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Os Milagres no
Sentido Teológico. - O Espiritismo Não Faz Milagres. - Faz
Deus Milagres? - O Sobrenatural e as Religiões.
Os Milagres no
Sentido Teológico
1. - Na acepção
etimológica, a palavra milagre (de mirari, admirar) significa:
admirável, coisa extraordinária, surpreendente. A Academia
definiu-a deste modo: Um ato do poder divino contrário às leis
da Natureza, conhecidas.
Na acepção usual,
essa palavra perdeu, como tantas outras, a significação
primitiva. De geral, que era, se tornou de aplicação restrita a
uma ordem particular de fatos. No entender das massas, um
milagre implica a idéia de um fato extranatural; no sentido
teológico, é uma derrogação das leis da Natureza, por meio da
qual Deus manifesta o seu poder. Tal, com efeito, a acepção
vulgar, que se tornou o sentido próprio, de modo que só por
comparação e por metáfora a palavra se aplica às circunstâncias
ordinárias
da vida.
Um dos caracteres
do milagre propriamente dito é o ser inexplicável, por isso
mesmo que se realiza com exclusão das leis naturais. É tanto
essa a idéia que se lhe associa, que, se um fato milagroso vem a
encontrar explicação, se diz que já não constitui milagre, por
muito espantoso que seja. O que, para a Igreja, dá valor aos
milagres é, precisamente, a origem sobrenatural deles e a
impossibilidade de serem explicados. Ela se firmou tão bem sobre
esse ponto, que o assimilarem-se os milagres aos fenômenos da
Natureza constitui para ela uma heresia, um atentado contra a
fé, tanto assim que excomungou e até queimou muita gente por não
ter querido crer em certos milagres.
Outro caráter do
milagre é o ser insólito, isolado, excepcional. Logo que um
fenômeno se reproduz, quer espontânea, quer voluntariamente, é
que está submetido a uma lei e, desde então, seja ou não seja
conhecida a lei, já não pode haver milagres.
2. - Aos olhos dos
ignorantes, a Ciência faz milagres todos os dias. Se um homem,
que se ache realmente morto, for chamado à vida por intervenção
divina, haverá verdadeiro milagre, por ser esse um fato
contrário às leis da Natureza. Mas, se em tal homem houver
apenas aparências de morte, se lhe restar uma vitalidade latente
e a Ciência, ou uma ação magnética, conseguir reanimá-lo, para
as pessoas esclarecidas ter-se-á dado um fenômeno natural, mas,
para o vulgo ignorante, o fato passará por miraculoso. Lance um
físico, do meio de certas campinas, um papagaio elétrico e faça
que o raio caia sobre uma árvore e certamente esse novo Prometeu
será tido por armado de diabólico poder. Houvesse, porém, Josué
detido o movimento do Sol, ou, antes, da Terra e teríamos aí o
verdadeiro milagre, porquanto nenhum magnetizador existe dotado
de bastante poder para operar semelhante prodígio.
Foram fecundos em
milagres os séculos de ignorância, porque se considerava
sobrenatural tudo aquilo cuja causa não se conhecia. À proporção
que a Ciência revelou novas leis, o círculo do maravilhoso se
foi restringindo; mas, como a Ciência ainda não explorara todo o
vasto campo da Natureza, larga parte dele ficou reservada para o
maravilhoso.
3. - Expulso do
domínio da materialidade, pela Ciência, o maravilhoso se
encastelou no da espiritualidade, onde encontrou o seu último
refúgio.
Demonstrando que o
elemento espiritual é uma das forças vivas da Natureza, força
que incessantemente atua em concorrência com a força material, o
Espiritismo faz que voltem ao rol dos efeitos naturais os que
dele haviam saído, porque, como os outros, também tais efeitos
se acham sujeitos a leis. Se for expulso da espiritualidade, o
maravilhoso já não terá razão de ser e só então se poderá dizer
que passou o tempo dos milagres. (Cap. I, nº 18.)
O Espiritismo Não
Faz Milagres
4. - O
Espiritismo, pois, vem, a seu turno, fazer o que cada ciência
fez no seu advento: revelar novas leis e explicar,
conseguintemente, os fenômenos compreendidos na alçada dessas
leis.
