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1. Espíritos
Errantes. - 2. Mundos Transitórios. - 3. Percepções, Sensações e
Sofrimentos dos Espíritos. - 4. Ensaio Teórico da Sensação nos
Espíritos. - 5. Escolha das Provas. - 6. As Relações no
Além-Túmulo. - 7. Relações de Simpatia e de Antipatia entre os
Espíritos. - 8. Recordação da Existência Corpórea. - 9.
Comemoração dos Mortos. Funerais.
Espíritos Errantes
223. A alma reencarna logo depois de se haver separado do corpo?
“Algumas vezes reencarna imediatamente, porém, de ordinário só o
faz depois de intervalos mais ou menos longos. Nos mundos
superiores, a reencarnação é quase sempre imediata. Sendo aí
menos grosseira a matéria corporal, o Espírito, quando encarnado
nesses mundos, goza quase que de todas as suas faculdades de
Espírito, sendo o seu estado normal o dos sonâmbulos lúcidos
entre vós.”
224. Que é a alma
no intervalo das encarnações?
“Espírito errante, que aspira a novo destino, que espera.”
a) - Quanto podem
durar esses intervalos?
“Desde algumas horas até alguns milhares de séculos.
Propriamente falando, não há extremo limite estabelecido para o
estado de erraticidade, que pode prolongar-se muitíssimo, mas
que nunca é perpétuo. Cedo ou tarde, o Espírito terá que volver
a uma existência apropriada a purificá-lo das máculas de suas
existências precedentes.”
b) - Essa duração
depende da vontade do Espírito, ou lhe pode ser imposta como
expiação?
“É uma conseqüência do livre-arbítrio. Os Espíritos sabem
perfeitamente o que fazem. Mas, também, para alguns, constitui
uma punição que Deus lhes inflige. Outros pedem que ela se
prolongue, a fim de continuarem estudos que só na condição de
Espírito livre podem efetuar-se com proveito.”
225. A
erraticidade é, por si só, um sinal de inferioridade dos
Espíritos?
“Não, porquanto há Espíritos errantes de todos os graus. A
encarnação é um estado transitório, já o dissemos. O Espírito se
acha no seu estado normal, quando liberto da matéria.”
226. Poder-se-á
dizer que são errantes todos os Espíritos que não estão
encarnados?
“Sim, com relação aos que tenham de reencarnar. Não são
errantes, porém, os Espíritos puros, os que chegaram à
perfeição. Esses se encontram no seu estado definitivo.”
No tocante às
qualidades íntimas, os Espíritos são de diferentes ordens, ou
graus, pelos quais vão passando sucessivamente, à medida que se
purificam. Com relação ao estado em que se acham, podem ser:
encarnados, isto é, ligados a um corpo; errantes, isto é, sem
corpo material e aguardando nova encarnação para se melhorarem;
Espíritos puros, isto é, perfeitos, não precisando mais de
encarnação.
227. De que modo
se instruem os Espíritos errantes? Certo não o fazem do mesmo
modo que nós outros?
“Estudam e procuram meios de elevar-se. Vêem, observam o que
ocorre nos lugares aonde vão; ouvem os discursos dos homens
doutos e os conselhos dos Espíritos mais elevados e tudo isso
lhes incute idéias que antes não tinham.”
228. Conservam os
Espíritos algumas de suas paixões humanas?
“Com o invólucro material os Espíritos elevados deixam as
paixões más e só
guardam a do bem. Quanto aos Espíritos inferiores, esses as
conservam, pois do contrário pertenceriam à primeira ordem.”
229. Por que,
deixando a Terra, não deixam aí os Espíritos todas as más
paixões, uma vez que lhes reconhecem os inconvenientes?
“Vês nesse mundo pessoas excessivamente invejosas. Imaginas que,
mal o deixam, perdem esse defeito? Acompanha os que da Terra
partem, sobretudo os que alimentaram paixões bem acentuadas, uma
espécie de atmosfera que os envolve, conservando-lhes o que têm
de mau, por não se achar o Espírito inteiramente desprendido da
matéria. Só por momentos ele entrevê a verdade, que assim lhe
aparece como que para mostrar-lhe o bom caminho.”
230. Na
erraticidade, o Espírito progride?
“Pode melhorar-se muito, tais sejam a vontade e o desejo que
tenha de consegui-lo.
Todavia, na
existência corporal é que põe em prática as idéias que
adquiriu.”
231. São felizes
ou desgraçados os Espíritos errantes?
“Mais ou menos, conforme seus méritos. Sofrem por efeito das
paixões cuja
essência conservaram, ou são felizes, de conformidade com o grau
de desmaterialização a que hajam chegado. Na erraticidade, o
Espírito percebe o que lhe falta para ser mais feliz e, desde
então, procura os meios de alcançá-lo. Nem sempre, porém, é
permitido reencarnar como fora de seu agrado, representando
isso, para ele, uma punição.”
232. Podem os
Espíritos errantes ir a todos os mundos?
“Conforme. Pelo simples fato de haver deixado o corpo, o
Espírito não se acha completamente desprendido da matéria e
continua a pertencer ao mundo onde acabou de viver, ou a outro
do mesmo grau, a menos que, durante a vida, se tenha elevado, o
que, aliás, constitui o objetivo para que devem tender seus
esforços, pois, do contrário, nunca se aperfeiçoaria. Pode, no
entanto, ir a alguns mundos superiores, mas na qualidade de
estrangeiro. A bem dizer, consegue apenas entrevê-los, donde lhe
nasce o desejo de melhorar-se, para ser digno da felicidade de
que gozam os que os habitam, para ser digno também de habitá-los
mais tarde.”
233. Os Espíritos
já purificados descem aos mundos inferiores?
“Fazem-no freqüentemente, com o fim de auxiliar-lhes o
progresso. A não ser assim, esses mundos estariam entregues a si
mesmos, sem guias para dirigi-los.”
Mundos
Transitórios
234. Há, de fato,
como já foi dito, mundos que servem de estações ou pontos de
repouso aos Espíritos errantes?
“Sim, há mundos particularmente destinados aos seres errantes,
mundos que lhes podem servir de habitação temporária, espécies
de bivaques, de campos onde descansem de uma demasiado longa
erraticidade, estado este sempre um tanto penoso. São, entre os
outros mundos, posições intermédias, graduadas de acordo com a
natureza dos Espíritos que a elas podem ter acesso e onde eles
gozam de maior ou menor bem-estar.”
a) - Os Espíritos
que habitam esses mundos podem deixá-los livremente?
“Sim, os Espíritos que se encontram nesses mundos podem
deixá-los, a fim de irempara onde devam ir. Figurai-os como
bandos de aves que pousam numa ilha, para aí aguardarem que se
lhes refaçam as forças, a fim de seguirem seu destino.”
235. Enquanto
permanecem nos mundos transitórios, os Espíritos progridem?
“Certamente. Os que vão a tais mundos levam o objetivo de se
instruírem e de poderem mais facilmente obter permissão para
passar a outros lugares melhores e chegar à perfeição que os
eleitos atingem.”
236. Pela sua
natureza especial, os mundos transitórios se conservam
perpetuamente destinados aos Espíritos errantes?
“Não, a condição deles é meramente temporária.”
a) - Esses mundos
são ao mesmo tempo habitados por seres corpóreos?
“Não; estéril é neles a superfície. Os que os habitam de nada
precisam.”
b) - É permanente
essa esterilidade e decorre da natureza especial que apresentam?
“Não; são estéreis transitoriamente.”
c) - Os mundos
dessa categoria carecem então de belezas naturais?
“A Natureza reflete as belezas da imensidade, que não são menos
admiráveis do que aquilo a que dais o nome de belezas naturais.”
d) - Sendo
transitório o estado de semelhantes mundos, a Terra pertencerá
algum dia ao números deles?
“Já pertenceu.”
e) - Em que época?
“Durante a sua formação.”
Nada é inútil em a
Natureza; tudo tem um fim, uma destinação. Em lugar algum há o
vazio; tudo é habitado, há vida em toda parte. Assim, durante a
dilatada sucessão dos séculos que passaram antes do aparecimento
do homem na Terra, durante os lentos períodos de transição que
as camadas geológicas atestam, antes mesmo da formação dos
primeiros seres orgânicos, naquela massa informe, naquele árido
caos, onde os elementos se achavam em confusão, não havia
ausência de vida. Seres isentos das nossas necessidades, das
nossas sensações físicas, lá encontravam refúgio. Quis Deus que,
mesmo assim, ainda imperfeita, a Terra servisse para alguma
coisa. Quem ousaria afirmar que, entre os milhares de mundos que
giram na imensidade, um só, um dos menores, perdido no seio da
multidão infinita deles, goza do privilégio exclusivo de ser
povoado? Qual então a utilidade dos demais? Tê-los-ia Deus feito
unicamente para nos recrearem a vista? Suposição absurda,
incompatível com a sabedoria que esplende em todas as suas obras
e inadmissível desde que ponderemos na existência de todos os
que não podemos perceber. Ninguém contestará que, nesta idéia da
existência de mundos ainda impróprios para a vida material e,
não obstante, já povoados de seres vivos apropriados a tal meio,
há qualquer coisa de grande e sublime, em que talvez se encontre
a solução de mais de um problema.
