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Definamos
primeiramente o sentido da palavra revelação.
Revelar, do latim revelare, cuja raiz, velum,
véu, significa literalmente sair de sob o véu e,
figuradamente, descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou
desconhecida. Em
sua acepção vulgar, mais genérica, essa palavra se emprega a
respeito de qualquer coisa ignota que é divulgada, de qualquer
idéia nova que nos põe ao corrente do que não sabíamos.
Deste
ponto de vista, todas as ciências que nos fazem conhecer os
mistérios da Natureza são revelações e pode dizer-se que há
para a humanidade uma revelação incessante.
A Astronomia revelou o mundo astral, que não conhecíamos;
a Geologia revelou a formação da Terra; a Química, a lei das
afinidades; a Fisiologia, as funções do organismo, etc.; Copérnico,
Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier foram reveladores.
A
característica essencial de qualquer revelação tem que ser a
verdade. Revelar um
segredo é tornar conhecido um fato; si é falso, já não é um
fato e, por conseqüência, não existe revelação.
Toda revelação desmentida por fatos, deixa de o ser, se
for atribuída a Deus. Não
podendo Deus mentir, nem se enganar, ela não pode emanar Dele e
deve ser considerada produto de uma concepção humana.
Por
sua natureza, a revelação Espírita tem duplo caráter,
participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação
científica. Participa
da primeira porque foi providencial o seu aparecimento e não o
resultado da iniciativa, nem de um desígnio premeditado do
homem; porque os pontos fundamentais da doutrina provêm do
ensino que deram os Espíritos encarregados por Deus de
esclarecer os homens acerca de coisas que eles ignoravam, que não
podiam aprender por si mesmos e que lhes importa conhecer, hoje
que estão aptos a compreende-las.
Participa
da segunda, por não ser esse ensino privilégio de indivíduo
algum, mas ministrado a todos do mesmo modo; por não serem
passivos, dispensados do trabalho da observação e da pesquisa,
por não renunciarem ao raciocínio e ao livre-arbítrio; porque
não lhes é interdito o exame, mas, ao contrário, recomendado;
enfim, porque a doutrina não foi ditada completa, nem imposta
à crença cega; porque é deduzida, pelo trabalho do homem, da
observação dos fatos que os Espíritos lhe põem sob os olhos
e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda,
comenta, compara, a fim de tirar ele próprio as ilações e
aplicações. Numa
palavra, o que caracteriza a revelação Espírita é o ser
Divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua
elaboração fruto do trabalho do homem.
O
Espiritismo, partindo das próprias palavras do Cristo, como
este partiu das idéias de Moisés, é conseqüência direta da
sua doutrina. À idéia
vaga da vida futura,
acrescenta a revelação da existência do mundo invisível que
nos rodeia e povoa o espaço, e com isso, precisa a crença
dar-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade à idéia.
Define os laços que unem a alma ao corpo e levanta o véu
que ocultava aos homens os mistérios do nascimento e da morte.
Pelo Espiritismo, o homem sabe donde vem, para onde vai,
por que está na Terra, por que sofre temporariamente e vê por
toda parte a justiça de Deus.
Sabe que a alma progride incessantemente, através de uma
série de existências sucessivas, até atingir o grau de perfeição
que a aproxima de Deus. Sabe
que todas as almas, tendo um mesmo ponto de origem, são criadas
iguais, com idêntica aptidão para progredir, em virtude do seu
livre-arbítrio; que todas são da mesma essência e que não há
entre elas diferença, senão quanto ao progresso realizado; que
todas têm o mesmo destino e alcançarão a mesma meta, mais ou
menos rapidamente, pelo trabalho e boa-vontade.
Sabe
que não há criaturas deserdadas, nem mais favorecidas umas do
que as outras; que Deus a nenhuma criou privilegiada e
dispensada do trabalho imposto às outras para progredirem; que
não há seres perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que
os que se designam pelo nome de demônios são Espíritos ainda
atrasados e imperfeitos, que praticam o mal no espaço, como o
praticavam na Terra, mas que se adiantarão e aperfeiçoarão;
que os anjos ou Espíritos puros não são seres à parte na
criação, mas Espíritos que chegaram à meta, depois de terem
percorrido a estrada do progresso; que, por essa forma, não há
criações múltiplas, nem diferentes categorias entre os seres
inteligentes, mas que toda a criação deriva da grande lei de
unidade que rege o Universo e que todos os seres gravitam para
um fim comum que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos
à custa dos outros, visto serem todos filhos das suas próprias
obras.
