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Noções Sobre as
Aparições. Ensaio Teórico Sobre as Aparições. - Espíritos
Glóbulos. - Teoria da Alucinação.
Noções Sobre as Aparições
100. De todas as
manifestações espíritas, as mais interessantes, sem contestação
possível, são aquelas por meio das quais os Espíritos se tornam
visíveis. Pela explicação deste fenômeno se verá que ele não é
mais sobrenatural do que os outros. Vamos apresentar
primeiramente as respostas que os Espíritos deram acerca do
assunto:
1ª Podem os
Espíritos tornar-se visíveis?
"Podem, sobretudo, durante o sono. Entretanto algumas pessoas os
vêem quando acordadas, porém, isso é mais raro."
NOTA. Enquanto o
corpo repousa, o Espírito se desprende dos laços materiais; fica
mais livre e pode mais facilmente ver os outros Espíritos,
entrando com eles em comunicação. O sonho não é senão a
recordação desse estado. Quando de nada nos lembramos, diz-se
que não sonhamos, mas, nem por isso a alma deixou de ver e de
gozar da sua liberdade. Aqui nos ocupamos especialmente com as
aparições no estado de vigília (1).
2ª Pertencem mais
a uma categoria do que a outra os Espíritos que se manifestam
fazendo-se visíveis?
"Não; podem pertencer a todas as classes, assim às mais
elevadas, como as mais inferiores."
3ª A todos os
Espíritos é dado manifestarem-se visivelmente?
"Todos o podem; mas. nem sempre têm permissão para fazê-lo, ou o
querem.
4ª Que fim
objetivam os Espíritos que se manifestam visivelmente?
"Isso depende; de acordo com as suas naturezas, o fim pode ser
bom, ou mau."
5ª Como lhes pode
ser permitido manifestar-se, quando para mau fim?
"Nesse caso é para experimentar os a quem eles aparecem. Pode
ser má a intenção do Espírito e bom o resultado."
6ª Qual pode ser o
fim que tem em vista o Espírito que se torna visível com má
intenção?
"Amedrontar e muitas vezes vingar-se."
a) Que visam os
que vêm com boa intenção?
"Consolar as pessoas que deles guardam saudades, provar-lhes que
existem e estão perto delas; dar conselhos e, algumas vezes,
pedir para si mesmos assistência."
7ª Que
inconveniente haveria em ser permanente e geral entre os homens
a possibilidade de verem os Espíritos? Não seria esse um meio de
tirar a dúvida aos mais incrédulos?
"Estando o homem constantemente cercado de Espíritos, o vê-los a
todos os instantes o perturbaria, embaraçar-lhe-ia os atos e
tirar-lhe-ia a iniciativa na maioria dos casos, ao passo que,
julgando-se só, ele age mais livremente. Quanto aos incrédulos,
de muitos meios dispõem para se convencerem, se desses meios
quiserem aproveitar-se e não estiverem cegos pelo orgulho. Sabes
multo bem existirem pessoas que hão visto e que nem por isso
crêem, pois dizem que são ilusões. Com esses não te preocupes;
deles se encarrega Deus."
(1) Ver,
para maiores particularidades sobre o estado do Espírito durante
o sono, O Livro dos Espíritos, cap. "Da emancipação da alma", n.
409.
NOTA. Tantos inconvenientes haveria em vermos constantemente os
Espíritos, como em vermos o ar que nos cerca e as miríades de
animais microscópicos que sobre nós e em torno de nós polulam.
Donde devemos concluir que o que Deus faz é bem feito e que Ele
sabe melhor do que nós o que nos convém.
8ª Uma vez que há
inconveniente em vermos os Espíritos, por que, em certos casos,
é isso permitido?
"Para dar ao homem uma prova de que nem tudo morre com o corpo,
que a alma conserva a sua Individualidade após a morte. A visão
passageira basta para essa prova e para atestar a presença de
amigos ao vosso lado e não oferece os Inconvenientes da visão
constante."
9ª Nos mundos mais
adiantados que o nosso, os Espíritos são vistos com mais
freqüência do que entre nós?
"Quanto mais o homem se aproxima da natureza espiritual, tanto
mais facilmente se põe em comunicação com os Espíritos. A
grosseria do vosso envoltório é que dificulta e torna rara a
percepção dos seres etéreos."
10ª Será racional
assustar-mo-nos com a aparição de um Espírito?
"Quem refletir deverá compreender que um Espírito, qualquer que
seja, é menos perigoso do que um vivo. Demais, podendo os
Espíritos, como podem, ir a toda parte, não se faz preciso que
uma pessoa os veja para saber que alguns estão a seu lado. O
Espírito que queira causar dano pode fazê-lo, e até com mais
segurança, sem se dar a ver. Ele não é perigoso pelo fato de ser
Espírito, mas, sim, pela influência que pode exercer sobre o
homem, desviando-o do bem e impelindo-o ao mal."
NOTA. As pessoas
que, quando se acham na solidão ou na obscuridade, se
enchem de medo raramente se apercebem da causa de seus pavores.
Não seriam capazes de dizer de que é que têm medo. Muito mais
deveriam temer o encontro com homens do que com Espíritos,
porquanto um malfeitor é bem mais perigoso quando vivo, do que
depois de morto. Uma senhora do nosso conhecimento teve uma
noite, em seu quarto, uma aparição tão bem caracterizada, que
ela julgou estar em sua presença uma pessoa e a sua primeira
sensação foi de terror. Certificada de que não havia pessoa
alguma, disse:
"Parece que é
apenas um Espírito; posso dormir tranqüila."
