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Fazer o Bem sem
Ostentação. - Os Infortúnios Ocultos. - Óbolo da Viúva. -
Convidar os Pobres e os Esperar Retribuição. - Instruções dos
Espíritos: A Caridade Material e a Caridade Moral. - A
Beneficência. A Piedade. - Os Órfãos. - Benefícios Pagos com a
Ingratidão. - Beneficência Exclusiva.
Fazer o Bem sem
Ostentação
1. Tende cuidado
em não praticar as boas obras diante dos homens, para serem
vistas, pois, do contrário, não recebereis recompensa de vosso
Pai que está nos céus. -
Assim, quando derdes esmola, não trombeteeis, como fazem os
hipócritas nas sinagogas
e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Digo-vos, em
verdade, que eles já
receberam sua recompensa. - Quando derdes esmola, não saiba a
vossa mão esquerda o
que faz a vossa mão direita; - a fim de que a esmola fique em
segredo, e vosso Pai, que vê
o que se passa em segredo, vos recompensará. - (S. MATEUS, cap.
VI, vv. 1 a 4.)
2. Tendo Jesus descido do monte, grande multidão o seguiu. - Ao
mesmo tempo,
um leproso veio ao seu encontro e o adorou, dizendo: Senhor, se
quiseres, poderás
curar-me. - Jesus, estendendo a mão, o tocou e disse: Quero-o,
fica curado; no mesmo
instante desapareceu a lepra. - Disse-lhe então Jesus: abstém-te
de falar disto a quem
quer que seja; mas, vai mostrar-te aos sacerdotes e oferece o
dom prescrito por Moisés, a
fim de que lhes sirva de prova. (S. MATEUS, cap. VIII, vv. 1 a
4.)
3. Em fazer o bem sem ostentação há grande mérito; ainda mais
meritório é ocultar a
mão que dá; constitui marca incontestável de grande
superioridade moral, porquanto, para
encarar as coisas de mais alto do que o faz o vulgo, mister se
torna abstrair da vida presente e
identificar-se com a vida futura; numa palavra, colocar-se acima
da Humanidade, para
renunciar à satisfação que advém do testemunho dos homens e
esperar a aprovação de Deus.
Aquele que prefere ao de Deus o sufrágio dos homens prova que
mais fé deposita nestes do
que na Divindade e que mais valor dá à vida presente do que à
futura. Se diz o contrário,
procede como se não cresse no que diz.
Quantos há que só dão na esperança de que o que recebe irá
bradar por toda a parte o
benefício recebido! Quantos os que, de público, dão grandes
somas e que, entretanto, às
ocultas, não dariam uma só moeda! Foi por isso que Jesus
declarou: "Os que fazem o bem
ostentosamente já receberam sua recompensa." Com efeito, aquele
que procura a sua própria
glorificação na Terra, pelo bem que pratica, já se pagou a si
mesmo; Deus nada mais lhe
deve; só lhe resta receber a punição do seu orgulho.
Não saber a mão esquerda o que dá a mão direita é uma imagem que
caracteriza
admiravelmente a beneficência modesta. Mas, se há a modéstia
real, também há a falsa
modéstia, o simulacro da modéstia. Há pessoas que ocultam a mão
que dá, tendo, porém, o
cuidado de deixar aparecer um pedacinho, olhando em volta para
verificar se alguém não o
terá visto ocultá-la. Indigna paródia das máximas do Cristo! Se
os benfeitores orgulhosos são
depreciados entre os homens, que não será perante Deus? Também
esses já receberam na
Terra sua recompensa. Foram vistos; estão satisfeitos por terem
sido vistos. E tudo o que
terão.
E qual poderá ser a recompensa do que faz pesar os seus
benefícios sobre aquele que
os recebe, que lhe impõe, de certo modo, testemunhos de
reconhecimento, que lhe faz sentir a
sua posição, exaltando o preço dos sacrifícios a que se vota
para beneficiá-lo? Oh! para esse,
nem mesmo a recompensa terrestre existe, porquanto ele se vê
privado da grata satisfação de
ouvir bendizer-lhe do nome e é esse o primeiro castigo do seu
orgulho. As lágrimas que seca
por vaidade, em vez de subirem ao Céu, recaíram sobre o coração
do aflito e o ulceraram. Do
bem que praticou nenhum proveito lhe resulta, pois que ele o
deplora, e todo benefício
deplorado é moeda falsa e sem valor.
A beneficência praticada sem ostentação tem duplo mérito. Além
de ser caridade
material, é caridade moral, visto que resguarda a
suscetibilidade do beneficiado, faz-lhe
aceitar o benefício, sem que seu amor-próprio se ressinta e
salvaguardando-lhe a dignidade de
homem, porquanto aceitar um serviço é coisa bem diversa de
receber uma esmola. Ora,
converter em esmola o serviço, pela maneira de prestá-lo, é
humilhar o que o recebe, e, em
humilhar a outrem, há sempre orgulho e maldade. A verdadeira
caridade, ao contrário, é
delicada e engenhosa no dissimular o benefício, no evitar até as
simples aparências capazes
de melindrar, dado que todo atrito moral aumenta o sofrimento
que se origina da necessidade.
Ela sabe encontrar palavras brandas e afáveis que colocam o
beneficiado à vontade em
presença do benfeitor, ao passo que a caridade orgulhosa o
esmaga. A verdadeira
generosidade adquire toda a sublimidade, quando o benfeitor,
invertendo os papéis, acha
meios de figurar como beneficiado diante daquele a quem presta
serviço. Eis o que significam
estas palavras: "Não saiba a mão esquerda o que dá a direita."
Os Infortúnios
Ocultos
4. Nas grandes calamidades, a caridade se emociona e observam-se
impulsos
generosos, no sentido de reparar os desastres. Mas, a par desses
desastres gerais, há milhares
de desastres particulares, que passam despercebidos: os dos que
jazem sobre um grabato sem
se queixarem. Esses infortúnios discretos e ocultos são os que a
verdadeira generosidade sabe
descobrir, sem esperar que peçam assistência.
