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A Carne é
Fraca. - Princípios da Doutrina Espírita Sobre as Penas Futuras.
- Código Penal da Vida Futura.
A Carne é
Fraca
Há
tendências viciosas que são evidentemente próprias do Espírito,
porque se apegam mais ao moral do que ao físico; outras, parecem
antes dependentes do organismo, e, por esse motivo, menos
responsáveis são julgados os que as possuem: consideram-se como
tais as disposições à cólera, à preguiça, à sensualidade, etc.
Hoje, está
plenamente reconhecido pelos filósofos espiritualistas que os
órgãos cerebrais correspondentes a diversas aptidões devem o seu
desenvolvimento à atividade do Espírito. Assim, esse
desenvolvimento é um efeito e não uma causa. Um homem não é
músico porque tenha a bossa da música, mas possui essa tendência
porque o seu Espírito é musical. Se a atividade do Espírito
reage sobre o cérebro, deve também reagir sobre as outras partes
do organismo.
O Espírito
é, deste modo, o artista do próprio corpo, por ele talhado, por
assim dizer, à feição das suas necessidades e à manifestação das
suas tendências.
Desta forma
a perfeição corporal das raças adiantadas deixa de ser produto
de criações distintas para ser o resultado do trabalho
espiritual, que aperfeiçoa o invólucro material à medida que as
faculdades aumentam.
Por uma
conseqüência natural deste principio, as disposições morais do
Espírito devem modificar as qualidades do sangue, dar-lhe maior
ou menor atividade, provocar uma secreção mais ou menos
abundante de bílis ou de quaisquer outros fluidos. É assim, por
exemplo, que ao glutão enche-se-lhe a boca de saliva diante dum
prato apetitoso.
Certo é que
a iguaria não pode excitar o órgão do paladar, uma vez que com
ele não tem contacto; é, pois, o Espírito, cuja sensibilidade é
despertada, que atua sobre aquele órgão pelo pensamento,
enquanto que outra pessoa permanecerá indiferente à vista do
mesmo acepipe. É ainda por este motivo que a pessoa sensível
facilmente verte lágrimas. Não é, porém, a abundância destas que
dá sensibilidade ao Espírito, mas precisamente a sensibilidade
deste que provoca a secreção abundante das lágrimas.
Sob o
império da sensibilidade, o organismo condiciona-se (1) à
disposição normal do Espírito, do mesmo modo por que se
condiciona à disposição do Espírito glutão.
Seguindo
esta ordem de idéias, compreende-se que um Espírito irascível
deve encaminhar-se para estimular um temperamento bilioso, do
que resulta não ser um homem colérico por bilioso, mas bilioso
por colérico. O mesmo se dá em relação a todas as outras
disposições instintivas: um Espírito indolente e fraco deixará o
organismo em estado de atonia relativo ao seu caráter, ao passo
que, ativo e enérgico, dará ao sangue como aos nervos qualidades
perfeitamente opostas. A ação do Espírito sobre o físico é tão
evidente que não raro vemos graves desordens orgânicas
sobrevirem a violentas comoções morais.
A expressão
vulgar: - A emoção transtornou-lhe o sangue - não é tão
destituída de sentido quanto se pode-ria supor. Ora, que poderia
transtornar o sangue senão as disposições morais do Espírito?
(1) O autor escreveu s'est
approprié (p. 93, 4ª edição, Paris, 1869), à falta, na época, de
verbo mais específico à perfeita tradução da idéia. Nota da
Editora (FEB), em 1973.
Pode admitir-se por conseguinte, ao menos em parte, que o
temperamento é determinado pela natureza do Espírito, que é
causa e não efeito.
E nós
dizemos em parte, porque há casos em que o físico influi
evidentemente sobre o moral, tais como quando um estado mórbido
ou anormal é determinado por causa externa, acidental,
independente do Espírito, como sejam a temperatura, o clima, os
defeitos físicos congênitos, uma doença passageira, etc.
O moral do
Espírito pode, nesses casos, ser afetado em suas manifestações
pelo estado patológico, sem que a sua natureza intrínseca seja
modificada. Escusar-se de seus erros por fraqueza da carne não
passa de sofisma para escapar a responsabilidades.
A carne só é
fraca porque o Espírito é fraco, o que inverte a questão
deixando àquele a responsabilidade de todos os seus atos. A
carne, destituída de pensamento e vontade, não pode prevalecer
jamais sobre o Espírito, que é o ser pensante e de vontade
própria.