11ª Poderá aquele
a quem um Espírito apareça travar com ele conversação?
"Perfeitamente e é mesmo o que se deve fazer em tal caso,
perguntando ao Espírito quem ele é, o que deseja e em que se lhe
pode ser útil. Se se tratar de um Espírito infeliz e sofredor, a
comiseração que se lhe testemunhar o aliviará. Se for um
Espírito bondoso, pode acontecer que traga a intenção de dar
bons conselhos."
a) Como pode o
Espírito, nesse caso, responder?
"Algumas vezes o faz por meio de sons articulados, como o faria
uma pessoa viva. Na maioria dos casos, porém, pela transmissão
dos pensamentos."
12ª Os Espíritos
que aparecem com asas têm-nas realmente, ou essas asas são
apenas uma aparência simbólica?
"Os Espíritos não têm asas, nem de tal coisa precisam, visto que
podem ir a toda parte como Espíritos. Aparecem da maneira por
que precisam impressionar a pessoa a quem se mostram. Assim é
que uns aparecerão em trajes comuns, outros envoltos em amplas
roupagens, alguns com asas, como atributo da categoria
espiritual a que pertencem."
13ª As pessoas que
vemos em sonho são sempre as que parecem ser pelo seu aspecto?
"Quase sempre são mesmo as que os vossos Espíritos buscam, ou
que vêm ao encontro deles."
14ª Não poderiam
os Espíritos zombeteiros tomar as aparências das pessoas que nos
são caras, para nos induzirem em erro?
"Somente para se divertirem à vossa custa tomam eles aparências
fantásticas. Há coisas, porém, com que não lhes é lícito
brincar."
15ª Compreende-se
que, sendo uma espécie de evocação, o pensamento faça com que se
apresente o Espírito em quem se pensa. Como é, entretanto, que
muitas vezes as pessoas em quem mais pensamos, que ardentemente
desejamos tornar a ver, jamais se nos apresentam em sonho, ao
passo que vemos outras que nos são indiferentes e nas quais
nunca pensamos?
"Os Espíritos nem sempre podem manifestar-se visivelmente, mesmo
em sonho e mau grado ao desejo que tenhais de vê-los. Pode
dar-se que obstem a isso causas independentes da vontade deles.
Freqüentemente, é também uma prova, de que não consegue triunfar
o mais ardente desejo. Quanto às pessoas que vos são
indiferentes, se é certo que nelas não pensais, bem pode
acontecer que elas em vós pensem. Aliás, não podeis formar idéia
das relações no mundo dos Espíritos. Lá tendes uma multidão de
conhecimentos íntimos, antigos ou recentes, de que não
suspeitais quando despertos."
NOTA. Quando
nenhum meio tenhamos de verificar a realidade das visões ou
aparições, podemos sem dúvida lançá-las à conta da alucinação.
Quando, porém, os sucessos as confirmam, ninguém tem o direito
de atribuí-las à imaginação. Tais, por exemplo, as aparições,
que temos em sonho ou em estado de vigília, de pessoas em quem
absolutamente não pensávamos e que, produzindo-as no momento em
que morrem, vem, por meio de sinais diversos, revelar as
circunstâncias totalmente ignoradas em que faleceram. Têm-se
visto cavalos empinarem e recusarem caminhar para a frente, por
motivo de aparições que assustam os cavaleiros que os montam.
Embora se admita
que a imaginação desempenhe aí algum papel, quando o fato se
passa com os homens, ninguém, certamente, negará que ela nada
tem que ver com o caso, quando este se dá com os animais.
Acresce que, se fosse exato que as imagens que vemos em sonho
são sempre efeito das nossas preocupações quando acordados, não
haveria como explicar que nunca sonhemos, conforme se verifica
freqüentemente, com aquilo em que mais pensamos.
16ª Por que razão
certas visões ocorrem com mais freqüência quando se está doente?
"Elas ocorrem do mesmo modo quando estais de perfeita saúde.
Simplesmente, no estado de doença, os laços materiais se
afrouxam; a fraqueza do corpo permite maior liberdade ao
Espírito, que, então, se põe mais facilmente em comunicação com
os outros Espíritos."
17ª As aparições
espontâneas parecem mais freqüentes em certos países. Será que
alguns povos estão mais bem dotados do que outros para receberem
esta espécie de manifestações?
"Dar-se-á tenhais um registro histórico de cada aparição? As
aparições, como os ruídos e todas as manifestações, produzem-se
igualmente em todos os pontos da Terra; apresentam, porém,
caracteres distintos, de conformidade com o povo em cujo seio se
verificam. Nuns, por exemplo, onde o uso da escrita está pouco
espalhado, não há médiuns escreventes; noutros, abundam os
médiuns desta natureza; entre outros, observam-se mais os ruídos
e os movimentos do que as manifestações inteligentes, por serem
estas menos apreciadas e procuradas."
18ª Por que é que
as aparições se dão de preferência à noite? Não indica isso que
elas são efeito do silêncio e da obscuridade sobre a imaginação?
"Pela mesma razão por que vedes, durante a noite, as estrelas e
não as divisais em pleno dia. A grande claridade pode apagar uma
aparição ligeira; mas, errôneo é supor-se que a noite tenha
qualquer coisa com isso. Inquiri os que têm tido visões e
verificareis que são em maior número os que as tiveram de dia."
