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Origem da Crença
nos Demônios. - Os Demônios Segundo a Igreja. - Os Demônios
Segundo o Espiritismo.
Origem
da Crença nos Demônios
Os
demônios, em todas as épocas, desempenharam um grande papel em
todas as teogonias; se bem que consideravelmente decaído na
opinião geral, a importância que se lhe atribui, ainda em
nossos dias, dá, a essa questão, uma certa gravidade, porque
ela toca mesmo no fundo das crenças religiosas: por isso é útil
examiná-la com os desenvolvimentos que comporta.
A
crença num poder superior é instintiva entre os homens; assim,
é encontrada sob diferentes formas, em todas as idades do
mundo. Mas se, no grau de adiantamento intelectual a que
chegamos hoje, discutem ainda, sobre a natureza e os atributos
desse poder, quanto deveriam ser
imperfeitas as suas noções, a esse respeito, na infância
da Humanidade!
O
quadro que se nos representa da inocência dos povos primitivos,
em contemplação diante das belezas da Natureza, na qual
admiram a bondade do Criador, sem dúvida, é muito poético,
mas falta à realidade.
Quanto
mais o homem se aproxima do estado natural, mas o instinto nele
domina, como se pode ver, ainda, entre os povos selvagens e bárbaros
dos nossos dias; o que mais o preocupa, ou melhor, do que se
ocupa, exclusivamente, é da satisfação das necessidades
materiais, porque não tem outras preocupações. O sentido que,
unicamente, pode torná-lo acessível aos gozos puramente
morais, não se desenvolve senão com o tempo e gradualmente; a
alma, tem sua infância, sua adolescência e sua virilidade,
igual ao corpo humano; mas para atingir virilidade que a torne
apta a compreender as coisas abstratas, quanto de evolução
deve, ainda, percorrer na Humanidade! Quanto de existências não
lhe falta cumprir!
Sem
remontar às primeiras idades, vemos, ao nosso redor, as pessoas
dos nossos campos, e perguntamo-nos quais sentimentos de admiração
despertam, nelas, o esplendor do Sol nascente, a abóbada
estrelada, o gorjeio dos pássaros, o murmúrio das ondas
claras, as campinas matizadas de flores! Para elas, o Sol se
eleva porque tem o hábito, e, conquanto lhe dê bastante calor
para amadurecer as colheitas, e não muito para secá-las, é
tudo o que pedem; se olham o céu, é para saberem se fará bom
ou mau tempo amanhã; que os pássaros cantem, ou não, lhe é
bem igual, conquanto que não comam o seu grão; às melodias do
rouxinol, preferem o cacarejar das galinhas e o grunhir dos seus
porcos; o que pedem aos riachos, claros ou lamacentos, é de não
secarem e nem inundá-los; às campinas, dar-lhes boas ervas,
com ou sem flores: é tudo o que desejam, dizemos mais, tudo o
que compreendem da Natureza, e, no entanto, já estão longe do
homem primitivo.
Se
nos reportamos a estes últimos, vemo-los, mais exclusivamente,
ainda, preocupados com a satisfação das necessidades
materiais; o que serve para provê-los e o que pode prejudicá-los
resume, para eles, o bem e o mal neste mundo. Eles crêem em uma
potência extra-humana; mas como aquilo que lhes traz um prejuízo
material é o que mais lhes toca, atribuem-no a essa potência,
da qual fazem, de resto, uma idéia muito vaga. Não podendo,
ainda, nada conceber, fora do mundo visível e tangível,
imaginam que resida nos seres e nas coisas que lhes são
nocivas. Os animais malfazejos dela são, pois, para eles, os
representantes naturais e diretos. Pela mesma razão, viram a
personificação do bem nas coisas úteis; daí o culto prestado
a certos animais, a certas plantas e mesmo a objetos inanimados.
Mas o homem, geralmente, é mais sensível ao mal do que ao bem;
o bem lhe parece natural, ao passo que o mal lhe afeta mais; por
isso, é que, em todos os cultos primitivos, as cerimônias em
honra das potências malfazejas são mais numerosas: o medo leva
o melhor sobre o reconhecimento.
Durante
muito tempo, o homem não compreendeu senão o bem e o mal físico;
o sentimento do bem moral e do mal moral marca um progresso na
inteligência humana; só então o homem entrevê a
espiritualidade, e compreende que o poder sobre-humano está
fora do mundo visível, e não nas coisas materiais. Isso foi a
obra de certas inteligências de elite que, não obstante, não
puderam transpor certos limites.