Percepções,
Sensações e Sofrimentos dos Espíritos
237. Uma vez de
volta ao mundo dos Espíritos, conserva a alma as percepções que
tinha na Terra?
“Sim, além de outras de que aí não dispunha, porque o corpo,
qual véu sobre elas lançado, as obscurecia. A inteligência é um
atributo, que tanto mais livremente se manifesta no Espírito,
quanto menos entraves tenha que vencer.”
238. São
ilimitadas as percepções e os conhecimentos dos Espíritos? Numa
palavra: eles sabem tudo?
“Quanto mais se aproximam da perfeição, tanto mais sabem. Se são
Espíritos superiores, sabem muito. Os Espíritos inferiores são
mais ou menos ignorantes acerca de tudo.”
239. Conhecem os
Espíritos o princípio das coisas?
“Conforme a elevação e a pureza que hajam atingido. Os de ordem
inferior não sabem mais do que os homens.”
240. A duração, os
Espíritos a compreendem como nós?
“Não e daí vem que nem sempre nos compreendeis, quando se trata
de determinar datas ou épocas.”
Os Espíritos vivem fora do tempo como o compreendemos. A
duração, para eles, deixa, por assim dizer, de existir. Os
séculos, para nós tão longos, não passam, aos olhos deles, de
instantes que se movem na eternidade, do mesmo modo que os
relevos do solo se apagam e desaparecem para quem se eleva no
espaço.
241. Os Espíritos
fazem do presente mais precisa e exata idéia do que nós?
“Do mesmo modo que aquele, que vê bem, faz mais exata idéia das
coisas do que o cego. Os Espíritos vêem o que não vedes. Tudo
apreciam, pois, diversamente do modo por que o fazeis. Mas,
também isso depende da elevação deles.”
242. Como é que os
Espíritos têm conhecimento do passado? E esse conhecimento lhes
é ilimitado?
“O passado, quando com ele nos ocupamos, é presente. Verifica-se
então,
precisamente, o que se passa contigo quando recordas qualquer
coisa que te impressionou no curso do teu exílio. Simplesmente,
como já nenhum véu material nos tolda a inteligência,
lembramo-nos mesmo daquilo que se te apagou da memória. Mas, nem
tudo os Espíritos sabem, a começar pela própria criação.”
243. E o futuro,
os Espíritos o conhecem?
“Ainda isto depende da elevação que tenham conquistado. Muitas
vezes, apenas o entrevêem, porém nem sempre lhes é permitido
revelá-lo. Quando o vêem, parece-lhes presente. À medida que se
aproxima de Deus, tanto mais claramente o Espírito descortina o
futuro. Depois da morte, a alma vê e apreende num golpe de vista
suas passadas migrações, mas não pode ver o que Deus lhe
reserva.
Para que tal
aconteça, preciso é que, ao cabo de múltiplas existências, se
haja integrado nele.”
a) - Os Espíritos
que alcançaram a perfeição absoluta têm conhecimento completo do
futuro?
“Completo não se pode dizer, por isso que só Deus é soberano
Senhor e ninguém O pode igualar.”
244. Os Espíritos
vêem a Deus?
“Só os Espíritos superiores o vêem e compreendem. Os inferiores
o sentem e adivinham.”
a) - Quando um
Espírito inferior diz que Deus lhe proíbe ou permite uma coisa,
como sabe que isso lhe vem Dele?
“Ele não vê a Deus, mas sente a Sua soberania e, quando não deva
ser feita alguma coisa ou dita uma palavra, percebe, como por
intuição, a proibição de fazê-la ou dizê-la. Não tendes vós
mesmos pressentimentos, que se vos afiguram avisos secretos,
para fazerdes, ou não, isto ou aquilo? O mesmo nos acontece, se
bem que em grau mais alto, pois compreendes que, sendo mais
sutil do que as vossas a essência dos Espíritos, podem estes
receber melhor as advertências divinas.”
b) - Deus
transmite diretamente a ordem ao Espírito, ou por intermédio de
outros Espíritos?
“Ela não lhe vem direta de Deus. Para se comunicar com Deus,
é-lhe necessário ser digno. Deus lhe transmite suas ordens por
intermédio dos Espíritos imediatamente superiores em perfeição e
instrução.”
245. O Espírito
tem circunscrita a visão como os seres corpóreos?
“Não, ela reside em todo ele.”
246. Precisam da
luz para ver?
“Vêem por si mesmos, sem precisarem de luz exterior. Para os
Espíritos, não há trevas, salvo as em que podem achar-se por
expiação.”
247. Para verem o
que se passa em dois pontos diferentes, precisam transporta-se a
esses pontos? Podem, por exemplo, ver simultaneamente nos dois
hemisférios do globo?
“Como o Espírito se transporta aonde queira, com a rapidez do
pensamento, pode-se dizer que vê em toda parte ao mesmo tempo.
Seu pensamento é suscetível de irradiar, dirigindo-se a um tempo
para muitos pontos diferentes, mas esta faculdade depende da sua
pureza. Quanto menos puro é o Espírito, tanto mais limitada tem
a visão. Só os Espíritos superiores podem com a vista abranger
um conjunto.”
No Espírito, a
faculdade de ver é uma propriedade inerente à sua natureza e que
reside em todo o seu ser, como a luz reside em todas as partes
de um corpo luminoso. É uma espécie de lucidez universal que se
estende a tudo, que abrange simultaneamente o espaço, os tempos
e as coisas, lucidez para a qual não há trevas, nem obstáculos
materiais.
Compreende-se que
deva ser assim. No homem, a visão se dá pelo funcionamento de um
órgão que a luz impressiona. Daí se segue que, não havendo luz,
o homem fica na obscuridade. No Espírito, como a faculdade de
ver constitui um atributo seu, abstração feita de qualquer
agente exterior, a visão independe da luz (Veja-se: Ubiqüidade,
n° 92.)
248. O Espírito vê
as coisas tão distintamente como nós?
“Mais distintamente, pois que sua vista penetra onde a vossa não
pode penetrar. Nada a obscurece.”
249. Percebe os
sons?
“Sim, percebe mesmo sons imperceptíveis para os vossos sentidos
obtusos.”
a) - No Espírito,
a faculdade de ouvir está em todo ele, como a de ver?
“Todas as percepções constituem atributos do Espírito e lhe são
inerentes ao ser.
Quando o reveste
um corpo material, elas só lhe chegam pelo conduto dos órgãos.
Deixam, porém, de estar localizadas, em se achando ele na
condição de Espírito livre.”
250. Constituindo
elas atributos próprios do Espírito, ser-lhe-á possível
subtrair-se às percepções?
“O Espírito unicamente vê e ouve o que quer. Dizemos isto de um
ponto de vista geral e, em particular, com referência aos
Espíritos elevados, porquanto os imperfeitos muitas vezes ouvem
e vêem, a seu mau grado, o que lhes possa ser útil ao
aperfeiçoamento.”
251. São sensíveis
à música os Espíritos?
“Aludes à música terrena? Que é ela comparada à música celeste?
A esta harmonia de que nada na Terra vos pode dar idéia? Uma
está para a outra como o canto do selvagem para uma doce
melodia. Não obstante, Espíritos vulgares podem experimentar
certo prazer em ouvir a vossa música, por lhes não ser dado
ainda compreenderem outra mais sublime.
A música possui
infinitos encantos para os Espíritos, por terem eles muito
desenvolvidas as qualidades sensitivas. Refiro-me à música
celeste, que é tudo o que de mais belo e delicado pode a
imaginação espiritual conceber.”
252. São
sensíveis, os Espíritos, às magnificências da Natureza?
“Tão diferentes são as belezas naturais dos mundos, que longe
estamos de as conhecer. Sim, os Espíritos são sensíveis a essas
belezas, de acordo com as aptidões que tenham para as apreciar e
compreender. Para os Espíritos elevados, há belezas de conjunto
que, por assim dizer, apagam as das particularidades.”
253. Os Espíritos
experimentam as nossas necessidades e sofrimentos físicos?
“Eles os conhecem, porque os sofreram, não os experimentam,
porém, materialmente, como vós outros: são Espíritos.”
254. E a fadiga, a
necessidade de repouso, experimentam-nas?
“Não podem sentir a fadiga, como a entendeis; conseguintemente,
não precisam de descanso corporal, como vós, pois que não
possuem órgãos cujas forças devam ser reparadas. O Espírito,
entretanto, repousa, no sentido de não estar em constante
atividade.
Ele não atua
materialmente. Sua ação é toda intelectual e inteiramente moral
o seu repouso.
Quer isto dizer
que momentos há em que o seu pensamento deixa de ser tão ativo
quanto de ordinário e não se fixa em qualquer objeto
determinado. É um verdadeiro repouso, mas de nenhum modo
comparável ao do corpo. A espécie de fadiga que os Espíritos são
suscetíveis de sentir guarda relação com a inferioridade deles.
Quanto mais elevados sejam, tanto menos precisarão de repousar.”
255. Quando um
Espírito diz que sofre, de que natureza é seu sofrimento?
“Angústias morais, que o torturam mais dolorosamente do que
todos os sofrimentos físicos.”
256. Como é então
que alguns Espíritos se têm queixado de sofrer frio ou calor?
“É reminiscência do que padecem durante a vida, reminiscência
não raro tão aflitiva quanto a realidade. Muitas vezes, no que
eles assim dizem apenas há uma comparação mediante a qual, em
falta de coisa melhor, procuram exprimir a situação em que se
acham.