NOTA. Muito mais
freqüentes e gerais do que se julga são as aparições; porém,
muitas pessoas deixam de torná-las conhecidas, por medo do
ridículo, e outras as atribuem à ilusão. Se parecem mais
numerosas entre alguns povos, é isso devido a que aí se
conservam com mais cuidado as tradições verdadeiras, ou falsas,
quase sempre ampliadas pelo poder de sedução do maravilhoso a
que mais ou menos se preste o aspecto das localidades. A
credulidade então faz que se vejam efeitos sobrenaturais nos
mais vulgares fenômenos: o silêncio da solidão, o escarpamento
das quebradas, o mugido da floresta, as rajadas da tempestade, o
eco das montanhas, a forma fantástica das nuvens, as sombras, as
miragens, tudo enfim se presta à ilusão, para imaginações
simples e ingênuas, que de boa-fé narram o que viram, ou
julgaram ver. Porém, ao lado da ficção, há a realidade. O estudo
sério do Espiritismo leva precisamente o homem a se desembaraçar
de todas as superstições ridículas.
19ª A visão dos
Espíritos se produz no estado normal, ou só estando o vidente
num estado extático?
"Pode produzir-se achando-se este em condições perfeitamente
normais. Entretanto, as pessoas que os vêem se encontram muito
amiúde num estado próximo do de êxtase, estado que lhes faculta
uma espécie de dupla vista." (O Livro dos Espíritos, n. 447.)
20ª Os que vêem os
Espíritos vêem-nos com os olhos?
"Assim o julgam; mas, na realidade, é a alma quem vê e o que o
prova e que os podem ver com os olhos fechados."
21ª Como pode o
Espírito fazer-se visível?
"O princípio é o mesmo de todas as manifestações, reside nas
propriedades do perispírito, que pode sofrer diversas
modificações, ao sabor do Espírito."
22ª Pode o
Espírito propriamente dito fazer-se visível, ou só o pode com o
auxílio do perispírito?
"No estado material em que vos achais, só com o auxílio de seus
invólucros semimateriais podem os Espíritos manifestar-se. Esse
invólucro é o intermediário por meio do qual eles atuam sobre os
vossos sentidos. Sob esse envoltório é que aparecem, às vezes,
com uma forma humana, ou com outra qualquer, seja nos sonhos,
seja no estado de vigília, assim em plena luz, como na
obscuridade."
23ª Poder-se-á
dizer que é pela condensação do fluido do perispírito que o
Espírito se torna visível?
"Condensação não é o termo. Essa palavra apenas pode ser usada
para estabelecer uma comparação, que vos faculte compreender o
fenômeno, porquanto não há realmente condensação. Pela
combinação dos fluidos, o perispírito toma uma disposição
especial, sem analogia para vós outros, disposição que o torna
perceptível."
24ª Os Espíritos
que aparecem são sempre inapreensíveis e imperceptíveis ao tato?
"Em seu estado normal, são inapreensíveis, como num sonho.
Entretanto, podem tornar-se capazes de produzir impressão ao
tato, de deixar vestígios de sua presença e até, em certos
casos, de tornar-se momentaneamente tangíveis, o que prova haver
matéria entre vós e eles."
25ª Toda gente tem
aptidão para ver os Espíritos?
"Durante o sono, todos têm; em estado de vigília, não. Durante o
sono, a alma vê sem intermediário; no estado de vigília, acha-se
sempre mais ou menos influenciada pelos órgãos. Daí vem não
serem totalmente idênticas as condições nos dois casos."
26ª De que
depende, para o homem, a faculdade de ver os Espíritos, em
estado de vigília?
"Depende da organização física. Reside na maior ou menor
facilidade que tem o fluido do vidente para se combinar com o do
Espírito. Assim, não basta que o Espírito queira mostrar-se, é
preciso também que encontre a necessária aptidão na pessoa a
quem deseje fazer-se visível."
a) Pode essa
faculdade desenvolver-se pelo exercício?
"Pode, como todas as outras faculdades; mas, pertence ao número
daquelas com relação às quais é melhor que se espere o
desenvolvimento natural, do que provocá-lo, para não
sobreexcitar a imaginação. A de ver os Espíritos, em geral e
permanentemente, constitui uma faculdade excepcional e não está
nas condições normais do homem."
27ª Pode-se
provocar a aparição dos Espíritos?
"Isso algumas vezes é possível, porém, muito raramente. A
aparição é quase sempre espontânea. Para que alguém veja os
Espíritos, precisa ser dotado de uma faculdade especial."
28ª Podem os
Espíritos tomar-se visíveis sob outra aparência que não a da
forma humana?
"A humana é a forma normal. O Espírito pode variar-lhe a
aparência, mas sempre com o tipo humano."
a) Não podem
manifestar-se sob a forma de chama?
"Podem produzir chamas, clarões, como todos os outros efeitos,
para atestar sua presença; mas, não são os próprios Espíritos
que assim aparecem. A chama não passa muitas vezes de uma
miragem, ou de uma emanação do perispírito. Em todo caso, nunca
é mais do que uma parcela deste. O perispírito não se mostra
integralmente nas visões."
29ª Que se deve
pensar da crença que atribui os fogos-fátuos à presença de almas
ou Espíritos?
"Superstição produzida pela ignorância. Bem conhecida é a causa
física dos
fogos-fátuos."
a) A chama azul
que, segundo dizem, apareceu sobre a cabeça de Sérvius Túlius,
quando menino, é uma fábula, ou foi real?