Como
se via uma luta incessante entre o bem e o mal, e este, freqüentemente
vencer aquele; que, de outro lado, não se podia admitir,
racionalmente, que o mal fosse a obra de uma potência
benfazeja, disso se concluiu a existência de duas potências
rivais governando o mundo. Daí nasceu a doutrina dos dois príncipes:
o do bem e do mal, doutrina lógica para certa época, porque o
homem era, ainda, incapaz de conceber uma outra, e de penetrar a
essência do Ser Supremo. Como teria podido compreender que o
mal não é senão um estado momentâneo, do qual pode sair o
bem, e que os males que o afligem devem conduzi-lo à
felicidade, ajudando o seu adiantamento? As limitações do seu
horizonte moral não lhe permitiam ver nada fora da vida
presente, nem depois e nem antes; não poderia compreender nem
que havia progredido, nem que progrediria, ainda,
individualmente, e ainda menos que as vicissitudes da vida são
da imperfeição do ser espiritual que está nele, que preexiste
e sobrevive ao corpo, e se depura numa série de existências,
até que alcance a perfeição. Para compreender o bem que pode
sair do mal, não se pode ver uma única existência; é preciso
abarcar o conjunto: só então aparecem as verdadeiras causas e
o seus efeitos.
O
duplo princípio do bem e do mal, durante longos séculos, e sob
diferentes nomes, foi a base de todas as crenças religiosas. Foi personificado sob o nome de Oromaze e Arimane entre os
Persas, de Jeová e de Satã entre os Hebreus. Mas como todo
soberano deve ter ministros, todas as religiões admiram as potências
secundárias, ou gênios bons ou maus. Os Pagãos os identificam
sob uma multidão inumerável de individualidades, tendo, cada
uma, atribuições especiais para o bem e para o mal, para os vícios
e para as virtudes, aos quais deram o nome genérico de deuses.
Os Cristãos e os Muçulmanos tomam, dos Hebreus, os anjos e os
demônios.
A
doutrina dos demônios tem, pois, sua origem na antiga crença
nos dois princípios, do bem e do mal. Não vamos examiná-la,
aqui, senão sob o ponto de vista cristão, e ver se está em
relação com o conhecimento mais exato que temos, hoje, dos
atributos da Divindade.
Esses
atributos são o ponto de partida, a base de todas as doutrinas
religiosas; os dogmas, o culto, as cerimônias, os usos, a
moral, tudo está em relação com a idéia mais ou menos justa,
mais ou menos elevada, que se faz de Deus, desde o fetichismo,
até o Cristianismo. Se a essência íntima de Deus, é, ainda,
um mistério para a nossa inteligência, nós o compreendemos
melhor do que jamais o foi, graças aos ensinamentos do Cristo.
O Cristianismo, nisso de acordo com a razão, nos ensina que:
Deus
é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso,
soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições.
Si
se tirasse a menor parcela de um único dos atributos de Deus, não
se teria mais Deus, porque poderia existir um outro ser mais
perfeito. Esses atributos, em sua mais absoluta plenitude, são,
pois, o critério de todas as religiões, a medida da verdade de
cada um dos princípios que elas ensinam. Para que um desses
princípios seja verdadeiro, é preciso que não insulte a
nenhuma das perfeições de Deus. Vejamos se é assim com a
doutrina vulgar dos demônios.
Os
Demônios Segundo a Igreja
Segundo
a Igreja, Satã, o chefe ou o rei dos demônios, não é uma
personificação alegórica do mal, mas um ser real, fazendo
exclusivamente o mal, ao passo que Deus faz exclusivamente o
bem. Tomemo-lo, pois, tal como no-lo dão.
Satã,
de toda a eternidade, é igual a Deus, ou posterior a Deus? Se
ele é de toda a eternidade, é não criado e, por conseqüência,
igual a Deus. Deus, então, não é mais único; há o Deus do
bem e o Deus do mal.
É
posterior? Então, é uma criatura de Deus. Uma vez que ele não
faz senão o mal, que é incapaz de fazer o bem e de se
arrepender, Deus criou um ser votado, perpetuamente, ao mal. Se
o mal não é a obra de Deus, mas a de uma de suas criaturas
predestinada a fazê-lo, dele sempre Deus é o primeiro autor,
e, então, não é infinitamente bom. Ocorre o mesmo com todos
os seres maus chamados de demônios.
Tal
foi, durante muito tempo, a crença sobre esse ponto. Conforme
pastoral do Eminentíssimo Cardeal Gousset, cardeal arcebispo de
Reims pelo carisma de 1865, hoje, se diz:
“Deus,
que é a bondade e a santidade por essência, não os teria
criado maus e malfazejos. Sua mão paternal, que se compraz em
derramar, sobre todas as suas obras, um reflexo das suas perfeições
infinitas, os havia cumulado de seus mais magníficos dons. Às
qualidades sobreeminentes de sua natureza, havia acrescentado a
generosidade da sua graça; fizera-os em tudo semelhantes aos
Espíritos sublimes que estão na glória e na felicidade;
distribuídos em todas as ordens, e misturados em todas as
classes, tinham o mesmo fim e os mesmos destinos; seu chefe foi
o mais belo dos arcanjos. Teriam podido, eles também, merecer
ser confirmados, para sempre, na justiça e admitidos a gozarem,
eternamente, a felicidade dos céus. Este último favor teria
coroado a todos os outros favores dos quais foram objeto; mas
deveria ser o prêmio da sua docilidade, e deles se tornarem
dignos; perderam por uma revolta audaciosa e insensata.”