O Espírito é
quem dá à carne as qualidades correspondentes ao seu instinto,
tal como o artista que imprime à obra material o cunho do seu
gênio. Libertado dos instintos da bestialidade, elabora um corpo
que não é mais um tirano de sua aspiração, para espiritualidade
do seu ser, e é quando o homem passa a comer para viver e não
mais vive para comer.
A
responsabilidade moral dos atos da vida fica, portanto, intacta;
mas a razão nos diz que as conseqüências dessa responsabilidade
devem ser proporcionais ao desenvolvimento intelectual do
Espírito. Assim, quanto mais esclarecido for este, menos
desculpável se torna, uma vez que com a inteligência e o senso
moral nascem as noções do bem e do mal, do justo e do injusto.
Esta lei
explica o insucesso da Medicina em certos casos. Desde que o
temperamento é um efeito e não uma causa, todo o esforço para
modificá-lo se nulificante as disposições morais do Espírito,
opondo-lhe uma resistência inconsciente que neutraliza a ação
terapêutica. Por conseguinte, sobre a causa primordial é que se
deve atuar.
Dai, se
puderdes, coragem ao poltrão, e vereis para logo cessados os
efeitos fisiológicos do medo. Isto prova ainda uma vez a
necessidade, para a arte de curar, de levar em conta a
influência espiritual sobre os organismos. (Revue Spirite, março
de 1869, pág. 65.)
Princípios da
Doutrina Espírita Sobre as Penas Futuras
A Doutrina
Espírita, no que respeita às penas futuras, não se baseia numa
teoria preconcebida; não é um sistema substituindo outro
sistema: em tudo ela se apóia nas observações, e são estas que
lhe dão plena autoridade. Ninguém jamais imaginou que as almas,
depois da morte, se encontrariam em tais ou quais condições; são
elas, essas mesmas almas, partidas da Terra, que nos vêm hoje
iniciar nos mistérios da vida futura, descrever-nos sua situação
feliz ou desgraçada, as impressões, a transformação pela morte
do corpo, completando, em uma palavra, os ensinamentos do Cristo
sobre este ponto.
Preciso é
afirmar que se não trata neste caso das revelações de um só
Espírito, o qual poderia ver as coisas do seu ponto de vista,
sob um só aspecto, ainda dominado por terrenos prejuízos.
Tampouco se trata de uma revelação feita exclusivamente a um
indivíduo que pudesse deixar-se levar pelas aparências, ou de
uma visão extática suscetível de ilusões, e não passando muitas
vezes de reflexo de uma imaginação exaltada. (2)
Trata-se, sim, de
inúmeros exemplos fornecidos por Espíritos de todas as
categorias, desde os mais elevados aos mais inferiores da
escala, por intermédio de outros tantos auxiliares (médiuns)
disseminados pelo mundo, de sorte que a revelação deixa de ser
privilégio de alguém, pois todos podem prová-la, observando-a,
sem obrigar-se à crença pela crença de outrem.
(12) Vede cap.
VI, nº 7, e O Livro dos Espíritos nºs 443 e 444.
Código Penal da
Vida Futura
O
Espiritismo não vem, pois, com sua autoridade privada, formular
um código de fantasia; a sua lei, no que respeita ao futuro da
alma, deduzida das observações do fato, pode resumir-se nos
seguintes pontos:
1º - A alma
ou Espírito sofre na vida espiritual as conseqüências de todas
as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O
seu estado, feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de
pureza ou impureza.
2º A
completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação
completa do Espírito. Toda imperfeição é, por sua vez, causa de
sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda
perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimentos.
3º - Não há
uma única imperfeição da alma que não importe funestas e
inevitáveis conseqüências, como não há uma só qualidade boa que
não seja fonte de um gozo.
A soma das
penas é, assim, proporcionada à soma das imperfeições, como a
dos gozos à das qualidades.
A alma que
tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que a que tem
três ou quatro; e quando dessas dez imperfeições não lhe restar
mais que metade ou um quarto, menos sofrerá.
De todo
extintas, então a alma será perfeitamente feliz. Também na
Terra, quem tem muitas moléstias, sofre mais do que quem tenha
apenas uma ou nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui dez
perfeições, tem mais gozos do que outra menos rica de boas
qualidades.
4º - Em
virtude da lei do progresso que dá a toda alma a possibilidade
de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem
de mau, conforme o esforço e vontade próprios, temos que o
futuro é aberto a todas as criaturas. Deus não repudia nenhum de
seus filhos, antes recebe-os em seu seio à medida que atingem a
perfeição, deixando a cada qual o mérito das suas obras.