"Era real e produzida por um Espírito familiar, que desse modo
dava um aviso à mãe do menino. Médium vidente, essa mãe percebeu
uma irradiação do Espírito protetor de seu filho. Assim como os
médiuns escreventes não escrevem todos a mesma coisa, também,
nos médiuns videntes, não é em todos do mesmo grau a vidência.
Ao passo que aquela mãe viu apenas uma chama, outro médium teria
podido ver o próprio corpo do Espírito."
30ª Poderiam os
Espíritos apresentar-se sob a forma de animais?
"Isso pode dar-se; mas somente Espíritos muito inferiores tomam
essas aparências. Em caso algum, porém, será mais do que uma
aparência momentânea. Fora absurdo acreditar-se que um qualquer
animal verdadeiro pudesse ser a encarnação de um Espírito. Os
animais são sempre animais e nada mais do que isto."
NOTA. Somente a
superstição pode fazer crer que certos animais são animados por
Espíritos. É preciso uma imaginação muito complacente, ou muito
impressionada para ver qualquer coisa de sobrenatural nas
circunstâncias um pouco extravagantes em que eles algumas vezes
se apresentam. O medo faz que amiúde se veja o que não existe.
Mas, não só no
medo tem sua origem essa idéia. Conhecemos uma senhora, muito
inteligente aliás, que consagrava desmedida afeição a um gato
preto, porque acreditava ser ele de natureza sobreanimal.
Entretanto, essa senhora jamais ouvira falar do Espiritismo. Se
o houvesse conhecido, ele lhe teria feito compreender o ridículo
da causa de sua predileção pelo animal, provando-lhe a
impossibilidade de tal metamorfose.
Ensaio Teórico
Sobre as Aparições
101. As
manifestações aparentes mais comuns se dão durante o sono, por
meio dos sonhos: são as visões. Os limites deste estudo não
comportam o exame de todas as particularidades que os sonhos
podem apresentar. Resumiremos tudo, dizendo que eles podem ser:
uma visão atual das coisas presentes, ou ausentes; uma visão
retrospectiva do passado e, em alguns casos excepcionais, um
pressentimento do futuro. Também muitas vezes são quadros
alegóricos que os Espíritos nos põem sob as vistas, para dar-nos
úteis avisos e salutares conselhos, se se trata de Espíritos
bons; para induzir-nos em erro e nos lisonjear as paixões, se
são Espíritos imperfeitos os que no-lo apresentam. A teoria que
se segue aplica-se aos sonhos, como a todos os outros casos de
aparições.
(Veja-se: O Livro dos Espíritos, ns. 400 e seguintes.)
Temos para nós que
faríamos uma injúria aos nossos leitores, se nos propuséssemos a
demonstrar o que há de absurdo e ridículo no que vulgarmente se
chama a interpretação dos sonhos.
102. As aparições
propriamente ditas se dão quando o vidente se acha em estado de
vigília e no gozo da plena e inteira liberdade das suas
faculdades. Apresentam-se, em geral, sob uma forma vaporosa e
diáfana, às vezes vaga e imprecisa. A princípio é, quase sempre,
uma claridade esbranquiçada, cujos contornos pouco a pouco se
vão desenhando. Doutras vezes, as formas se mostram nitidamente
acentuadas, distinguindo-se os menores traços da fisionomia, a
ponto de se tornar possível fazer-se da aparição uma descrição
completa. Os ademanes, o aspecto, são semelhantes aos que tinha
o Espírito quando vivo.
Podendo tomar
todas as aparências, o Espírito se apresenta sob a que melhor o
faça reconhecível, se tal é o seu desejo. Assim, embora como
Espírito nenhum defeito corpóreo tenha, ele se mostrará
estropiado, coxo, corcunda, ferido, com cicatrizes, se isso for
necessário à prova da sua identidade. Esopo, por exemplo, como
Espírito, não é disforme; porém, se o evocarem como Esopo, ainda
que muitas existências tenha tido depois da em que assim se
chamou, ele aparecerá feio e corcunda, com os seus trajes
tradicionais.
Coisa interessante
é que, salvo em circunstâncias especiais, as partes menos
acentuadas são os membros inferiores, enquanto que a cabeça, o
tronco, os braços e as mãos são sempre claramente desenhados.
Daí vem que quase nunca são vistos a andar, mas a deslizar como
sombras. Quanto às vestes, compõem-se ordinariamente de um
amontoado de pano, terminando em longo pregueado flutuante. Com
uma cabeleira ondulante e graciosa se apresentam os Espíritos
que nada conservam das coisas terrenas. Os Espíritos vulgares,
porém, os que aqui conhecemos aparecem com os trajos que usavam
no último período de sua existência.
Freqüentemente,
mostram atributos característicos da elevação que alcançaram,
como uma auréola, ou asas, os que possam ser tidos por anjos, ao
passo que outros trazem os sinais Indicativos de suas ocupações
terrenas. Assim, um guerreiro aparecerá com a sua armadura, um
sábio com livros, um assassino com um punhal, etc. Os Espíritos
superiores têm uma figura bela, nobre e serena; os mais
Inferiores denotam alguma coisa de feroz e bestial, não sendo
raro revelarem ainda os vestígios dos crimes que praticaram, ou
dos suplícios que padeceram. A questão do traje e dos objetos
acessórios com que os Espíritos aparecem é talvez a que mais
espanto causa.
Voltaremos a essa
questão em capítulo especial, porque ela se liga a outros fatos
muito importantes.