Quem é esta mulher de ar distinto, de traje tão simples, embora
bem cuidado, e que
traz em sua companhia uma mocinha tão modestamente vestida?
Entra numa casa de sórdida
aparência, onde sem dúvida é conhecida, pois que à entrada a
saúdam respeitosamente.
Aonde vai ela? Sobe até a mansarda, onde jaz uma mãe de família
cercada de crianças. À sua
chegada, refulge a alegria naqueles rostos emagrecidos. E que
ela vai acalmar ali todas as
dores. Traz o de que necessitam, condimentado de meigas e
consoladoras palavras, que fazem
que os seus protegidos, que não são profissionais da
mendicância, aceitem o benefício, sem
corar. O pai está no hospital e, enquanto lá permanece, a mãe
não consegue com o seu
trabalho prover às necessidades da família. Graças à boa
senhora, aquelas pobres crianças não
mais sentirão frio, nem fome; irão à escola agasalhadas e, para
as menorzinhas, o leite não
secará no seio que as amamenta. Se entre elas alguma adoece, não
lhe repugnarão a ela, à boa
dama, os cuidados materiais de que essa necessite. Dali vai ao
hospital levar ao pai algum
reconforto e tranqüilizá-lo sobre a sorte da família. No canto
da rua, uma carruagem a espera,
verdadeiro armazém de tudo o que destina aos seus protegidos,
que todos lhe recebem
sucessivamente a visita. Não lhes pergunta qual a crença que
professam, nem quais suas
opiniões, pois considera como seus irmãos e filhos de Deus todos
os homens. Terminado o
seu giro, diz de si para consigo: Comecei bem o meu dia. Qual o
seu nome? Onde mora?
Ninguém o sabe. Para os infelizes, é um nome que nada indica;
mas é o anjo da consolação.
A noite, um concerto de benções se eleva em seu favor ao Pai
celestial: católicos, judeus,
protestantes, todos a bendizem.
Por que tão singelo traje? Para não insultar a miséria com o seu
luxo. Por que se faz
acompanhar da filha? Para que aprenda como se deve praticar a
beneficência. A mocinha
também quer fazer a caridade. A mãe, porém, lhe diz: "Que podes
dar, minha filha, quando
nada tens de teu? Se eu te passar às mãos alguma coisa para que
dês a outrem, qual será o teu
mérito? Nesse caso, em
realidade, serei eu quem faz a caridade; que merecimento terias
nisso? Não é justo. Quando
visitamos os doentes, tu me ajudas a tratá-los. Ora, dispensar
cuidados é dar alguma coisa.
Não te parece bastante isso? Nada mais simples. Aprende a fazer
obras úteis e confeccionarás
roupas para essas criancinhas. Desse modo, darás alguma coisa
que vem de ti.” É assim que
aquela mãe verdadeiramente cristã prepara a filha para a prática
das virtudes que o Cristo
ensinou. E espírita ela? Que importa!
Em casa, é a mulher do mundo, porque a sua posição o exige.
Ignoram, porém, o que
faz, porque ela não deseja outra aprovação, além da de Deus e da
sua consciência. Certo dia,
no entanto, imprevista circunstância leva-lhe a casa uma de suas
protegidas, que andava a
vender trabalhos executados por suas mãos. Esta última, ao
vê-la, reconheceu nela a sua
benfeitora. "Silêncio! ordena-lhe a senhora. Não o digas a
ninguém." Falava assim Jesus.
O Óbolo da Viúva
5. Estando Jesus sentado defronte do gazofilácio, a observar de
que modo o povo
lançava ali o dinheiro, viu que muitas pessoas ricas o deitavam
em abundância. - Nisso,
veio também uma pobre que apenas deitou duas pequenas moedas do
valor de dez
centavos cada uma. - Chamando então seus discípulos, disse-lhes:
Em verdade vos digo
que esta pobre viúva deu muito mais do que todos os que antes
puseram suas dádivas no
gazofilácio; - por isso que todos os outros deram do que lhes
abunda, ao passo que ela
deu do que lhe faz falta, deu mesmo tudo o que tinha para seu
sustento. (SÃO
MARCOS, cap. XII, vv. 41 a 44. - S. LUCAS, cap. XXI. vv. 1 a 4.)
6. Multa gente deplora não poder fazer todo o bem que desejara,
por falta de recursos
suficientes, e, se desejam possuir riquezas, é, dizem, para lhes
dar boa aplicação. E sem
dúvida louvável a intenção e pode até nalguns ser sincera.
Dar-se-á, contudo, seja
completamente desinteressada em todos? Não haverá quem,
desejando fazer bem aos outros,
muito estimaria poder começar por fazê-lo a si próprio, por
proporcionar a si mesmo alguns
gozos
mais, por usufruir de um pouco do supérfluo que lhe falta,
pronto a dar aos pobres o resto?
Esta segunda intenção, que esses tais porventura dissimulam aos
seus próprios olhos, mas que
se lhes depararia no fundo dos seus corações, se eles os
perscrutassem, anula o mérito do
intento, visto que, com a verdadeira caridade, o homem pensa nos
outros antes de pensar em
si O ponto sublimado da caridade, nesse caso, estaria em
procurar ele no seu trabalho, pelo
emprego de suas forças, de sua inteligência, de seus talentos,
os recursos de que carece para
realizar seus generosos propósitos. Haveria nisso o sacrifício
que mais agrada ao Senhor.
infelizmente, a maioria vive a sonhar com os meios de mais
facilmente se enriquecer de
súbito e sem esforço, correndo atrás de quimeras, quais a
descoberta de tesouros, de uma
favorável ensancha aleatória, do recebimento de inesperadas
heranças, etc. Que dizer dos que
esperam encontrar nos Espíritos auxiliares que os secundem na
consecução de tais objetivos?
Certamente não conhecem, nem compreendem a sagrada finalidade do
Espiritismo e, ainda
menos, a missão dos Espíritos a quem Deus permite se comuniquem
com os homens. Daí
vem o serem punidos pelas decepções. (O Livro dos Médiuns, 2ª
Parte, nº 294 e nº 295.)