5º -
Dependendo o sofrimento da imperfeição, como o gozo da
perfeição, a
alma traz consigo o próprio castigo ou prêmio, onde quer que se
encontre, sem necessidade de lugar circunscrito.
O inferno
está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o céu
igualmente onde houver almas felizes.
6º - O bem e
o mal que fazemos decorrem das qualidades que possuímos. Não
fazer o bem quando podemos e, portanto, o resultado de uma
imperfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento, o
Espírito deve sofrer não somente pelo mal que fez como pelo bem
que deixou de fazer na vida terrestre.
7º - O
Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua
atenção constantemente dirigida para as conseqüências desse mal,
melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se.
8º - Sendo
infinita a justiça de Deus, o bem e o mal são rigorosamente
considerados, não havendo uma só ação, um só pensamento mau que
não tenha conseqüências fatais, como não na uma única ação
meritória. um só bom movimento da alma que se perca, mesmo para
os mais perversos, por isso que constituem tais ações um começo
de progresso.
9º - Toda
falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que
deverá ser paga; se o não for em urna existência, sê-lo-á na
seguinte ou seguintes, porque todas as existências são
solidárias entre si. Aquele que se quita numa existência não
terá necessidade de pagar segunda vez.
10º - O
Espírito sofre, quer no mundo corporal, quer no espiritual, a
conseqüência das suas imperfeições. As misérias, as vicissitudes
padecidas na vida corpórea, são oriundas das nossas
imperfeições, são expiações de faltas cometidas na presente ou
em precedentes existências.
Pela
natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea, pode
julgar-se a natureza das faltas cometidas em anterior
existência, e das imperfeições que as originaram.
11º - A
expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta, podendo,
portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme
as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, em que for
cometida.
12º - Não há
regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração do
castigo: - a única lei geral é que toda falta terá punição, e
terá recompensa todo ato meritório, segundo o seu valor.
13º - A
duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado.
Nenhuma
condenação por tempo determinado lhe é prescrita. O que Deus
exige por termo de sofrimentos é um melhoramento sério, efetivo,
sincero, de volta ao bem.
Deste modo o
Espírito é sempre o árbitro da própria sorte, podendo prolongar
os sofrimentos pela pertinácia no mal, ou suavizá-los e
anulá-los pela prática do bem.
Uma
condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente
de
continuar o martírio do Espírito renegado, ou de libertá-lo do
sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é
justo, só pune o mal enquanto existe, e deixa de o punir quando
não existe mais (3); por outra, o mal moral, sendo por si mesmo
causa de sofrimento, fará este durar enquanto subsistir aquele,
ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça.
14º -
Dependendo da melhoria do Espírito a duração do castigo, o
culpado que jamais melhorasse sofreria sempre, e, para ele, a
pena seria eterna.
15º - Uma
condição inerente à inferioridade dos Espíritos é não lobrigarem
o termo da provação, acreditando-a eterna, como eterno lhes
parece deva ser um tal castigo. (4)
16º - O
arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a
regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a
reparação.
Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as
três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e
suas conseqüências. O arrependimento suaviza os travos da
expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a
reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa.
Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.
17º - O
arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo;
se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo.
Até que os
últimos vestígios da falta desapareçam, a expiação consiste nos
sofrimentos físicos e morais que lhe são conseqüentes, seja na
vida atual, seja na vida espiritual após a morte, ou ainda em
nova existência corporal.
A reparação
consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal.
Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou
má-vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contacto com
as mesmas pessoas que de si tiverem queixas, e em condições
voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes
reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha
feito. Nem todas as faltas acarretam prejuízo direto e efetivo;
em tais casos a reparação se opera, fazendo-se o que se deveria
fazer e foi descurado; cumprindo os deveres desprezados, as
missões não preenchidas; praticando o bem em compensação ao mal
praticado, isto é, tornando-se humilde se se tem sido orgulhoso,
amável se se foi austero, caridoso se se tem sido egoísta,
benigno se se tem sido perverso, laborioso se se tem sido
ocioso, útil se se tem sido inútil, frugal se se tem sido
intemperante, trocando em suma por bons os maus exemplos
perpetrados. E desse modo progride o Espírito, aproveitando-se
do próprio passado. (5)
(3) Vede
cap. VI, nº 25, citação de Ezequiel.