103. Dissemos que
as aparições têm algo de vaporoso. Em certos casos, poder-se-ia
compará-las à imagem que se reflete num espelho sem aço e que,
não obstante a sua nitidez, não impede se vejam os objetos que
lhe estão por detrás. Geralmente, é assim que os médiuns
videntes as percebem. Eles as vêem ir e vir, entrar num
aposento, sair dele, andar por entre os vivos com ares, pelo
menos se se trata de Espíritos comuns, de participarem
ativamente de tudo o que os homens fazem ao derredor deles, de
se interessarem por tudo isso, de ouvirem o que dizem os
humanos. Com freqüência são vistos a se aproximar de uma pessoa,
a lhe insuflar idéias, a influenciá-la, a consolá-la, se
pertencem à categoria dos bons, a escarnecê-la, se são malignos,
a se mostrar tristes ou satisfeitos com os resultados que
logram. Numa palavra: constituem como que o forro do mundo
corpóreo.
Tal é esse mundo
oculto que nos cerca, dentro do qual vivemos sem o percebermos,
como vivemos, também sem darmos por isso, em meio das miríades
de seres do mundo microscópico. O microscópio nos revelou o
mundo dos infinitamente pequenos, de cuja existência não
suspeitávamos; o Espiritismo, com o auxílio dos médiuns
videntes, nos revelou o mundo dos Espíritos, que, por seu lado,
também constitui uma das forças ativas da Natureza. Com o
concurso dos médiuns videntes, possível nos foi estudar o mundo
invisível, conhecer-lhe os costumes, como um povo de cegos
poderia estudar o mundo visível com o auxílio de alguns homens
que gozassem da faculdade de ver. (Veja-se adiante, no capítulo
referente aos médiuns, o parágrafo que trata dos médiuns
videntes.)
104. O Espírito,
que quer ou pode fazer-se visível, reveste às vezes uma forma
ainda mais precisa, com todas as aparências de um corpo sólido,
ao ponto de causar completa ilusão e dar a crer, aos que
observam a aparição, que têm diante de si um ser corpóreo. Em
alguns casos, finalmente, e sob o império de certas
circunstancias, a tangibilidade se pode tornar real, isto é,
possível se torna ao observador tocar, palpar, sentir, na
aparição, a mesma resistência, o mesmo calor que num corpo vivo,
o que não impede que a tangibilidade se desvaneça com a rapidez
do
relâmpago. Nesses casos, já não é somente com o olhar que se
nota a presença do Espírito, mas também pelo sentido tátil.
Dado se possa
atribuir à ilusão ou a uma espécie de fascinação a aparição
simplesmente visual, o mesmo já não ocorre quando se consegue
segurá-la, palpá-la, quando ela própria segura o observador e o
abraça, circunstâncias em que nenhuma dúvida mais é lícita.
Os fatos de
aparições tangíveis são os mais raros; porém, os que se têm dado
nestes últimos tempos, pela influência de alguns médiuns de
grande poder (2) e absolutamente autenticados por testemunhos
irrecusáveis, provam e explicam o que a história refere acerca
de pessoas que, depois de mortas, se mostraram com todas as
aparências da realidade.
Todavia, conforme
já dissemos, por mais extraordinários que sejam, tais fenômenos
perdem inteiramente todo caráter de maravilhosos, quando
conhecida a maneira por que se produzem e quando se compreende
que, longe de constituírem uma derrogação das leis da Natureza,
são apenas efeito de uma aplicação dessas leis.
105. Por sua
natureza e em seu estado normal, o perispírito é invisível e tem
isto de comum com uma imensidade de fluidos que sabemos existir,
sem que, entretanto, jamais os tenhamos visto. Mas, também, do
mesmo modo que alguns desses fluidos, pode ele sofrer
modificações que o tornem perceptível à vista, quer por meio de
uma espécie de condensação, quer por meio de uma mudança na
disposição de suas moléculas. Aparece-nos então sob uma forma
vaporosa.
(2)Entre
outros, o Sr. Home.
A condensação (preciso é que não se tome esta palavra na sua
significação literal; empregamo-la apenas por falta de outra e a
título de comparação), a condensação, dizemos, pode ser tal que
o perispírito adquira as propriedades de um corpo sólido e
tangível, conservando, porém, a possibilidade de retomar
instantaneamente seu estado etéreo e invisível. Podemos
apreender esse efeito, atentando no vapor, que passa do de
invisibilidade ao estado brumoso, depois ao estado líquido, em
seguida ao sólido e vice-versa.
Esses diferentes
estados do perispírito resultam da vontade do Espírito e não de
uma causa física exterior, como se dá com os nossos gases.
Quando o Espírito nos aparece, é que pôs o seu perispírito no
estado próprio a torná-lo visível. Mas, para isso, não basta a
sua vontade, porquanto a modificação do perispírito se opera
mediante sua combinação com o fluido peculiar ao médium. Ora,
esta combinação nem sempre é possível, o que explica não ser
generalizada a visibilidade dos Espíritos. Assim, não basta que
o Espírito queira mostrar-se; não basta tão pouco que uma pessoa
queira vê-lo; é necessário que os dois fluidos possam
combinar-se, que entre eles haja uma espécie de afinidade e
também, porventura, que a emissão do fluido da pessoa seja
suficientemente abundante para operar a transformação do
perispírito e, provavelmente, que se verifiquem ainda outras
condições que desconhecemos. E necessário, enfim, que o Espírito
tenha a permissão de se fazer visível a tal pessoa, o que nem
sempre lhe é concedido, ou só o é em certas circunstâncias, por
motivos que não podemos apreciar.