Esses fenômenos, é
certo, se prendem à existência dos Espíritos e à intervenção
deles no mundo material e isso é, dizem, o em que consiste o
sobrenatural. Mas, então, fora mister se provasse que os
Espíritos e suas manifestações são contrárias às leis da
Natureza; que aí não há, nem pode haver, a ação de uma dessas
leis.
O Espírito mais
não é do que a alma sobrevivente ao corpo; é o ser principal,
pois que não morre, ao passo que o corpo é simples acessório
sujeito à destruição. Sua existência, portanto, é tão natural
depois, Como durante a encarnação; está submetido às leis que
regem o princípio espiritual, como o corpo o está às que regem o
princípio material; mas, como estes dois princípios têm
necessária afinidade, como reagem incessantemente um sobre o
outro, como da ação simultânea deles resultam o movimento e a
harmonia do conjunto, segue-se que a espiritualidade e a
materialidade são duas partes de um mesmo todo, tão natural uma
quanto a outra, não sendo, pois, a primeira uma exceção, uma
anomalia na ordem das coisas.
5. - Durante a sua
encarnação, o Espírito atua sobre a matéria por intermédio do
seu corpo fluídico ou perispírito, dando-se o mesmo quando ele
não está encarnado. Como Espírito e na medida de suas
capacidades, faz o que fazia como homem; apenas, por já não ter
o corpo carnal para instrumento, serve-se, quando necessário,
dos órgãos materiais de um encarnado, que vem a ser o a que se
chama médium. Procede então como um que, não podendo escrever
por si mesmo, se vale de um secretário, ou que, não sabendo uma
língua, recorre a um intérprete. O secretário e o intérprete são
os médiuns de um encarnado, do mesmo modo que o médium é o
secretário ou o intérprete de um Espírito.
6. - Já não sendo
o mesmo que no estado de encarnação o meio em que atuam os
Espíritos e os modos por que atuam, diferentes são os efeitos,
que parecem sobrenaturais unicamente porque se produzem com o
auxílio de agentes que não são os de que nos servimos. Desde,
porém, que esses agentes estão na Natureza e as manifestações se
dão em virtude de certas leis, nada há de sobrenatural, ou de
maravilhoso. Antes de se conhecerem as propriedades da
eletricidade, os fenômenos elétricos passavam por prodígios para
certa gente; desde que se tornou conhecida a causa, desapareceu
o maravilhoso. O mesmo ocorre com os fenômenos espíritas, que
não são mais aberrantes das leis naturais do que os fenômenos
elétricos, acústicos, luminosos e outros, que serviram de
fundamento a uma imensidade de crenças supersticiosas.
7. - Entretanto,
dir-se-á, admitis que um Espírito pode levantar uma mesa e
mantê-la no espaço sem ponto de apoio; não está aí uma
derrogação da lei da gravidade? - Sim, da lei conhecida.
Conhecem-se, porém, todas as leis? Antes que se houvesse
experimentado a força ascensional de alguns gases, quem diria
que uma pesada máquina, transportando muitos homens, poderia
triunfar da força de atração? Ao vulgo, isso não pareceria
maravilhoso, diabólico? Aquele que se houvera proposto, há um
século, a transmitir uma mensagem a 500 léguas e receber a
resposta dentro de alguns minutos, teria passado por louco; se o
fizesse, teriam acreditado estar o diabo às suas ordens,
porquanto, então, só o diabo era capaz de andar tão depressa.
Hoje, no entanto, não só se reconhece possível o fato, como ele
parece naturalíssimo. Por que, pois, um fluido desconhecido
careceria da propriedade de contrabalançar, em dadas
circunstâncias, o efeito da gravidade, como o hidrogênio
contrabalança o peso do balão? É, efetivamente, o que sucede, no
caso de que se trata. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. IV.)
8. - Uma vez que
estão no quadro dos da Natureza, os fenômenos espíritas se hão
produzido em todos os tempos; mas, precisamente, porque não
podiam ser estudados pelos meios materiais de que dispõe a
ciência vulgar, permaneceram muito mais tempo do que outros no
domínio do sobrenatural,
donde o Espiritismo agora os tira. Baseado em aparências
inexplicadas, o sobrenatural deixa livre curso à imaginação que,
a vagar pelo desconhecido, gera as crenças supersticiosas.