Aqueles cuja intenção está isenta de qualquer idéia pessoal,
devem consolar-se da
impossibilidade em que se vêem de fazer todo o bem que
desejariam, lembrando-se de que o
óbolo do pobre, do que dá privando-se do necessário, pesa mais
na balança de Deus do que o
ouro do rico que dá sem se privar de coisa alguma. Grande seria
realmente a satisfação do
primeiro, se pudesse socorrer, em larga escala, a indigência;
mas, se essa satisfação lhe é
negada, submeta-se e se limite a fazer o que possa. Aliás, será
só com o dinheiro que se
podem secar lágrimas e dever-se-á ficar inativo, desde que se
não tenha dinheiro? Todo
aquele que sinceramente deseja ser útil a seus irmãos, mil
ocasiões encontrará de realizar o
seu desejo. Procure-as e elas se lhe depararão; se não for de um
modo, será de outro, porque
ninguém há que, no pleno gozo de suas faculdades, não possa
prestar um serviço qualquer, prodigalizar um consolo, minorar um sofrimento físico ou moral, fazer
um esforço útil. Não
dispõem todos, à falta de dinheiro, do seu trabalho, do seu
tempo, do seu repouso, para de
tudo isso dar uma parte ao próximo? Também aí está a dádiva do
pobre, o óbolo da viúva.
Convidar os Pobres e os
Estropiados. Dar sem Esperar Retribuição
7. Disse também àquele que o convidara: Quando derdes um jantar
ou uma ceia,
não convideis nem os vossos amigos, nem os vossos irmãos, nem os
vossos parentes, nem
os vossos vizinhos que forem ricos, para que em seguida não vos
convidem a seu turno e
assim retribuam o que de vós receberam. - Quando derdes um
festim, convidai para ele
os pobres, os estropiados, os coxos e os cegos. - E sereis
ditosos por não terem eles meios
de vo-lo retribuir, pois isso será retribuído na ressurreição
dos justos.
Um dos que se achavam à mesa, ouvindo essas palavras, disse-lhe:
Feliz do que
comer do pão no reino de Deus! (S. LUCAS, cap. XIV, vv. 12 a
15.)
8. "Quando derdes um festim, disse Jesus, não convideis para ele
os vossos amigos,
mas os pobres e os estropiados." Estas palavras, absurdas, se
tomadas ao pé da letra, são
sublimes, se lhes buscarmos o espírito. Não é possível que Jesus
haja pretendido que, em vez
de seus amigos, alguém reúna à sua mesa os mendigos da rua. Sua
linguagem era quase
sempre figurada e, para os homens incapazes de apanhar os
delicados matizes do pensamento,
precisava servir-se de imagens fortes, que produzissem o efeito
de um colorido vivo. O
âmago do seu pensamento se revela nesta proposição: "E sereis
ditosos por não terem eles
meios de vo-lo retribuir." Quer dizer que não se deve fazer o
bem tendo em vista uma
retribuição, mas tão-só pelo prazer de o praticar. Usando de uma
comparação vibrante, disse:
Convidai para os vossos festins os pobres, pois sabeis que eles
nada vos podem retribuir. Por
festins deveis entender, não os repastos propriamente ditos, mas
a participação na abundância
de que desfrutais.
Todavia, aquela advertência também pode ser aplicada em sentido
mais literal.
Quantos não convidam para suas mesas apenas os que podem, como
eles dizem, fazer-lhes
honra, ou, a seu turno, convidá-los! Outros, ao contrário,
encontram satisfação em receber os
parentes e amigos menos felizes. Ora, quem não os conta entre os
seus? Dessa forma, grande
serviço, às vezes, se lhes presta, sem que o pareça. Aqueles,
sem irem recrutar os cegos e os
estropiados, praticam a máxima de Jesus, se o fazem por
benevolência, sem ostentação, e
sabem dissimular o benefício, por meio de uma sincera
cordialidade.
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
A Caridade Material e a Caridade Moral
9. "Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros o que
quereríamos nos fizessem
eles." Toda a religião, toda a moral se acham encerradas nestes
dois preceitos. Se fossem
observados nesse mundo, todos seríeis felizes: não mais aí
ódios, nem ressentimentos. Direi
ainda: não mais pobreza, porquanto, do supérfluo da mesa de cada
rico, muitos pobres se
alimentariam e não mais veríeis, nos quarteirões sombrios onde
habitei durante a minha
última encarnação, pobres mulheres arrastando consigo miseráveis
crianças a quem tudo
faltava.
Ricos! pensai nisto um pouco. Auxiliai os infelizes o melhor que
puderdes. Dai, para
que Deus, um dia, vos retribua o bem que houverdes feito, para
que tenhais, ao sairdes do
vosso invólucro terreno, um cortejo de Espíritos agradecidos, a
receber-vos no limiar de um
mundo mais ditoso.
Se pudésseis saber da alegria que experimentei ao encontrar no
Além aqueles a quem,
na minha última existência, me fora dado servir!...
Amai, portanto, o vosso próximo; amai-o como a vós mesmos, pois
já sabeis, agora, que, repelindo um desgraçado, estareis, quiçá, afastando de vós
um irmão, um pai, um amigo
vosso de outrora. Se assim for, de que
desespero não vos sentireis presa, ao reconhecê-lo no mundo dos
Espíritos!
Desejo compreendais bem o que seja a caridade moral, que todos
podem praticar, que
nada custa, materialmente falando, porém, que é a mais difícil
de exercer-se.
A caridade moral consiste em se suportarem umas às outras as
criaturas e é o que
menos fazeis nesse mundo inferior, onde vos achais, por agora,
encarnados. Grande mérito
há, crede-me, em um homem saber calar-se, deixando fale outro
mais tolo do que ele. É um
gênero de caridade isso. Saber ser surdo quando uma palavra
zombeteira se escapa de uma
boca habituada a escarnecer; não ver o sorriso de desdém com que
vos recebem pessoas que,
muitas vezes erradamente, se supõem acima de vós, quando na vida
espírita, a única real,
estão, não raro, muito abaixo, constitui merecimento, não do
ponto de vista da humildade,
mas do da caridade, porquanto não dar atenção ao mau proceder de
ou trem é caridade moral.