Quando se lembram
do corpo que revestiram, têm impressão semelhante à de uma
pessoa que, havendo tirado o manto que a envolvia, julga,
passando algum tempo, que ainda o traz sobre os ombros.”
Ensaio Teórico
da Sensação nos Espíritos
257. O corpo é o
instrumento da dor. Se não é a causa primária desta é, pelo
menos, a causa imediata. A alma tem a percepção da dor: essa
percepção é o efeito. A lembrança que da dor a alma conserva
pode ser muito penosa, mas não pode ter ação física. De fato,
nem o frio, nem o calor são capazes de desorganizar os tecidos
da alma, que não é suscetível de congelar-se, nem de queimar-se.
Não vemos todos os dias a recordação ou a apreensão de um mal
físico produzirem o efeito desse mal, como se real fora? Não as
vemos até causar a morte? Toda gente sabe que aqueles a quem se
amputou um membro costumam sentir dor no membro que lhes falta.
Certo que aí não está a sede, ou, sequer, o ponto de partida da
dor. O que há, apenas, é que o cérebro guardou desta a
impressão.
Lícito, portanto,
será admitir-se que coisa análoga ocorra nos sofrimentos do
Espírito após a morte. Um estudo aprofundado do perispírito, que
tão importante papel desempenha em todos os fenômenos espíritas;
nas aparições vaporosas ou tangíveis; no estado em que o
Espírito vem a encontrar-se por ocasião da morte; na idéia, que
tão freqüentemente manifesta, de que ainda está vivo; nas
situações tão comoventes que nos revelam os dos suicidas, dos
supliciados, dos que se deixaram absorver pelos gozos materiais;
e inúmeros outros fatos, muita luz lançaram sobre esta questão,
dando lugar a explicações que passamos a resumir.
O perispírito é o
laço que à matéria do corpo prende o Espírito, que o tira do
meio ambiente, do fluido universal. Participa ao mesmo tempo da
eletricidade, do fluido magnético e, até certo ponto, da matéria
inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria. É o
princípio da vida orgânica, porém, não o da vida intelectual,
que reside no Espírito. É, além disso, o agente das sensações
exteriores. No corpo, os órgãos, servindo-lhes de condutos,
localizam essas sensações. Destruído o corpo, elas se tornam
gerais. Daí o Espírito não dizer que sofre mais da cabeça do que
dos pés, ou vice-versa.
Não se confundam,
porém, as sensações do perispírito, que se tornou independente,
com as do corpo. Estas últimas só por termo de comparação as
podemos tomar e não por analogia.
Liberto do corpo,
o Espírito pode sofrer, mas esse sofrimento não é corporal,
embora não seja exclusivamente moral, como o remorso, pois que
ele se queixa de frio e calor. Também não sofre mais no inverno
do que no verão: temo-los visto atravessar chamas, sem
experimentarem qualquer dor. Nenhuma impressão lhes causa,
conseguintemente, a temperatura. A dor que sentem não é, pois,
uma dor física propriamente dita: é um vago sentimento íntimo,
que o próprio Espírito nem sempre compreende bem, precisamente
porque a dor não se acha localizada e porque não a produzem
agentes exteriores; é mais uma reminiscência do que uma
realidade, reminiscência, porém, igualmente penosa.
Algumas vezes,
entretanto, há mais do que isso, como vamos ver.
Ensina-nos a
experiência que, por ocasião da morte, o perispírito se
desprende mais ou menos lentamente do corpo; que, durante os
primeiros minutos depois da desencarnação, o Espírito não
encontra explicação para a situação em que se acha. Crê não
estar morto, por isso que se sente vivo; vê a um lado o corpo,
sabe que lhe pertence, mas não compreende que esteja separado
dele. Essa situação dura enquanto haja qualquer ligação entre o
corpo e o perispírito. Disse-nos, certa vez, um suicida: “Não,
não estou morto.” E acrescentava: No entanto, sinto os vermes a
me roerem. Ora, indubitavelmente, os vermes não lhe roíam o
perispírito e ainda menos o Espírito; roíam-lhe apenas o corpo.
Como, porém, não era completa a separação do corpo e do
perispírito, uma espécie de repercussão moral se produzia,
transmitindo ao Espírito o que estava ocorrendo no corpo.
Repercussão talvez não seja o termo próprio, porque pode induzir
à suposição de um efeito muito material. Era antes a visão do
que se passava com o corpo, ao qual ainda o conservava ligado o
perispírito, o que lhe causava a ilusão, que ele tomava por
realidade. Assim, pois não haveria no caso uma reminiscência,
porquanto ele não fora, em vida, ruído pelos vermes: havia o
sentimento de um fato da atualidade. Isto mostra que deduções se
podem tirar dos fatos, quando atentamente observados.
Durante a vida, o
corpo recebe impressões exteriores e as transmite ao Espírito
por intermédio do perispírito, que constitui, provavelmente, o
que se chama fluido nervoso.
Uma vez morto, o
corpo nada mais sente, por já não haver nele Espírito, nem
perispírito.
Este, desprendido
do corpo, experimenta a sensação, porém, como já não lhe chega
por um conduto limitado, ela se lhe torna geral. Ora, não sendo
o perispírito, realmente, mais do que simples agente de
transmissão, pois que no Espírito é que está a consciência,
lógico será deduzir-se que, se pudesse existir perispírito sem
Espírito, aquele nada sentiria, exatamente como um corpo que
morreu. Do mesmo modo, se o Espírito não tivesse perispírito,
seria inacessível a toda e qualquer sensação dolorosa. É o que
se dá com os Espíritos completamente purificados. Sabemos que
quanto mais eles se purificam, tanto mais etérea se torna a
essência do perispírito, donde se segue que a influência
material diminui à medida que o Espírito progride, isto é, à
medida que o próprio perispírito se torna menos grosseiro.
Mas, dir-se-á,
desde que pelo perispírito é que as sensações agradáveis, da
mesma forma que as desagradáveis, se transmitem ao Espírito,
sendo o Espírito puro inacessível a umas, deve sê-lo igualmente
às outras. Assim é, de fato, com relação às que provêm
unicamente da influência da matéria que conhecemos. O som dos
nossos instrumentos, o perfume das nossas flores nenhuma
impressão lhe causam. Entretanto, ele experimenta sensações
íntimas, de um encanto indefinível, das quais idéia alguma
podemos formar, porque, a esse respeito, somos quais cegos de
nascença diante a luz. Sabemos que isso é real; mas, por que
meio se produz? Até lá não vai a nossa ciência. Sabemos que no
Espírito há percepção, sensação, audição, visão; que essas
faculdades são atributos do ser todo e não, como no homem, de
uma parte apenas do ser; mas, de que modo ele as tem?
Ignoramo-lo. Os próprios Espíritos nada nos podem informar sobre
isso, por inadequada a nossa linguagem a exprimir idéias que não
possuímos, precisamente como o é, por falta de termos próprios,
a dos selvagens, para traduzir idéias referentes às nossas
artes, ciências e doutrinas filosóficas.
Dizendo que os
Espíritos são inacessíveis às impressões da matéria que
conhecemos, referimo-nos aos Espíritos muito elevados, cujo
envoltório etéreo não encontra analogia neste mundo. Outro tanto
não acontece com os de perispírito mais denso, os quais percebem
os nossos sons e odores, não, porém, apenas por uma parte
limitada de suas individualidades, conforme lhes sucedia quando
vivos. Pode-se dizer que, neles, as vibrações moleculares se
fazem sentir em todo o ser e lhes chegam assim ao sensorium
commune, que é o próprio Espírito, embora de modo diverso e
talvez, também, dando uma impressão diferente, o que modifica a
percepção. Eles ouvem o som da nossa voz, entretanto nos
compreendem sem o auxílio da palavra, somente pela transmissão
do pensamento. Em apoio do que dizemos há o fato de que essa
penetração é tanto mais fácil, quanto mais desmaterializado está
o Espírito. Pelo que concerne à vista, essa, para o Espírito,
independe da luz, qual a temos. A faculdade de ver é um atributo
essencial da alma, para quem a obscuridade não existe. É,
contudo, mais extensa, mais penetrante nas mais purificadas. A
alma, ou o Espírito, tem, pois, em si mesma, a faculdade de
todas as percepções. Estas, na vida corpórea, se obliteram pela
grosseria dos órgãos do corpo; na vida extracorpórea, se vão
desanuviando, à proporção que o invólucro semi-material se
eteriza.
Haurido do meio
ambiente, esse invólucro varia de acordo com a natureza dos
mundos. Ao passarem de um mundo a outro, os Espíritos mudam de
envoltório, como nós mudamos de roupa, quando passamos do
inverno ao verão, ou do pólo ao equador. Quando vêm visitar-nos,
os mais elevados se revestem do perispírito terrestre e então
suas percepções se produzem como no comum dos Espíritos. Todos,
porém, assim os inferiores como os superiores, não ouvem, nem
sentem, senão o que queiram ouvir ou sentir. Não possuindo
órgãos sensitivos, eles podem, livremente, tornar ativas ou
nulas suas percepções. Uma só coisa são obrigados a ouvir - os
conselhos dos Espíritos bons. A vista, essa é sempre ativa; mas,
eles podem fazer-se
invisíveis uns aos outros. Conforme a categoria que ocupem,
podem ocultar-se dos que lhes são inferiores, porém não dos que
lhes são superiores. Nos primeiros instantes que se seguem à
morte, a visão do Espírito é sempre turbada e confusa.