Uma explicação
racional, fundada nas leis da Natureza, reconduzindo o homem ao
terreno da realidade, fixa um ponto de parada aos transviamentos
da imaginação e destrói as superstições. Longe de ampliar o
domínio do sobrenatural, o Espiritismo o restringe até aos seus
limites extremos e lhe arrebata o último refúgio. Se é certo que
ele faz crer na possibilidade de alguns fatos, não menos certo é
que, por outro lado, impede a crença em diversos outros, porque
demonstra, no campo da espiritualidade, a exemplo da Ciência no
da materialidade, o que é possível e o que não o é. Todavia,
como não alimenta a pretensão de haver dito a última palavra
seja sobre o que for, nem mesmo sobre o que é da sua
competência, ele não se apresenta como absoluto regulador do
possível e deixa de parte os conhecimentos reservados ao futuro.
9. - Os fenômenos
espíritas consistem nos diferentes modos de manifestação da alma
ou Espírito, quer durante a encarnação, quer no estado de
erraticidade. É pelas manifestações que produz que a alma revela
sua existência, sua sobrevivência e sua individualidade;
julga-se dela pelos seus efeitos; sendo natural a causa, o
efeito também o é. São esses efeitos que constituem objeto
especial das pesquisas e do estudo do Espiritismo, a fim de
chegar-se a um conhecimento tão completo quanto possível, assim
da natureza e dos atributos da alma, como das leis que regem o
princípio espiritual.
10. - Para os que
negam a existência do princípio espiritual independente, que
negam, por conseguinte, a da alma individual e sobrevivente, a
Natureza toda está na matéria tangível; todos os fenômenos que
concernem à espiritualidade são, para esses negadores,
sobrenaturais e, portanto, quiméricos. Não admitindo a causa não
podem eles admitir os efeitos e, quando estes são patentes, os
atribuem à imaginação, à ilusão, à alucinação e se negam a
aprofundá-los. Daí, a opinião preconcebida em que se acastelam e
que os torna inaptos a apreciar judiciosamente o Espiritismo,
porque parte do princípio de negação de tudo o que não seja
material.
11. - Do fato,
porém, de o Espiritismo admitir os efeitos, que são corolário da
existência da alma, não se segue que admita todos os efeitos
qualificados de maravilhosos e que se proponha a justificá-los e
dar-lhes crédito; que se faça campeão de todos os devaneios, de
todas as utopias, de todas as excentricidades sistemáticas, de
todas as lendas miraculosas. Fora preciso conhecê-lo muito
pouco, para pensar assim. Seus adversários julgam opor-lhe um
argumento irreplicável, quando, depois de haverem feito eruditas
pesquisas sobre os convulsionários de Saint-Médard, sobre os
camisardos das Cevenas, ou sobre os religiosos de Loudun,
chegaram a descobrir fatos patentes de embuste, que ninguém
contesta. Mas, essas histórias serão, porventura, o Evangelho do
Espiritismo? Já terão seus adeptos negado que o charlatanismo
haja explorado em proveito próprio alguns fatos; que a
imaginação os tenha criado; que o fanatismo os haja exagerado
muitíssimo? Ele é tão solidário com as extravagâncias que se
cometam em seu nome, como a Ciência o é com os abusos da
ignorância e a verdadeira religião com os abusos do fanatismo.
Muitos críticos julgam do Espiritismo pelos contos de fadas e
pelas lendas populares, ficções daqueles contos. O mesmo seria
julgar da História pelos romances históricos ou pelas tragédias.
12. - Os fenômenos
espíritas são as mais das vezes espontâneos e se produzem sem
nenhuma idéia preconcebida da parte das pessoas com quem eles se
dão e que, em regra, são as que neles menos pensam. Alguns há
que, em certas circunstâncias, podem ser provocados pelos
agentes denominados médiuns. No primeiro caso, o médium é
inconsciente do que se produz por seu intermédio no segundo, age
com conhecimento de causa, donde a classificação de médiuns
conscientes e médiuns inconscientes. Estes últimos são os mais
numerosos e se encontram com freqüência entre os mais obstinados
incrédulos que, assim, praticam o Espiritismo sem o saberem, nem
quererem. Por isso mesmo, os fenômenos espontâneos revestem
capital importância, visto não se poder suspeitar da boa-fé dos
que os obtêm. Dá-se aqui o que se dá com o sonambulismo que, em
certos indivíduos, é natural e involuntário, enquanto que
noutros é provocado pela ação magnética.
(1)
(1) O
Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. V. - Revue Spirite; exemplos:
dezembro de 1865, pág. 370, agosto de 1865, pág. 231.
