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Idéias
Principais:
É freqüente o
instinto e a inteligência se revelarem simultaneamente no mesmo
ato. No caminhar, por exemplo, o movimento das pernas é
instintivo; o homem põe maquinalmente um pé à frente do outro,
sem nisso pensar; quando, porém, ele quer acelerar ou demorar o
passo, levantar o pé ou desviar-se de um tropeço, há cálculo,
combinação; ele age com deliberado propósito. A impulsão
involuntária do movimento é o ato instintivo; a calculada
direção do movimento é o ato inteligente.
Ao ato instintivo
falta o caráter do ato inteligente. Segundo outros sistemas, o
instinto e a inteligência procederiam de um único princípio, o
que não é admissível.
Outra hipótese
ressalta do caráter essencialmente previdente do instinto e
concorda com o que o Espiritismo ensina, no tocante às relações
do mundo espiritual com o mundo corpóreo.
Síntese do
Assunto:
Inteligência é o
atributo essencial do Espírito, em virtude do qual ele toma
conhecimento da sua própria existência, bem como exerce
atividade voluntária e livre. Quando o Espírito atinge o grau de
humanização, a inteligência adquire desenvolvimento superior,
como o surgimento da razão e do senso moral, que lhe facultam a
capacidade de conceber a existência de Deus.
Realizando
múltiplos atos livres e voluntários, apresentando finalidades
nítidas, e obedecendo a juízos e raciocínios bem elaborados, por
isso mesmo o homem se mostra como um ser que afeta dupla
natureza: material e espiritual. Mais uma vez cabe, pois,
repetir: - Há um Espírito unido ao corpo do homem, que constitui
a sua alma, somente à qual deve ele a sua inteligência e
racionalidade, seus conhecimentos e sentimentos, bem como sua
vontade e liberdade.
Há outros seres,
entretanto, que realizam atos em que se revela também nítida
finalidade, mas parecem obedecer antes a automatismos, que a
impulsos provenientes de vontades livres. Tais atos visam
sobretudo à conservação do indivíduo e da espécie, objetivando
as funções de nutrição e de reprodução, provendo ao crescimento,
ao desenvolvimento, à propagação, enfim, à plena realização da
vida dentro das características peculiares a cada espécie. Esses
atos diz-se, são devidos ao instinto, são atos instintivos.
Existem já esboçados nos vegetais, mas são bem mais evidentes
nos animais. Atos instintivos são, aliás, ocorrentes também no
homem, ao lado dos atos inteligentes.
Pergunta-se, pois:
- Qual a diferença entre o instinto e a inteligência?
Será o instinto
uma faculdade distinta, ou um atributo inerente apenas à
matéria, como alguns ainda pensam, atribuindo o instinto somente
ao corpo? Se assim fosse, entretanto, ter-se-ia de admitir que a
matéria é inteligente, o que é evidentemente falso, e até mesmo
mais inteligente do que o Espírito, porquanto o instinto não se
engana, ao passo que a inteligência, porque é livre, pode
enganar-se. Se ao ato instintivo falta, pois, o caráter
principal do ato inteligente que é ser deliberado, ele revela,
entretanto, uma causa inteligente, porque não se engana. Por
isso, outros são levados a admitir que o instinto e a
inteligência procedem de um único princípio, que, de início,
teria somente as qualidades do instinto, mas depois se
desenvolveria e passaria por uma transformação que lhe daria as
da inteligência livre. Essa suposição não resiste a uma análise
mais profunda, visto que frequentemente o instinto e a
inteligência se encontram juntos no mesmo ser e, muitas vezes,
se associam no mesmo ato. No caminhar, por exemplo, como lembra
Kardec, é instinto o simples movimento das pernas, tanto no
homem como no animal, e um pé vai adiante do outro
maquinalmente; mas no acelerar o passo ou retardá-lo, bem como
no levantar o pé para desviar-se de um obstáculo, intervém a
vontade livre, a deliberação e o cálculo. Também o animal
carnívoro só pelo instinto é levado a alimentar-se de carne, mas
ele age com inteligência e mesmo astúcia, ao tomar as medidas
para garantir a sua presa, medidas que variam conforme as
circunstâncias.