106. Outra
propriedade do perispírito inerente à sua natureza etérea é a
penetrabilidade. Matéria nenhuma lhe opõe obstáculo: ele as
atravessa todas, como a luz atravessa os corpos transparentes.
Daí vem não haver tapagem capaz de obstar à entrada dos
Espíritos. Eles visitam o prisioneiro no seu calabouço, com a
mesma facilidade com que visitam uma pessoa que esteja em pleno
campo.
107. Não são
raras, nem constituem novidades as aparições no estado de
vigília.
Elas se produziram
em todos os tempos. A história as registra em grande número. Não
precisamos, porém, remontar ao passado, tão freqüentes são nos
dias de hoje e muitas pessoas há que as têm visto e que as
tomaram, no primeiro momento, pelo que se convencionou chamar
alucinações. São freqüentes, sobretudo, nos casos de morte de
pessoas ausentes, que vêm visitar seus parentes ou amigos.
Muitas vezes, as aparições não trazem um fim muito determinado,
mas pode dizer-se que, em geral, os Espíritos que assim aparecem
são atraídos pela simpatia. Interrogue cada um as suas
recordações e poucos serão os que não conheçam alguns fatos
desse gênero, cuja autenticidade não se poderia pôr em dúvida.
108. Às
considerações precedentes acrescentaremos o exame de alguns
efeitos de ótica, que deram lugar ao singular sistema dos
Espíritos glóbulos.
Nem sempre é absoluta a limpidez do ar e ocasiões há em que são
perfeitamente visíveis as correntes das moléculas aeriformes e a
agitação em que as põe o calor.
Algumas pessoas
tomaram isto por aglomerações de Espíritos a se agitarem no
espaço. Basta se cite esta opinião, para que ela fique desde
logo refutada. Há, porém, outra espécie de ilusão não menos
estranha, contra a qual bom é também se esteja precavido.
O humor aquoso do
olho apresenta pontos quase imperceptíveis, que hão perdido
alguma coisa da sua natural transparência. Esses pontos são como
corpos opacos em suspensão no líquido, cujos movimentos eles
acompanham. Produzem no ar ambiente e a distância, por efeito do
aumento e da refração, a aparência de pequenos discos, cujos
diâmetros variam de um a dez milímetros e que parecem nadar na
atmosfera. Pessoas conhecemos que tomaram esses discos por
Espíritos que as seguiam e acompanhavam a toda parte. Essas
pessoas, no seu entusiasmo, tomavam como figuras os matizes da
irisação, o que é quase tão racional como ver uma figura na Lua.
Uma simples observação, fornecida por essas pessoas mesmo, as
reconduzirá ao terreno da realidade.
Os aludidos discos
ou medalhões, dizem elas, não só as acompanham, como lhes seguem
todos os movimentos, vão para a direita, para a esquerda, para
cima, para baixo, ou param, conforme o movimento que elas fazem
com a cabeça. Isto nada tem de surpreendente. Uma vez que a sede
da aparência é no globo ocular, tem ela que acompanhar todos os
movimentos do olho. Se fossem Espíritos, forçoso seria convir em
estarem eles adstritos a um papel por demais mecânico para seres
inteligentes e livres, papel bem fastidioso, mesmo para
Espíritos inferiores e, pois, com mais forte razão, incompatível
com a idéia que fazemos dos Espíritos superiores.
Verdade é que
alguns tomam por maus Espíritos os pontos escuros ou moscas
amauróticas. Esses discos, do mesmo modo que as manchas negras,
têm um movimento ondulatório, cuja amplitude não vai além da de
um certo ângulo, concorrendo para a ilusão a circunstância de
não acompanharem bruscamente os movimentos da linha visual. Bem
simples é a razão desse fato. Os pontos opacos do humor aquoso,
causa primária do fenômeno, se acham, conforme dissemos, como
que em suspensão e tendem sempre a descer. Quando sobem, é que
são solicitados pelo movimento dos olhos, de baixo para cima;
chegados, porém, a certa altura, se o olho se torna fixo,
nota-se que os discos descem por si mesmos e depois se
imobilizam. Extrema é a mobilidade deles, porquanto basta um
movimento imperceptível do olho para fazê-los mudar de direção e
percorrer rapidamente toda a amplitude do arco, no espaço em que
se produz a imagem.
Enquanto não se
provar que uma imagem tem movimento próprio, espontâneo e
inteligente, ninguém poderá enxergar no fato de que tratamos
mais do que um simples fenômeno ótico ou fisiológico.
O mesmo se dá com
as centelhas que se produzem algumas vezes em feixes mais ou
menos compactos, pela contração do músculo do olho, e são
devidas, provavelmente, à eletricidade fosforescente da íris,
pois que são geralmente adstritas à circunferência do disco
desse órgão.
Tais ilusões não
podem provir senão de uma observação incompleta. Quem quer que
tenha estudado a natureza dos Espíritos, por todos os meios que
a ciência prática faculta, compreenderá tudo o que elas têm de
pueril. Do mesmo modo que combatemos as aventurosas teorias com
que se atacam as manifestações, quando essas teorias assentam na
ignorância dos fatos, também devemos procurar destruir as idéias
falsas, que indicam mais entusiasmo do que reflexão e que, por
isso mesmo, mais dano do que bem causam, com relação aos
incrédulos, já de si tão dispostos a buscar o lado ridículo.