“Qual
foi o escolho de sua perseverança? Qual verdade desconheceram?
Qual ato de fé, e de adoração, recusaram a Deus? A Igreja e
os anais da história santa não o dizem, de maneira positiva;
mas parece certo que não aquiesceram nem à mediação do Filho
de Deus, nem à exaltação da natureza humana em Jesus
Cristo.”
“O
verbo divino, para o qual todas as coisas foram feitas, é também
o único mediador e salvador, no céu e na Terra; a finalidade
sobrenatural não foi dada aos anjos e aos homens senão em
previsão da sua encarnação e dos seus méritos; porque não há
nenhuma proporção entre as obras dos mais eminentes Espíritos
e essa recompensa, que não é outra que o próprio Deus;
nenhuma criatura teria podido aí chegar sem essa intervenção,
maravilhosa e sublime, de caridade. Ora, para preencher a distância
infinita que separa a essência divina das obras das suas mãos,
seria preciso que reunisse, em sua pessoa, os dois extremos, e
que associasse, à sua divindade, a natureza do anjo ou a do
homem; e ele fez escolha da natureza humana.”
“Esse
desígnio, concebido de toda a eternidade, foi manifestado aos
anjos muito tempo antes do seu cumprimento; o Homem-Deus lhes
foi mostrado, no futuro, como Aquele que deveria confirmá-los
nas graças e introduzi-los na glória, com a condição de que
o adorassem, na Terra, durante a sua missão, e, nos céus,
pelos séculos dos séculos; revelação inesperada, visão
arrebatadora para os corações generosos e reconhecidos mas
mistério profundo, acabrunhante para os Espíritos soberbos!
Esse fim sobrenatural, esse peso imenso de glória, que lhes era
proposto, não seria, pois, unicamente a recompensa dos seus méritos
pessoais! Jamais poderiam atribuir-se, a si mesmos, os títulos
dessa posse! Um mediador, entre eles e Deus, que injúria feita
a sua dignidade! A preferência gratuita concedida à natureza
humana, que injustiça! Que insulto aos seus direitos! Essa
Humanidade, que lhes era tão inferior, vê-la-iam, um dia,
divinizada pela sua união com o Verbo, e sentada à direita de
Deus, sobre um trono resplandecente? Consentiriam oferecer-lhe,
eternamente, as suas homenagens e a sua adoração?”.
“Lúcifer
e a terceira parte dos anjos sucumbiram a esses pensamentos de
orgulho e de ciúme. São Miguel, e com ele a maioria,
exclamaram: O que é semelhante a Deus? Ele é o senhor dos seus
dons e o soberano Senhor de todas as coisas. Glória a Deus e ao
Cordeiro, que será imolado para a salvação do mundo! Mas o
chefe dos rebeldes, esquecendo-se de que era devedor, ao seu
Criador, por sua nobreza e por suas prerrogativas, não ouve senão
a sua temeridade, e diz: “Eu mesmo me elevarei ao céu;
estabelecerei a minha morada acima dos astros; me assentarei
sobre a montanha da aliança, nos flancos do Aquilon; dominarei
as nuvens mais elevadas, e serei semelhante ao Mais Alto.”
Aqueles que partilhavam seus sentimentos acolheram as
suas palavras com um murmúrio de aprovação; e se encontravam
em todas as ordens da hierarquia; mas a sua multidão não os
colocou ao abrigo do castigo.”
Essa
doutrina levanta várias objeções.
1o.
Se Satã e os demônios eram anjos, era porque eram perfeitos:
sendo perfeitos, como puderam falir e, nesse ponto, desconhecer
a autoridade de Deus, em cuja presença se encontravam?
Conceber-se-ia, ainda, se não tivessem chegado a esse grau
eminente senão gradualmente e após passarem pela fileira da
imperfeição, que teriam podido ter um retorno deplorável; mas
o que torna a coisa mais incompreensível é que no-los
apresentam como tendo sido criados perfeitos.
A
conseqüência dessa teoria é esta: Deus, tendo querido criar,
neles, seres perfeitos, uma vez que os cumulara de todos os
dons, enganou-se; portanto, segundo a Igreja, Deus não é infalível (Essa
doutrina monstruosa foi afirmada por Moisés, quando disse:
“Ele se arrependeu de ter feito o homem sobre a Terra. E,
estando tocado de dor até o fundo do coração, disse:
“Exterminarei de sobre a Terra, o homem que criei;
exterminarei tudo, desde o homem até os animais, desde tudo o
que rasteja sobre a terra, até os pássaros do céu; porque eu
me arrependi de tê-los feito.” – Gênese, Cap. VI; Vv. 6 e
7. Um Deus que se arrepende do que fez não é perfeito e nem
infalível; portanto, não é Deus. Essas são, pois, as
palavras que a Igreja proclama como sendo verdades santas. Não
se vê, muito, o que havia de comum entre os animais e a
perversidade do homem, para merecer o seu extermínio).
2o.
