O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
I Parte
Capítulo X
Intervenção dos Demônios nas Modernas Manifestações

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
O Céu e o Inferno

DOUTRINA

     

Os fenômenos espíritas modernos têm chamado a atenção sobre os fatos análogos que ocorreram em todas as épocas, e jamais a história foi mais compulsada sob esse aspecto, que nestes últimos tempos.  Da semelhança dos efeitos, conclui-se a unidade da causa.  Como para todos os fatos extraordinários cuja razão é desconhecida, a ignorância viu uma causa sobrenatural, e a superstição as ampliou acrescentando-lhes crenças absurdas; daí uma multidão de lendas que, para a maioria, são uma mistura de um pouco de verdade e muito de falso.

As doutrinas sobre o demônio, que prevaleceram por tempo tão longo, tinham de tal modo exagerado o seu poder, que haviam por assim dizer, feito esquecer Deus; foi por isso que se lhe fazia honra por tudo que parecia sobrepujar a força humana; por toda a parte aparecia a mão de Satã; as melhores coisas, as descobertas mais úteis, sobretudo todas aquelas que podiam tirar o homem da ignorância e alargar o círculo de suas idéias, muitas vezes, foram olhadas como obras diabólicas.  Os fenômenos espíritas, mais multiplicados em nossos dias, sobretudo melhor observados com a ajuda das luzes da razão e dos dados da ciência, confirmaram, é verdade, a intervenção de inteligências ocultas, mas agindo sempre nos limites das leis da Natureza, e revelando, pela sua ação, uma nova força e leis desconhecidas até agora.  A questão se reduz, pois, em saber de qual ordem são essas inteligências.

Enquanto não houve, sobre o mundo espiritual, senão noções incertas ou sistemáticas, pôde-se enganar;  mas hoje, quando observações rigorosas e estudos experimentais lançaram luz sobre a natureza dos Espíritos, sua origem e seu destino, seu papel no Universo e seu modo de ação, a questão se resolve pelos fatos.  Agora, sabe-se que são as almas daqueles que viveram sobre a Terra.  Sabe-se também que as diversas categorias de Espíritos, bons e maus, não constituem seres de diferentes espécies, mas não marcam senão diversos graus de adiantamento.  Segundo a classe que ocupam, em razão do seu desenvolvimento intelectual e moral, aqueles que se manifestam, se apresentam sob aspectos muito opostos, o que não os impede de terem saído da grande família humana, tão bem quanto o selvagem, o bárbaro e o homem civilizado.

Sobre este ponto, como sobre muitos outros, a Igreja mantém suas velhas crenças no que concerne aos demônios.  Ela disse: “Temos princípios que não variaram em dezoito séculos e que são imutáveis.”  Seu erro está precisamente em não levar em conta o progresso das idéias, e crer Deus bastante pouco sábio para não proporcionar a revelação ao desenvolvimento da inteligência, para ter com os homens primitivos a mesma linguagem que com os homens avançados.  Se, ao passo que a Humanidade avança, a religião se aferra aos velhos hábitos, tanto em matéria espiritual quanto em matéria científica, chegará um momento em que ela será invadida pela incredulidade.

Eis como a Igreja explica a intervenção exclusiva do demônio nas manifestações modernas:

Em sua intervenção exterior, os demônios não são menos atentos em dissimularem a sua presença para afastarem as suspeitas. Sempre astutos e pérfidos, atraem os homens para suas ciladas, antes de impor-lhe as cadeias da opressão e da servidão;  aqui despertam a curiosidade pelos fenômenos e os jogos pueris; ali, ferem de admiração e subjugam pelo atrativo do maravilhoso;   se o sobrenatural aparece, se sua força os desmascara, acalmam e apaziguam as apreensões, solicitam confiança, provocam a familiaridade;  ora se fazem passar por divindades e bons gênios, ora utilizam os nomes e mesmo os traços dos mortos que deixaram uma memória entre os vivos;  por meio dessas fraudes dignas da antiga serpente, falam e são escutados; dogmatizam e são acreditados; misturam às suas mentiras algumas verdades, e fazem aceitar o erro sob todas as formas;  é aí que desembocam as pretensas revelações de além-túmulo; é para obter esse resultado que a madeira, a pedra, as florestas e as nascentes, o santuário dos ídolos, o pé de mesas, a mão de crianças, representam oráculos; é para isso que a pitonisa profetiza em seu delírio, e que o ignorante, num misterioso sono, torna-se, de repente, o doutor da Ciência.  Enganar e perverter, tal é, em toda parte e em todos os tempos, o objetivo final dessas estranhas manifestações.