Essa caridade, no entanto, não deve obstar à outra. Tende,
porém, cuidado,
principalmente em não tratar com desprezo o vosso semelhante.
Lembrai-vos de tudo o que já
vos tenho dito: Tende presente sempre que, repelindo um pobre,
talvez repilais um Espírito
que vos foi caro e que, no momento, se encontra em posição
inferior à vossa. Encontrei aqui
um dos pobres da Terra, a quem, por felicidade, eu pudera
auxiliar algumas vezes, e ao qual,
a meu turno, tenho agora de implorar auxilio.
Lembrai-vos de que Jesus disse que todos somos irmãos e pensai
sempre nisso, antes
de repelirdes o leproso ou o mendigo. Adeus: pensai nos que
sofrem e orai. Irmã Rosália.
(Paris, 1860.)
10. Meus amigos, a muitos dentre vós tenho ouvido dizer: Como
hei de fazer
caridade, se amiúde nem mesmo do necessário disponho?
Amigos, de mil maneiras se faz a caridade. Podeis fazê-la por
pensamentos, por palavras e por ações. Por pensamentos, orando
pelos pobres abandonados, que morreram sem se acharem sequer em condições de ver a luz. Uma prece
feita de coração os alivia.
Por palavras, dando aos vossos companheiros de todos os dias
alguns bons conselhos,
dizendo aos que o desespero, as privações azedaram o ânimo e
levaram a blasfemar do nome
do Altíssimo: "Eu era como sois; sofria, sentia-me desgraçado,
mas acreditei no Espiritismo
e, vede, agora, sou feliz." Aos velhos que vos disserem: "É
inútil; estou no fim da minha
jornada; morrerei como vivi", dizei: "Deus usa de justiça igual
para com todos nós; lembrai-vos
dos obreiros da última hora." As crianças já viciadas pelas
companhias de que se
cercaram e que vão pelo mundo, prestes a sucumbir às más
tentações, dizei: "Deus vos vê,
meus caros pequenos", e não vos canseis de lhes repetir essas
brandas palavras. Elas acabarão
por lhes germinar nas inteligências infantis e, em vez de
vagabundos, fareis deles homens.
Também Isso é Caridade.
Dizem, outros dentre vós: "Ora! somos tão numerosos na Terra,
que Deus não nos
pode ver a todos." Escutai bem isto, meus amigos: Quando estais
no cume da montanha, não
abrangeis com o olhar os bilhões de grãos de areia que a cobrem?
Pois bem: do mesmo modo
vos vê Deus. Ele vos deixa usar do vosso livre-arbítrio, como
vós deixais que esses grãos de
areia se movam ao sabor do vento que os dispersa. Apenas, Deus,
em sua misericórdia
infinita, vos pôs no fundo do coração uma sentinela vigilante,
que se chama consciência.
Escutai-a, que somente bons conselhos ela vos dará. As vezes,
conseguis entorpecê-la,
opondo-lhe o espírito do mal. Ela, então, se cala. Mas, ficai
certos de que a pobre escorraçada
se fará ouvir, logo que lhe deixardes aperceber-se da sombra do
remorso. Ouvi-a, interrogai-a
e com freqüência vos achareis consolados com o conselho que dela
houverdes recebido.
Meus amigos, a cada regimento novo o general entrega um
estandarte. Eu vos dou por
divisa esta máxima do Cristo: "Amai-vos uns aos outros."
Observai esse preceito, reuni-vos
todos em torno dessa bandeira e tereis ventura e consolação. -
Um Espírito protetor. (Lião,
1860.)
A Beneficência
11. A beneficência, meus amigos, dar-vos-á nesse mundo os mais
puros e suaves
deleites, as alegrias do coração, que nem o remorso, nem a
indiferença perturbam. Oh!
pudésseis compreender tudo o que de grande e de agradável
encerra a generosidade das almas
belas, sentimento que faz olhe a criatura as outras como olha a
si mesma, e se dispa, jubilosa,
para vestir o seu irmão! Pudésseis, meus amigos, ter por única
ocupação tornar felizes os
outros! Quais as festas mundanas que podereis comparar às que
celebrais quando, como
representantes da Divindade, levais a alegria a essas famílias
que da vida apenas conhecem as
vicissitudes e as amarguras, quando vedes nelas os semblantes
macerados refulgirem
subitamente de esperança, porque, faltos de pão, os desgraçados
ouviam seus filhinhos,
ignorantes de que viver é sofrer, gritando repetidamente, a
chorar, estas palavras, que, como
agudo punhal, se lhes enterravam nos corações maternos: "Estou
com fome!..." Oh!
compreendei quão deliciosas são as impressões que recebe aquele
que vê renascer a alegria
onde, um momento antes, só havia desespero! Compreendei as
obrigações que tendes para
com os vossos irmãos! Ide, ide ao encontro do infortúnio; ide em
socorro, sobretudo, das
misérias ocultas, por serem as mais dolorosas! Ide, meus
bem-amados, e tende em mente
estas palavras do Salvador: "Quando vestirdes a um destes
pequeninos, lembrai-vos de que é
a mim que o fazeis!"
Caridade! sublime palavra que sintetiza todas as virtudes, és tu
que hás de conduzir os
povos à felicidade. Praticando-te, criarão eles para si
infinitos gozos no futuro e, enquanto se
acharem exilados na Terra, tu lhes serás a consolação, o
prelibar das alegrias de que fruirão
mais tarde, quando se encontrarem reunidos no seio do Deus de
amor. Foste tu, virtude
divina, que me proporcionaste os únicos momentos de satisfação
de que gozei na Terra. Que
os meus irmãos encarnados creiam na palavra do amigo que lhes
fala, dizendo-lhes: E na caridade que deveis procurar a paz do
coração, o contentamento da alma, o remédio para as aflições da vida. Oh! quando estiverdes a ponto de
acusar a Deus, lançai um olhar
para baixo de vós; vede que de misérias a aliviar, que de pobres
crianças sem família, que de
velhos sem qualquer mão amiga que os ampare e lhes feche os
olhos quando a morte os
reclame! Quanto bem a fazer! Oh! não vos queixeis; ao contrário,
agradecei a Deus e
prodigalizai a mancheias a vossa simpatia, o vosso amor, o vosso
dinheiro por todos os que,
deserdados dos bens desse mundo, enlanguescem na dor e no
insulamento! Colhereis nesse
mundo bem doces alegrias e, mais tarde... só Deus o sabe!...