Uma vez que nem a Igreja e nem os anais da história não
explicam a causa da revolta dos anjos contra Deus, que somente
parece certo que estava na sua recusa de reconhecer a missão
futura do Cristo, que valor pode ter o quadro, tão preciso e tão
detalhado, da cena que teve lugar nessa ocasião? De qual fonte
foram hauridas as palavras, tão claramente narradas como tendo
sido pronunciadas até por simples murmúrios? De duas coisas
uma: ou a cena é verdadeira, ou não o é. Se é verdadeira, não
há nenhuma incerteza, e, então, por que a Igreja não resolve
o dilema? Se a
Igreja e a história se calam, se somente a causa parece certa,
isso não é senão uma suposição, e a descrição da cena não
é senão uma obra da imaginação(Encontra-se em Isaias, cap.
XIV, v. 11 e seguintes: “Teu orgulho foi precipitado nos
infernos; teu corpo morto e tombado por terra; tua cama será a
podridão, e tuas vestes serão os vermes. Como tombaste do céu,
Lúcifer, tu que parecias tão brilhante ao romper do dia? Como
foste derrubado sobre a terra, tu que atingias com flagelos as
nações, que dizias em teu coração: Eu subirei ao céu,
estabelecerei o meu trono acima dos astros de Deus, me
assentarei sobre a montanha da aliança, nos flancos do Aquilon;
colocar-me-ei acima das nuvens mais elevadas e serei semelhante
ao Mais Alto? E, contudo, foste precipitado dessa glória, no
inferno, até o mais profundo dos abismos. Aqueles que te verão,
aproximar-se-ão junto de ti, e, depois de encarar-te, dir-te-ão:
Está aqui aquele homem que apavorou a terra, que lançou o
terror nos reinos, que fez do mundo um deserto, que lhe destruiu
as cidades, e que reteve, nas prisões, aqueles que fizera seus
prisioneiros?” Estas palavras dos profeta, não são relativas
à revolta dos anjos, mas uma alusão ao orgulho e à queda do
rei da Babilônia, que mantinha os judeus em cativeiro, assim
como provam os últimos versículos. O rei da Babilônia é
designado, alegoricamente, sob o nome de Lúcifer, mas não fez
nenhuma menção da cena descrita acima. Essas palavras são as
do rei que dizia em seu coração, e se colocava, pelo seu
orgulho, acima de Deus, cujo povo mantinha cativo. A predição
da libertação dos judeus, da ruína da Babilônia e da derrota
dos assírios é, aliás, o objeto exclusivo desse capítulo).
3o.
As palavras atribuídas a Lúcifer acusam uma ignorância que se
espanta em encontrá-las num arcanjo que, pela sua própria
natureza e o grau em que está colocado não deve partilhar,
sobre a organização do Universo, os erros e os preconceitos
que os homens professaram, até que a ciência tivesse vindo
esclarecê-los. Como pôde dizer: “Estabelecerei a minha
morada acima dos astros; dominarei as mais elevadas nuvens”?
É sempre a antiga crença, tendo a Terra como centro do
mundo, no céu de nuvens que se alongam até as estrelas, na
região limitada das estrelas formando abóbada, e que a
Astronomia nos mostra disseminadas ao infinito, no espaço
infinito. Tendo em vista que, hoje se sabe que as nuvens não se
estendem além de duas léguas da superfície da Terra, para
dizer que dominaria as nuvens mais elevadas, e falar de
montanhas, seria preciso que a cena se passasse sobre a superfície
da Terra, e que aí fosse a morada dos anjos; se essa morada
estivesse nas regiões superiores, seria inútil dizer que se
elevaria acima das nuvens. Dar aos anjos uma linguagem eivada de
ignorância é confessar que os homens, hoje, sabem mais a
respeito, do que os anjos. A Igreja comete sempre o erro de não
levar em conta os progressos da ciência.
A
resposta à primeira objeção se encontra na passagem seguinte:
“A
escritura e a tradição dão o nome de céu ao lugar onde os
anjos estavam colocados no momento da sua criação; mas não
era o céu dos céus, o céu da visão beatífica, onde Deus se
mostra, aos seus eleitos, face a face, e onde os seus eleitos o
contemplam sem esforços e sem nuvens; porque ali não há mais
perigo, nem possibilidade de pecar; a tentação e a fraqueza são
desconhecidas; a justiça, a alegria, a paz, ali reinam em uma
imutável segurança; a santidade e a glória não diminuem.
Era, pois, uma outra região celeste, uma esfera luminosa e
afortunada, onde essa nobres criaturas, largamente favorecidas
de comunicações divinas, deveriam recebê-las e a elas
aderirem pela humildade da fé, antes de serem admitidas a
ver-lhes, claramente, a realidade na própria essência de
Deus.”
Resulta
do que precede, que os anjos, que faliram, pertenciam a uma
categoria menos elevada, menos perfeita, que não tinha, ainda,
chegado ao lugar supremo, onde a falta era impossível. Seja;
mas, então, há, aqui, uma contradição manifesta, porque está
dito, mais acima, que: “Deus os havia feito em tudo
semelhantes aos Espíritos Sublimes, que, distribuídos em todas
as ordens e misturados em todas as suas classes, tinham o mesmo
fim e a mesma destinação; que o seu chefe era o mais belo dos
arcanjos.” Se
foram feitos, em tudo, semelhantes aos outros, não eram, pois,
de uma categoria inferior; se estavam misturados em todas as
classes, não estavam num lugar especial. A objeção subsiste,
pois, inteiramente.
