E, pois, que esta lei existe inconciliável com a outra, é porque a outra não existe.  Se o dogma das penas eternas existisse verdadeiramente, Santo Agostinho e São Paulo e tantos outros jamais teriam visto o céu, caso morressem antes de realizar o progresso que lhes trouxe a conversão.

A esta última asserção respondem que a conversão dessas santas personagens não é um resultado do progresso da alma, porém, da graça que lhes foi concedida e de que foram tocadas.

Porém, isto é simples jogo de palavras.  Se esses santos praticaram o mal e depois o bem, é que melhoraram; logo, progrediram.  E por que lhes teria Deus concedido como especial favor a graça de se corrigirem?  Sim, por que a eles e não a outros?  Sempre, sempre a doutrina dos privilégios, incompatível com a justiça de Deus e com seu igual amor por todas as criaturas.

Segundo a Doutrina Espírita, de acordo mesmo com as palavras do Evangelho, com a lógica e com a mais rigorosa justiça, o homem é o filho de suas obras, durante esta vida e depois da morte, nada devendo ao favoritismo.  Deus o recompensa pelos esforços e pune pela negligência, isto por tanto tempo quanto nela persistir.

O Espiritismo não vem, pois, com sua autoridade privada, formular um código de fantasia; a sua lei, no que respeita o futuro da alma, deduzida das observações do fato, pode resumir-se nos seguintes pontos:

1º. – A alma ou espírito sofre na vida espiritual as conseqüências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal.  O seu estado, feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.

2º. – A completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação completa do Espírito.  Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimento.

3º. – Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis conseqüências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um gozo.  A soma das penas é, assim, proporcionada à das imperfeições, como a dos gozos, às das qualidades.  A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que a que tem três ou quatro; e, quando dessas dez imperfeições não lhe restar mais que a metade ou um quarto, menos sofrerá.

Fonte: O Céu e o Inferno - Allan Kardec