Adolfo, bispo de Argel.
(Bordéus, 1861.)
12. Sede bons e caridosos: essa a chave dos céus, chave que
tendes em vossas mãos.
Toda a eterna felicidade se contém neste preceito: "Amai-vos uns
aos outros." Não pode a
alma elevar-se às altas regiões espirituais, senão pelo
devotamento ao próximo; somente nos
arroubos da caridade encontra ela ventura e consolação. Sede
bons, amparai os vossos irmãos,
deixai de lado a horrenda chaga do egoísmo. Cumprido esse dever,
abrir-se-vos-á o caminho
da felicidade eterna. Ao demais, qual dentre vós ainda não
sentiu o coração pulsar de júbilo,
de íntima alegria, à narrativa de um ato de bela dedicação, de
uma obra verdadeiramente
caridosa? Se unicamente buscásseis a volúpia que uma ação boa
proporciona, conservar-vos íeis
sempre na senda do progresso espiritual. Não vos faltam os
exemplos; rara é apenas a
boa-vontade. Notai que a vossa história guarda piedosa lembrança
de uma multidão de
homens de bem.
Não vos disse Jesus tudo o que concerne às virtudes da caridade
e do amor? Por que
desprezar os seus ensinamentos divinos? Por que fechar o ouvido
às suas divinas palavras, o
coração a todos os seus bondosos preceitos? Quisera eu que
dispensassem mais interesse,
mais fé às leituras evangélicas. Desprezam, porém, esse livro,
consideram-no repositório de
palavras ocas, uma carta fechada; deixam no esquecimento esse
código admirável. Vossos
males provêm todos do abandono voluntário a que votais
esse resumo das leis divinas. Lede-lhe as páginas cintilantes do
devotamento de Jesus, e
meditai-as.
Homens fortes, armai-vos; homens fracos, fazei da vossa
brandura, da vossa fé, as
vossas armas. Sede mais persuasivos, mais constantes na
propagação da vossa nova doutrina.
Apenas encorajamento é o que vos vimos dar; apenas para vos
estimularmos o zelo e as virtudes é que Deus permite nos manifestemos a vós outros. Mas,
se cada um o quisesse,
bastaria a sua própria vontade e a ajuda de Deus; as
manifestações espíritas unicamente se
produzem para os de olhos fechados e corações indóceis.
A caridade é a virtude fundamental sobre que há de repousar todo
o edifício das
virtudes terrenas. Sem ela não existem as outras. Sem a caridade
não há esperar melhor sorte,
não há interesse moral que nos guie; sem a caridade não há fé,
pois a fé não é mais do que
pura luminosidade que torna brilhante uma alma caridosa.
A caridade é, em todos os mundos, a eterna âncora de salvação; é
a mais pura
emanação do próprio Criador; é a sua própria virtude, dada por
ele à criatura. Como desprezar
essa bondade suprema? Qual o coração, disso ciente, bastante
perverso para recalcar em si e
expulsar esse sentimento todo divino? Qual o filho bastante mau
para se rebelar contra essa
doce carícia: a caridade?
Não ouso falar do que fiz, porque também os Espíritos têm o
pudor de suas obras;
considero, porém, a que iniciei como uma das que mais hão de
contribuir para o alívio dos
vossos semelhantes. Vejo com freqüência os Espíritos a pedirem
lhes seja dado, por missão,
continuar a minha tarefa. Vejo-os, minhas bondosas e queridas
irmãs, no piedoso e divino
ministério; vejo-os praticando a virtude que vos recomendo, com
todo o júbilo que deriva de
uma existência de dedicação e sacrifícios. Imensa dita é a
minha, por ver quanto lhes honra o
caráter, quão estimada e protegida é a missão que desempenham.
Homens de bem, de boa e
firme vontade, uni-vos para continuar amplamente a obra de
propagação da caridade; no
exercício mesmo dessa virtude, encontrareis a vossa recompensa;
não há alegria espiritual
que ela não proporcione já na
vida presente. Sede unidos, amai-vos uns aos outros, segundo os
preceitos do Cristo. Assim
seja. - S. Vicente de Paulo. (Paris, 1858.)
13. Chamo-me Caridade; sigo o caminho principal que conduz a
Deus. Acompanhai-me,
pois conheço a meta a que deveis todos visar.
Dei esta manhã o meu giro habitual e, com o coração amargurado,
venho dizer-vos:
Oh! meus amigos, que de misérias, que de lágrimas, quanto tendes
de fazer para secá-las
todas! Em vão, procurei consolar algumas pobres mães,
dizendo-lhes ao ouvido: Coragem! há
corações bons que velam por vós; não sereis abandonadas;
paciência! Deus lá está; sois dele
amadas, sois suas eleitas. Elas pareciam ouvir-me e volviam para
o meu lado os olhos
arregalados de espanto; eu lhes lia no semblante que seus
corpos, tiranos do Espírito, tinham
fome e que, se é certo que minhas palavras lhes serenavam um
pouco os corações, não lhes
reconfortavam os estômagos. Repetia-lhes: Coragem! Coragem!
Então, uma pobre mãe, ainda
muito moça, que amamentava uma criancinha, tomou-a nos braços e
a estendeu no espaço
vazio, como a pedir-me que protegesse aquele entezinho que só
encontrava, num seio estéril,
insuficiente alimentação.
Alhures vi, meus amigos, pobres velhos sem trabalho e, em
conseqüência, sem abrigo,
presas de todos os sofrimentos da penúria e, envergonhados de
sua miséria, sem ousarem,
eles que nunca mendigaram, implorar a piedade dos transeuntes.