Há
uma outra que é, sem contradita, a mais grave e a mais séria.
Está
dito: “Esse desígnio(a mediação do Cristo) concebido de
toda a eternidade, foi manifestado aos anjos muito tempo antes
do seu cumprimento.” Deus
sabia, pois, de toda a eternidade, que os anjos, bem assim os
homens, teriam necessidade dessa mediação. Sabia ou não
sabia, que certos anjos faliriam; que essa queda acarretaria,
para eles, a condenação eterna, sem esperança de retorno; que
estariam destinados a tentar os homens; que aqueles, destes últimos,
que se deixassem seduzir, sofreriam a mesma sorte. Se o sabia,
criou, pois, esses anjos, com conhecimento de causa, para a sua
perda irrevogável, e para a maior parte do gênero humano.
Qualquer coisa que se diga, é impossível conciliar a sua criação,
em uma semelhante previsão, com a soberana bondade. Se não o
sabia, não era, pois, todo-poderoso. Num e noutro caso, é a
negação de dois atributos sem a plenitude dos quais não seria
Deus.
Si
se admite a falibilidade dos anjos, igual á dos homens, a punição
é uma conseqüência, natural e justa, da falta; mas si se
admite, ao mesmo tempo, a possibilidade do resgate, pelo retorno
ao bem, a reentrada na graça, depois do arrependimento e da
expiação, nada tem que desminta a bondade de Deus. Deus sabia
que faliriam, que seriam punidos, mas, sabia, também, que esse
castigo temporário seria um meio de fazê-los compreender a sua
falta e redundaria em seu favor. Assim se confirmariam estas
palavras do profeta Ezequiel: “Deus não quer a morte do
pecador, mas a sua salvação.”
O que seria a negação dessa bondade, seria a
inutilidade do arrependimento e a impossibilidade do retorno ao
bem. Nessa hipótese, é, pois, rigorosamente exato dizer que:
“Esses anjos, desde a sua criação, uma vez que Deus não
poderia ignorá-lo, foram votados ao mal perpetuamente, e
predestinados a se tornarem demônios, para arrastar os homens
ao mal.”
Vejamos,
agora, qual é a sua sorte e o que fazem.
Mal
sua revolta se manifestou na linguagem dos Espíritos, quer
dizer, no impulso dos seus pensamentos, foram banidos,
irrevogavelmente, da cidade celeste e precipitados no abismo.
Por
essas palavras entendemos que foram relegados a um lugar de
suplicio, onde sofressem a pena do fogo, conforme este texto do
Evangelho, que saiu da própria boca do Salvador: “Ide,
malditos, ao fogo eterno que foi preparado para os demônios e
seus anjos.” São Pedro diz, expressamente: “que Deus os
entregou às cadeias e torturas do inferno, mas nem todos aí
ficam perpetuamente; não será senão no fim do mundo que serão
presos, para sempre, com os condenados; presentemente, Deus
permite que ocupem, ainda, um lugar na criação à qual
pertencem; na ordem das coisas às quais se prende sua existência,
nas relações, enfim, que deviam ter com os homens, e das quais
fizeram o mais pernicioso abuso; enquanto que uns estão em sua
morada tenebrosa, e aí servem de instrumento para a justiça
divina, contra as almas infortunadas que seduziram, uma
infinidade de outros, formando legiões invisíveis, sob a condução
de seus chefes, residem nas camadas inferiores de nossa
atmosfera e percorrem todas as partes do globo; estão enredados
com tudo o que se passa aqui em baixo, onde, o mais freqüentemente,
tomam uma parte muito ativa.“
No
que concerne às palavras do Cristo, sobre o suplicio do fogo
eterno, essa questão está tratada no capítulo anterior, O
Inferno.
Segundo
essa doutrina, só uma parte dos demônios estás no inferno; a
outra erra em liberdade, se enredando com tudo o que se passa
nesse mundo, dando-se ao prazer de fazer o mal, e isso até o
fim do mundo, cuja época, indeterminada, não ocorreria tão
cedo. Por que, pois, essa diferença? São menos culpados? Não,
seguramente. A menos que daí não saiam, cada um por sua vez, o
que parece resultar dessa passagem: “enquanto uns estão na
sua morada tenebrosa, e aí servem de instrumento, à justiça
divina, contra as almas desafortunadas que seduziram.”