Os resultados surpreendentes dessas observações ou desses atos, na maioria bizarros e ridículos, não podendo proceder de sua virtude intrínseca, nem da ordem estabelecida por Deus, não se pode esperá-los senão do concurso de forças ocultas.  Tais são, notadamente, os fenômenos extraordinários obtidos, em nossos dias, pelos procedimentos, em aparência inofensivos, do magnetismo, e o órgão inteligente das mesas falantes.  Por meio dessas operações da magia moderna, vemos se produzir, entre nós, as evocações e os oráculos, as consultas, as curas e os sortilégios que ilustraram os templos dos ídolos e os antros das sibilas.  Como outrora, ordena-se à madeira e a madeira obedece; interrogam-lhe, e ela responde em todas as línguas e sobre todas as questões; encontra-se em presença de seres invisíveis que usurpam o nome dos mortos, cujas pretensas revelações estão marcadas com o selo da contradição e da mentira; formas leves e sem consistência aparecem de repente, e se mostram dotadas de uma força sobre humana.

Quais são os agentes secretos desses fenômenos e os verdadeiros atores dessas cenas inexplicáveis?  Os anjos não aceitariam esses papéis indignos, e não se prestariam a todos os caprichos de uma vã curiosidade.  As almas dos mortos, que Deus proíbe consultar, moram numa morada que lhes marcou a sua justiça, e não podem sem a sua permissão, colocar-se às ordens dos vivos.  Os seres misteriosos que se entregam, assim, à primeira chamada do herético e do ímpio, como do fiel do crime tão bem quanto da inocência, não são nem os enviados de Deus, nem os apóstolos da verdade e da salvação, mas os cúmplices do erro e do inferno.  Apesar do cuidado que tomam, escondendo-se sob os nomes mais veneráveis, eles se traem pelo nada de suas doutrinas, não menos que pela baixeza de seus atos e a incoerência de suas palavras.  Esforçam-se por apagar do símbolo religioso os dogmas do pecado original, da ressurreição dos corpos, da eternidade das penas e toda revelação divina, a fim de tirar as leis à sua verdadeira sanção, e abrir ao vicio todas as barreiras.  Se suas sugestões pudessem prevalecer, formariam uma religião cômoda, para uso do socialismo e de todos aqueles que importunam a noção do dever e da consciência.  A incredulidade de nosso século preparou-lhes o caminho.  Possam as sociedades cristãs, por um retorno sincero à fé católica, escapar ao perigo dessa nova e terrível invasão Citações extraídas da pastoral do Cardeal Gousset, cardeal arcebispo de Reims. Em razão do mérito pessoal e da posição do autor, podemos considerar como sendo a palavra da Igreja).

Toda essa teoria repousa sobre o principio de que os anjos e os demônios são seres distintos da alma dos homens, e que estas são o produto de uma criação especial, inferior mesmo aos demônios, em inteligência, em conhecimentos e faculdades de todas as espécies.  Conclui-se pela intervenção exclusiva dos anjos maus nas manifestações antigas e modernas, atribuídas aos Espíritos dos mortos.

A possibilidade, para as almas, de se comunicarem com os vivos é uma questão de fato, um resultado da experiência e da observação que não discutiremos aqui.  Mas admitamos, por hipótese, a doutrina acima, e vejamos se ela mesma não se destrói por seus próprios argumentos.

Nas três categorias de anjos, segundo a Igreja, uma se ocupa exclusivamente do céu; uma outra do governo do Universo; a terceira está encarregada da Terra, e nesta se encontram os anjos guardiães encarregados da proteção de cada indivíduo.  Uma parte somente dos anjos dessa categoria tomou parte na revolta e foi transformada em demônios.  Se Deus permitiu a esses últimos impelir os homens para a sua perda, pelas sugestões de todos os gêneros, e o fato das manifestações ostensivas, por que, se é soberanamente justo e bom, lhes teria concedido o imenso poder de que gozam, deixado uma liberdade da qual fazem tão pernicioso uso, sem permitir aos bons anjos fazer-lhes um contrapeso com manifestações semelhantes dirigidas para o bem?  Admitamos que Deus haja dado uma parte igual de poder aos bons e aos maus, o que seria já um favor exorbitante em proveito destes últimos, o homem pelo menos estaria livre para escolher; mas dar-lhes o monopólio das tentações, com a faculdade de simular o bem, de se equivocar para seduzir mais seguramente, seria uma verdadeira armadilha estendida à sua fraqueza, à sua inexperiência, à sua boa fé; dizemos mais: seria abusar da confiança de Deus.  A razão recusa admitir uma tal parcialidade em proveito do mal.  Vejamos os fatos.