Com o coração túmido de
compaixão, eu, que nada tenho, me fiz mendiga para eles e vou,
por toda a parte, estimular a
beneficência, inspirar bons pensamentos aos corações generosos e
compassivos. Por isso é
que aqui venho, meus amigos, e vos digo: Há por aí desgraçados,
em cujas choupanas falta o
pão, os fogões se acham sem lume e os leitos sem cobertas. Não
vos digo o que deveis fazer;
deixo aos vossos bons corações a iniciativa. Se eu vos ditasse o
proceder, nenhum mérito vos
traria a vossa boa ação. Digo-vos apenas: Sou a caridade e vos
estendo as mãos pelos vossos
irmãos que sofrem.
Mas, se peço, também dou e dou muito. Convido-vos para um grande
banquete e
forneço a árvore onde todos vos saciareis! Vede quanto é bela,
como está carregada de flores
e de frutos! Ide, ide, colhei, apanhai todos os frutos dessa
magnificente árvore que se chama a
beneficência. No lugar dos ramos que lhe tirardes, atarei todas
as boas ações que praticardes e
levarei a árvore a Deus, que a carregará de novo, porquanto a
beneficência é inexaurível.
Acompanhai-me, pois, meus amigos, a fim de que eu vos conte
entre os que se arrolam sob a
minha bandeira. Nada temais; eu vos conduzirei pelo caminho da
salvação, porque sou - a
Caridade. - Cárita, martirizada em Roma. (Lião, 1861.)
14. Várias maneiras há de fazer-se a caridade, que muitos dentre
vós confundem com
a esmola. Diferença grande vai, no entanto, de uma para outra. A
esmola, meus amigos, é
algumas vezes útil, porque dá alívio aos pobres; mas é quase
sempre humilhante, tanto para o
que a dá, como para o que a recebe. A caridade, ao contrário,
liga o benfeitor ao beneficiado e
se disfarça de tantos modos! Pode-se ser caridoso, mesmo com os
parentes e com os amigos,
sendo uns indulgentes para com os outros, perdoando-se
mutuamente as fraquezas, cuidando
não ferir o amor-próprio de ninguém. Vós, espíritas, podeis
sê-lo na vossa maneira de
proceder para com os que não pensam como vós, induzindo os menos
esclarecidos a crer, mas
sem os chocar, sem investir contra as suas convicções e, sim,
atraindo-os amavelmente às
nossas reuniões, onde poderão ouvir-nos e onde saberemos
descobrir nos seus corações a
brecha para neles penetrarmos. Eis aí um dos aspectos da
caridade.
Escutai agora o que é a caridade para com os pobres, os
deserdados deste mundo, mas
recompensados de Deus, se aceitam sem queixumes as suas
misérias, o que de vós depende.
Far-me-ei compreender por um exemplo.
Vejo, várias vezes, cada semana, uma reunião de senhoras,
havendo-as de todas as
idades. Para nós, como sabeis, são todas irmãs. Que fazem?
Trabalham depressa,
muito depressa; têm ágeis os dedos. Vede como trazem alegres os
semblantes e como lhes
batem em uníssono os corações. Mas, com que fim trabalham? É que
vêem aproximar-se o
inverno que será rude para os lares pobres. As formigas não
puderam juntar durante o estio as
provisões necessárias e a maior parte de suas utilidades está
empenhada. As pobres mães se
inquietam e choram, pensando nos filhinhos que, durante a
estação invernosa, sentirão frio e
fome! Tende paciência, infortunadas mulheres. Deus inspirou a
outras mais aquinhoadas do
que vós; elas se reuniram e estão confeccionando roupinhas;
depois, um destes dias, quando a
terra se achar coberta de neve e vós vos lamentardes, dizendo:
"Deus não é justo'', que é o que
vos sai dos lábios sempre que sofreis, vereis surgir a filha de
uma dessas boas trabalhadoras
que se constituíram obreiras dos pobres, pois que é para vós que
elas trabalham assim, e os
vossos lamentos se mudarão em bênçãos, dado que no coração dos
infelizes o a amor
acompanha de bem perto o ódio.
Como essas trabalhadoras precisam de encorajamento, vejo
chegarem-lhes de todos os
lados as comunicações dos bons espíritos. Os homens que fazem
parte dessa sociedade lhes
trazem também seu concurso, fazendo-lhes uma dessas leituras que
agradam tanto. E nós,
para recompensarmos o zelo de todos e de cada um em particular,
prometemos às laboriosas
obreiras boa clientela, que lhes pagará à vista, em bênçãos,
única moeda que tem curso no
Céu, garantindo-lhes, além disso, sem receio de errar, que essa
moeda não lhes faltará. -
Cárita. (Lião, 1861.)
15. Meus caros amigos, todos os (lias ouço entre vós dizerem:
"Sou pobre, não posso
fazer a caridade", e todos os dias vejo que faltais com a
indulgência aos vossos semelhantes.
Nada lhes perdoais e vos arvorais em juizes muitas vezes
severos, sem quererdes saber se
ficaríeis satisfeitos que do mesmo modo procedessem convosco.
Não é também caridade a
indulgência? Vós, que apenas podeis fazer a caridade praticando
a indulgência, fazei-a assim,
mas fazei-a largamente. Pelo que toca à
caridade material, vou contar-vos uma história do outro mundo.
Dois homens acabavam de morrer. Dissera Deus: Enquanto esses
dois homens
viverem, deitar-se-ão em sacos diferentes as boas ações de cada
um deles, para que por
ocasião de sua morte sejam pesadas. Quando ambos chegaram aos
últimos momentos,
mandou Deus que lhe trouxessem os dois sacos. Um estava cheio,
volumoso, atochado, e nele
ressoava o metal que o enchia; o outro era pequenino e tão vazio
que se podiam contar as
moedas que continha. Este o meu, disse um, reconheço-o; fui rico
e dei muito. Este o meu,
disse o outro, sempre fui pobre, oh! quase nada tinha para
repartir. Mas, oh! surpresa! postos
na balança os dois sacos, o mais volumoso se revelou leve,
mostrando-se pesado o outro,
tanto que fez se elevasse muito o primeiro no prato da balança.