Suas
funções consistem em atormentar as almas que seduziram. Assim,
não estão encarregados de punirem as que são culpadas por
faltas livre e voluntariamente cometidas, mas das que
provocaram. São, ao mesmo tempo, a causa da falta e o
instrumento do castigo; e, coisa que a justiça humana, tão
imperfeita que é não admitiria, a vitima que sucumbe, por
fraqueza, à ocasião que se fez nascer para tentá-la, é
punida tão severamente quanto o agente provocador que emprega a
habilidade e a astúcia; mesmo mais severamente, porque vai para
o inferno deixando a Terra, para dele não sair jamais, e ali
sofrer, sem trégua e misericórdia, durante a eternidade, ao
passo que aquele que foi a causa primeira de sua falta goza de
moratória e de liberdade até o fim do mundo! A justiça de
Deus não é, pois, mais perfeita do que a dos homens!
Isso
não é tudo. “Deus permite que eles ocupem ainda um lugar
nessa criação, nas relações que devem ter com os homens, e
das quais fazem os mais perniciosos abusos.” Deus poderia
ignorar o abuso que fazem da liberdade que lhes concede? É,
pois, com conhecimento de causa que entrega suas criaturas à
sua mercê, sabendo, em virtude de toda a sua presciência, que
eles sucumbirão e terão a sorte de demônios. Não tinham
bastante de sua própria fraqueza, sem permitir que fossem
excitadas ao mal por um inimigo tanto mais perigoso, quando é
invisível? Ainda se o castigo não fosse senão temporário e
se o culpado pudesse se redimir pela reparação! Mas não: é
condenado pela eternidade. Sem arrependimento, sem retorno ao
bem, seus remorsos são supérfluos.
Os
demônios são, assim, os agentes provocadores predestinados a
recrutarem almas para o inferno, e isso com a permissão de
Deus, que sabia, criando essas almas, a sorte que lhes estava
reservada. Que se diria, na Terra, de um juiz que usasse esse
critério para povoar as prisões? Estranha idéia que se nos dá
da Divindade, de um Deus cujos atributos essenciais são a
soberana justiça e a soberana bondade! E é em nome de Jesus
Cristo, daquele que não pregou senão o amor, a caridade e o
perdão, que se ensina semelhantes doutrinas! Foi-se o tempo em
que tais anomalias passavam despercebidas; não eram
compreendidas, não eram sentidas; o homem, curvado sob o jugo
do despotismo, submetia
a sua razão cegamente, ou antes, abdicava a sua razão; mas
hoje, a hora da emancipação soou: ele compreende a justiça, a
quer durante a sua vida e depois de sua morte; por isso disse:
“Isso não é, isso não se pode, ou Deus não é Deus.!”
“O
castigo segue por toda parte esses seres decaídos e malditos,
por toda parte carregam seu inferno consigo: não têm mais nem
paz nem repouso; as próprias doçuras da esperança se lhes
mudaram em amargura: ela lhes é odiosa; a mão de Deus os
atingiu no próprio ato do seu pecado, e a sua vontade se
obstinou no mal; tornados perversos, não querem cessar de sê-lo,
e o são para sempre.”
“Eles
são, depois do pecado, o que o homem é depois da morte; a
reabilitação daqueles que caíram é, pois, impossível; a sua
perda, doravante, é sem retorno, e perseveram em seu orgulho,
face a face com Deus, em seu ódio contra o seu Cristo, em seu
ciúme contra a Humanidade.”
“Não
podendo se apropriarem da glória do céu, pelo impulso de sua
ambição, esforçam-se por estabelecerem seu império sobre a
Terra, e dela banirem o reino de Deus; o Verbo feito carne,
cumpriu, apesar deles, os seus desígnios para a salvação e a
glória da Humanidade; todos os seus meios de ação são
consagrados para arrebatar-lhe as almas que resgatou; a
habilidade e a impunidade, a mentira e a sedução, empregam
tudo para levá-los Ao mal e consumar a sua ruína.”
Com
tais inimigos, a vida do homem, desde o berço até o túmulo, não
pode ser, ah! senão uma
luta perpétua, porque eles são poderosos e infatigáveis.
“Esses
inimigos, com efeito, são aqueles mesmos que, depois de terem
introduzido o mal no mundo, vieram cobrir a Terra de espessas
trevas do erro e do vício; aqueles que, durante longos séculos,
se fizeram adorar como deuses, e que reinaram soberanamente
sobre os povos da antiguidade; aqueles, enfim, que exercem ainda
o seu império tirânico nas regiões idólatras, e que fomentam
a desordem e o escândalo até no seio das sociedades cristãs.”
“Para
compreender tudo o que têm de recursos a serviço de sua
maldade, basta notar que nada perderam das prodigiosas
faculdades que são o apanágio da natureza angélica; sem dúvida,
o futuro, e sobretudo a ordem sobrenatural, têm mistérios que
Deus se reservou, e que eles não podem descobrir, mas sua
inteligência é bem superior à nossa, porque percebem, num
golpe de vista, os efeitos em suas causas, e as causas em seus
efeitos; essa penetração lhes permite anunciarem,
antecipadamente, acontecimentos que escapam às nossas
conjecturas; a distância e a diversidade dos lugares se apagam
diante de sua agilidade; mais prontos que o raio, mais rápidos
que o pensamento, se acham, quase ao mesmo tempo, em diversos
pontos do globo, e podem descrever, à distância, as coisas que
testemunham na própria hora em que se cumprem.”