Aclara-se, à medida que ele se desprende, e pode alcançar a
nitidez que tinha durante a vida terrena, independentemente da
possibilidade de penetrar através dos corpos que nos são opacos.
Quanto à sua
extensão através do espaço indefinito, do futuro e do passado,
depende do grau de pureza e de elevação do Espírito.
Objetarão, talvez:
toda esta teoria nada tem de tranqüilizadora. Pensávamos que,
uma vez livres do nosso grosseiro envoltório, instrumento das
nossas dores, não mais sofreríamos e eis nos informais de que
ainda sofreremos. Desta ou daquela forma, será sempre
sofrimento. Ah! sim, pode dar-se que continuemos a sofrer, e
muito, e por longo tempo, mas também que deixemos de sofrer, até
mesmo desde o instante em que se nos acabe a vida corporal.
Os sofrimentos
deste mundo independem, algumas vezes, de nós; muito mais vezes,
contudo, são devidos à nossa vontade. Remonte cada um à origem
deles e verá que a maior parte de tais sofrimentos são efeitos
de causas que lhe teria sido possível evitar. Quantos males,
quantas enfermidades não deve o homem aos seus excessos, à sua
ambição, numa palavra: às suas paixões? Aquele que sempre
vivesse com sobriedade, que de nada abusasse, que fosse sempre
simples nos gostos e modesto nos desejos, a muitas tribulações
se forraria. O mesmo se dá com o Espírito. Os sofrimentos por
que passa são sempre a conseqüência da maneira por que viveu na
Terra. Certo já não sofrerá mais de gota, nem de reumatismo; no
entanto, experimentará outros sofrimentos que nada ficam a dever
àqueles. Vimos que seu sofrer resulta dos laços que ainda o
prendem à matéria; que quanto mais livre estiver da influência
desta, ou, por outra, quanto mais desmaterializado se achar,
menos dolorosas sensações experimentará. Ora, está nas suas mãos
libertar-se de tal influência desde a vida atual. Ele tem o
livre-arbítrio, tem, por conseguinte, a faculdade de escolha
entre o fazer e o não fazer. Dome suas paixões animais; não
alimente ódio, nem inveja, nem ciúme, nem orgulho; não se deixe
dominar pelo egoísmo; purifique-se, nutrindo bons sentimentos;
pratique o bem; não ligue às coisas deste mundo importância que
não merecem; e, então, embora revestido do invólucro corporal,
já estará depurado, já estará liberto do jugo da matéria e,
quando deixar esse invólucro, não mais lhe sofrerá a influência.
Nenhuma recordação dolorosa lhe advirá dos sofrimentos físicos
que haja padecido; nenhuma impressão desagradável eles deixarão,
porque apenas terão atingido o corpo e não a alma. Sentir-se-á
feliz por se haver libertado deles e a paz da sua consciência o
isentará de qualquer sofrimento moral.
Interrogamos, aos
milhares, Espíritos que na Terra pertenceram a todas as classes
da sociedade, ocuparam todas as posições sociais; estudamo-los
em todos os períodos da vida espírita, a partir do momento em
que abandonaram o corpo; acompanhamo-los passo a passo na vida
de além-túmulo, para observar as mudanças que se operavam neles,
nas suas idéias, nos seus sentimentos e, sob esse aspecto, não
foram os que aqui se contaram entre os homens mais vulgares os
que nos proporcionaram menos preciosos elementos de estudo.
Ora, notamos
sempre que os sofrimentos guardavam relação com o proceder que
eles tiveram e cujas conseqüências experimentavam; que a outra
vida é fonte de inefável ventura para os que seguiram o bom
caminho. Deduz-se daí que, aos que sofrem, isso acontece porque
o quiseram; que, portanto, só de si mesmos se devem queixar,
quer no outro mundo, quer neste.
Escolha das
Provas
258. Quando na
erraticidade, antes de começar nova existência corporal, tem o
Espírito consciência e previsão do que lhe sucederá no curso da
vida terrena?
“Ele próprio escolhe o gênero de provas por que há de passar e
nisso consiste o seu livre-arbítrio.”
a) - Não é Deus,
então, quem lhe impõe as tribulações da vida, como castigo?
“Nada ocorre sem a permissão de Deus, porquanto foi Deus quem
estabeleceu todas as leis que regem o Universo. Ide agora
perguntar por que decretou Ele esta lei e não aquela. Dando ao
Espírito a liberdade de escolher, Deus lhe deixa a inteira
responsabilidade de seus atos e das conseqüências que estes
tiverem. Nada lhe estorva o futuro; abertos se lhe acham, assim,
o caminho do bem, como o do mal. Se vier a sucumbir,
restar-lhe-á a consolação de que nem tudo se lhe acabou e que a
bondade divina lhe concede a liberdade de recomeçar o que foi
mal feito. Demais, cumpre se distinga o que é obra da vontade de
Deus do que o é da do homem. Se um perigo vos ameaça, não fostes
vós quem o criou e sim Deus. Vosso, porém, foi o desejo de a ele
vos expordes, por haverdes visto nisso um meio de progredirdes,
e Deus o permitiu.”
259. Do fato de
pertencer ao Espírito a escolha do gênero de provas que deva
sofrer, seguir-se-á que todas as tribulações que experimentamos
na vida nós as previmos e buscamos?
“Todas, não, porque não escolhestes e previstes tudo o que vos
sucede no mundo, até às mínimas coisas. Escolhestes apenas o
gênero das provações. As particularidades correm por conta da
posição em que vos achais; são, muitas vezes, conseqüências das
vossas próprias ações. Escolhendo, por exemplo, nascer entre
malfeitores, sabia o Espírito a que arrastamentos se expunha;
ignorava, porém, quais os atos que viria a praticar. Esses atos
resultam do exercício da sua vontade, ou do seu livre-arbítrio.
Sabe o Espírito que, escolhendo tal caminho, terá que sustentar
lutas de determinada espécie; sabe, portanto, de que natureza
serão as vicissitudes que se lhe depararão, mas ignora se se
verificará este ou aquele êxito. Os acontecimentos secundários
se originam das circunstâncias e da força mesma das coisas.
Previstos só são os fatos principais, os que influem no destino.
Se tomares uma estrada cheia de sulcos profundos, sabes que
terás de andar cautelosamente, porque há muitas probabilidades
de caíres; ignoras, contudo, em que ponto cairás e bem pode
suceder que não caias, se fores bastante prudente. Se, ao
percorreres uma rua, uma telha te cair na cabeça, não creias que
estava escrito, segundo vulgarmente se diz.”
260. Como pode o
Espírito desejar nascer entre gente de má vida?
“Forçoso é que seja posto num meio onde possa sofrer a prova que
pediu. Pois bem!
É necessário que
haja analogia. Para lutar contra o instinto do roubo, preciso é
que se ache em contacto com gente dada à prática de roubar.”
a) - Assim, se não
houvesse na Terra gente de maus costumes, o Espírito não
encontraria aí meio apropriado ao sofrimento de certas provas?
“E seria isso de lastimar-se? É o que ocorre nos mundos
superiores, onde o mal não penetra. Eis por que nesses mundos,
só há Espíritos bons. Fazei que em breve o mesmo se dê na
Terra.”
261. Nas provações
por que lhe cumpre passar para atingir a perfeição, tem o
Espírito que sofrer tentações de todas as naturezas? Tem que se
achar em todas as circunstâncias que possam excitar-lhe o
orgulho, a inveja, a avareza, a sensualidade, etc.?
“Certo que não,
pois bem sabeis haver Espíritos que desde o começo tomam um
caminho que os exime de muitas provas. Aquele, porém, que se
deixa arrastar para o mau caminho, corre todos os perigos que o
inçam. Pode um Espírito, por exemplo, pedir a riqueza e ser-lhe
esta concedida. Então, conforme o seu caráter, poderá tornar-se
avaro ou pródigo, egoísta ou generoso, ou ainda lançar-se a
todos os gozos da sensualidade. Daí não se segue, entretanto,
que haja de forçosamente passar por todas estas tendências.”
262. Como pode o
Espírito, que, em sua origem, é simples, ignorante e carecido de
experiência, escolher uma existência com conhecimento de causa e
ser responsável por essa escolha?
“Deus lhe supre a inexperiência, traçando-lhe o caminho que deve
seguir, como fazeis com a criancinha. Deixa-o, porém, pouco a
pouco, à medida que o seu livre-arbítrio se desenvolve, senhor
de proceder à escolha e só então é que muitas vezes lhe acontece
extraviar-se, tomando o mau caminho, por desatender os conselhos
dos bons Espíritos. A isso é que se pode chamar a queda do
homem.”
a) - Quando o
Espírito goza do livre-arbítrio, a escolha da existência
corporal dependerá sempre exclusivamente de sua vontade, ou essa
existência lhe pode ser imposta, como expiação, pela vontade de
Deus?
“Deus sabe esperar, não apressa a expiação. Todavia, pode impor
certa existência a um Espírito, quando este, pela sua
inferioridade ou má-vontade, não se mostra apto a compreender o
que lhe seria mais útil, e quando vê que tal existência servirá
para a purificação e o progresso do Espírito, ao mesmo tempo que
lhe sirva de expiação.”