Deus, então, disse ao rico:
deste muito, é certo, mas deste por ostentação e para que o teu
nome figurasse em todos os
templos do orgulho e, ao demais, dando, de nada te privaste. Vai
para a esquerda e fica
satisfeito com o te serem as tuas esmolas, contadas por qualquer
coisa. Depois, disse ao
pobre: Tu deste pouco, meu amigo; mas, cada uma das moedas que
estão nesta balança
representa uma privação que te impuseste; não deste esmolas,
entretanto, praticaste a
caridade, e, o que vale muito mais, fizeste a caridade
naturalmente, sem cogitar de que te
fosse levada em conta; foste indulgente; não te constituíste
juiz do teu semelhante; ao
contrário, todas as suas ações lhe relevaste: passa à direita e
vai receber a tua recompensa. -
Um Espírito protetor. (Lião, 1861.)
16. A mulher rica, venturosa, que não precisa empregar o tempo
nos trabalhos de sua
casa, não poderá consagrar algumas horas a trabalhos úteis aos
seus semelhantes? Compre,
com o que lhe sobre dos prazeres, agasalhos para o desgraçado
que tirita de frio; confeccione,
com suas mãos delicadas, roupas grosseiras, mas quentes; auxilie
uma mãe a cobrir o filho
que vai nascer. Se por isso seu filho ficar com algumas rendas
de menos, o do pobre
terá mais com que se aqueça. Trabalhar para os pobres é
trabalhar na vinha do Senhor.
E tu, pobre operária, que não tens supérfluo, mas que, cheia de
amor aos teus irmãos,
também queres dar do pouco com que contas, dá algumas horas do
teu dia, do teu tempo,
único tesouro que possuis; faze alguns desses trabalhos
elegantes que tentam os felizes; vende
o produto dos teus serões e poderás igualmente oferecer aos teus
irmãos a tua parte de
auxílios. Terás, talvez, algumas fitas de menos; darás, porém,
calçado a um que anda
descalço.
E vós, mulheres que vos votastes a Deus, trabalhai também na sua
obra; mas, que os
vossos trabalhos não sejam unicamente para adornar as vossas
capelas, para chamar a atenção
sobre a vossa habilidade e paciência. Trabalhai, minhas filhas,
e que o produto de vossas
obras se destine a socorrer os vossos irmãos em Deus. Os pobres
são seus filhos bem-amados;
trabalhar para eles é glorificá-lo. Sede-lhes a providência que
diz: "Aos pássaros do céu dá
Deus o alimento." Mudem-se o ouro e a prata que se tecem nas
vossas mãos em roupas e
alimentos para os que não os têm. Fazei isto e abençoado será o
vosso trabalho.
Todos vós, que podeis produzir, dai; dai o vosso gênio, dai as
vossas inspirações, dai
o vosso coração, que Deus vos abençoará. Poetas, literatos, que
só pela gente mundana sois
lidos!... satisfazei-lhe aos lazeres, mas consagrai o produto de
algumas de vossas obras a
socorros aos desgraçados. Pintores, escultores, artistas de
todos os gêneros!... venha também
a vossa inteligência em auxílio dos vossos irmãos; não será por
isso menor a vossa glória e
alguns sofrimentos haver á de menos.
Todos vós podeis dar. Qualquer que seja a classe a que
pertençais, de alguma coisa
dispondes que podeis dividir. Seja o que for que Deus vos haja
outorgado, uma parte do que
ele vos deu deveis àquele que carece do necessário, porquanto,
em seu lugar, muito gostaríeis
que outro dividisse convosco. Os vossos tesouros da Terra serão
um pouco menores; contudo,
os vossos tesouros
do céu ficarão acrescidos. Lá colhereis pelo cêntuplo o que
houverdes semeado em benefícios
neste mundo. - João. (Bordéus, 1861.)
A Piedade
17. A piedade é a virtude que mais vos aproxima dos anjos; é a
irmã da caridade, que
vos conduz a Deus. Ah! deixai que o vosso coração se enterneça
ante o espetáculo das
misérias e dos sofrimentos dos vossos semelhantes. Vossas
lágrimas são um bálsamo que lhes
derramais nas feridas e, quando, por bondosa simpatia, chegais a
lhes proporcionar a
esperança e a resignação, que encanto não experimentais! Tem um
certo amargor, é certo,
esse encanto, porque nasce ao lado da desgraça; mas, não tendo o
sabor acre dos gozos
mundanos, também não traz as pungentes decepções do vazio que
estes últimos deixam após
si Envolve-o penetrante suavidade que enche de jubilo a alma. A
piedade, a piedade bem
sentida é amor; amor é devotamento; devotamento é o olvido de si
mesmo e esse olvido, essa
abnegação em favor dos desgraçados, é a virtude por excelência,
a que em toda a sua vida
praticou o divino Messias e ensinou na sua doutrina tão santa e
tão sublime.
Quando esta doutrina for restabelecida na sua pureza primitiva,
quando todos os
povos se lhe submeterem, ela tomará feliz a Terra, fazendo que
reinem aí a concórdia, a paz e
o amor.
O sentimento mais apropriado a fazer que progridais, domando em
vós o egoísmo e o
orgulho, aquele que dispõe vossa alma à humildade, à
beneficência e ao amor do próximo, é a
piedade! piedade que vos comove até às entranhas à vista dos
sofrimentos de vossos irmãos,
que vos impele a lhes estender a mão para socorrê-los e vos
arranca lágrimas de simpatia.
Nunca, portanto, abafeis nos vossos corações essas emoções
celestes; não procedais como
esses egoístas endurecidos que se afastam dos aflitos, porque o
espetáculo de suas misérias lhes perturbaria por instantes a
existência álacre. Temei conservar-vos indiferentes, quando puderdes ser úteis. A tranqüilidade comprada à
custa de uma indiferença
culposa é a tranqüilidade do mar Morto, no fundo de cujas águas
se escondem a vasa fétida e
a corrupção.