(4) Perpétuo é
sinônimo de eterno. Diz-se o limite das neves perpétuas; o
eterno gelo dos pólos; também se diz o secretário perpétuo da
Academia, o que não significa que o seja ad perpetuam, mas
unicamente por tempo ilimitado. Eterno e perpétuo se empregam,
pois, no sentido de indeterminado. Nesta acepção pode dizer-se
que as penas são eternas, para exprimir que não têm duração
limitada; eternas, portanto, para o Espírito que lhes não vê o
termo.
(5) A
necessidade da reparação é um princípio de rigorosa justiça. que
se pode considerar verdadeira lei de reabilitação morai dos
Espíritos. Entretanto, essa doutrina religião alguma ainda a
proclamou. Algumas pessoas repelem-na porque acham mais cômodo o
poder quitarem-se das más ações por um simples arrependimento,
que não custa mais que palavras, por meio de algumas fórmulas;
contudo, crendo-se, assim, quites, verão mais tarde se isso lhes
bastava. Nós poderíamos perguntar se esse principio não é
consagrado pela lei humana, e se a justiça divina pode ser
inferior à dos homens? E mais, se essas leis se dariam por
desafrontadas desde que o indivíduo que as transgredisse, por
abuso de confiança, se limitasse a dizer que as respeita
infinitamente.
Por que hão de
vacilar tais pessoas perante uma obrigação que todo homem
honesto se impõe como dever, segundo o grau de suas forças?
Quando esta perspectiva de reparação for inculcada na crença das
massas, será um outro freio aos seus desmandos, e bem mais
poderoso que o inferno e respectivas penas eternas, visto como
interessa a vida em sua plena atualidade, podendo o homem
compreender a procedência das circunstãncias que a tornam
penosa, ou a sua verdadeira situação.
18º - Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes,
cuja harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a
expiarem as suas faltas pelas tribulações da vida, e
purificando-se das suas imperfeições até que mereçam a
encarnação em mundos mais elevados, mais adiantados moral e
fisicamente. Se se pode conceber um lugar circunscrito de
castigo, tal lugar é, sem dúvida, nesses mundos de expiação, em
torno dos quais pululam Espíritos imperfeitos, desencarnados à
espera de novas existências que lhes permitam reparar o mal,
auxiliando-os no progresso.
19º - Como o
Espírito tem sempre o livre-arbítrio, o progresso por vezes se
lhe torna lento, e tenaz a sua obstinação no mal. Nesse
estado pode persistir anos e séculos, vindo por fim um momento
em que a sua contumácia se modifica pelo sofrimento, e, a
despeito da sua jactância, reconhece o poder superior que o
domina.
Então, desde
que se manifestam os primeiros vislumbres de arrependimento,
Deus lhe faz entrever a esperança. Nem há Espírito incapaz de
nunca progredir, votado a eterna inferioridade, o que seria a
negação da lei de progresso, que providencialmente rege todas as
criaturas.
20º -
Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos
Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo de guarda
(guia) que por eles vela, na persuasão de suscitar-lhes bons
pensamentos, desejos de progredir e, bem assim, de
espreitar-lhes os movimentos da alma, com o que se esforçam por
reparar em uma nova existência o mal que praticaram. Contudo,
essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de
modo a não haver pressão, pois que o Espírito deve progredir por
impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição.
O bem e o
mal são praticados em virtude do livre-arbítrio, e,
conseguintemente, sem que o Espírito seja fatalmente impelido
para um ou outro sentido.
Persistindo
no mal, sofrerá as conseqüências por tanto tempo quanto durar a
persistência, do mesmo modo que, dando um passo para o bem,
sente imediatamente benéficos efeitos.
OBSERVAÇÃO -
Erro seria supor que, por efeito da lei de progresso, a certeza
de atingir cedo ou tarde a perfeição e a felicidade pode
estimular a perseverança no mal, sob a condição do ulterior
arrependimento: primeiro porque o Espírito inferior não se
apercebe do termo da sua situação; e segundo porque, sendo ele o
autor da própria infelicidade, acaba por compreender que de si
depende o fazê-la cessar; que por tanto tempo quanto perseverar
no mal será infeliz; finalmente, que o sofrimento será intérmino
se ele próprio não lhe der fim. Seria, pois, um cálculo
negativo, cujas conseqüências o Espírito seria o primeiro a
reconhecer. Com o dogma das penas irremissíveis é que se
verifica, precisamente, tal hipótese, visto como é para sempre
interdita qualquer idéia de esperança, não tendo pois o homem
interesse em converter-se ao bem, para ele sem proveito.