“As
leis gerais com as quais Deus rege e governa este Universo, não
são do seu domínio; não podem derroga-las, nem, por conseqüência,
predizer ou operar verdadeiros milagres; mas eles possuem a arte
de imitarem e arremedarem, em certos limites, as obras divinas;
sabem quais fenômenos resultam da combinação dos elementos, e
presidem com certeza, aqueles que chegam naturalmente, como
aqueles que eles mesmos têm o poder de produzirem; daí esses
oráculos numerosos, esses encantos extraordinários dos quais
os livros sagrados e profanos nos guardaram a lembrança, e que
servem de base e de alimento a todas as superstições.”
“Sua
substância simples e imaterial os subtrai aos nossos olhares;
estão ao nosso lado sem serem percebidos; atingem nossa alma
sem atingirem nossos ouvidos;
cremos obedecer ao nosso próprio pensamento, enquanto
sofremos as suas tentações e a sua funesta influência; nossas
disposições, ao contrário, lhes são conhecidas pelas impressões
que delas mostramos, e eles nos atacam, comumente, pelo nosso
lado fraco; para nos seduzirem mais seguramente, têm o costume
de nos apresentar engodos e sugestões conforme as nossas tendências;
modificam a sua ação segundo as circunstâncias e segundo os
traços característicos de cada temperamento; mas as suas armas
favoritas são a mentira e a hipocrisia.”
O
castigo, diz-se, segue-os por toda parte; eles não têm mais
nem paz nem repouso. Isso não destrói em nada a observação
feita sobre o pequeno descanso que gozam aqueles que não estão
no inferno, descanso tanto menos justificado quanto estando
fora, fazem mais mal. Sem nenhuma dúvida, não são felizes
como os bons anjos; mas conta-se por nada a liberdade de que
gozam? Se eles não têm a felicidade moral que a virtude
proporciona, incontestavelmente, são menos infelizes que os
seus cúmplices, que estão nas chamas. E de resto, para o mau,
há uma espécie de gozo em fazer o mal com toda a liberdade.
Perguntai a um criminoso se lhe é igual estar na prisão ou
correr pelos campos, e cometer seus delitos à vontade. A posição
é exatamente a mesma.
O
remorso, diz-se, persegue-os sem trégua nem misericórdia. Mas
esquece-se que o remorso é precursor imediato do
arrependimento, se já não é o próprio arrependimento. Ora,
diz-se: “Tornados perversos, não querem cessar de sê-lo, e o
são para sempre.” Desde que não querem cessar de serem
perversos, é porque não têm remorsos; se tivessem o menos
remorso, cessariam de fazer o mal e pediriam perdão. Portanto,
o remorso não é para eles um castigo.
“São
depois do pecado o que o homem é depois da morte; a reabilitação
daqueles que tombaram é, pois, impossível.” De onde vem essa
impossibilidade? Não se compreende que seja a conseqüência de
sua semelhança com o homem depois da morte, proposição que,
de resto, não é muito clara. Essa impossibilidade vem de sua
própria vontade ou vem de Deus? Si é o fato de sua vontade,
isso denota uma extrema perversidade, de um endurecimento
absoluto no mal; desde então, não se compreende que seres tão
essencialmente maus puderam ser anjos de virtude, e que, durante
o tempo indefinido que passaram entre estes últimos, não
tenham deixado transparecer nenhum traço de sua natureza má.
Si é vontade de
Deus, compreende-se ainda menos que inflija, como castigo, a
impossibilidade de retorno ao bem, depois de uma primeira falta.
O Evangelho não diz nada de semelhante.
“Sua
perda, acrescenta-se, é doravante sem retorno, e perseveram no
seu orgulho diante de Deus.”
De que lhes serviria de não perseverarem, uma vez que
todo arrependimento é inútil? Se tivessem a esperança de uma
reabilitação, por qualquer preço que fosse, o bem teria uma
finalidade para eles, ao passo que não a têm. Si perseveram no
mal, é, pois, porque a porta da esperança lhes está fechada.
E por que Deus lhes fecha? Para se vingar da ofensa que recebeu
com a sua falta de submissão. Assim, para saciar o seu
ressentimento, contra alguns culpados, prefere vê-los, não
somente sofrer, mas fazerem o mal antes que o bem; induzir ao
mal e impelir à perdição eterna todas as suas criaturas do gênero
humano, quando bastaria um simples ato de clemência para se
evitar um tão grande desastre, de um desastre previsto de toda
a eternidade!
Tratar-se-ia,
por ato de clemência, de uma graça pura e simples que, talvez,
fosse um encorajamento ao mal? Não, mas de um perdão
condicional, subordinado a um sincero retorno ao bem. Em lugar
de uma palavra de esperança e de misericórdia, fé como se
Deus dissera: Pereça toda a raça humana, antes que a minha
vingança! E admira-se que, com uma tal doutrina, hajam incrédulos
e ateus? É assim que Jesus nos representa seu Pai? Ele que nos
fez uma lei expressa do esquecimento e do perdão das ofensas,
que nos disse pagar o mal com o bem, que coloca o amor aos
inimigos na primeira classe das virtudes que devem nos merecer o
céu, queria, pois, que os homens fossem melhores, mais justos,
mais complacentes que o próprio Deus?