Concede-se ao demônio faculdades transcendentes; nada perderam de sua natureza Angélica; têm o saber, a perspicácia, a previdência, a clarividência dos anjos, e além disso a astúcia, a esperteza e a manha no supremo grau.  Sua finalidade é desviar os homens do bem, e sobretudo afastá-los de Deus para arrastá-los ao inferno, do qual são os provedores e os recrutadores.

Compreende-se que se dirijam àqueles que estão no bom caminho, e que são desviados por eles se nisso persistem; compreende-se a sedução e o simulacro do bem, a fim de atraí-los para as suas armadilhas; mas o que é incompreensível é que se dirijam àqueles que já lhes pertencem, corpo e alma, para conduzi-los a Deus e ao bem; ora, quem está mais em suas garras que aquele que renega e blasfema de Deus, que mergulha no vício e na desordem das paixões?  Já não está no caminho do inferno?  Compreende-se que, seguro de sua presa, ele a estimule a orar a Deus, a se submeter à sua vontade, a renunciar ao mal; que exalte aos seus olhos as delicias da vida dos bons Espíritos, e lhe pinte com horror a posição dos maus?  Viu-se, um dia, um comerciante gabar, aos seus clientes, a mercadoria do seu vizinho, às expensas da sua, e convidá-los a irem para casa dele?  Um recrutador depreciar a vida militar, e louvar o repouso da vida doméstica?  Dizer aos alistados que terão uma vida de cansaço e de privações; que têm dez chances em uma de serem mortos, ou pelo menos de terem os braços e as pernas, destruídos?

Está aí, portanto, o papel estúpido que se faz o demônio desempenhar, porque há um fato notório, é que, em conseqüência das instruções emanadas do mundo invisível, vêem-se todos os dias os incrédulos e os ateus reconduzidos a Deus e orarem com fervor, o que nunca fizeram; pessoas viciadas trabalharem com ardor pela sua melhora.  Pretender que seja a obra das manhas do demônio, é dele fazer um verdadeiro tolo.  Ora, como isso aqui não é uma suposição, mas um resultado da experiência, e que contra um fato não há negação possível, disso é preciso concluir ou que o demônio é um desastrado num alto grau, que nem é tão temível, nem tão maligno quanto se pretende e, por conseqüência, que não é muito a temer, uma vez que trabalha contra seus interesses, ou bem que todas as manifestações não são dele.

Eles fazem aceitar o erro sob todas as formas; é para obter esse resultado que a madeira, a pedra, as florestas, os mananciais, o santuário de ídolos, o pé de mesas, a mão de crianças tornam-se oráculos.

Qual é, pois, depois disso, o valor destas palavras do Evangelho: “Derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; as pessoas jovens terão visões, e os velhos terão sonhos;  naqueles dias derramarei do meu Espírito sobre meus servos e sobre minhas servas, e eles profetizarão.”  (Atos dos Apóstolos, cap. II, vv. 17 e 18)  Não é predição da mediunidade dada a todo o mundo, mesmo às crianças, e que se realiza em nossos dias?  Os Apóstolos lançaram anátema sobre essa faculdade?  Não; anunciaram-na como um favor de Deus, e não como obra do demônio.  Sabem os teólogos de nossos dias, sobre esse ponto, mais que os Apóstolos? Não deveriam ver o dedo de Deus no cumprimento dessas palavras?

Por meio dessas operações da magia moderna vemos se reproduzirem entre nós as evocações e os oráculos, as consultas, as curas e os sortilégios que ilustraram os templos dos ídolos e os antros das sibilas.

Onde se vê operações de magia nas evocações espíritas?  Foi-se o tempo em que se podia crer em sua eficácia, mas hoje elas são ridículas; ninguém crê nelas e o Espiritismo as condena.  À época em que floresceu a magia, não havia senão uma idéia muito imperfeita sobre a natureza dos Espíritos, que se olhava como seres dotados de um poder sobre-humano; não eram chamados senão para deles se obterem, fosse mesmo ao preço de sua alma, os favores da sorte e da fortuna, a descoberta de tesouros, a revelação do futuro, ou filtros.  A magia, com a ajuda dos seus sinais, fórmulas e operações cabalísticas, era tida para fornecer pretensos segredos para operar prodígios, obrigar os Espíritos a se colocarem às ordens dos homens e satisfazerem-lhes os desejos.  Hoje sabe-se que os Espíritos não são senão as almas dos homens; não são chamados senão para receber os conselhos dos bons, moralizar os imperfeitos, e para continuar as relações com os seres que nos são caros.  Eis o que diz o Espiritismo a esse respeito.

- Não há nenhum meio de obrigar um Espírito a vir, apesar dele, se for vosso igual ou vosso superior, em moralidade, porque não tendes nenhuma autoridade sobre ele; se for vosso inferior, vós o podereis, se for para o seu bem, porque então outros Espíritos vos secundam.