Quão longe, no entanto, se acha a piedade de causar o distúrbio
e o aborrecimento de
que se arreceia o egoísta! Sem dúvida, ao contacto da desgraça
de outrem, a alma, voltando-se
para si mesma, experimenta um confrangimento natural e profundo,
que põe em vibração
todo o ser e o abala penosamente. Grande, porém, é a
compensação, quando chegais a dar
coragem e esperança a uni irmão infeliz que se enternece ao
aperto de uma mão amiga e cujo
olhar, úmido, por vezes, de emoção e de reconhecimento, para vós
se dirige docemente, antes
de se fixar no Céu em agradecimento por lhe ter enviado um
consolador, um amparo. A
piedade é o melancólico, nas celeste precursor da caridade,
primeira das virtudes que a tem
por irmã e cujos benefícios ela prepara e enobrece. - Miguel.
(Bordéus, 1862)
Os Órfãos
l8. Meus irmãos, amai os órfãos. Se soubésseis quanto é triste
ser só e abandonado,
sobretudo na infância! Deus permite que haja órfãos, para
exortar-nos a servir-lhes de pais.
Que divina caridade amparar uma pobre criaturinha abandonada,
evitar que sofra fome e frio,
dirigir-lhe a alma, a fim de que não desgarre para o vício!
Agrada a Deus quem estende a mão
a uma criança abandonada, porque compreende e pratica a sua lei.
Ponderai também que
muitas vezes a criança que socorreis vos foi cara noutra
encarnação, caso em que, se
pudésseis lembrar-vos, já não estaríeis praticando a caridade,
mas cumprindo um dever.
Assim, pois, meus amigos, todo sofredor é vosso irmão e tem
direito à vossa caridade: não,
porém, a essa caridade que magoa o coração, não a essa esmola
que queima a mão em que
cai, pois freqüentemente bem amargos são os vossos óbolos!
Quantas vezes seriam eles
recusados, se na choupana a enfermidade e a miséria não
os estivessem esperando! Dai delicadamente, juntai ao beneficio
que fizerdes o mais precioso
de todos os benefícios: o de uma boa palavra, de uma carícia, de
um sorriso amistoso.
Evitai esse ar de proteção, que
equivale a revolver a lâmina no
coração que sangra e
considerai que, fazendo o bem, trabalhais por vós mesmos e pelos
vossos. - Um Espírito
familiar. (Paris, 1860.)
Benéficos Pagos com a
Ingratidão
19. Que se deve pensar dos que, recebendo a ingratidão em paga
de benefícios que
fizeram, deixam de praticar o bem para não topar com os
ingratos?
Nesses, há mais egoísmo do que caridade, visto que fazer o bem,
apenas para receber
demonstrações de reconhecimento, é não o fazer com desinteresse,
e o bem, feito
desinteressadamente, é o único agradável a Deus. Há também
orgulho, porquanto os que
assim procedem se comprazem na humildade com que o beneficiado
lhes vem depor aos pés
o testemunho do seu reconhecimento. Aquele que procura, na
Terra, recompensa ao bem que
pratica não a receberá no céu. Deus, entretanto, terá em apreço
aquele que não a busca no
mundo.
Deveis sempre ajudar os fracos, embora sabendo de antemão que os
a quem fizerdes o
bem não vo-lo agradecerão. Ficai certos de que, se aquele a quem
prestais um serviço o
esquece, Deus o levará mais em conta do que se com a sua
gratidão o beneficiado vo-lo
houvesse pago. Se Deus permite por vezes sejais pagos com a
ingratidão, é para
experimentar a vossa perseverança em praticar o bem.
E sabeis, porventura, se o benefício momentaneamente esquecido
não produzirá mais
tarde bons frutos? Tende a certeza de que, ao contrário, é unia
semente que com o tempo
germinará. Infelizmente, nunca vedes senão o presente;
trabalhais para vós e não pelos outros.
Os benefícios acabam por abrandar os mais empedernidos corações;
podem ser olvidados
neste mundo, mas, quando
se desembaraçar do seu envoltório carnal, o Espírito que os
recebeu se lembrará deles e essa
lembrança será o seu castigo. Deplorará a sua ingratidão;
desejará reparar a falta, pagar a
dívida noutra existência, não raro buscando uma vida de
dedicação ao seu benfeitor. Assim,
sem o suspeitardes, tereis contribuído para o seu adiantamento
moral e vireis a reconhecer a
exatidão desta máxima: um benefício jamais se perde. Além disso,
também por vós mesmos
tereis trabalhado, porquanto granjeareis o mérito de haver feito
o bem desinteressadamente e
sem que as decepções vos desanimassem.
Ah! meus amigos, se conhecêsseis todos os laços que prendem a
vossa vida atual às
vossas existências anteriores; se pudésseis apanhar num golpe de
vista a imensidade das
relações que ligam uns aos outros os seres, para o efeito de um
progresso mútuo, admiraríeis
muito mais a sabedoria e a bondade do Criador, que vos concede
reviver para chegardes a ele.
- Guia protetor. (Sens, 1862.)
Beneficência Exclusiva
20. É acertada a beneficência, quando praticada exclusivamente
entre pessoas da
mesma opinião, da mesma crença, ou do mesmo partido?
Não, porquanto precisamente o espírito de seita e de partido é
que precisa ser abolido,
visto que são irmãos todos os homens. O verdadeiro cristão vê
somente irmãos em seus
semelhantes e não procura saber, antes de socorrer o
necessitado, qual a sua crença, ou a sua
opinião, seja sobre o que for. Obedeceria o cristão, porventura,
ao preceito de Jesus-Cristo,
segundo o qual devemos amar os nossos inimigos, se repelisse o
desgraçado, por professar
uma crença diferente da sua? Socorra-o, portanto, sem lhe pedir
contas à consciência, pois, se
for um inimigo da religião, esse será o meio de conseguir que
ele a ame; repelindo-o, faria
que a odiasse. - S. Luís. (Paris, l860.)
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