109. O
perispírito, como se vê, é o princípio de todas as
manifestações. O conhecimento dele foi a chave da explicação de
uma imensidade de fenômenos e permitiu que a ciência espírita
desse largo passo, fazendo-a enveredar por nova senda,
tirando-lhe todo o cunho de maravilhosa. Dos próprios Espíritos,
porquanto notai bem que foram eles que nos ensinaram o caminho,
tivemos a explicação da ação do Espírito sobre a matéria, do
movimento dos corpos inertes, dos ruídos e das aparições. Aí
encontraremos ainda a de muitos outros fenômenos que
examinaremos antes de passarmos ao estudo das comunicações
propriamente ditas. Tanto melhor as compreenderemos, quanto mais
conhecedores nos acharmos das causas primárias.
Quem haja
compreendido bem aquele princípio, facilmente, por si mesmo, o
aplicará aos diversos fatos que se lhe possam oferecer à
observação.
110. Longe estamos
de considerar como absoluta e como sendo a última palavra a
teoria que apresentamos. Novos estudos sem dúvida a completarão,
ou retificarão mais tarde; entretanto, por mais incompleta ou
imperfeita que seja ainda hoje, sempre pode auxiliar o estudioso
a reconhecer a possibilidade dos fatos, por efeito de causas que
nada têm de sobrenaturais. Se é uma hipótese, não se lhe pode
contudo negar o mérito da racionalidade e da probabilidade e,
como tal, vale tanto, pelo menos, quanto todas as explicações
que os negadores formulam, para provar que nos fenômenos
espíritas só há ilusão, fantasmagoria e subterfúgios.
Teoria da
Alucinação
111. Os que não
admitem o mundo Incorpóreo e invisível julgam tudo explicar com
a palavra alucinação. Toda gente conhece a definição desta
palavra. Ela exprime o erro, a ilusão de uma pessoa que julga
ter percepções que realmente não tem. Origina-se do latim
hallucinari, errar, que vem de ad lucem. Mas, que saibamos, os
sábios ainda não apresentaram a razão fisiológica desse fato.
Não tendo a ótica
e a fisiologia, ao que parece, mais segredos para eles, como é
que ainda não explicaram a natureza e a origem das imagens que
se mostram ao Espírito em dadas circunstâncias?
Tudo querem
explicar pelas leis da matéria; seja. Forneçam então, com o
auxílio dessas leis, uma teoria, boa ou má, da alucinação.
Sempre será uma explicação.
112. A causa dos
sonhos nunca a ciência a explicou. Atribui-os a um efeito da
imaginação; mas, não nos diz o que é a imaginação, nem como esta
produz as imagens tão claras e tão nítidas que às vezes nos
aparecem. Consiste isso em explicar uma coisa, que não é
conhecida, por outra que ainda o é menos. A questão permanece de
pé.
Dizem ser uma
recordação das preocupações da véspera. Porém, mesmo que se
admita esta solução, que não o é, ainda restaria saber qual o
espelho mágico que conserva assim a impressão das coisas. Como
se explicarão, sobretudo, essas visões de coisas reais que a
pessoa nunca viu no estado de vigília e nas quais jamais,
sequer, pensou? Só o Espiritismo nos podia dar a chave desse
estranho fenômeno, que passa despercebido, por causa da sua
mesma vulgaridade, como sucede com todas as maravilhas da
Natureza, que calcamos aos pés.
Os sábios
desdenharam de ocupar-se com a alucinação. Quer seja real, quer
não, ela constitui um fenômeno que a Fisiologia tem que se
mostrar capaz de explicar, sob pena de confessar a sua
insuficiência. Se, um dia, algum sábio se abalançar a dar desse
fenômeno, não uma definição, entenda-mo-nos bem, mas uma
explicação fisiológica, veremos se a sua teoria resolve todos os
casos. Sobretudo, que ele não omita os fatos, tão comuns, de
aparições de pessoas no momento de morrerem; que diga donde vem
a coincidência da aparição com a morte da pessoa. Se este fosse
um fato insulado, poder-se-ia atribuí-lo ao acaso; é, porém,
muito freqüente para ser devido ao acaso, que não tem dessas
reincidências.
Se, ao menos,
aquele que viu a aparição tivesse a imaginação despertada pela
idéia de que a pessoa que lhe apareceu havia de morrer, vá. Mas,
quase sempre, a que aparece é a em quem menos pensava a que a
vê. Logo, a imaginação não entra aí de forma alguma. Ainda menos
se podem explicar pela imaginação as circunstâncias, de que
nenhuma idéia se tem, em que se deu a morte da pessoa que
aparece.
Dirão, porventura,
os alucinacionistas que a alma (se é que admitem uma alma) tem
momentos de sobreexcitação em que suas faculdades se exaltam.
Estamos de acordo; porém, quando é real o que ela vê, não há
ilusão. Se, na sua exaltação, a alma vê uma coisa que não está
presente, é que ela se transporta; mas, se nossa alma pode
transportar-se para junto de uma pessoa ausente, por que não
poderia a alma dessa pessoa transportar-se para junto de nós?
Dignem-se eles de levar em conta estes fatos, na sua teoria da
alucinação, e não esqueçam que uma teoria a que se podem opor
fatos que a contrariam é necessariamente falsa, ou incompleta.
Aguardando a
explicação que venham a oferecer, vamos tentar emitir algumas
idéias a esse respeito.
113. Provam os
fatos que há aparições verdadeiras, que a teoria espírita
explica perfeitamente e que só podem ser negadas pelos que nada
admitem fora do organismo.