- A mais essencial de todas as disposições para as evocações é o recolhimento, quando se quer ter relações com Espíritos sérios.  Com a fé e o desejo do bem, se é mais poderoso para evocar os Espíritos superiores.  Elevando sua alma, por alguns instantes de recolhimento, no momento da evocação, identifica-se com os bons Espíritos, e os dispõe a virem. Nenhum objeto, medalha ou talismã, tem a propriedade de atrair ou de afastar os Espíritos; a matéria não tem nenhuma ação sobre eles.  Jamais um bom Espírito aconselha semelhantes absurdos.  A virtude dos talismãs jamais existiu senão na imaginação de pessoas crédulas.

- Não há formula sacramental para a evocação dos Espíritos. Quem pretenda dar-lhe uma, pode ousadamente ser taxado de charlatanice, porque para os Espíritos a forma não é nada.  Todavia, a evocação deve sempre ser feita em nome de Deus.

- Os Espíritos que marcam encontros em lugares lúgubres ou fora de hora, são Espíritos que se divertem às custas daqueles que os escutam.  É sempre inútil, e freqüentemente perigoso, ceder a tais sugestões; inútil porque não se ganha absolutamente nada, que ser mistificado; perigoso, não pelo mal que os Espíritos possam fazer, mas pela influência que isso pode exercer sobre os cérebros fracos.

- Não há nem dias nem horas especialmente propícios para as evocações; isso é completamente indiferente para os Espíritos, como tudo o que é material, e seria uma superstição  crer nessa influência.  Os momentos mais favoráveis são aqueles em que o evocador pode estar o menos distraído pelas suas ocupações habituais; em que seu corpo e seu Espírito estão mais calmos.

- A critica malevolente está mais para representar as comunicações espíritas como cercadas de práticas ridículas e supersticiosas da magia e da necromancia.  Se aqueles que falam do Espiritismo sem conhecê-lo, se tivessem dado ao trabalho de estudarem do que querem falar, teriam poupado gastos de imaginação ou alegações que não servem senão para provarem a sua ignorância ou a sua má vontade.  Para a edificação de pessoas estranhas à ciência, diremos que não há, para comunicar com os Espíritos, nem dias, nem horas, nem lugares mais propícios uns que outros; que não é preciso, para evocá-los, nem fórmulas, nem palavras sacramentais ou cabalísticas; que não há necessidade de nenhuma preparação nem de nenhuma iniciação; que o emprego de todo sinal ou objeto material, seja para atraí-los, seja para afastá-los, não tem efeito, e que o pensamento basta; enfim, que os médiuns recebem as suas comunicações, sem saírem do estado normal, tão simplesmente e tão naturalmente como se fossem ditadas por uma pessoa viva.  Só o charlatanismo poderia afetar maneiras excêntricas e acrescentar acessórios ridículos.

- Em princípio, o futuro deve ser ocultado ao homem; não é senão em casos raros e excepcionais que Deus permite a sua revelação.  Se o homem conhecesse o futuro, negligenciaria o presente e não agiria com a mesma liberdade, porque seria dominado pelo pensamento que, se uma coisa deve chegar, não há com que dela se preocupar, ou bem  procuraria entravá-la.  Deus não quis que assim fosse, a fim de que cada um concorresse para o cumprimento das coisas, mesmo daquelas às quais gostaria de se opor.  Deus permite a revelação do futuro quando esse conhecimento prévio deva facilitar o cumprimento de uma coisa, em lugar de entravá-la, conduzindo a agir de outro modo ao que se teria feito sem isso.

- Os Espíritos não podem guiar nas pesquisas científicas e nas descobertas.  A ciência é a     obra do gênio; ela não deve ser adquirida senão pelo trabalho, porque é só pelo trabalho que o homem avança em seu caminho.  Que mérito haveria se não tivesse senão que interrogar os Espíritos para tudo saber?  Todo imbecil poderia tornar-se sábio por esse preço.  Ocorre o mesmo com as invenções e as descoberta da indústria.  Quando o tempo de uma descoberta chegou, os Espíritos encarregados de dirigir-lhe a marcha procuram o homem capaz de conduzi-la a bom fim, e lhe inspiram as idéias necessárias, de maneira a deixar-lhe todo o mérito, porque essas idéias, é preciso que as elabore e as ponha em prática.  Assim ocorre com todos os grandes trabalhos da inteligência humana.  Os Espíritos deixam cada homem em sua esfera; daquele que não é próprio senão para cavar a terra, não farão depositário dos segredos de Deus; mas eles saberão tirar da obscuridade o homem capaz de secundar os seus desígnios.  Não vos deixeis, pois, arrastar pela curiosidade ou ambição, para um caminho que não é objetivo do Espiritismo, e que resultará para vós nas mais ridículas mistificações.