Diante dessa
lei, cai também a objeção extraída da presciência divina, pois
Deus, criando uma alma, sabe efetivamente se, em virtude do seu
livre-arbítrio, ela tomará a boa ou a má estrada; sabe que ela
será punida se fizer o mal; mas sabe também que tal castigo
temporário é um meio de fazê-la compreender o erro, cedo ou
tarde entrando no bom caminho. Pela doutrina das penas eternas
conclui-se que Deus sabe que essa alma falirá e, portanto, que
está previamente condenada a torturas infinitas.
21º - A
responsabilidade das faltas é toda pessoal, ninguém sofre por
erros alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os
pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo.
Assim, o
suicida é sempre punido; mas aquele que por maldade impele outro
a cometê-lo, esse sofre ainda maior pena.
22º -
Conquanto infinita a diversidade de punições, algumas há
inerentes à
inferioridade dos Espíritos, e cujas conseqüências, salvo
pormenores, são pouco mais ou menos idênticas.
A punição
mais imediata, sobretudo entre os que se acham ligados à vida
material em detrimento do progresso espiritual, faz-se sentir
pela lentidão do desprendimento da alma; nas angústias que
acompanham a morte e o despertar na outra vida, na conseqüente
perturbação que pode dilatar-se por meses e anos.
Naqueles
que, ao contrário, têm pura a consciência e na vida material já
se acham identificados com a vida espiritual, o trespasse é
rápido, sem abalos, quase nula a turbação de um pacífico
despertar.
23º - Um
fenômeno mui freqüente entre os Espíritos de certa inferioridade
moral é o acreditarem-se ainda vivos, podendo esta ilusão
prolongar-se por muitos anos, durante os quais eles
experimentarão todas as necessidades, todos os tormentos e
perplexidades da vida.
24º - Para o
criminoso, a presença incessante das vitimas e das
circunstâncias do crime é um suplício cruel.
25º -
Espíritos há mergulhados em densa treva; outros se encontram em
absoluto insulamento no Espaço, atormentados pela ignorância da
própria posição, como da sorte que os aguarda. Os mais culpados
padecem torturas muito mais pungentes por não lhes entreverem um
termo.
Alguns são
privados de ver os seres queridos, e todos, geralmente, passam
com intensidade relativa pelos males, pelas dores e privações
que a outrem
ocasionaram. Esta situação perdura até que o desejo de reparação
pelo arrependimento lhes traga a calma para entrever a
possibilidade de, por eles mesmos, pôr um termo à sua situação.
26º - Para o
orgulhoso relegado às classes inferiores. é suplício ver acima
dele colocados, cheios de glória e bem-estar, os que na Terra
desprezara. O hipócrita vê desvendados, penetrados e lidos por
todo o mundo os seus mais secretos pensamentos, sem que os possa
ocultar ou dissimular; o sátiro, na impotência de os saciar, tem
na exaltação dos bestiais desejos o mais atroz tormento; vê o
avaro o esbanjamento inevitável do seu tesouro,
enquanto que o egoísta, desamparado de todos, sofre as
conseqüências da sua atitude terrena; nem a sede nem a fome lhe
serão mitigadas, nem amigas mãos se lhe estenderão às suas mãos
súplices; e pois que em vida só de si cuidara, ninguém dele se
compadecerá na morte.
27º - O
único meio de evitar ou atenuar as conseqüências futuras de uma
falta, está no repará-la, desfazendo-a no presente. Quanto mais
nos demorarmos na reparação de uma falta, tanto mais penosas e
rigorosas serão, no futuro, as suas conseqüências.
28º - A
situação do Espírito, no mundo espiritual, não é outra senão a
por si mesmo preparada na vida corpórea.
Mais tarde,
outra encarnação se lhe faculta para novas provas de expiação e
reparação, com maior ou menor proveito, dependentes do seu
livre-arbítrio; e se ele não se corrige, terá sempre uma missão
a recomeçar, sempre e sempre mais acerba, de sorte que pode
dizer-se que aquele que muito sofre na Terra, muito tinha a
expiar; e os que gozam uma felicidade aparente, em que pesem aos
seus vícios e inutilidades, pagá-la-ão mui caro em ulterior
existência. Nesse sentido foi que Jesus disse: - "Bemaventurados
os aflitos, porque serão consolados," (O Evangelho segundo o
Espiritismo, cap. V.)