Assim, à pergunta,
que é o instinto e como se distingue da inteligência?, muitos
respondem ainda: é uma espécie de inteligência. Outros opinam
que é uma inteligência sem raciocínio. Acha-se impossível
estabelecer um limite nítido de separação entre o instinto e a
inteligência, porque muitas vezes se confundem e nunca se sabe
onde acaba um e começa a outra. A nosso ver, bem como de muitos
que têm refletido sobre o assunto, inteligência e instinto são,
sim, manifestações do mesmo princípio espiritual e, portanto,
inteligente, mas que obedecem a duas determinantes ou a dois
motores diferentes: um que está ligado à vontade e à liberdade
do individuo, outro que escapa totalmente à vontade e à
liberdade. Nestas condições podem distinguir-se perfeitamente os
atos que dependem da inteligência, plenamente desenvolvida,
daqueles que decorrem estritamente do instinto. Sendo a
inteligência, em sua plenitude, a faculdade de pensar e agir
racional e deliberadamente, os atos inteligentes, são
conscientes, voluntários, livres e calculados, obedecendo a um
planejamento. Acresce que são suscetíveis de variações para
adaptações a circunstâncias ocasionais e a modalidades
individuais. A inteligência, variável e individual por
excelência, por isso mesmo é suscetível de progresso, de modo
que os atos inteligentes decorrem da aprendizagem e pela
aprendizagem se aprimoram.
Não são assim os
atos instintivos. Consideramos, por exemplo, o ato absolutamente
instintivo que realiza o patinho, logo que rompe a casca do ovo,
que o mantinha antes encerrado; se vê próximo um córrego ou um
lago, corre alegremente para ele e lança-se na água, nadando
imediatamente com perfeição. Onde aprendeu este animalzinho a
nadar? Com quem, se nadou logo em seguida ao nascer?
É instintivo
também o ato do castor, que constrói sua casa ou cabaninha com
terra, água e galhos de arvore; dos pássaros, que constroem com
perfeição seus ninhos; da aranha, que tece com precisão a sua
teia. É admirável como tudo isso se passa de maneira tão
perfeita. Vêem-se, já, por aí, alguns dos caracteres do
instinto: é inato, perfeito e específico, isto é, surge
espontaneamente, sem prévia aprendizagem, em todos os indivíduos
de uma mesma espécie, e só dessa espécie, levando a atos
completos, acabados, perfeitos, desde a primeira vez que são
realizados. Note-se, entretanto, que esses atos continuam
durante toda a vida do indivíduo sem mudança alguma. Toda essa
capacidade de nadar, de construir, de edificar, de tecer, não
sofreu qualquer variação, através dos tempos, e o castorzinho
constrói hoje a sua cabana como o faziam seus ancestrais e o
farão os seus descendentes, com os mesmos materiais e do mesmo
modo. De igual maneira, as aves constroem seus ninhos e as
aranhas tecem suas teias, há séculos e milênios, sem variação
alguma, sem processo, sem mudança possível.
Tão diferente é
isso do que fazem nossos nadadores, nas diversas formas de
natação, nossos construtores, os engenheiros e arquitetos!
Quanta variação através dos tempos, conforme as circunstâncias,
os indivíduos, os meios, as culturas! Quantas adaptações aos
gostos, aos desejos, aos pontos de vista e, sobretudo, aos
objetivos que se têm em vida! Nas construções dos homens há
inteligência, porque há atos sujeitos à vontade e a liberdade,
variáveis de acordo com as circunstâncias, obedecendo a
raciocínios, a cálculos, a planejamentos. Nada disso existe nos
atos que decorrem do instinto, que são perfeitos, mas sempre os
mesmos, sem variações, sem progressos; nem por isso são menos
maravilhosos. É verdadeiramente maravilhoso o que se passa no
mundo dos insetos, de certos himenópteros, por exemplo, da
família dos apídios ou abelhas, a ponto de terem merecido uma
obra especial a respeito, de autoria de Maurice Maeterlinck,
poeta e dramaturgo belga, prêmio Nobel de Literatura em 1911,
mas que muito se interessou também pelas coisas da Natureza,
tendo escrito A Vida das Abelhas, como também A Vida das
Formigas e A Vida das Térmitas. Mas na própria vida do ser
humano ocorrem atos instintivos, visando à sua conservação me à
sua procriação.