- Os Espíritos não podem fazer descobrir os tesouros ocultos.  Os Espíritos superiores não se ocupam dessas coisas; mas os Espíritos zombeteiros indicam, freqüentemente, tesouros que não existem, ou podem fazer procurar um num lugar, ao passo que está no oposto; e isso tem a sua utilidade para mostrar que a verdadeira fortuna está no trabalho.  Se a providência destina riquezas ocultas a alguém, esse alguém  as encontrará naturalmente, de outro modo não.

- O Espiritismo, esclarecendo-nos sobre as propriedades dos fluidos que são os agentes e os meios de ação do mundo invisível, e constituem uma das forças e um dos poderes da Natureza, nos dá a chave de uma multidão de coisas  sem explicação e inexplicáveis por todo outro meio, e que puderam, nos tempos recuados, passar por prodígios.  Ele revela, do mesmo modo que o magnetismo, uma lei, senão desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou, melhor dizendo, conheciam-se os efeitos, porque se produziram em todos os tempos, mas não se conhecia a lei, e foi essa ignorância da lei quer engendrou a superstição.  Conhecida essa lei, o maravilhoso desapareceu, e os fenômenos entraram na ordem das coisas naturais.  Eis porque os espíritas não fazem mais milagres fazendo girar uma mesa ou um defunto escrever, que o médico fazendo reviver um moribundo, ou um físico fazendo cair o raio.  Aquele que pretendesse, com a ajuda desta ciência, fazer milagres, seria ou um ignorante da coisa, ou um enganador.

- Certas pessoas fazem uma idéia muito falsa das evocações; há as que crêem consistirem em fazer os mortos voltarem com o aparato lúgubre do túmulo.  Não é senão nos romances, nos contos fantásticos de fantasmas e no teatro que se vêem os mortos descarnados saírem de seus sepulcros, coberto de lençóis, fazendo estalar seus ossos.  O Espiritismo, que jamais fez milagres, não tem feito mais aquele que outros, e jamais fez reviver um corpo morto; quando um corpo está na fossa, aí está bem definitivamente; mas o ser espiritual, fluídico, inteligente, não está aí colocado com o seu envoltório grosseiro; dele se separou no momento da morte, e uma vez operada a separação, não tem mais nada de comum com ele.

- Estendemo-nos sobre essas citações para mostrar que os princípios do Espiritismo não têm nenhuma  relação com a magia.  Assim, nada de Espíritos às ordens dos homens, nada de meios de obrigá-los, nada de sinais ou fórmulas cabalísticas, nada de descobertas de tesouros ou procedimentos para se enriquecer, nada de milagres ou prodígios, nada de adivinhações nem aparições fantásticas; nada, enfim, do que constitui o objetivo e os elementos essenciais da magia; o Espiritismo não somente nega todas  essas coisas, mas delas demonstra a impossibilidade e a ineficácia.  Não há, pois, nenhuma analogia entre o fim e os  meios da magia com os do Espiritismo; querer assimilá-los não pode ser senão o fato da ignorância ou da má fé; e como os princípios do Espiritismo não têm nada de secreto, e são formulados em termos claros e sem equívocos, o erro não poderia prevalecer.  Quanto aos fatos das curas, reconhecidas reais na pastoral supracitada, o exemplo foi mal escolhido para afastar das relações com o Espírito.  É um dos benefícios que tocam mais e cada um pode apreciar; poucas pessoas estarão dispostas a renunciá-lo, sobretudo depois de terem esgotado todos os outros meios, na crença de ser curada pelo diabo; mais de um, ao contrário, dirá que, se o diabo o curou, ele fez uma boa ação.

Quais são os agentes secretos desses fenômenos e os verdadeiros autores dessas cenas inexplicáveis?  Os anjos não aceitariam esses papéis indignos, e não se prestariam a todos os caprichos de uma vã curiosidade.

O autor quer falar das manifestações físicas de Espíritos;  entre elas, há evidentemente as que seriam pouco dignas de Espíritos superiores; e se, substituis a palavra anjos por puros Espíritos ou Espíritos Superiores, tereis exatamente o que diz o Espiritismo.  Mas não se poderiam colocar na mesma linha as comunicações inteligentes pela escrita, pela palavra, pela audição ou todo outro meio, que não são mais indignas de bons Espíritos e que não o são na terra de homens os mais eminentes, nem as aparições, as curas e uma multidão de outros que os livros sacros citam em profusão como sendo o fato de anjos ou de santos.  Se, pois, os anjos e os santos produziram outrora fenômenos semelhantes, por que não os produziriam hoje?  Por que os mesmos fatos seriam hoje a obra do demônio, nas mãos de certas pessoas, ao passo que são reputados milagres santos em outras?  Sustentar semelhante tese é abdicar de toda lógica.

