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Allan Kardec – “O
Livro dos Médiuns” – Capítulo XXXI, item XXI,
Meus amigos quereis formar uma reunião espírita, e eu vos
aprovo, porque os Espíritos não podem ver com prazer os médiuns
que ficam no isolamento. Deus não lhes deu essa sublime
faculdade só para eles, mas para o bem geral. Comunicando-se com
outros, têm mil ocasiões de se esclarecerem sobre o mérito das
comunicações que recebem, ao passo que, sozinhos, estão bem mais
sob o império dos Espíritos mentirosos, encantados por não terem
nenhum controle. Eis aí para vós, e se não estais dominados pelo
orgulho, compreendê-lo-eis e aproveitareis. Eis agora para os
outros.
Tendes bem em
conta do que deve ser uma reunião espírita? Não; porque, no
vosso zelo, credes que o que há de melhor a fazer é reunir o
maior número de pessoas, a fim de convencê-los. Desiludi-vos;
quanto menos fordes, mais obtereis. É sobretudo pelo ascendente
moral que exercerdes, que conduzireis a vós os incrédulos, bem
mais do que pelos fenômenos que obtiverdes; se não atraís senão
pelos fenômenos, virão vos ver por curiosidade, e encontrareis
curiosos que não vos acreditarão e que rirão de vós; se não se
encontram entre vós senão pessoas dignas de estima, talvez não
crerão em vós imediatamente, mas se vos respeitarão, e o
respeito inspira sempre a confiança. Estais convencidos de que o
Espiritismo deve trazer uma reforma moral; que a vossa reunião
seja, pois, a primeira a dar o exemplo das virtudes cristãs,
porque nestes tempos de egoísmo, é nas sociedades espíritas que
a verdadeira caridade deve encontrar refúgio. Tal deve ser, meus
amigos, uma reunião de verdadeiros espíritas. De uma outra vez,
dar-vos-ei outros conselhos.
Fénelon.
Práticas Estranhas
Muitos
companheiros, sob a alegação de que todas as religiões são boas
e respeitáveis, julgam que as tarefas espíritas nada perdem por
aceitar a enxertia de práticas estranhas à simplicidade que lhes
vige na base, lisonjeando indebitamente situações e
personalidades humanas, supostas capazes de beneficiar as
construções doutrinárias do Espiritismo.
No entanto,
examinemos, sem parcialidade, a expressão contraditória de
semelhante atitude, analisando-a, na lógica da vida.
Criaturas de todas
as plagas do Universo são filhas do Criador e chegarão, um dia,
à perfeição integral. Mas, no passo evolutivo em que nos achamos
não nos é lícito estar com todas, conquanto respeitemos a todas,
de vez que inúmeras se encontram em experiências diametralmente
opostas aos objetivos que nos propomos alcançar.
Não existem
caminhos que não sejam viáveis e todos podem conduzir a
determinado ponto do mundo. Contudo, somente os viajores
irresponsáveis escolherão perlustrar atalhos perigosos e
desfiladeiros obscuros, espinheiros e charcos, no dédalo de
aventuras marginais, ao longo da estrada justa.
Indiscriminadamente, os produtos expostos num mercado são úteis.
Mas, sob a desculpa do acatamento que se deve a todos, não nos
cabe comer de tudo, sem a mínima noção de higiene e sem qualquer
consideração para com a própria saúde.
Águas de qualquer
procedência liquidam a sede. No entanto, com a desculpa de que
todas são valiosas, não é aconselhável se beba qualquer uma, sem
qualquer preocupação de limpeza, a menos que a pessoa esteja nas
vascas da sofreguidão, ameaçada de morte pelo deserto.
Sabemos que a
legislação humana obtida à custa de sofrimento estabelece a
segregação dos irmãos delinqüentes para o trabalho reeducativo;
sustenta a policia rodoviária para garantir a ordem da passagem
correta; mantém fiscalização adequada para o devido asseio nos
recursos destinados à alimentação pública e cria agentes de
filtragem para que as fontes não se façam veículos de endemias e
outras calamidades que arrasariam populações indefesas.
Reflitamos nisso e
compreenderemos que assegurar a simplicidade dos princípios
espíritas, nas casas doutrinárias, para que as suas atividades
atinjam a meta da libertação espiritual da Humanidade não é
fanatismo e nem rigorismo de espécie alguma, porquanto, agir de
outro modo seria o mesmo que devolver um mapa luminoso ao
labirinto das sombras, após séculos de esforço e sacrifício para
obtê-lo, como se também, a pretexto de fraternidade, fôssemos
obrigados a desertar do lar para residir nas penitenciárias; a
deixar o caminho certo para seguir pelo cipoal; a largar o prato
saudável para ingerir a refeição deteriorada e desprezar a água
potável para líquidos de salubridade suspeita.
Em Doutrina
Espírita, pois, seja compreensível afirmar que é certo respeitar
tudo e beneficiar sem complicar a cada um de nossos irmãos, onde
quer que se encontrem, mas não podemos aceitar tudo e nem
abraçar tudo, a fim de podermos estar certos.
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