263. O Espírito
faz a sua escolha logo depois da morte?
“Não, muitos acreditam na eternidade das penas, o que, como já
se vos disse, é um castigo.”
264. Que é o que
dirige o Espírito na escolha das provas que queira sofrer?
“Ele escolhe, de acordo com a natureza de suas faltas, as que o
levem à expiação destas e a progredir mais depressa. Uns,
portanto, impõem a si mesmos uma vida de misérias e privações,
objetivando suportá-las com coragem; outros preferem
experimentar as tentações da riqueza e do poder, muito mais
perigosas, pelos abusos e má aplicação a que podem dar lugar,
pelas paixões inferiores que uma e outros desenvolvem; muitos,
finalmente, se decidem a experimentar suas forças nas lutas que
terão de sustentar em contacto com o vício.”
265. Havendo
Espíritos que, por provação, escolhem o contacto do vício,
outros não haverá que o busquem por simpatia e pelo desejo de
viverem num meio conforme aos seus gostos, ou para poderem
entregar-se materialmente a seus pendores materiais?
“Há, sem dúvida,
mas tão-somente entre aqueles cujo senso moral ainda está pouco
desenvolvido. A prova vem por si mesma e eles a sofrem mais
demoradamente. Cedo ou tarde, compreendem que a satisfação de
suas paixões brutais lhes acarretou deploráveis conseqüências,
que eles sofrerão durante um tempo que lhes parecerá eterno. E
Deus os deixará nessa persuasão, até que se tornem conscientes
da falta em que incorreram e peçam, por impulso próprio, lhes
seja concedido resgatá-la, mediante úteis provações.”
266. Não parece
natural que se escolham as provas menos dolorosas?
“Pode parecer-vos a vós; ao Espírito, não. Logo que este se
desliga da matéria, cessa toda ilusão e outra passa a ser a sua
maneira de pensar.”
Sob a influência das idéias carnais, o homem, na Terra, só vê
das provas o lado penoso. Tal a razão de lhe parecer natural
sejam escolhidas as que, do seu ponto de vista, podem coexistir
com os gozos materiais. Na vida espiritual, porém, compara esses
gozos fugazes e grosseiros com a inalterável felicidade que lhe
é dado entrever e desde logo nenhuma impressão mais lhe causam
os passageiros sofrimentos terrenos. Assim, pois, o Espírito
pode escolher prova muito rude e, conseguintemente, uma
angustiada existência, na esperança de alcançar depressa um
estado melhor, como o doente escolhe muitas vezes o remédio mais
desagradável para se curar de pronto. Aquele que intenta ligar
seu nome à descoberta de um país desconhecido não procura
trilhar estrada florida. Conhece os perigos a que se arrisca,
mas também sabe que o espera a glória, se lograr bom êxito.
A doutrina da
liberdade que temos de escolher as nossas existências e as
provas que devamos sofrer deixa de parecer singular, desde que
se atenda a que os Espíritos, uma vez desprendidos da matéria,
apreciam as coisas de modo diverso da nossa maneira de
apreciá-los.
Divisam a meta,
que bem diferente é para eles dos gozos fugitivos do mundo. Após
cada existência, vêem o passo que deram e compreendem o que
ainda lhes falta em pureza para atingirem aquela meta. Daí o se
submeterem voluntariamente a todas as vicissitudes da vida
corpórea, solicitando as que possam fazer que a alcancem mais
presto. Não há, pois,
motivo de espanto no fato de o Espírito não preferir a
existência mais suave. Não lhe é possível, no estado de
imperfeição em que se encontra, gozar de uma vida isenta de
amarguras. Ele o percebe e, precisamente para chegar a fruí-la,
é que trata de se melhorar.
Não vemos, aliás,
todos os dias, exemplos de escolhas tais? Que faz o homem que
passa uma parte de sua vida a trabalhar sem trégua, nem
descanso, para reunir haveres que lhe assegurem o bem-estar,
senão desempenhar uma tarefa que a si mesmo se impôs, tendo em
vista melhor futuro? O militar que se oferece para uma perigosa
missão, o navegante que afronta não menores perigos, por amor da
Ciência ou no seu próprio interesse, que fazem, também eles,
senão sujeitar-se a provas voluntárias, de que lhes advirão
honras e proveito, se não sucumbirem? A que se não submete ou
expõe o homem pelo seu interesse ou pela sua glória? E os
concursos não são também todos provas voluntárias a que os
concorrentes se sujeitam, com o fito de avançarem na carreira
que escolheram? Ninguém galga qualquer posição nas ciências, nas
artes, na indústria, senão passando pela série das posições
inferiores, que são outras tantas provas. A vida humana é, pois,
cópia da vida espiritual; nela se nos deparam em ponto pequeno
todas as peripécias da outra. Ora, se na vida terrena muitas
vezes escolhemos duras provas, visando posição mais elevada, por
que não haveria o Espírito, que enxerga mais longe que o corpo e
para quem a vida corporal é apenas incidente de curta duração,
de
escolher uma existência árdua e laboriosa, desde que o conduza à
felicidade eterna? Os que dizem que pedirão para ser príncipes
ou milionários, uma vez que ao homem é que caiba escolher a sua
existência, se assemelham aos míopes, que apenas vêem aquilo em
que tocam, ou a meninos gulosos, que, a quem os interroga sobre
isso, respondem que desejam ser pasteleiros ou doceiros.
O viajante que
atravessa profundo vale ensombrado por espesso nevoeiro não
logra apanhar com a vista a extensão da estrada por onde vai,
nem os seus pontos extremos.
Chegando, porém,
ao cume da montanha, abrange com o olhar quanto percorreu do
caminho e quanto lhe resta dele a percorrer. Divisa-lhe o termo,
vê os obstáculos que ainda terá de transpor e combina então os
meios mais seguros de atingi-lo. O Espírito encarnado é qual
viajante no sopé da montanha. Desenleado dos liames terrenais,
sua visão tudo domina, como a daquele que subiu à crista da
serrania. Para o viajor, no termo da sua jornada está o repouso
após a fadiga; para o Espírito, está a felicidade suprema, após
as tribulações e as provas.
Dizem todos os
Espíritos que, na erraticidade, eles se aplicam a pesquisar,
estudar, observar, a fim de fazerem a sua escolha. Na vida
corporal não se nos oferece um exemplo deste fato? Não levamos,
freqüentemente, anos a procurar a carreira pela qual afinal nos
decidimos, certos de ser a mais apropriada a nos facilitar o
caminho da vida? Se numa o nosso intento se malogra, recorremos
a outra. Cada uma das que abraçamos representa uma fase, um
período da vida. Não nos ocupamos cada dia em cogitar do que
faremos no dia seguinte? Ora, que são, para o Espírito as
diversas existências corporais, senão fases, períodos, dias da
sua vida espírita, que é, como sabemos, a vida normal, visto que
a outra é transitória, passageira?
267. Pode o
Espírito proceder à escolha de suas provas, enquanto encarnado?
“O desejo que então alimenta pode influir na escolha que venha a
fazer, dependendo isso da intenção que o anime. Dá-se, porém,
que, como Espírito livre, quase sempre vê as coisas de modo
diferente. O Espírito por si só é quem faz a escolha;
entretanto, ainda uma vez o dizemos, possível lhe é fazê-la,
mesmo na vida material, por isso que há sempre momentos em que o
Espírito se torna independente da matéria que lhe serve de
habitação.”
a) - Não é decerto
como expiação, ou como prova, que muita gente deseja as
grandezas e as riquezas. Será?
“Indubitavelmente, não. A matéria deseja essa grandeza para
gozá-la e o Espírito para conhecer-lhe as vicissitudes.”
268. Até que
chegue ao estado de pureza perfeita, tem o Espírito que passar
constantemente por provas?
“Sim, mas que não são como o entendeis, pois que só considerais
provas as tribulações materiais. Ora, havendo-se elevado a um
certo grau, o Espírito, embora não seja ainda perfeito, já não
tem que sofrer provas. Continua, porém, sujeito a deveres nada
penosos, cuja satisfação lhe auxilia o aperfeiçoamento, mesmo
que consistam apenas em auxiliar os outros a se aperfeiçoarem.”
269. Pode o
Espírito enganar-se quanto à eficiência da prova que escolheu?
“Pode escolher uma que esteja acima de suas forças e sucumbir.
Pode também escolher alguma que nada lhe aproveite, como
sucederá se buscar vida ociosa e inútil. Mas, então, voltando ao
mundo dos Espíritos, verifica que nada ganhou e pede outra que
lhe faculte recuperar o tempo perdido.”
270. A que se
devem atribuir as vocações de certas pessoas e a vontade que
sentem de seguir uma carreira de preferência a outra?
“Parece-me que vós mesmos podeis responder a esta pergunta. Pois
não é isso a conseqüência de tudo o que acabamos de dizer sobre
a escolha das provas e sobre o progresso efetuado em existência
anterior?”
271. Estudando, na
erraticidade, as diversas condições em que poderá progredir,
como pensa o Espírito consegui-lo, nascendo, por exemplo, entre
canibais?
“Entre canibais não nascem Espíritos já adiantados, mas
Espíritos da natureza dos canibais, ou ainda inferiores aos
destes.”