Citemos apenas o
que acontece nos primeiros tempos após o nascimento, quando, do
mesmo modo como ocorre com as crias de outras espécies de
animais mamíferos, a criancinha recém-nascida, assim que é
levada ao seio materno, começa imediatamente a sugar e absorver
assim o seu primeiro nutrimento. Careceu, porém, de aprender a
mamar? Não, a criancinha verdadeiramente nasceu sabendo mamar! E
para exercer esse ato, que ela pratica de maneira espontânea e
perfeita, reveladora de um conhecimento inato, basta sentir o
contato do seio normal. Quantas considerações e elucubrações
poderíamos agora fazer sobre essa maneira misteriosa de Deus
conduzir as suas criaturas, de modo a realizarem atos
espontâneos e perfeitos necessários à própria preservação e da
sua espécie! Mas preferimos agora citar Kardec. Diz ele no item
do capítulo O3 de A Gênese: “Outra hipótese que, em suma, se
conjuga perfeitamente à idéia da unidade de princípio, ressalta
do caráter essencialmente previdente do instinto e concorda com
que o Espiritismo ensina, no tocante às relações do mundo
espiritual com o mundo corpóreo”.
“Sabe-se agora que
muitos Espíritos desencarnados têm por missão velar pelos
encarnados, dos quais se consideram protetores e guias; que os
envolvem nos seus eflúvios fluídicos; que o homem age muitas
vezes de modo inconsciente, sob ação desses eflúvios”.
“Assim, o
instinto, longe de ser produto de uma inteligência rudimentar e
incompleta, sê-lo-ia de uma inteligência estranha, na plenitude
da sua força, inteligência protetora, supletiva da
insuficiência, quer de uma inteligência mais jovem, que aquela
compeliria a fazer, inconscientemente, para seu bem, o que ainda
fosse incapaz de fazer por si mesma, quer, de uma inteligência
madura, porém, momentaneamente tolhida no uso de suas
faculdades, como se dá com o homem na infância e nos casos de
idiotia e de afecções mentais”.
Mas Kardec vai
além e, no item 15 do mesmo capítulo 03 da obra citada, diz:
“Nesta ordem de idéias, ainda mais longe se pode ir”.
“Se observarmos os
efeitos do instinto, notaremos, em primeiro lugar, uma unidade
de vistas e de conjunto, uma segurança de resultados, que cessam
logo que a inteligência o substitui”.
“A uniformidade no
que resulta das faculdades instintivas é um fato característico,
que forçosamente implica a unidade da causa”.
“Não se nos
deparando nas criaturas, encarnadas ou desencarnadas, as
qualidades necessárias à produção de tal resultado, temos que
subir mais alto, isto é, ao próprio Criador. Se nos reportarmos
à explicação dada sobre a maneira por que se pode conceber a
ação providencial (cap. II, n. 24); se figurarmos todos os seres
penetrados do fluido divino, soberanamente inteligente,
compreenderemos a sabedoria previdente e a unidade de vistas que
presidem a todos os movimentos instintivos que se efetuam para o
bem de cada individuo. Tanto mais ativa é essa solicitude,
quanto menos recursos tem o individuo em si mesmo e na sua
inteligência. Por isso é que ela se mostra maior e mais absoluta
nos animais e nos seres inferiores, do que no homem”.
“Segundo essa
teoria, compreende-se que o instinto seja um guia seguro. O
instinto materno, o mais nobre de todos, que o materialismo
rebaixa ao nível das forças atrativas da matéria, fica realçado
e enobrecido. Em razão das suas conseqüências, não devia ele ser
entregue às eventualidades caprichosas da inteligência e do
livre-arbítrio. Por intermédio da mãe, o próprio Deus vela pelas
suas criaturas que nascem”.
Finalizando:
“Todas essas
maneiras de considerar o instinto são forçosamente hipotéticas e
nenhuma apresenta o caráter seguro de autenticidade, para ser
tida como solução definitiva. A questão, sem dúvida, será
resolvida um dia, quando se houverem reunido os elementos de
observação que ainda faltam. Até lá, temos que limitar-nos a
submeter às diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e
esperar que a luz se faça. A solução que mais se aproxima da
verdade será decerto a que melhor condiga com os atributos de
Deus, isto é, com a bondade suprema e a suprema justiça”.
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