O autor da pastoral está em erro quando diz que esses fenômenos são inexplicáveis.  Ao contrário, são hoje perfeitamente explicados, e é por isso que não são vistos como maravilhosos e sobrenaturais; e não o fossem ainda, não seria mais lógico atribuí-los ao diabo, como não era outrora, dar-lhe a honra de todos os efeitos naturais que não se compreendiam.

Por papéis indignos é preciso entender os papéis ridículos e aqueles que consistem em fazer o mal; mas não se pode assim qualificar o de Espíritos que fazem o bem, e conduzem os homens a Deus e à virtude.  Ora, o Espiritismo diz expressamente que os papéis indignos não são atribuições de Espíritos superiores, assim como provam os preceitos seguintes:

- Reconhece-se a qualidade dos Espíritos pela sua linguagem; a dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna e nobre, lógica, isenta de contradições; respira a sabedoria, a benevolência, a modéstia e a moral mais pura; é concisa e sem palavras inúteis.  Nos Espíritos inferiores, ignorantes, ou orgulhosos, o vazio das idéias é quase sempre compensado pela abundância de palavras.  Todo pensamento evidentemente falso, toda máxima contraria a sã moral, todo conselho ridículo, toda expressão grosseira, trivial ou simplesmente frívola, enfim, toda marca de malevolência, de presunção ou de arrogância, são sinais incontestáveis de inferioridade num Espírito.

- Os Espíritos superiores não se ocupam senão de comunicações inteligentes, tendo em vista nossa instrução; as manifestações físicas ou puramente materiais estão mais especialmente nas atribuições de Espíritos inferiores, vulgarmente designados sob o nome de Espíritos batedores; como entre nós, os grandes esforços competem aos saltimbancos e não aos sábios.  Seria absurdo pensar que os Espíritos, enquanto sejam pouco elevados, divertem-se em se exibirem.

Qual é o homem de boa fé que pode ver, nesses preceitos, um papel indigno atribuído aos Espíritos elevados?  Não somente o Espiritismo não confunde os Espíritos, mas, ao passo que se atribui aos demônios uma inteligência igual à dos anjos, ele constata, pela observação dos fatos, que os Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes, que seu horizonte moral é limitado, sua perspicácia restrita; que têm das coisas uma idéia freqüentemente falsa e incompleta, e são incapazes de resolverem certas questões, o que os colocaria na impossibilidade de fazerem tudo o que se atribui aos demônios.

As almas dos mortos, que Deus proíbe consultar, moram em uma morada que lhes marcou a sua justiça, e elas não podem, sem a sua permissão, colocar-se às ordens dos vivos.

O Espiritismo diz também que elas não podem vir sem a permissão de Deus, mas é ainda bem mais rigoroso, porque diz que nenhum Espírito, bom ou mau, pode vir sem essa permissão, ao passo que a Igreja atribui aos demônios o poder de transpô-la.  Vai mais longe ainda, uma vez que disse que, mesmo com essa permissão, quando vêm ao chamado dos vivos, não é para se colocarem às suas ordens.

O Espírito evocado vem voluntariamente ou é constrangido a isso? – Ele obedece à vontade de Deus, quer dizer, à lei geral que rege o Universo; julga se é útil vir, e está aí, ainda, para ele, o seu livre arbítrio.  O Espírito superior vem sempre   quando é chamado para um fim útil; não se recusa a responder senão nos meios de pessoas pouco sérias e que tratam a coisa em brincadeira.

Pode o Espírito evocado recusar-se a vir ao chamado que lhe é feito? – Perfeitamente; onde estaria o seu livre arbítrio sem isso?  Credes que todos os seres do Universo estejam às vossas ordens?  E vós mesmos, estais obrigados a responder a todos aqueles que pronunciam vosso nome?  Quando digo que pode se recusar a isso, entendo quanto ao pedido do evocador, porque um Espírito inferior pode ser constrangido a vir por um Espírito Superior.

Os espíritas estão de tal modo convencidos de que não têm poder direto sobre os Espíritos, e nada podem obter sem a permissão de Deus, que, quando chamam a um Espírito qualquer, dizem: “Peço a Deus Todo-poderoso permitir a um bom Espírito se comunicar comigo; pe,o também ao meu anjo guardião consentir em me assistir e afastar os maus Espíritos”; ou então, quando se trata de chamar um Espírito determinado: “Peço a Deus Todo-poderoso permitir ao Espírito de um tal se comunicar comigo”.