Sabemos que os
nossos antropólogos não se acham no último degrau da escala
espiritual e que mundos há onde a bruteza e a ferocidade não têm
analogia na Terra. Os Espíritos que aí encarnam são, portanto,
inferiores aos mais ínfimos que no nosso mundo encarnam. Para
eles, pois, nascer entre os nossos selvagens representa um
progresso, como progresso seria, para os antropófagos terrenos,
exercerem entre nós uma profissão que os obrigasse a fazer
correr sangue. Não podem pôr mais alto suas vistas, porque sua
inferioridade moral não lhes permite compreender maior
progresso. O Espírito só gradativamente avança. Não lhe é dado
transpor de um salto a distância que da civilização separa a
barbárie e é esta uma das razões que nos mostram ser necessária
a reeencarnação, que verdadeiramente corresponde à justiça de
Deus. De outro modo, que seria desses milhões de criaturas que
todos os dias morrem na maior degradação, se não tivessem meios
de alcançar a superioridade? Por que os privaria Deus dos
favores concedidos aos outros homens?
272. Poderá dar-se
que Espíritos vindos de um mundo inferior à Terra, ou de um povo
muito atrasado, como os canibais, por exemplo, nasçam no seio de
povos civilizados?
“Pode. Alguns há que se extraviam, por quererem subir muito
alto. Mas, nesse caso, ficam deslocados no meio em que nasceram,
por estarem seus costumes e instintos em conflito com os dos
outros homens.”
Tais seres nos
oferecem o triste espetáculo da ferocidade dentro da
civilização.
Voltando para o
meio dos canibais, não sofrem uma degradação; apenas volvem ao
lugar que lhes é próprio e com isso talvez até ganhem.
273. Será possível
que um homem de raça civilizada reencarne, por exemplo, numa
raça de selvagens?
“É; mas depende do gênero da expiação. Um senhor, que tenha sido
de grande crueldade para os seus escravos, poderá, por sua vez,
tornar-se escravo e sofrer os maus tratos que infligiu a seus
semelhantes. Um, que em certa época exerceu o mando, pode, em
nova existência, ter que obedecer aos que se curvaram ante a sua
vontade. Ser-lhe-á isso uma expiação, que Deus lhe imponha, se
ele abusou do seu poder. Também um bom Espírito pode querer
encarnar no seio daquelas raças, ocupando posição influente,
para fazê-las progredir. Em tal caso, desempenha uma missão.”
As Relações no
Além-Túmulo
274. Da existência de diferentes ordens de Espíritos, resulta
para estes alguma hierarquia de poderes? Há entre eles
subordinação e autoridade?
“Muito grande. Os Espíritos têm uns sobre os outros a autoridade
correspondente ao grau de superioridade que hajam alcançado,
autoridade que eles exercem por um ascendente moral
irresistível.”
a) - Podem os
Espíritos inferiores subtrair-se à autoridade dos que lhes são
superiores?
“Eu disse: irresistível.”
275. O poder e a
consideração de que um homem gozou na Terra lhe dão
supremacia no mundo dos Espíritos?
“Não; pois que os pequenos serão elevados e os grandes
rebaixados. Lê os salmos.”
a) - Como devemos
entender essa elevação e esse rebaixamento?
“Não sabes que os Espíritos são de diferentes ordens, conforme
seus méritos? Pois bem! O maior da Terra pode pertencer à última
categoria entre os Espíritos, ao passo que o seu servo pode
estar na primeira. Compreendes isto? Não disse Jesus: aquele que
se humilhar será exalçado e aquele que se exalçar será
humilhado?”
276. Aquele que
foi grande na Terra e que, como Espírito, vem a achar-se entre
os de ordem inferior, experimenta com isso alguma humilhação?
“As vezes bem grande, mormente se era orgulhoso e invejoso.”
277. O soldado que
depois da batalha se encontra com o seu general, no mundo dos
Espíritos, ainda o tem por seu superior?
“O título nada vale, a superioridade real é que tem valor.”
278. Os Espíritos
das diferentes ordens se acham misturados uns com os outros?
“Sim e não. Quer dizer: eles se vêem, mas se distinguem uns dos
outros. Evitam-se ou se aproximam, conforme à simpatia ou à
antipatia que reciprocamente uns inspiram aos outros, tal qual
sucede entre vós. Constituem um mundo do qual o vosso é pálido
reflexo. Os da mesma categoria se reúnem por uma espécie de
afinidade e formam grupos ou famílias, unidos pelos laços da
simpatia e pelos fins a que visam: os bons, pelo desejo de
fazerem o bem; os maus, pelo de fazerem o mal, pela vergonha de
suas faltas e pela necessidade de se acharem entre os que se
lhes assemelham.”
Tal uma grande
cidade onde os homens de todas as classes e de todas as
condições se vêem e encontram, sem se confundirem; onde as
sociedades se formam pela analogia dos gostos; onde a virtude e
o vício se acotovelam, sem trocarem palavra.
279. Todos os
Espíritos têm reciprocamente acesso aos diferentes grupos ou
sociedades que eles formam?
“Os bons vão a toda parte e assim deve ser, para que possam
influir sobre os maus.
As regiões, porém,
que os bons habitam estão interditadas aos Espíritos
imperfeitos, a fim de que não as perturbem com suas paixões
inferiores.”
280. De que
natureza são as relações entre os bons e os maus Espíritos?
“Os bons se ocupam em combater as más inclinações dos outros, a
fim de ajudá-los a subir. É sua missão.”
281. Por que os
Espíritos inferiores se comprazem em nos induzir ao mal?
“Pelo despeito que lhes causa o não terem merecido estar entre
os bons. O desejo que neles predomina é o de impedirem, quanto
possam, que os Espíritos ainda inexperientes alcancem o supremo
bem. Querem que os outros experimentem o que eles próprios
experimentam. Isto não se dá também entre vós outros?”
282. Como se
comunicam entre si os Espíritos?
“Eles se vêem e se compreendem. A palavra é material: é o
reflexo do Espírito. O fluido universal estabelece entre eles
constante comunicação; é o veículo da transmissão de seus
pensamentos, como, para vós, o ar o é do som. É uma espécie de
telégrafo universal, que liga todos os mundos e permite que os
Espíritos se correspondam de um mundo a outro.”
283. Podem os
Espíritos, reciprocamente, dissimular seus pensamentos? Podem
ocultar-se uns dos outros?
“Não; para os
Espíritos, tudo é patente, sobretudo para os perfeitos. Podem
afastar-se uns dos outros, mas sempre se vêem. Isto, porém, não
constitui regra absoluta, porquanto certos Espíritos podem muito
bem tornar-se invisíveis a outros Espíritos, se julgarem útil
fazê-lo.”
284. Como podem os
Espíritos, não tendo corpo, comprovar suas individualidades e
distinguir-se dos outros seres espirituais que os rodeiam?
“Comprovam suas individualidades pelo perispírito, que os torna
distinguíveis uns dos outros, como faz o corpo entre os homens.”
285. Os Espíritos
se reconhecem por terem coabitado a Terra? O filho reconhece o
pai, o amigo reconhece o seu amigo?
“Perfeitamente e, assim, de geração em geração.”
a) - Como é que os
que se conheceram na Terra se reconhecem no mundo dos Espíritos?
“Vemos a nossa vida pretérita e lemos nela como em um livro.
Vendo a dos nossos amigos e dos nossos inimigos, aí vemos a
passagem deles da vida corporal à outra.”
286. Deixando seus
despojos mortais, a alma vê imediatamente os parentes e amigos
que a precederam no mundo dos Espíritos?
“Imediatamente, ainda aqui, não é o termo próprio. Como já
dissemos, é-lhe necessário algum tempo para que ela se reconheça
a si mesma e alije o véu material.”
287. Como é
acolhida a alma no seu regresso ao mundo dos Espíritos?
“A do justo, como bem-amado irmão, desde muito tempo esperado. A
do mau, como um ser desprezível.”
288. Que
sentimento desperta nos Espíritos impuros a chegada entre eles
de outro Espírito mau?
“Os maus ficam satisfeitos quando vêem seres que se lhes
assemelham e privados, também, da infinita ventura, qual na
Terra um tratante entre seus iguais.”
289. Nossos
parentes e amigos costumam vir-nos ao encontro quando deixamos a
Terra?
“Sim, os Espíritos vão ao encontro da alma a quem são
afeiçoados. Felicitam-na, como se regressasse de uma viagem, por
haver escapado aos perigos da estrada, e ajudam-na a
desprender-se dos liames corporais. É uma graça concedida aos
bons Espíritos o lhes virem ao encontro os que os amam, ao passo
que aquele que se acha maculado permanece em insulamento, ou só
tem a rodeá-lo os que lhe são semelhantes. É uma punição.”
290. Os parentes e
amigos sempre se reúnem depois da morte?
“Depende isso da elevação deles e do caminho que seguem,
procurando progredir.
Se um está mais
adiantado e caminha mais depressa do que outro, não podem os
dois conservar-se juntos. Ver-se-ão de tempos a tempos, mas não
estarão reunidos para sempre, senão quando puderem caminhar lado
a lado, ou quando se houverem igualado na perfeição. Acresce que
a privação de ver os parentes e amigos é, às vezes, uma
punição.”
Relações de
Simpatia e de Sntipatia entre os Espíritos.
