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- Alguma outra coisa incumbe aos Espíritos fazer, que não
seja melhorarem-se pessoalmente?
- Concorrem para a harmonia do Universo, executando as vontades
de Deus, cujos ministros eles são. A vida espírita é uma
ocupação contínua, mas que nada tem de penosa, como a vida na
Terra, porque não há a fadiga corporal, nem as angústias das
necessidades.
O Livro dos Espíritos – Questão 558.
O Que Camões Pediria
Desde priscas
eras, sempre que cogitou da imortalidade o Homem imaginou a
morte como um tribunal onde seria julgado por seus atos,
habilitando-se a tormentos ou bem-aventuranças, de conformidade
com o bem ou o mal que houvesse prevalecido em seu
comportamento.
Na Idade Média
incrustou-se no pensamento cristão a doutrina das penas eternas.
O indivíduo que morresse em estado de pecado, comprometido com o
erro, iria irremediavelmente para o inferno, uma penitenciária
do além, diante da qual as piores da Terra pareceriam aprazíveis
recantos de paz.
Ali, além do
confinamento irremissível, a presença terrível dos demônios,
sádicos carcereiros a exercitar incansavelmente o prazer de
atormentar os condenados.
A justificativa
para esse comportamento exprime um monumental erro teológico. O
demônio, criado para o Bem como todos os filhos de Deus,
rebelou-se, organizando o império do mal. Os súditos seriam as
almas dos mortos, infelizes Espíritos renegados pelo Criador,
por aceitarem suas insidiosas sugestões.
Que teria sido
feito da onipotência divina, incapaz de reconduzir o demônio ao
Bem ou de evitar que comprometesse suas vítimas com o mal?
Onde a justiça num
castigo sem remissão?
Onde a
misericórdia nessa história de horror eterno?
Como conceber o
amor divino incapaz de descerrar as portas do inferno?
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Por outro lado, os
que morressem em estado de graça, reconciliados com Deus pelo
cultivo da fé e a aceitação dos sacramentos, iriam para um
paraíso celeste, desfrutando de beatífico descanso eterno. Ali a
realização do sonho supremo dos indolentes: férias para sempre.
Uma demonstração
perfeita de como essa idéia estava impregnada no pensamento
cristão, refletindo-se na arte medieval, está no famoso Soneto
XIX, de Camões:
Alma minha gentil,
que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no céu, eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento
etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que
pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;
Roga a Deus, que
teus anos encurtou,
Que tão cedo daqui me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
O Espiritismo
desfaz essas fantasias.
Embora possamos
situar a morte como um balanço existencial, a definir nossa
posição na Espiritualidade, não há penas irremissíveis e muito
menos perene repouso.
Eterno é o toque
de Deus em nós, exprimindo-se em nossa perfectibilidade, o
impulso de evoluir sempre, descortinando horizontes nos caminhos
da perfeição.
A imanência divina
manifesta-se inexoravelmente como indefinível insatisfação nos
Espíritos em estágios medianos de evolução, corporificando-se em
gloriosos ideais, na medida em que desdobram experiências e
adquirem conhecimentos, na sucessão dos séculos sem fim.
Os que sonham com um céu de beatitude contemplativa verificarão
quando chegar sua hora, o equivoco em que incorreram. A vida
Além-túmulo é estuante, com labores e responsabilidades que se
ampliam proporcionalmente à evolução do Espírito.
Cumpre-se a
dinâmica do Universo, presente desde as manifestações primitivas
de vida às mais altas expressões de espiritualidade. Do verme,
que nas profundezas do solo o fertiliza, aos mundos que se
equilibram no espaço.
-o-
André Luiz, o
apreciado médico desencarnado que se manifesta pela psicografia
de Francisco Cândido Xavier, oferece-nos uma visão bem objetiva
dessa realidade.
Mostra-nos o Plano
Espiritual, nas regiões próximas à Terra, com vida semelhante à
nossa. Ali os Espíritos com maturidade para habitar cidades como
“Nosso Lar”, que ele descreve em obra homônima, identificam-se
num compromisso comum: trabalho.
Importante
destacar que não há privilégios, mordomias, apadrinhamentos,
típicos das sociedades terrestres. Cada Espírito situa-se numa
atividade compatível com seu merecimento.
O mesmo princípio
se estende às esferas mais altas, onde há Espíritos que cumprem
grandiosas tarefas.
Jesus é o exemplo
maior.
Segundo Emmanuel,
no livro “A Caminho da Luz”, psicografia de Chico Xavier, ele é
o governador de nosso planeta, com a missão de conduzir os
Espíritos que aqui evoluem, encarnados e desencarnados, desde os
primitivos que ensaiam a razão aos gênios tutelares que atuam
como seus prepostos.
Nesse processo,
qualquer benefício colhido será sempre fruto do trabalho, do
esforço pessoal, na vigência plena do princípio evangélico: “A
cada um segundo suas obras”.
-o-
O conhecimento
dessa realidade nos oferece muita segurança e estímulo para o
aprimoramento espiritual, moral e intelectual, conscientes de
que nosso futuro será sempre a conseqüência do que estamos
fazendo no presente.
Uma senhora de
setenta e dois anos estava aprendendo a tocar piano.
Perguntaram-lhe se julgava razoável aquele esforço. Afinal,
restava-lhe pouco tempo. Não desfrutaria do aprendizado.
Ela respondeu:
- Penso diferente.
Não só alegro meu presente com uma atividade que me é muito
grata, como preparo meu futuro. Regressarei à pátria espiritual
com noções de música que enriquecerão meus patrimônios
artísticos. Estou longe da pureza necessária para tocar harpa
com os anjos, mas sempre haverá um piano para mim.
-o-
Onde quer que
estejamos, encarnados ou desencarnados, nossa realização como
filhos de Deus subordina-se ao empenho de sintonia com a
harmonia universal, a partir da mobilização de nossas
potencialidades criadoras.
Se Camões
estivesse consciente dessa realidade jamais suporia sua amada em
beatitude eterna.
E tudo o que
haveria de lhe pedir seria que o ajudasse a lutar contra suas
imperfeições, aprimorando-se moral e espiritualmente.
Assim, quando
chegasse sua hora, mais cedo ou mais tarde, segundo os desígnios
divinos, poderiam seguir juntos, identificados nos mesmos
propósitos de aprender sempre mais e servir sempre melhor.
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