As acusações lançadas pela Igreja contra a prática das evocações não concernem, pois, ao Espiritismo, uma vez que se dirigem principalmente sobre as operações da magia, com a qual não tem nada em comum; ele condena nessas operações, o que ela mesma condena; não faz os bons Espíritos desempenharem um papel indigno deles, e, enfim, declara nada pedir e nada obter sem a permissão de Deus.

Sem dúvida, pode haver pessoas que abusam das evocações, que delas fazem um jogo, que desviam seu objetivo providencial para que sirvam aos seus interesses pessoais, que, por ignorância, leviandade, orgulho ou cupidez, se afastam dos verdadeiros princípios da Doutrina; mas o Espiritismo sério as reprova, como a verdadeira religião reprova os falsos devotos e os excessos do fanatismo.  Não é, pois, nem lógico nem eqüitativo imputar ao Espiritismo em geral os abusos que ele condena, ou as faltas daqueles que não o compreendem.  Antes de formular uma acusação, é preciso ver se ela assenta justo.  Portanto, diremos: A censura da Igreja cai sobre os embusteiros, os exploradores, as práticas da magia e da feitiçaria; nisso ela tem razão.  Quando a critica religiosa e cética filtra os abusos e estigmatiza o charlatanismo, não faz melhor com isso que ressaltar a pureza da sã doutrina, que ajuda, assim, a se desembaraçar das más escórias; nisso facilita a nossa tarefa.  Seu erro está em confundir o bem e o mal, por ignorância na maioria, por má-fé em alguns; mas, a distinção que ela não faz, outros a fazem.  Em todos os casos, sua censura, à qual todo espírita sincero se associa no limite do que se aplica ao mal, não pode atingir a Doutrina.

Os seres misteriosos que se entregam assim ao primeiro chamado do herético e o ímpio como do fiel, do crime tão bem quanto da inocência, não são nem os enviados de Deus, nem os apóstolos da verdade, mas os cúmplices do erro e do inferno.

Assim, ao herético, ao ímpio, ao criminoso, Deus não permite que os bons Espíritos venham tirá-los do erro para salvá-los da perdição eterna!  Não lhe envia senão os subordinados do inferno para enfiá-los mais no lamaçal!  Bem mais, não envia à inocência senão seres perversos para pervertê-la!  Não se encontra, pois, entre os anjos, essas criaturas privilegiadas de Deus, nenhum ser bastante compassivo para vir em socorro dessas almas perdidas?  Por que as qualidades brilhantes de que são dotados, se não servem senão para seus gozos pessoais?  São realmente bons se, mergulhados nas delícias de sua contemplação, vêem essas almas no caminho do inferno, sem virem dele desviá-las?  Não é a imagem do rico egoísta que, tendo tudo em profusão, sem piedade, deixa o pobre morrer de fome à sua porta?  Não é o egoísmo erigido em virtude e colocado até aos pés do Eterno?

Não vos admireis que os bons Espíritos vão ao herético e ao ímpio; esqueceis, pois, esta palavra do Cristo: “Não é aquele que está bem que tem necessidade de médico.”  Não veríeis as coisas de um ponto mais elevado que os Fariseus de seu tempo?  E vós mesmos, se fosseis chamados por um descrente, recusaríeis ir a ele para colocá-lo no bom caminho?  Os bons Espíritos fazem, pois, o que faríeis; vão ao ímpio fazê-lo ouvir boas palavras.  Em lugar de lançar anátema às comunicações de além-túmulo, bendizei os caminhos do Senhor, e admirai o seu todo poder e a sua bondade infinita.

Há, diz-se, os anjos guardiões; mas, quando esses anjos de guarda não podem se fazer ouvir pela voz misteriosa da consciência ou da inspiração, por que não empregariam meios de ação mais diretos e mais materiais, de natureza a ferirem os sentidos, uma vez que eles existem?  Deus coloca, pois, esses meios, que são obra sua, uma vez que tudo vem dele e que nada chega sem a sua permissão, à disposição dos maus Espíritos, ao passo que recusa aos bons deles se servirem?  De onde é preciso concluir que Deus dá aos demônios mais facilidades para perder os homens, que as dá aos anjos guardiões para salvá-los.