291. Além da
simpatia geral, oriunda da semelhança que entre eles exista,
votam-se os Espíritos recíprocas afeições particulares?
“Do mesmo modo que os homens, sendo, porém, que mais forte é o
laço que prende os Espíritos uns aos outros, quando carentes de
corpo material, porque então esse laço não se acha exposto às
vicissitudes das paixões.”
292. Alimentam
ódio entre si os Espíritos?
“Só entre os Espíritos impuros há ódio e são eles que insuflam
nos homens as inimizades e as dissensões.”
293. Conservarão
ressentimento um do outro, no mundo dos Espíritos, dois seres
que foram inimigos na Terra?
“Não; compreenderão que era estúpido o ódio que se votavam e
pueril o motivo que o inspirava. Apenas os Espíritos imperfeitos
conservam uma espécie de animosidade, enquanto se não purificam.
Se foi unicamente um interesse material o que os inimizou, nisso
não pensarão mais, por pouco desmaterializados que estejam. Não
havendo entre eles antipatia e tendo deixado de existir a causa
de suas desavenças, aproximam-se uns dos outros com prazer.”
Sucede como entre
dois colegiais que, chegando à idade da ponderação reconhecem a
puerilidade de suas dissensões infantis e deixam de se
malquerer.
294. A lembrança
dos atos maus que dois homens praticaram um contra o outro
constitui obstáculo a que entre eles reine simpatia?
“Essa lembrança os induz a se afastarem um do outro.”
295. Que
sentimento anima, depois da morte, aqueles a quem fizemos mal
neste mundo?
“Se são bons, eles vos perdoam, segundo o vosso arrependimento.
Se maus, é possível que guardem ressentimento do mal que lhes
fizestes e vos persigam até, não raro, em outra existência. Deus
pode permitir que assim seja, por castigo.”
296. São
suscetíveis de alterar-se as afeições individuais dos Espíritos?
“Não, por não estarem eles sujeitos a enganar-se. Falta-lhes a
máscara sob que se escondem os hipócritas. Daí vem que, sendo
puros, suas afeições são inalteráveis. Suprema felicidade lhes
advém do amor que os une.”
297. Continua a
existir sempre, no mundo dos Espíritos, a afeição mútua que dois
seres se consagraram na Terra?
“Sem dúvida, desde que originada de verdadeira simpatia. Se,
porém, nasceu principalmente de causas de ordem física,
desaparece com a causa. As afeições entre os Espíritos são mais
sólidas e duráveis do que na Terra, porque não se acham
subordinadas aos caprichos dos interesses materiais e do
amor-próprio.”
298. As almas que
devam unir-se estão, desde suas origens, predestinadas a essa
união e cada um de nós tem, nalguma parte do Universo, sua
metade, a que fatalmente um dia reunirá?
“Não; não há união particular e fatal, de duas almas. A união
que há é a de todos os Espíritos, mas em graus diversos, segundo
a categoria que ocupam, isto é, segundo a perfeição que tenham
adquirido. Quanto mais perfeitos, tanto mais unidos. Da
discórdia nascem todos os males dos humanos; da concórdia
resulta a completa felicidade.”
299. Em que
sentido se deve entender a palavra metade, de que alguns
Espíritos se servem para designar os Espíritos simpáticos?
“A expressão é inexata. Se um Espírito fosse a metade do outro,
separados os dois, estariam ambos incompletos.”
300. Se dois
Espíritos perfeitamente simpáticos se reunirem, estarão unidos
para todo o sempre, ou poderão separar-se e unir-se a outros
Espíritos?
“Todos os Espíritos estão reciprocamente unidos. Falo dos que
atingiram a perfeição. Nas esferas inferiores, desde que um
Espírito se eleva, já não simpatiza, como dantes, com os que lhe
ficaram abaixo.”
301. Dois
Espíritos simpáticos são complemento um do outro, ou a simpatia
entre eles existente é resultado de identidade perfeita?
“A simpatia que atrai um Espírito para outro resulta da perfeita
concordância de seus pendores e instintos. Se um tivesse que
completar o outro, perderia a sua individualidade.”
302. A identidade
necessária à existência da simpatia perfeita apenas consiste na
analogia dos pensamentos e sentimentos, ou também na
uniformidade dos conhecimentos adquiridos?
“Na igualdade dos graus da elevação.”
303. Podem
tornar-se de futuro simpáticos, Espíritos que presentemente não
o são?
“Todos o serão. Um Espírito, que hoje está numa esfera inferior,
ascenderá, aperfeiçoando-se, à em que se acha tal outro
Espírito. E ainda mais depressa se dará o encontro dos dois, se
o mais elevado, por suportar mal as provas a que esteja
submetido, permanecer estacionário.”
a) - Podem deixar
de ser simpáticos um ao outro dois Espíritos que já o sejam?
“Certamente, se um deles for preguiçoso.”
A teoria das
metades eternas encerra uma simples figura, representativa da
união de dois Espíritos simpáticos. Trata-se de uma expressão
usada até na linguagem vulgar e que se não deve tomar ao pé da
letra. Não pertencem decerto a uma ordem elevada os Espíritos
que a empregaram. Necessariamente, limitado sendo o campo de
suas idéias, exprimiram seus pensamentos com os termos de que se
teriam utilizado na vida corporal. Não se deve, pois, aceitar a
idéia de que, criados um para o outro, dois Espíritos tenham,
fatalmente, que se reunir um dia na eternidade, depois de
haverem estado separados por tempo mais ou menos longo.
Recordação da
Existência Corpórea
304. Lembra-se o
Espírito da sua existência corporal?
“Lembra-se, isto é, tendo vivido muitas vezes na Terra,
recorda-se do que foi como homem e eu te afirmo que
freqüentemente ri, penalizado de si mesmo.”
Tal qual o homem,
chegou à madureza e que ri das suas loucuras de moço, ou das
suas puerilidades na meninice.
305. A lembrança
da existência corporal se apresenta ao Espírito. completa e
inopinadamente, após a morte?
“Não, vem-lhe pouco a pouco, qual imagem que surge gradualmente
de uma névoa, à medida que nela fixa ele a sua atenção.”
306. O Espírito se
lembra, pormenorizadamente, de todos os acontecimentos de sua
vida? Apreende o conjunto deles de um golpe de vista
retrospectivo?
“Lembra-se das coisas, de conformidade com as conseqüências que
delas resultaram ara o estado em que se encontra como Espírito
errante. Bem compreendes, portanto, que muitas circunstâncias
haverá de sua vida a que não ligará importância alguma e das
quais nem sequer procurará recordar-se.”
a) - Mas, se o
quisesse, poderia lembrar-se delas?
“Pode lembrar-se dos mais minuciosos pormenores e incidentes,
assim relativos aos fatos, como até aos seus pensamentos. Não o
faz, porém, desde que não tenha utilidade.”
b) - Entrevê o
Espírito o objetivo da vida terrestre com relação à vida futura?
“Certo que o vê e compreende muito melhor do que em vida do seu
corpo.
Compreende a
necessidade da sua purificação para chegar ao infinito e percebe
que em cada existência deixa algumas impurezas.”
307. Como é que ao
Espírito se lhe desenha na memória a sua vida passada? Será por
esforço da própria imaginação, ou como um quadro que se lhe
apresenta à vista?
“De uma e outra formas. São-lhe como que presentes todos os atos
de que tenha interesse em lembrar-se. Os outros lhe permanecem
mais ou menos vagos na mente, ou esquecidos de todo. Quanto mais
desmaterializado estiver, tanto menos importância dará às coisas
materiais. Essa a razão por que, muitas vezes, evocas um
Espírito que acabou de deixar a Terra e verificas que não se
lembra dos nomes das pessoas que lhe eram caras, nem de uma
porção de coisas que te parecem importantes. É que tudo isso,
pouco lhe importando, logo caiu em esquecimento. Ele só se
recorda perfeitamente bem dos fatos principais que concorrem
para a sua melhoria.”
308. O Espírito se
recorda de todas as existências que precederam a que acaba de
ter?
“Todo o seu passado se lhe desdobra à vista, quais a um viajor
os trechos do caminho que percorreu. Mas, como já dissemos, não
se recorda, de modo absoluto, de todos os seus atos. Lembra-se
destes conformemente à influência que tiveram na criação do seu
estado atual. Quanto às primeiras existências, as que se podem
considerar a infância do Espírito, essas se perdem no vago e
desaparecem na noite do esquecimento.”
309. Como
considera o Espírito o corpo de que vem de separar-se?
“Como veste imprestável, que o embaraçava, sentindo-se feliz por
estar livre dela.”
a) - Que sensação
lhe causa o espetáculo do seu corpo em decomposição?
“Quase sempre se conserva indiferente a isso, como a uma coisa
que em nada o interessa.”
310. Ao cabo de
algum tempo, reconhecerá o Espírito os ossos ou outros objetos
que lhe tenham pertencido?
“Algumas vezes, dependendo do ponto de vista mais ou menos
elevado, donde considere as coisas terrenas.”
311. A veneração
que se tenha pelos objetos materiais que pertenceram ao Espírito
lhe dá prazer e atrai a sua atenção para esses objetos?
“É sempre grato ao Espírito que se lembrem dele, e os objetos
que lhe pertenceram trazem-no à memória dos que ele no mundo
deixou. Mas, o que o atrai é o pensamento destas pessoas e não
aqueles objetos.”