A
primeira revelação teve sua personificação em Moisés, a
segunda no Cristo, a terceira não a tem em indivíduo algum.
As duas primeiras foram individuais, a terceira coletiva;
aí está um caráter essencial de grande importância.
Ela é coletiva no sentido de não ser feita ou dada como
privilégio a pessoa alguma; ninguém, por conseqüência, pode
inculcar-se como seu profeta exclusivo; foi espalhada
simultaneamente por sobre a Terra, a milhões de pessoas, de
todas as idades e condições, desde a mais baixa até a mais
alta da escala, conforme esta predição registrada pelo autor
dos Atos dos Apóstolos: “Nos últimos tempos, disse o Senhor,
derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; os nossos filhos
e filhas profetizarão, os mancebos terão visões, e os velhos,
sonhos” (Atos, Cap.II,v.17,18).
Ela não proveio de nenhum culto especial, a fim de
servir um dia, a todos, de ponto de ligação.
O nosso papel pessoal, no grande movimento de idéias que
se prepara pelo Espiritismo, e que começa a operar-se, é o de
um observador atento, que estuda os fatos para lhes descobrir a
causa e tirar-lhes as conseqüências. Confrontamos todos
os que nos têm sido possível reunir, compararmos e comentarmos
as instruções dadas pelos Espíritos em todos os pontos do
globo e depois coordenarmos metodicamente o conjunto; em suma,
estudamos e demos ao público o fruto das nossas indagações,
sem atribuirmos aos nossos trabalhos valor maior do que o de uma
obra filosófica deduzida da observação e da experiência, sem
nunca nos considerarmos chefe da doutrina, nem procurarmos impor
as nossas idéias a quem quer que seja.
Publicando-as, usamos de um direito comum e aqueles que
as aceitaram o fizeram livremente.
Se essas idéias acharam numerosas simpatias, é porque
tiveram a vantagem de corresponder às aspirações de avultado
número de criaturas, mas disso não colhemos vaidade alguma,
dado que a sua origem não nos pertence.
O nosso maior mérito é a perseverança e a dedicação
à causa que abraçamos. Em tudo isso, fizemos o que outro qualquer poderia ter feito
como nós, razão pela qual nunca tivemos a pretensão de nos
julgarmos profeta ou messias, nem, ainda menos, de nos
apresentarmos como tal.
As
duas primeiras revelações, sendo fruto do ensino pessoal,
ficaram forçosamente localizadas, isto é, apareceram num só
ponto em torno do qual a idéia se propagou pouco a pouco; mas
foram precisos muitos séculos para que atingissem as
extremidades do mundo, sem mesmo o invadirem inteiramente.
A terceira tem isto de particular: não estando
personificada em um só indivíduo, surgiu simultaneamente em
milhares de pontos diferentes, que se tornaram centros ou focos
de irradiação. Multiplicando-se
esses centros, seus raios se reúnem pouco a pouco, como os círculos
formados por uma multidão de pedras lançadas na água, de tal
sorte que, em pouco tempo, acabarão por cobrir toda a superfície
do globo. Essa uma
das causas da rápida propagação da doutrina.
Se ela tivesse surgido num só ponto, se fosse obra
exclusiva de um homem, houvera formado seitas em torno dela, e
talvez decorresse meio século sem que ela atingisse os limites
do país onde começara, ao passo que, após dez anos, já
estende raízes de um pólo a outro.
A
terceira revelação, vinda numa época de emancipação e
madureza intelectual, em que a inteligência, já desenvolvida,
não se resigna a representar papel passivo; em que o homem nada
aceita às cegas, mas quer ver aonde o conduzem, quer saber o
porque e o como de cada coisa – tinha ela que ser ao mesmo
tempo o produto de um ensino e o fruto do trabalho, da pesquisa
e do livre exame. Os
Espíritos não ensinam senão justamente o que é mister para
guia-lo no caminho da verdade, mas abstém-se de revelar o que o
homem pode descobrir por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de
discutir, verificar e submeter tudo ao cadinho da razão,
deixando mesmo, muitas vezes, que adquira experiência à sua
custa. Fornecem-lhe
o princípio, os materiais; cabe-lhe aproveita-los e pô-los em
obra.
