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Os Seis Dias. -
Perda do Paraíso
Os Seis Dias
1. -
CAPÍTULO I. - 1. No começo criou Deus o Céu e a Terra. - 2. A
Terra era uniforme e inteiramente nua; as trevas cobriam a face
do abismo e o Espírito de Deus boiava sobre as águas. - 3. Ora,
Deus disse: Faça-se a luz e a luz foi feita. - 4. Deus viu que a
luz era boa e separou a luz das trevas. - 5. Deu à luz o nome de
dia e às trevas o nome de noite e da tarde e da manhã se fez o
primeiro dia.
6. Disse Deus
também: Faça-se o Firmamento no meio das águas e que ele separe
das águas as águas. - 7. E Deus fez o Firmamento e separou as
águas que estavam debaixo do Firmamento das que estavam acima do
Firmamento. E assim se fez. - 8. E Deus deu ao Firmamento o nome
de céu; da tarde e da manhã se fez o segundo dia.
9. Disse Deus
ainda: Reunam-se num só lugar as águas que estão sob o céu e
apareça o elemento árido. E assim se fez. - 10. Deus deu ao
elemento árido o nome de terra e chamou mar a todas as águas
reunidas. E viu que isso estava bem. - 11. Disse mais Produza a
terra a erva verde que traz a semente e árvores frutíferas que
dêem frutos cada um de uma espécie, e que contenham em si mesmas
as suas sementes, para se reproduzirem na terra. E assim se fez.
- 12. A terra então produziu a erva verde que trazia consigo a
sua semente, conforme a espécie, e árvores frutíferas que
continham em si mesmas suas sementes, cada uma de acordo com a
sua espécie. E Deus viu que estava bom. - 13. E da tarde e
da manhã se fez o terceiro dia.
14. - Deus disse
também: Façam-se corpos de luz no firmamento do céu, a fim de
que separem o dia da noite e sirvam de sinais para marcar o
tempo e as estações, os dias e os anos. - 15. Brilhem eles no
firmamento do céu e iluminem a Terra. E assim se fez. - 16. Deus
então fez dois grandes corpos luminosos, um, maior, para
presidir ao dia, o outro, menor, para presidir ã noite; fez
também as estrelas. - 17. E os pôs no firmamento do céu, para
brilharem sobre a Terra. - 18. Para presidirem ao dia e à noite
e para separarem a luz das trevas. E Deus viu que estava bom. -
19. E da tarde e da manhã se fez o quarto dia.
20. Disse Deus
ainda: Produzam as águas animais vi vos que nadem nas águas e
pássaros que voem sobre a Terra debaixo do firmamento do céu. -
21. Deus então criou os grandes peixes e todos os animais que
têm vida e movimento, que as águas produziram, cada um de uma
espécie, e criou também todos os pássaros, cada um de uma
espécie. Viu que estava bom. - 22. E os abençoou, dizendo:
Crescei e multiplicai-vos e enchei as águas do mar; e que os
pássaros se multipliquem sobre a Terra. - 23. E da tarde e da
manhã se fez o quinto dia.
24. Também disse
Deus: Produza a Terra animai5 vivos, cada um de sua espécie, os
animais domésticos e os armais selvagens, em suas diferentes
espécies. E assim se fez. - 25. Deus fez, pois, os animais
selvagens da Terra em suas espécies, os animais domésticos e
todos os répteis, cada um de sua espécie. E Deus viu que estava
bom.