312. E a lembrança
dos sofrimentos por que passaram na última existência
corporal, os Espíritos a conservam?
“Freqüentemente assim acontece e essa lembrança lhes faz
compreender melhor o valor da felicidade de que podem gozar como
Espíritos.”
313. O homem, que
neste mundo foi feliz, deplora a felicidade que perdeu, deixando
a Terra?
“Só os Espíritos inferiores podem sentir saudades de gozos
condizentes com uma natureza impura qual a deles, gozos que lhes
acarretam a expiação pelo sofrimento. Para os Espíritos
elevados, a felicidade eterna é mil vezes preferível aos
prazeres efêmeros da Terra.”
Exatamente como
sucede ao homem que, na idade da madureza, nenhuma
importância liga ao que tanto o deliciava na infância.
314. Aquele que
deu começo a trabalhos de vulto com um fim útil e que os vê
interrompidos pela morte, lamenta, no outro mundo, tê-los
deixado por acabar?
“Não, porque vê que outros estão destinados a concluí-los.
Trata, ao contrário, de influenciar outros Espíritos humanos,
para que os ultimem. Seu objetivo, na Terra, era o bem da
Humanidade: o mesmo objetivo continua a ter no mundo dos
Espíritos.”
315. E o que
deixou trabalhos de arte ou de literatura, conserva pelas suas
obras o amor que lhes tinha quando vivo?
“De acordo com a sua elevação, aprecia-as de outro ponto de
vista e não é raro condene o que maior admiração lhe causava.”
316. No além, o
Espírito se interessa pelos trabalhos que se executam na Terra,
pelo progresso das artes e das ciências?
“Conforme à sua elevação ou à missão que passa ter que
desempenhar. Muitas vezes, o que vos parece magnífico bem pouco
é para certos Espíritos, que, então, o admiram, como o sábio
admira a obra de um estudante. Atentam apenas no que prove a
elevação dos encarnados e seus progressos.”
317. Após a morte,
conservam os Espíritos o amor da pátria?
“O princípio é sempre o mesmo. Para os Espíritos elevados, a
pátria é o Universo.
Na Terra, a
pátria, para eles, está onde se ache o maior número das pessoas
que lhes são simpáticas.”
As condições dos
Espíritos e as maneiras por que vêem as coisas variam ao
infinito, de conformidade com os graus de desenvolvimento moral
e intelectual em que se achem.
Geralmente, os
Espíritos de ordem elevada só por breve tempo se aproximam da
Terra.
Tudo o que aí se
faz é tão mesquinho em comparação com as grandezas do infinito,
tão pueris são, aos olhos deles, as coisas a que os homens
mais importância ligam, que quase nenhum atrativo lhes oferece o
nosso mundo, a menos que para aí os leve o propósito de
concorrerem para o progresso da Humanidade. Os Espíritos de
ordem intermédia são os que mais freqüentemente baixam a este
planeta, se bem considerem as coisas de um ponto de vista mais
alto do que quando encarnados. Os Espíritos vulgares, esses são
os que aí mais comprazem e constituem a massa da população
invisível do globo terráqueo. Conservam quase que as mesmas
idéias, os mesmos gostos e as mesmas inclinações que tinham
quando revestidos do invólucro corpóreo. Metem-se em nossas
reuniões, negócios, divertimentos, nos quais tomam parte mais ou
menos ativa, segundo seus caracteres. Não podendo satisfazer às
suas paixões, gozam na companhia dos que a eles se entregam e os
excitam a cultivá-las. Entre eles, no entanto, muitos há,
sérios, que vêem e observam para se instruírem e aperfeiçoarem.
318. As idéias dos
Espíritos se modificam quando na erraticidade?
“Muito; sofrem grandes modificações, à proporção que o Espírito
se desmaterializa.
Pode este, algumas
vezes, permanecer longo tempo imbuído das idéias que tinha na
Terra; mas, pouco a pouco, a influência da matéria diminui e ele
vê as coisas com maior clareza. É então que procura os meios de
se tornar melhor.”
319. Já tendo o
Espírito vivido a vida espírita antes da sua encarnação, como se
explica o seu espanto ao reingressar no mundo dos Espíritos?
“Isso só se dá no primeiro momento e é efeito da perturbação que
se segue ao despertar do Espírito. Mais tarde, ele se vai
inteirando da sua condição, à medida que lhe volta a lembrança
do passado e que a impressão da vida terrena se lhe apaga.”
(N°s. 163 e seguintes.)
Comemoração dos
Mortos. Funerais
320. Sensibiliza
os Espíritos o lembrarem-se deles os que lhes foram caros na
Terra?
“Muito mais do que podeis supor. Se são felizes, esse fato lhes
aumenta a felicidade.
Se são
desgraçados, serve-lhes de lenitivo.”
321. O dia da
comemoração dos mortos é, para os Espíritos, mais solene do que
os outros dias? Apraz-lhes ir ao encontro dos que vão orar nos
cemitérios sobre seus túmulos?
“Os Espíritos acodem nesse dia ao chamado dos que da Terra lhes
dirigem seus pensamentos, como o fazem noutro dia qualquer.”
a) - Mas o de
finados é, para eles, um dia especial de reunião junto de suas
sepulturas?
“Nesse dia, em maior número se reúnem nas necrópoles, porque
então também é maior, em tais lugares, o das pessoas que os
chamam pelo pensamento. Porém, cada Espírito vai lá somente
pelos seus amigos e não pela multidão dos indiferentes.”
b) - Sob que forma
aí comparecem e como os veríamos, se pudessem tornar-se
visíveis?
“Sob a que tinham quando encarnados.”
322. E os
esquecidos, cujos túmulos ninguém vai visitar, também lá, não
obstante, comparecem e sentem algum pesar por verem que nenhum
amigo se lembra deles?
“Que lhes importa a Terra? Só pelo coração nos achamos a ela
presos. Desde que aí ninguém mais lhe vota afeição, nada mais
prende a esse planeta o Espírito, que tem para si o Universo
inteiro.”
323. A visita de
uma pessoa a um túmulo causa maior contentamento ao Espírito,
cujos despojos corporais aí se encontrem, do que a prece que por
ele faça essa pessoa em sua casa?
“Aquele que visita um túmulo apenas manifesta, por essa forma,
que pensa no Espírito ausente. A visita é a representação
exterior de um fato íntimo. Já dissemos que a prece é que
santifica o ato da rememoração. Nada importa o lugar, desde que
é feita com o coração.”
324. Os Espíritos
das pessoas a quem se erigem estátuas ou monumentos assistem à
inauguração de umas e outros e experimentam algum prazer nisso?
“Muitos comparecem a tais solenidades, quando podem; porém,
menos os sensibiliza a homenagem que lhes prestam do que a
lembrança que deles guardam os homens.”
325. Qual a origem
do desejo que certas pessoas exprimem de ser enterradas antes
num lugar do que noutro? Será que preferirão, depois de mortas,
vir a tal lugar? E essa importância dada a uma coisa tão
material constitui indício de inferioridade do Espírito?
“Afeição particular do Espírito por determinados lugares;
inferioridade moral. Que importa este ou aquele canto da Terra a
um Espírito elevado? Não sabe ele que sua alma se reunirá às dos
que lhe são caros, embora fiquem separados os seus respectivos
ossos?”
a) - Deve-se
considerar futilidade a reunião dos despojos mortais de todos os
membros de uma família?
“Não; é um costume piedoso e um testemunho de simpatia que dão
os que assim procedem aos que lhes foram entes queridos.
Conquanto destituída de importância para os Espíritos, essa
reunião é útil aos homens: mais concentradas se tornam suas
recordações.”
326. Comovem a
alma que volta à vida espiritual as honras que lhe prestem aos
despojos mortais?
“Quando já ascendeu a certo grau de perfeição, o Espírito se
acha escoimado de vaidades terrenas e compreende a futilidade de
todas essas coisas. Porém, ficai sabendo, há Espíritos que, nos
primeiros momentos que se seguem à sua morte material,
experimentam grande prazer com as honras que lhes tributam, ou
se aborrecem com o pouco caso que façam de seus envoltórios
corporais. É que ainda conservam alguns dos preconceitos desse
mundo.”
327. O Espírito
assiste ao seu enterro?
“Freqüentemente assiste, mas, algumas vezes, se ainda está
perturbado, não percebe o que se passa.”
a) - Lisonjeia-o a
concorrência de muitas pessoas ao seu enterramento?
“Mais ou menos, conforme o sentimento que as anima.”
328. O Espírito
daquele que acaba de morrer assiste à reunião de seus herdeiros?
“Quase sempre. Para seu ensinamento e castigo dos culpados, Deus
permite que assim aconteça. Nessa ocasião, o Espírito julga do
valor dos protestos que lhe faziam. Todos os sentimentos se lhe
patenteiam e a decepção que lhe causa a rapacidade dos que entre
si partilham os bens por ele deixados o esclarece acerca
daqueles sentimentos. Chegará, porém, a vez dos que lhe motivam
essa decepção.”
329. O instintivo
respeito que, em todos os tempos entre todos os povos, o homem
consagrou e consagra aos mortos é efeito da intuição que tem da
vida futura?
“É a conseqüência natural dessa intuição. Se assim não fosse,
nenhuma razão de ser teria esse respeito.”
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