Além
disso, convém notar que em parte alguma o ensino Espírita foi
dado integralmente; ele diz respeito a tão grande número de
observações, a assuntos tão diferentes, exigindo
conhecimentos e aptidões mediúnicas especiais, que impossível
era acharem-se reunidas num mesmo ponto todas as condições
necessárias. Tendo
o ensino que ser coletivo e não individual, os Espíritos
dividiram o trabalho, disseminando os assuntos de estudo e
observação como, em algumas fábricas, a confecção de cada
parte de um mesmo objeto é repartida por diversos operários.
A
revelação fez-se assim parcialmente em diversos lugares e por
uma multidão de intermediários, e, é dessa maneira, que
prossegue ainda, pois que nem tudo foi revelado.
Cada centro encontra nos outros centros o complemento de
que obtém, e foi o conjunto, a coordenação de todos os
ensinos parciais que constituíram a Doutrina Espírita.
Era,
pois, necessário grupar os fatos espalhados, para se lhes
apreender a correlação, reunir os documentos diversos, as
instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos e
sobre todos os assuntos, para as comparar, analisar,
estudar-lhes as analogias e as diferenças.
Vindo as comunicações de Espíritos de todas as ordens,
mais ou menos esclarecidos, era preciso apreciar o grau de
confiança que a razão permitia conceder-lhes, distinguir as idéias
sistemáticas individuais ou isoladas das que tinham a sanção
do ensino geral dos Espíritos, as utopias das idéias práticas,
afastar as que eram notoriamente desmentidas pelos dados da ciência
positiva e da lógica, utilizar igualmente os erros, as informações
fornecidas pelos Espíritos, mesmo os da mais baixa categoria,
para conhecimento do estado do mundo invisível e formar com
isso um todo homogêneo.
Era
preciso, numa palavra, um centro de elaboração, independente
de qualquer idéia preconcebida, de todo prejuízo de seita,
resolvido a aceitar a verdade tornada evidente, embora contrária
às opiniões pessoais. Este centro se formou por si mesmo, pela força das coisas e
sem desígnio premeditado.
O
Livro dos Espíritos, a primeira obra que levou o Espiritismo a
ser considerado de um ponto de vista filosófico, pela dedução
das conseqüências morais dos fatos; que considerou todas as
partes da Doutrina, tocando nas questões mais importantes que
ela suscita, foi desde o seu aparecimento, o ponto onde
convergiram espontaneamente os trabalhos individuais. É notório que da publicação desse livro data a era do
Espiritismo filosófico, até então conservado no domínio das
experiências curiosas. Se
esse livro conquistou as simpatias da maioria, é que exprimia
os sentimentos dela, correspondia às suas aspirações e
encerrava também a confirmação e a explicação racional do
que cada um obtinha em particular.
Se estivesse em desacordo com o ensino geral dos Espíritos,
teria caído no descrédito e no esquecimento.
Ora, qual foi aquele ponto de convergência?
Decerto não foi o homem, que nada vale por si mesmo, que
morre e desaparece; mas, a idéia, que não fenece quando emana
de uma fonte superior ao homem.
Essa
espontânea concentração de forças dispersas deu lugar a uma
amplíssima correspondência, monumento único no mundo, quadro
vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se
refletem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos
que a Doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações,
os desfalecimentos, arquivos preciosos para a posteridade, que
poderá julgar os homens e as coisas através de documentos autênticos.
Em presença desses testemunhos inexpugnáveis, a que se
reduzirão, com o tempo, todas as falsas alegações da inveja e
do ciúme?
Nenhuma
ciência existe que haja saído prontinha do cérebro de um
homem. Todas, sem
exceção de nenhuma, são fruto de observações sucessivas,
apoiadas em observações precedentes, como em um ponto
conhecido, para chegar ao desconhecido.