26. Disse, em
seguida: Façamos o homem a nossa imagem e semelhança e que ele
mande sobre os peixes do mar, os pássaros do céu, os animais,
sobre toda a Terra e sobre todos os répteis que se movem na
terra. - 27. Deus então criou o homem à sua imagem e o criou à
imagem de Deus e o criou macho e fêmea. - 28. Deus os abençoou e
lhes disse: Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e
sujeitai-a, dominai sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do
céu e sobre todos os animais que se movem na terra. - 29. Disse
Deus ainda: Dei-vos todas as ervas que trazem sua semente à
terra e todas as árvores que encerram em si mesmas suas
sementes, cada uma de uma espécie, a fim de que vos sirvam de
alimento. - 30. E dei-as a todos os animais da terra, a todos os
pássaros do céu, a tudo o que se move na Terra e que é vivo e
animado, a fim de que tenham com que se alimentar. E assim se
fez. - 31. Deus viu todas as coisas que havia feito; eram todas
muito boas. - 23. E da tarde e da manhã se fez o sexto dia.
CAPÍTULO II. - 1.
O Céu e a Terra ficaram, pois, acabados assim com todos os seus
ornamentos. - 2. Deus terminou no sétimo dia toda a obra que
fizera e repousou nesse sétimo dia, após haver acabado todas as
suas obras. - 3. Abençoou o sétimo dia e o santificou, porque
cessara nesse dia de produzir todas as obras que criara. - 4.
Tal a origem do Céu e da Terra e é assim que eles foram criados
no dia que o Senhor fez um e outro. - 5. E que criou todas as
plantas dos campos antes que houvessem saído da terra e todas as
ervas das planícies antes que houvessem germinado. Porque, o
Senhor Deus ainda não tinha feito que chovesse sobre a terra e
não havia homem para lavrá-la. - 6. Mas da terra se elevava uma
fonte que lhe regava toda a superfície.
7. O Senhor Deus
formou, pois, o homem do limo da terra e lhe espalhou sobre o
rosto um sopro de vida, e o homem se tornou vivente e animado.
2. -
Depois das explanações contidas nos capítulos precedentes sobre
a origem e a constituição do Universo, conformemente aos dados
fornecidos pela Ciência, quanto à parte material, e pelo
Espiritismo, quanto à parte espiritual, convém ponhamos em
confronto com tudo isso o próprio texto da Gênese de Moisés, a
fim de que cada um faça a comparação e julgue com conhecimento
de causa. Algumas explicações complementares bastarão para
tornar compreensíveis as partes que precisam de esclarecimentos
especiais.
3. - Sobre alguns
pontos, há, sem dúvida, notável concordância entre a Gênese
moisaica e a doutrina científica; mas, fora erro acreditar que
basta se substituam os seis dias de 24 horas da criação por seis
períodos indeterminados, para se tornar completa a analogia. Não
menor erro seria o acreditar-se que, afora o sentido alegórico
de algumas palavras, a Gênese e a Ciência caminham lado a lado,
sendo uma, como se vê, simples paráfrase da outra.
4. - Notemos, em
primeiro lugar, que, como já se disse (cap. VII, nº 14), é
inteiramente arbitrário o número de seis períodos geológicos,
pois que se eleva a mais de vinte e cinco o das formações bem
caracterizadas, número que, ao demais, apenas determina as
grandes fases gerais. Ele só foi adotado, em começo, para
encaixar as coisas, o mais possível, no texto bíblico, numa
época, aliás pouco distante, em que se entendia que a Ciência
devia ser controlada pela Bíblia Essa a razão por que os autores
da maior parte das teorias cosmogônicas, tendo em vista
facilitar-lhe a aceitação, se esforçaram por pôr-se de acordo
com o texto sagrado. Logo que se apoiou no método experimental,
a Ciência sentiu-se mais forte e se emancipou. Hoje, é ela que
controla a Bíblia.
Doutro lado, a
Geologia, tomando por ponto de partida unicamente a
formação dos terrenos graníticos, não abrange, no cômputo de
seus períodos, o estado primitivo da Terra. Tampouco se ocupa
com o Sol, com a Lua e com as estrelas, nem com o conjunto do
Universo, assuntos esses que pertencem à Astronomia. Para
enquadrar tudo na Gênese, cumpre se acrescente um primeiro
período, que abarque essa ordem de fenômenos e ao qual se
poderia chamar - período astronômico.
