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O Bem e o Mal - Origem do Bem e do Mal
Devendo o homem progredir, os males aos quais está exposto, são
um estimulante para o exercício da sua inteligência, de todas as
suas faculdades, físicas e morais, iniciando-o na pesquisa dos
meios para deles subtrair-se. Se não tivesse nada a temer,
nenhuma necessidade o levaria à procura dos meios, seu espírito
se entorpeceria na inatividade; não inventaria nada e não
descobriria nada. A dor é o aguilhão que impele o homem para a
frente, no caminho do progresso.
Mas os mais
numerosos males são aqueles que o homem cria para si mesmo,
pelos seus próprios vícios, aqueles que provêm de seu orgulho,
de seu egoísmo, de sua ambição, de sua cupidez, de seus excessos
em todas as coisas; aí está a causa das guerras e das
calamidades que elas arrastam, dissensões, injustiças, opressão
do fraco pelo forte, enfim, a maioria das doenças.
Gênese - Capítulo III, itens 5 e 6.
O Bem e o Mal
Questão de alta
complexidade para a criatura humana, o dualismo do bem e do mal
encontra-se ínsito na sua psicologia interior, confundindo-a e
perturbando-lhe, não raro, o discernimento.
Com
características metafísicas, na sua formulação abstrata, essa
dualidade concretiza-se nos atos do ser, gerando fenômenos
relevantes de consciência, que contribuem para o equilíbrio ou a
desordem psíquica, de acordo com as suas respectivas
manifestações.
Em todos os
períodos da cultura ancestral encontramos o esforço da religião
e do pensamento tentando estabelecer os paradigmas em que se
apóiam um e outro, para melhor explicá-los.
Ontem, era uma
abstração meramente filosófica ou religiosa, passando, mais
tarde, a fazer parte da ética, no capítulo da moral, avançando
historicamente até interessar à sociologia, ao
comportamentalismo, à psicologia.
O código de
Hamurabi, inscrito em uma estela de diorito, já definia as ações
louváveis e as reprocháveis, simbolizando o bem e o mal, com as
respectivas conseqüências legais no comportamento humano em
relação à criatura em si mesma, à sociedade e ao seu próximo.
Entre medos e
partos - os antigos persas - o livro sagrado Zend-Avesta
separava a mesma dualidade nas personificações de Ormuzd - ou
representação do bem - e Ariman - ou personificação do mal -, em
cuja luta o último seria submetido e por conseqüência eliminado.
A Bíblia, por sua
vez, representa o bem nas deidades angélicas e o mal, nas
demoníacas, ambas, no entanto, sob o controle de Deus, contra
Quem se rebelará Lúcifer que, expulso do paraíso, tornou-se-Lhe
o adversário temerário...
A Metafísica
Tradicional analisando a Criação, estabeleceu os dois
princípios, do bem e do mal, que se vinculam ao conciliador, no
vértice superior do simbólico triangulo isósceles.
Logo depois, a
interpretação chinesa apresentou-os nas duas admiráveis forças
cósmicas: o Yang - masculino, positivo, seco, bom - e o Yin -
feminino, úmido, negativo, frio -, que se conciliam sob o
comando da suprema perfeição ao confundirem-se, gerando a
harmonia.
Inspirada no
hinduismo, a Trilogia da Criação apresenta Brama como
Plenipotente, o Princípio Supremo, e as duas forças antagônicas,
Vishnu, o Conservador, ou princípio construtor e Shiva, o
Destruidor, ou princípio aniquilador dos seres, em perene luta
até a supremacia do edificador...
Das concepções
pretéritas à realidade presente, filosoficamente o bem é tudo
quanto fomenta a beleza, o ético, a vida, consoante a moral e o
mal vem a ser aquilo que se opõe ao edificante, ao harmônico, ao
bem.
Sociologicamente o
bem contribui para o progresso, e todas as realizações que
promovem o ser, o grupo social e o ambiente expressam-lhe a
grandeza, a ação concreta que resulta da capacidade seletiva de
valores éticos para a harmonia e a felicidade.
Como efeito, o mal
decorre de todo e qualquer fenômeno que se opõe ou conspira
contra esse contributo superior.
A Psicologia não
podia ficar indiferente a essa dualidade que existe no ser
humano, remanescendo como as suas aspirações de crescimento e
elevação, do nobre e equilibrado, do saudável e propiciador de
paz.
Ao mesmo tempo, o
ativismo dos instintos agressivos propele-o para a violência -
quando deseja possuir -, para o vilipêndio - quando se sente
diminuído -, para o grotesco e vulgar - quando derrapa ao
menosprezo de si mesmo...
Desenvolvendo, no
entanto, a consciência que sai do torpor de nível de sono sem
sonhos, imediatamente começa a perceber os valores que compensam
e os que conflitam o comportamento psicológico, impulsionando-o,
embora lentamente, para a adoção de cultura mental e física,
idealista e comportamental do bem, tornando-se instrumento útil
no grupo social, que se promove e eleva-o a estágio superior,
permitindo-lhe aspirar sempre mais e melhor.
Esse
discernimento, que resulta da consciência em libertação dos
condicionamentos escravizadores, amplia a capacidade para
identificar o bem e o mal, predispondo-o à eleição do primeiro
em detrimento do outro.
Se, por acaso,
incorre em equívocos de seleção e tomba nas malhas do mal, mesmo
que sob as circunstâncias perturbadoras do ódio, do medo, da
angústia, da volúpia, da desordem interior, ao descobrir-se em
falta, faz o quadro de consciência de culpa e sofre as
patologias afligentes, que se lhe tornam mecanismos reparadores.
Afirma-se, porém,
que a linha divisória entre o bem e o mal é tão fluida e
oscilante que, não raro, o bem de hoje torna-se mal de amanhã e
vice-versa, numa dialética sofista, que se poderia considerar
anárquica...
Certamente, muitos
códigos e leis, de acordo com as conveniências de grupos e
castas, de partidos e raças, de religiões e credos, por questões
imediatistas, tentam tornar legais comportamentos que não são
morais e reciprocamente, justificando-se atitudes vulgares e
tentando liberar-se comportamentos alienados, condutas
extravagantes e arbitrárias.
O Decálogo
moisaico, no entanto, sintetiza os códigos moral e legal,
portanto, o que é bom e o que é mal, havendo facultado Jesus
afirmar em grandiosa proposta toda a complexidade desse fenômeno
dual: - Não fazer a outrem o que não deseja que ele lhe faça.
Porque ainda
injustos os homens, as leis que elaboram possuem os seus
parcialismos, defecções, devendo ser respeitadas, sem que a
algumas delas se atribuam reais valores morais, significativos e
definidores do bem e do mal.
O bem e o mal
estão inscritos na consciência humana, em a natureza, na sua
harmoniosa organização que deu origem à vida e a fomenta.
Tudo quanto
contribui para a paz íntima da criatura humana, seu
desenvolvimento intelecto-moral, é-lhe o bem que deve cultivar e
desenvolver, irradiando-o como bênção que provém de Deus.
... E esse mal,
aliás transitório, temporal, que o propele às ações ignóbeis,
aos sofrimentos, é remanescente atávico do seu processo de
evolução, que será ultrapassado à medida que amadureça
psicologicamente, e se lhe desenvolvam os padrões de
sensibilidade e consciência para adquirir a integração no Cosmo,
liberado das injunções dolorosas, inferiores.
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