29º - Certo,
a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega. O culpado que
ela atinge não fica exonerado, e, enquanto não houver satisfeito
à justiça, sofre a consequência dos seus erros. Por infinita
misericórdia, devemos ter que Deus não é inexorável, deixando
sempre viável o caminho da redenção.
30º -
Subordinadas ao arrependimento e reparação dependentes da
vontade humana, as penas, por temporárias, constituem
concomitantemente castigos e remédios auxiliares à cura do mal.
Os Espíritos, em prova, não são, pois, quais galés por certo
tempo condenados, mas como doentes de hospital sofrendo de
moléstias resultantes da própria incúria, a compadecerem-se com
meios curativos mais ou menos dolorosos que a moléstia reclama,
esperando alta tanto mais pronta quanto mais estritamente
observadas as prescrições do solícito médico assistente. Se os
doentes, pelo próprio descuido de si mesmos, prolongam a
enfermidade, o médico nada tem que ver com isso.
31º - As
penas que o Espírito experimenta na vida espiritual ajuntam-se
as da vida corpórea, que são conseqüentes às imperfeições do
homem, às suas paixões, ao mau uso das suas faculdades e à
expiação de presentes e passadas faltas. z na vida corpórea que
o Espírito repara o mal de anteriores existências, pondo em
prática resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam
as misérias e vicissitudes mundanas que, à primeira vista,
parecem não ter razão de ser. Justas são elas, no entanto, como
espólio do passado - herança que serve à nossa romagem para a
perfectibilidade. (6)
32º - Deus,
diz-se, não daria prova maior de amor às suas criaturas,
criando-as infalíveis e, por conseguinte, isentas dos vícios
inerentes à imperfeição? Para tanto fora preciso que Ele criasse
seres perfeitos, nada mais tendo a adquirir, quer em
conhecimentos, quer em moralidade. Certo, porém, Deus poderia
fazê-lo, e se o não fez é que em sua sabedoria quis que o
progresso constituísse lei geral. Os homens são imperfeitos, e,
como tais, sujeitos a vicissitudes mais ou menos penosas. E pois
que o fato existe, devemos aceitá-lo.
Inferir dele que
Deus não é bom nem justo, fora insensata revolta contra a lei.
injustiça haveria, sim, na criação de seres privilegiados, mais
ou menos favorecidos, fruindo gozos que outros porventura não
atingem senão pelo trabalho, ou que jamais pudessem atingir. Ao
contrário, a justiça divina patenteia-se na igualdade absoluta
que preside à criação dos Espíritos; todos têm o mesmo ponto de
partida e nenhum se distingue em sua formação por melhor
aquinhoado; nenhum cuja marcha progressiva se facilite por
exceção: os que chegam ao fim, têm passado, como quaisquer
outros, pelas fases de inferioridade e respectivas provas.
(6) Vede 1ª'
Parte, cap. V, "O purgatório", nº 3 e seguintes; e, após, 2ª
Parte, cap. VIII, "Expiações terrestres". Vede, também, O
Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, "Bem-aventurados os
aflitos".
Isto posto, nada mais justo que a liberdade de ação a cada qual
concedida. O caminho da felicidade a todos se abre amplo, como a
todos as mesmas condições para atingi-la. A lei, gravada em
todas as consciências, a todos é ensinada. Deus fez da
felicidade o prêmio do trabalho e não do favoritismo, para que
cada qual tivesse seu mérito.
Todos somos
livres no trabalho do próprio progresso, e o que muito e
depressa trabalha, mais cedo recebe a recompensa. O romeiro que
se desgarra, ou em caminho perde tempo, retarda a marcha e não
pode queixar-se senão de si mesmo.
O bem como o
mal são voluntários e facultativos: livre, o homem não é
fatalmente impelido para um nem para outro.
33º - Em que
pese à diversidade de gêneros e graus de sofrimentos dos
Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode
resumir-se nestes três princípios:
1º - O
sofrimento é inerente à imperfeição.
2º - Toda
imperfeição, assim como toda falta dela promanada, traz consigo
o próprio castigo nas conseqüências naturais e inevitáveis:
assim, a moléstia pune os excessos e da ociosidade nasce o
tédio, sem que haja mister de uma condenação especial para cada
falta ou indivíduo.
3º - Podendo
todo homem libertar-se das imperfeições por efeito da vontade,
pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a
futura felicidade.
A cada um
segundo as suas obras, no Céu como na Terra: - tal é a lei da
Justiça Divina.
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