Resultem, porém, ou não esses fenômenos de um ato da vontade, a
causa primária é exatamente a mesma e não se afasta uma linha
das leis naturais. Os médiuns, portanto, nada absolutamente
produzem de sobrenatural; por conseguinte, nenhum milagre fazem.
As próprias curas instantâneas não são mais milagrosas, do que
os outros efeitos, dado que resultam da ação de um agente
fluídico, que desempenha o papel de agente terapêutico, cujas
propriedades não deixam de ser naturais por terem sido ignoradas
até agora. É, pois, totalmente impróprio o epíteto de
taumaturgos que a crítica ignorante dos princípios do
Espiritismo há dado a certos médiuns. A qualificação de milagres
emprestada, por comparação, a esta espécie de fenômenos, somente
pode induzir em erro sobre o verdadeiro caráter deles.
13. - A
intervenção de inteligências ocultas nos fenômenos espíritas não
os torna mais milagrosos do que todos os outros fenômenos
devidos a agentes invisíveis, porque esses seres ocultos que
povoam os espaços São uma das forças da Natureza, força cuja
ação é incessante sobre o mundo material, tanto quanto sobre o
mundo moral.
Esclarecendo-nos
acerca dessa força, o Espiritismo faculta a elucidação de uma
imensidade de coisas inexplicadas e inexplicáveis por qualquer
outro meio e que, por isso, passaram por prodígios nos tempos
idos. Do mesmo modo que o magnetismo, ele revela uma lei, senão
desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou, melhor dizendo,
conheciam-se os efeitos, porque eles em todos os tempos se
produziram, porém não se conhecia a lei e foi o desconhecimento
desta que gerou a superstição. Conhecida essa lei, desaparece o
maravilhoso e os fenômenos entram na ordem das coisas naturais.
Eis por que tanto operam um milagre os espíritas quando fazem
que uma mesa se mova sozinha, ou que os mortos escrevam, como um
milagre opera o médico, quando faz que um moribundo reviva, ou o
físico, quando faz que o raio caia. Aquele que pretendesse, com
o auxílio desta ciência, faze milagres seria ou um ignorante do
assunto, ou um enganador de tolos.
14. - Pois que o
Espiritismo repudia toda pretensão às coisas miraculosas,
haverá, fora dele, milagres, na acepção usual desta palavra?
Digamos,
primeiramente, que, dos fatos reputados milagrosos, ocorridos
antes do advento do Espiritismo e que ainda no presente ocorrem,
a maior parte, senão todos, encontram explicação nas novas leis
que ele veio revelar.
Esses fatos,
portanto, se compreendem, embora sob outro nome, na ordem dos
fenômenos espíritas e, como tais, nada têm de sobrenatural.
Fique, porém, bem entendido que nos referimos aos fatos
autênticos e não aos que, com a denominação de milagres, são
produto de uma indigna trampolinice, com o fito de explorar a
credulidade. Tampouco nos referimos a certos fatos lendários que
podem ter tido, originariamente, um fundo de verdade, mas que a
superstição ampliou até ao absurdo. Sobre esses fatos é que o
Espiritismo projeta luz, fornecendo meios de apartar do erro a
verdade.
Faz Deus
Milagres?
15. - Quanto aos
milagres propriamente ditos, Deus, visto que nada lhe é
impossível, pode fazê-los. Mas, fá-los? Ou, por outras palavras;
derroga as leis que dele próprio emanaram? Não cabe ao homem
prejulgar os atos da Divindade, nem os subordinar à fraqueza do
seu entendimento. Contudo, em face das coisas divinas, temos,
para critério do nosso juízo, os atributos mesmos de Deus. Ao
poder soberano reúne ele a soberana sabedoria, donde se deve
concluir que não faz coisa alguma inútil.
Por que, então,
faria milagres? Para atestar o seu poder, dizem. Mas, o poder de
Deus não se manifesta de maneira muito mais imponente pelo
grandioso conjunto das obras da criação, pela sábia previdência
que essa criação revela, assim nas partes mais gigantescas, como
nas mais mínimas, e pela harmonia das leis que regem o mecanismo
do Universo, do que por algumas pequeninas e pueris derrogações
que todos os prestímanos sabem imitar? Que se diria de uni sábio
mecânico que, para provar a sua habilidade, desmantelasse um
relógio construído pelas suas mãos, obra-prima de ciência, a fim
de mostrar que pode desmanchar o que fizera? Seu saber, ao
contrário, não ressalta muito mais da regularidade e da precisão
do movimento da sua obra?