Além disso, nem
todos os geólogos consideram o diluviano como formando um
período distinto, mas como um fato transitório e passageiro, que
não mudou sensivelmente o estado climático do globo, nem marcou
uma fase nova para as espécies vegetais e animais, pois que, com
poucas exceções, as mesmas espécies se encontram, assim antes,
como depois do dilúvio. Pode-se, pois, abstrair desse período,
sem menosprezo da verdade.
5. - O quadro
comparativo aqui abaixo, em o qual se acham resumidos os
fenômenos que caracterizam cada um dos seis períodos, permite se
considere o conjunto e se notem as relações e as diferenças que
existem entre os referidos períodos e a Gênese bíblica.
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CIÊNCIA
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GÊNESE |
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I. PERÍODO
ASTRONÔMICO - Aglomeração da matéria cósmica universal,
num ponto do espaço, em nebulosa que deu origem, pela
condensação da matéria em diversos pontos, às estrelas,
ao Sol, à Terra, à Lua e a todos os planetas.
Estado
primitivo, fluídico e incandescente da Terra. -
Atmosfera imensa carregada de toda a água em vapor e de
todas as matérias volatilizáveis. |
1º DIA
- O Céu e a Terra.
- A luz |
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II.
PERÍODO PRIMÁRIO. - Endurecimento da superfície da
Terra, pelo resfriamento; formação das camadas
graníticas. - Atmosfera espessa e ardente, impenetrável
aos raios solares. - Precipitação gradual da água e das
matérias sólidas volatilizadas no ar. - Ausência
completa de vida orgânica. |
2º DIA - O
Firmamento - Separação das águas que estão acima do
Firmamento das que lhe estão debaixo. |
|
III. -
PERÍODO DE TRANSIÇÃO. - As águas cobrem toda a
superfície do globo. - Primeiros depósitos de sedimentos
formados pelas águas. - Calor úmido. - O Sol começa a
atravessar a atmosfera brumosa. - Primeiros seres
organizados da mais rudimentar constituição. - Liquens,
musgos, fetos, licopódios, plantas herbáceas. Vegetação
colossal. - Primeiros animais marinhos: zoófítos,
polipeiros, crustáceos. - Depósitos de hulha. |
3º DIA -
As águas que estão debaixo do Firmamento se reúnem;
aparece o elemento árido. - A terra e os mares. - As
plantas. |
|
IV.
PERÍODO SECUNDÁRIO. - Superfície da Terra pouco
acidentada; águas pouco profundas e paludosas.
Temperatura menos ardente; atmosfera mais depurada.
Consideráveis depósitos de calcáreos pelas águas. -
Vegetação menos colossal; novas espécies; plantas
lenhosas; primeiras árvores. - Peixes; cetáceos; animais
aquáticos e anfíbios. |
4º DIA - O
Sol, a Lua e as estrelas. |
|
V. PERÍODO
TERCIÁRIO. - Grandes intumescimentos da crosta sólida;
formação dos continentes. Retirada das águas para os
lugares baixos; formação dos mares. - Atmosfera
depurada; temperatura atual produzida pelo calor solar.
- Gigantescos animais terrestres. Vegetais e animais da
atualidade. Pássaros. |
5º DIA -
Os peixes e os pássaros. |
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DILÚVIO
UNIVERSAL |
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VI.
PERÍODO QUATERNÁRIO OU PÓS- ILUVIANO. - Terrenos de
aluvião. - Vegetais e animais da atualidade. - O homem. |
6º DIA -
Os animais terrestres. - O homem. |
6. - Desse quadro comparativo, o primeiro fato que ressalta é
que a obra de cada um dos seis dias não corresponde de maneira
rigorosa, como o supõem muitos, a cada um dos seis períodos
geológicos. A concordância mais notável se verifica na sucessão
dos seres orgânicos, que é quase a mesma, com pequena diferença,
e no aparecimento do homem, por último. É esse um fato
importante.