Mas, a par das
visões reais, haverá, alucinações, no sentido em que esse termo
se emprega? E fora de dúvida. Donde se originam? Os Espíritos é
que vão esclarecer-nos sobre isso, porquanto a explicação,
parece-nos, está toda nas respostas dadas às seguintes
perguntas:
a) São sempre
reais as visões? Não serão, algumas vezes, efeito da alucinação?
Quando, em sonho, ou de modo diverso, se vêem, por exemplo, o
diabo, ou outras coisas fantásticas, que não existem, não será
isso um produto da imaginação?Z
"Sim, algumas vezes; quando dá muita atenção a certas leituras,
ou a histórias de sortilégios, que impressionam, a pessoa,
lembrando-se mais tarde dessas coisas, julga ver o que não
existe. Mas, também, já temos dito que o Espírito, sob o seu
envoltório semimaterial, pode tomar todas as espécies de formas,
para se manifestar. Pode, pois, um Espírito zombeteiro aparecer
com chifres e garras, se assim lhe aprouver, para divertir-se à
custa da credulidade daquele que o vê, do mesmo modo que um
Espírito bom pode mostrar-se com asas e com uma figura radiosa."
b) Poder-se-ão
considerar como aparições as figuras e outras imagens que se
apresentam a certas pessoas, quando estão meio adormecidas, ou
quando apenas fecham os olhos?
"Desde que os sentidos entram em torpor, o Espírito se desprende
e pode ver longe, ou perto, aquilo que lhe não seria possível
ver com os olhos. Muito freqüentemente, tais imagens são visões,
mas também podem ser efeito das impressões que a vista de certos
objetos deixou no cérebro, que lhes conserva os vestígios, como
conserva os dos sons. Desprendido, o Espírito vê nos seu próprio
cérebro as impressões que aí se fixaram como numa chapa
daguerreotípica. A variedade e o baralhamento das impressões
formam os conjuntos estranhos e fugidios, que se apagam quase
imediatamente, ainda que se façam os maiores esforços para
retê-los. A uma causa idêntica se devem atribuir certas
aparições fantásticas' que nada têm de reais e que muitas vezes
se produzem durante uma enfermidade."
É corrente ser a
memória o resultado das impressões que o cérebro conserva.
Mas, por que
singular fenômeno essas impressões, tão variadas, tão múltiplas,
não se confundem? Mistério impenetrável, porém, não mais
estranhável do que o das ondulações sonoras que se cruzam no ar
e que, no entanto, se conservam distintas. Num cérebro são e bem
organizado, essas impressões se revelam nítidas e precisas; num
estado menos favorável, elas se apagam e confundem; daí a perda
da memória, ou a confusão das idéias. Ainda menos extraordinário
parecerá isto, se se admitir, como se admite, em frenologia, uma
destinação especial a cada parte e, até, a cada fibra do
cérebro.
Assim, pois, as
imagens que, através dos olhos, vão ter ao cérebro, deixam aí
uma impressão, em virtude da qual uma pessoa se lembra de um
quadro, como se o tivera diante de si Nunca, porém, há nisso
mais do que uma questão de memória. Ora, em certos estados de
emancipação, a alma vê o que está no cérebro, onde torna a
encontrar aquelas imagens, sobretudo as que mais o chocaram,
segundo a natureza das preocupações, ou as disposições de
espírito. E assim que lá encontra de novo a impressão de cenas
religiosas, diabólicas, dramáticas, mundanas, figuras de animais
esquisitos, que ela viu noutra época em pinturas, ou mesmo em
narrações, porquanto também as narrativas deixam impressões. De
sorte que a alma vê realmente; mas, vê apenas uma imagem
fotografada no cérebro. No estado normal, essas imagens são
fugidias, efêmeras, porque todas as partes cerebrais funcionam
livremente, ao passo que, no estado de moléstia, o cérebro
sempre está mais ou menos enfraquecido, o equilíbrio entre todos
os órgãos deixa de existir, conservando somente alguns a sua
atividade, enquanto que outros se acham de certa forma
paralisados. Daí a permanência de determinadas imagens, que as
preocupações da vida exterior não mais conseguem apagar, como se
dá no estado normal. Essa a verdadeira alucinação e causa
primária das idéias fixas.
Conforme se vê,
explicamos esta anomalia por meio de uma muito conhecida lei.
inteiramente fisiológica, a das impressões cerebrais. Porém,
preciso nos foi sempre fazer intervir a alma. Ora, se os
materialistas ainda não puderam apresentar, deste fenômeno, uma
explicação satisfatória, é porque não querem admitir a alma. Por
isso mesmo, dirão que a nossa explicação é má, pela razão de
erigirmos em princípio o que é contestado. Contestado por quem?
Por eles, mas admitido pela imensa maioria dos homens, desde que
houve homens na Terra. Ora, a negação de alguns não pode
constituir lei.
É boa a nossa
explicação? Damo-la pelo que possa valer, em falta de outra, e,
se quiserem, a título de simples hipótese, enquanto outra melhor
não aparece. Qual ela é, dá a razão de ser de todos os casos de
visão? Certamente que não. Contudo, desafiamos todos os
fisiologistas a que apresentem uma que abranja todos os casos,
porquanto nenhuma dão, quando pronunciam as palavras
sacramentais - sobreexcitação e exaltação. Assim sendo, desde
que todas as teorias da alucinação se mostram incapazes de
explicar os fatos, é que alguma outra coisa há, que não a
alucinação propriamente dita. Seria falsa a nossa teoria, se a
aplicássemos a todos os casos de visão, pois que alguns a
contraditariam. E legítima, se restringida a alguns efeitos.
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