Não é, pois, da
alçada do Espiritismo a questão dos milagres; mas, ponderando
que Deus não faz coisas inúteis, ele emite a seguinte opinião:
Não sendo necessários os milagres para a glorificação de Deus,
nada no Universo se produz fora do âmbito das leis gerais. Deus
não faz milagres, porque, sendo, como são, perfeitas as suas
leis, não lhe é necessário derrogá-las. Se há fatos que não
compreendemos, é que ainda nos faltam os conhecimentos
necessários.
16. - Admitido que
Deus houvesse alguma vez, por motivos que nos escapam, derrogado
acidentalmente leis por ele estabelecidas, tais leis já não
seriam imutáveis. Mesmo, porem, que semelhante derrogação seja
possível, ter-se-á, pelo menos, de reconhecer que só ele, Deus,
dispõe desse poder; sem se negar ao Espírito do mal a
onipotência, não se pode admitir lhe seja dado desfazer a obra
divina, operando, de seu lado, prodígios capazes de seduzir até
os eleitos, pois que isso implicaria a idéia de um poder igual
ao de Deus. E, no entanto, o que ensinam. Se Satanás tem o poder
de sustar o curso das leis naturais, que são obra de Deus, sem a
permissão deste, mais poderoso é ele do que a Divindade. Logo,
Deus não possui a onipotência e se, como pretendem, delega
poderes a Satanás, para mais facilmente induzir os homens ao
mal, falta-lhe a soberana bondade. Em ambos os casos, há negação
de um dos atributos sem os quais Deus não seria Deus.
Daí vem a Igreja
distinguir os bons milagres, que procedem de Deus, dos maus
milagres, que procedem de Satanás. Mas, como diferençá-los? Seja
satânico ou divino um milagre, haverá sempre uma derrogação de
leis emanadas unicamente de Deus. Se um indivíduo é curado por
suposto milagre, quer seja Deus quem o opere, quer Satanás, não
deixará por isso de ter havido a cura. Forçoso se torna fazer
pobríssima idéia da inteligência humana para se pretender que
semelhantes doutrinas possam ser aceitas nos dias de hoje.
Reconhecida a
possibilidade de alguns fatos considerados miraculosos, há-se de
concluir que, seja qual for a origem que se lhes atribua, eles
são efeitos naturais de que se podem utilizar Espíritos
desencarnados ou encarnados, como de tudo, como da própria
inteligência e dos conhecimentos científicos de que disponham,
para o bem ou para o mal, conforme neles preponderem a bondade
ou a perversidade. Valendo-se do saber que haja adquirido, pode
um ser perverso fazer coisas que passem por prodígios aos olhos
dos ignorantes; mas, quando tais efeitos dão em resultado um bem
qualquer, fora ilógico atribuir-se-lhes uma origem diabólica.
17. - Mas, a
religião, dizem, se apóia em fatos que nem explicados, nem
explicáveis são. Inexplicados, talvez; inexplicáveis, é questão
muito outra. Que sabe o homem das descobertas e dos
conhecimentos que o futuro lhe reserva? Sem falar do milagre da
criação, o maior de todos sem contestação possível, já
pertencente ao domínio da lei universal, não vemos
reproduzirem-se hoje, sob o império do magnetismo, do
sonambulismo, do Espiritismo, os êxtases, as visões, as
aparições, as percepções a distância, as curas instantâneas, as
suspensões, as comunicações orais e outras com os seres do mundo
invisível, fenômenos esses conhecidos desde tempos imemoráveis,
tidos outrora por maravilhosos e que presentemente se demonstra
pertencerem à ordem das coisas naturais, de acordo com a lei
constitutiva dos seres? Os livros sagrados estão cheios de fatos
desse gênero, qualificados de sobrenaturais; como, porém, outros
análogos e ainda mais maravilhosos se encontram em todas as
religiões pagãs da antigüidade, se a veracidade de uma religião
dependesse do numero e da. natureza de tais fatos, não se
saberia dizer qual a que devesse prevalecer.
O Sobrenatural e
as Religiões
18. - Pretender-se
que o sobrenatural é o fundamento de toda religião, que ele é o
fecho de abóbada do edifício cristão, é sustentar perigosa tese.