Os
Demônios Segundo o Espiritismo
Segundo
o Espiritismo, nem os anjos nem os demônios são seres à
parte; a criação dos seres inteligentes é una. Unidos a
corpos materiais, eles constituem a Humanidade que povoa a Terra
e as outras esferas habitadas; separados do corpo, constituem o
mundo espiritual ou dos Espíritos que povoam os espaços. Deus
os criou perfectíveis; deu-lhes por objetivo a perfeição, e a
felicidade que dela é conseqüência, mas não lhes deu a
perfeição; quis que a devessem ao seu trabalho pessoal, a fim
de que lhe tivessem o mérito. Desde o instante de sua formação,
progridem, seja no estado de encarnação, seja no estado
espiritual; chegados ao apogeu, são puros Espíritos, ou anjos
segundo a denominação vulgar; de sorte que, desde o embrião
do ser inteligente até o anjo, há ma cadeia ininterrupta, da
qual cada elo marca um
grau no progresso.
Disso
resulta que existem Espíritos em todos os graus de adiantamento
moral e intelectual, segundo estejam no alto, embaixo, ou no
meio da escala. Há Espíritos, por conseqüência, em todos os
graus de saber e de ignorância, de bondade e de maldade. Nas
classes inferiores, há os que estão ainda profundamente
inclinados ao mal, e que nele se comprazem. Querendo-se, pode-se
chamá-los de demônios, porque são capazes de todas as ações
feias atribuídas a estes últimos. Se o Espiritismo não lhes dá
esse nome, é porque se liga à idéia de seres distintos da
Humanidade, de uma natureza essencialmente perversa, votados ao
mal pela eternidade e incapazes de progredirem no bem.
Segundo
a doutrina da Igreja, os demônios foram criados bons, e se
tornaram maus pela desobediência: são os anjos decaídos;
foram colocados por Deus no alto da escala e desceram. Segundo o
Espiritismo, são Espíritos imperfeitos, mas que se melhorarão;
estão ainda na base da escala e subirão.
Aqueles
que, pela sua indiferença, sua negligência, sua obstinação e
sua má vontade permanecem tempo mais longo nas classes
inferiores, disso carregam a pena, e o hábito do mal torna-os
mais difícil de sair dele; mas chega um tempo em que se cansam
dessa existência penosa e dos sofrimentos que lhes são a
conseqüência; é
então que, comparando a sua situação com a dos bons Espíritos,
compreendem que seu interesse está no bem, e procuram se
melhorar, mas o fazem por sua própria vontade e sem serem
constrangidos a isso. Eles estão submetidos à lei do
progresso por sua aptidão em progredir, mas não progridem
apesar deles. Para isso Deus lhes fornece, sem cessar, os meios,
mas são livres para aproveitarem ou não. Se o progresso fosse
obrigatório, eles não teriam nenhum mérito, e Deus quer que
tenham o de suas obras; não coloca nenhum na primeira classe
por privilégio, mas a primeira classe está aberta a todos, e a
ela não chegam senão por seus esforços. Os mais elevados
anjos conquistaram o seu grau como os outros, passando pela rota
comum.
Chegados
a um certo grau de depuração, os Espíritos têm missões em
relação com o se adiantamento; eles cumprem todas as que são
atribuídas aos anjos das diferentes ordens. Como Deus criou de
toda a eternidade, de toda a eternidade se encontram Espíritos
para satisfazer a todas as necessidades do governo do Universo.
Uma única espécie de seres inteligentes, submetidos à lei do
progresso, basta, pois, para tudo. Essa unidade na criação,
com o pensamento que todos têm um mesmo ponto de partida, a
mesma rota a percorrer, e que se elevam por seu próprio mérito,
responde bem melhor à justiça de Deus, que a criação de espécies
diferentes, mais ou menos favorecidas de dons naturais que
seriam tantos privilégios.
A
doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos demônios e das
almas humanas, não admitindo a lei do progresso, e vendo,
contudo, seres em diversos graus, disso concluiu que eram o
produto de tantas criações especiais. Ela chega, assim, a
fazer de Deus um pai parcial, dando tudo a alguns de seus
filhos, ao passo que impõe aos outros os mais rudes trabalhos.
Não é de se admirar que, durante muito tempo, os homens não
tenham encontrado nada de chocante nessas preferências, então
que as usavam do mesmo modo em relação aos seus filhos, pelos
direitos inatos e os privilégios de nascença; poderiam crer
fazer mais mal que deus?
Mas
hoje o círculo das idéias se alargou; eles vêm mais claro; têm
noções mais limpas da justiça; querem-na para eles, e se não
a encontram sempre na Terra, esperam ao menos encontrá-la mais
perfeita no céu; e aqui está porque
toda doutrina onde a justiça divina não lhes apareça
em sua maior pureza, lhes repugna a razão.
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