Foi assim que os Espíritos procederam, com relação ao
Espiritismo. Daí o
ser gradativo o ensino que ministram.
Eles não enfrentam as questões, senão à medida que os
princípios sobre que hajam de apoiar-se estejam suficientemente
elaborados e amadurecida bastante a opinião para os assimilar.
É mesmo de notar-se que, de todas as vezes que os
centros particulares tem querido tratar de questões prematuras,
não obtiveram mais do que respostas contraditórias.
Quando, ao contrário, chega o momento oportuno, o ensino
se generaliza e se unifica na quase universalidade dos centros.
Há,
todavia, capital diferença entre a marcha do Espiritismo e a
das ciências; a de que estas não atingiram o ponto que alcançaram,
senão após longos intervalos, ao passo que alguns anos
bastaram ao Espiritismo, quando não a galgar o ponto
culminante, pelo menos a recolher uma soma de informações bem
grande para formar uma doutrina.
Decorre esse fato de ser inumerável a multidão de Espíritos
que, por vontade de Deus, se manifestaram simultaneamente,
trazendo cada um o contingente de seus conhecimentos.
Resultou daí que todas as partes da Doutrina, em vez de
serem elaboradas sucessivamente durante longos anos, o foram
quase ao mesmo tempo, em alguns anos apenas, e que bastou
reuni-las para que estruturassem um todo.
Quis
Deus fosse assim, primeiro, para que o edifício mais
rapidamente chegasse ao ápice; em seguida, para que se pudesse,
por meio da comparação, conseguir uma verificação, a bem
dizer imediata e permanente, da universalidade do ensino,
nenhuma de suas partes tendo valor, nem autoridade, a não ser
pela sua conexão com o conjunto, devendo todos harmonizar-se,
colocado cada um no devido lugar e vindo cada
uma na hora oportuna.
Não
confiando a um único Espírito o encargo de promulgar a
Doutrina, quis Deus, também, que, assim o mais pequenino, como
o maior, tanto entre os Espíritos, quanto entre os homens,
trouxesse sua pedra para o edifício, a fim de estabelecer entre
eles um laço de solidariedade cooperativa, que faltou a todas
as doutrinas decorrentes de um tronco único.
Por
outro lado, dispondo todo Espírito, como todo homem, apenas de
limitada soma de conhecimentos, não estavam eles aptos,
individualmente, a tratar ex-professo das inúmeras questões
que o Espiritismo envolve. Essa ainda uma razão porque, em cumprimento dos desígnios
do Criador, não podia a Doutrina ser obra nem de um só Espírito,
nem de um só médium. Tinha
que emergir da coletividade dos trabalhos, comprovados uns pelos
outros.
Um
último caráter da revelação Espírita, a ressaltar das condições
mesmas em que ela se produz, é que, apoiando-se em fatos, tem
que ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva,
como todas as ciências de observação.
Pela sua substância, alia-se à Ciência que, sendo a
exposição das leis da natureza, com relação a certa ordem de
fatos, não pode ser contrária às leis de Deus, autor daquelas
leis. As
descobertas que a Ciência realiza, longe de o rebaixarem,
glorificam a Deus; unicamente destroem o que os homens
edificaram sobre as falsas idéias que formaram de Deus.
O
Espiritismo, pois, não estabelece como princípio absoluto senão
o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta
logicamente da observação.
Entendendo com todos ao ramos da economia social, aos
quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará
sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que
sejam, desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e
abandonado o domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria.
Deixando de ser o que é, mentiria à sua origem e ao seu
fim providencial. Caminhando
de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado,
porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro
acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto.
Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.
(Diante
de declarações tão nítidas e categóricas, quais as que se
contém neste capítulo, caem por terra todas as alegações de
tendências ao absolutismo e à autocracia dos princípios, bem
como todas as falsas assimilações que algumas pessoas
prevenidas ou mal informadas emprestam à Doutrina.
Não são novas, aliás, estas declarações, temo-las
repetido muitíssimas vezes nos nossos escritos, para que
nenhuma dúvida persista a tal respeito.
Elas, ao demais, assinalam o verdadeiro papel que nos
cabe, único que ambicionamos: o de mero trabalhador).
A
Gênese
Allan Kardec
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