Assentar exclusivamente as verdades do Cristianismo sobre a base
do maravilhoso é dar-lhe fraco alicerce, cujas pedras facilmente
se soltam. Essa tese, de que se constituíram defensores
eminentes teólogos, leva direito à conclusão de que, em breve
tempo, já não haverá religião possível, nem mesmo a cristã,
desde que se chegue a demonstrar que é natural o que se
considerava sobrenatural, visto que, por mais que se acumulem
argumentos, não se logrará sustentar a crença de que um fato é
miraculoso, depois de se haver provado que não o é. Ora, a prova
existe de que um fato não constitui exceção às leis naturais,
logo que pode ser explicado por essas mesmas leis e que, podendo
reproduzir-se por intermédio de um indivíduo qualquer, deixa de
ser privilégio dos santos. O de que necessitam as religiões não
é do sobrenatural, mas do princípio espiritual, que erradamente
costumam confundir com o maravilhoso e sem o qual não há
religião possível.
O Espiritismo
considera de um ponto mais elevado a religião cristã; dá-lhe
base mais sólida do que a dos milagres: as imutáveis leis de
Deus, a que obedecem assim o princípio espiritual, como o
princípio material. Essa base desafia o tempo e a Ciência, pois
que o tempo e a Ciência virão sancioná-la.
Deus não se torna
menos digno da nossa admiração, do nosso reconhecimento, do
nosso respeito, por não haver derrogado suas leis, grandiosas,
sobretudo, pela imutabilidade que as caracteriza. Não se faz
mister o sobrenatural, para que se preste a Deus o culto que lhe
é devido. A Natureza não é de si mesma tão imponente, que
dispense se lhe acrescente seja o que for para provar a suprema
potestade? Tanto menos incrédulos topará a religião, quanto mais
a razão a sancionar em todos os pontos. O Cristianismo nada tem
que perder com semelhante sanção; ao contrário, só tem que
ganhar. Se alguma coisa o há prejudicado na opinião de muitas
pessoas, foi precisamente o abuso do sobrenatural e do
maravilhoso.
19. - Se tomarmos
a palavra milagre em sua acepção etimológica, no sentido de
coisa admirável, teremos milagres incessantemente sob as vistas.
Aspiramo-los no ar
e calcamo-los aos pés, porque tudo então é milagre em a
Natureza. Querem dar ao povo, aos ignorantes, aos pobres de
espírito uma idéia do poder de Deus? Mostrem-no na sabedoria
infinita que preside a tudo, no admirável organismo de tudo o
que vive, na frutificação das plantas, na apropriação de todas
as partes de cada ser às suas necessidades, de acordo com o meio
onde ele é posto a viver. Mostrem-lhes a ação de Deus na
vergôntea de um arbusto, na flor que desabrocha, no Sol que tudo
vivifica.
Mostrem-lhes a sua
bondade na solicitude que dispensa a todas as criaturas, por
mais ínfimas que sejam, a sua previdência, na razão de ser de
todas as coisas, entre as quais nenhuma inútil se conta, no bem
que sempre decorre de um mal aparente e temporário. Façam-lhes
compreender, principalmente, que o mal real é obra do homem e
não de Deus; não procurem espavori-los com o quadro das penas
eternas, em que acabam não mais crendo e que os levam a duvidar
da bondade de Deus; antes, dêem-lhes coragem, mediante a certeza
de poderem um dia redimir-se e reparar o mal que hajam
praticado. Apontem-lhes as descobertas da Ciência como
revelações das leis divinas e não como obras de Satanás.
Ensinem-lhes, finalmente, a ler no livro da Natureza,
constantemente aberto diante deles; nesse livro inesgotável, em
cada uma de cujas páginas se acham inscritas a sabedoria e a
bondade do Criador. Eles, então, compreenderão que um Ser tão
grande, que com tudo se ocupa, que por tudo vela, que tudo
prevê, forçosamente dispõe do poder supremo. Vê-lo-á o lavrador,
ao sulcar o seu campo; e o desditoso, nas suas aflições, o
bendirá dizendo: Se sou infeliz, é por culpa minha. Então, os
homens serão verdadeiramente religiosos, racionalmente
religiosos, sobretudo, muito mais do que acreditando em pedras
que suam sangue, ou em estátuas que piscam os olhos e derramam
lágrimas.
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