Pois bem! O que os anjos de guarda não podem fazer, segundo a Igreja, os demônios o fazem por eles; com a ajuda dessas mesmas comunicações, supostamente infernais, conduzem a Deus aqueles que o renegam, e ao bem aqueles que estão mergulhados no mal; dão-nos o estranho espetáculo de milhões de homens que crêem em Deus pelo poder do diabo, então que a Igreja fora impotente para convertê-los.  Quantos homens que não oraram jamais, oram hoje com fervor, graças às instruções desses mesmos demônios!  Quantos deles não se vêem que, de orgulhosos, egoístas e debochados, se tornaram humildes, caridosos e menos sensuais!  E se diz que é a obra dos demônios!  Se assim for, é preciso convir que os demônios prestaram um maior serviço e os assistiu melhor que os anjos.  É preciso ter uma bem pobre opinião do julgamento dos homens deste século, para crer que possam aceitar cegamente tais idéias.  Uma religião que faz a sua pedra angular de semelhante doutrina, que se declara solapada em sua base, tirando-se  seus demônios, seu inferno, suas penas eternas e seu Deus sem piedade, é uma religião que se suicida.

Deus, diz-se, que enviou seu Cristo para salvar os homens, não provou seu amor por suas criaturas, e as deixou sem proteção?  Sem nenhuma dúvida, o Cristo é o divino Messias, enviado para ensinar as verdades aos homens e mostrar-lhes o bom caminho; mas, somente depois dele, contai o número daqueles que puderam ouvir a sua palavra de verdade, quantos morreram e quantos morrerão sem conhecê-la, e, entre os que a conhecem, quantos há que a colocam em prática!  Por que Deus, em sua solicitude para a salvação de seus filhos, não lhes enviaria outros mensageiros, vindos sobre toda a Terra, penetrando nos mais humildes redutos, entre os grandes e os pequenos, entre os sábios e os ignorantes, entre os incrédulos como entre os crentes, ensinar a verdade àqueles que não a conhecem, fazê-la compreender àqueles que não a compreendem, suprir, pelo seu ensinamento, direto e múltiplo, à insuficiência da propagação do Evangelho, e apressar, assim, o advento do reino de Deus?  E quando esses mensageiros chegarem em massas inumeráveis, abrindo os olhos aos cegos, convertendo os ímpios, curando os doentes, consolando os aflitos, a exemplo de Jesus, vós os repelireis, repudiareis o bem que fazem, dizendo que são os demônios?  Tal é também a linguagem dos Fariseus com relação a Jesus, porque eles também diziam que fazia o bem pelo poder do diabo.  O que ele lhes respondeu?  “Reconhecereis a árvore pelo seu fruto; uma árvore má não pode dar bons frutos.” 

Mas, para eles, os frutos produzidos por Jesus eram maus, porque vinham destruir os abusos e proclamar a liberdade que devia arruinar a sua autoridade; se viesse para lisonjear o seu orgulho, sancionar as suas prevaricações e sustentar o seu poder, aos seus olhos, seria o Messias esperado pelos Judeus.  Ele era só, pobre e fraco, fizeram-no perecer e creram matar a sua palavra; mas a sua palavra era divina e lhe sobreviveu.  Entretanto, ela se propagou com lentidão e, depois de dezoito séculos, apenas é conhecida da décima parte do gênero humano, e cismas numerosos explodiram no seio dos seus próprios discípulos.  Foi então que Deus, em sua misericórdia, enviou os Espíritos para confirmá-la, colocá-la ao alcance de todos, e difundi-la por toda a Terra.  Mas os Espíritos não estão encarnados em um único homem, cuja voz seria limitada; são inumeráveis, vão por toda a parte e não se pode prendê-los, eis por que os seus ensinamentos se difundem com a rapidez do raio;  falam ao coração e à razão, eis por que são compreendidos pelos mais humildes.

Não é indigno de celestes mensageiros, dizei-vos, transmitirem as suas instruções por um meio assim vulgar que o das mesas falantes?  Não é ultrajá-los supor que se divertem com trivialidades e deixam a sua brilhante morada para se porem à disposição de qualquer um?

Jesus não deixou a morada de seu Pai para nascer num estábulo?  Onde vistes, aliás, que o Espiritismo atribua coisas triviais aos Espíritos superiores?  Ele disse, ao contrário, que as coisas vulgares são o produto de Espíritos vulgares.  Mas, mesmo pela sua vulgaridade, com isso não feriam senão mais as imaginações; serviram para provar a existência do mundo espiritual e mostrar que esse mundo é diferente do que se julgava.  Era o inicio; era simples como tudo que começa, mas a árvore saída de um pequeno grão não estende menos, mais tarde, ao longe a sua folhagem.  Quem creria que de miserável manjedoura de Belém, sairia um dia a palavra que deveria agitar o mundo?

Sim, o Cristo é o Messias divino; sim, a sua palavra é a da verdade; sim, a religião fundada sobre essa palavra será inabalável, mas com a condição de seguir e praticar os seus sublimes ensinamentos e não fazer do Deus justo e bom que nos ensina a conhecer, um Deus parcial, vingativo e sem piedade.