Há também
coincidência, não quanto à ordem numérica dos períodos, mas
quanto ao fato em si, na passagem em que se lê que, ao terceiro
dia, «as águas que estão debaixo do céu se reuniram num só lugar
e apareceu o elemento árido». É a expressão do que ocorreu no
período terciário, quando as elevações da crosta sólida puseram
a descoberto os continentes e repeliram as águas, que foram
formar os mares. Foi somente então que apareceram os animais
terrestres, segundo a Geologia e segundo Moisés.
7. - Dizendo que a
criação foi feita em seis dias, terá Moisés querido falar de
dias de 24 horas, ou terá empregado essa palavra no sentido de
período, de duração? É mais provável a primeira hipótese, se nos
ativermos ao texto acima, primeiramente, porque esse é o sentido
próprio da palavra hebraica iôm, traduzida por dia. Depois, a
referência à tarde e à manhã, como limitações de cada um dos
seis dias, dá lugar a que se suponha haja ele querido falar de
dias comuns. Não se pode conceber qualquer dúvida a tal
respeito, estando dito, no versículo 5: «Ele deu à luz o nome de
dia e às trevas o nome de noite; e da tarde e da manhã se fez o
primeiro dia.» Isto, evidentemente, só se pode aplicar ao dia de
24 horas, constituído de períodos de luz e de trevas. Ainda mais
preciso se torna o sentido, quando ele diz, no versículo 17,
falando do Sol, da Lua e das estrelas: «Colocou-as no firmamento
do céu, para luzirem sobre a Terra; para presidirem ao dia e à
noite e para separarem a luz das trevas. E da tarde e da manhã
se fez o quarto dia.»
Aliás, tudo, na
criação, era miraculoso e, desde que se envereda pela senda dos
milagres, pode-se perfeitamente crer que a Terra foi feita em
seis vezes 24 horas, sobretudo quando se ignoram as primeiras
leis naturais. Todos os povos civilizados partilharam dessa
crença, até ao momento em que a Geologia surgiu a lhe demonstrar
a impossibilidade.
8. - Um dos pontos
que mais criticados têm sido na Gênese é o da criação do Sol
depois da luz. Tentaram explicá-lo, com o auxílio mesmo dos
dados fornecidos pela Geologia, dizendo que, nos primeiros
tempos de sua formação, por se achar carregada de vapores densos
e opacos, a atmosfera terrestre não permitia se visse o Sol que,
assim, efetivamente não existia para a Terra. Semelhante
explicação seria, porventura, admissível se, naquela época, já
houvesse na Terra habitantes que verificassem a presença ou a
ausência do Sol. Ora, segundo o próprio Moisés, então, somente
plantas havia, as quais, contudo, não teriam podido crescer e
multiplicar-se sem o calor solar.
Há, pois,
evidentemente, um anacronismo na ordem que Moisés estabeleceu
para a criação do Sol; mas, involuntariamente ou não, ele não
errou, dizendo que a luz precedeu o Sol.
O Sol não é o
princípio da luz universal; é uma concentração do elemento
luminoso em um ponto, ou, por outra, do fluido que, em dadas
circunstâncias, adquire as propriedades luminosas. Esse fluido,
que é a causa, havia necessariamente de preceder ao Sol, que é
apenas um efeito. O Sol é cassa, relativamente à luz que dele se
irradia; é efeito, com relação à que recebeu.
Numa câmara
escura, uma vela acesa é um pequeno sol. Que é que se fez para
acender a vela? Desenvolveu-se a propriedade iluminante do
fluido luminoso e concentrou-se num ponto esse fluído. A vela é
a causa da luz que se difunde pela câmara; mas, se não existira
o princípio luminoso antes da vela, esta não pudera ter sido
acesa.
O mesmo se dá com
o Sol. O erro provém da idéia falsa, alimentada por longo tempo,
de que o Universo inteiro começou com a Terra. Dai o não
compreenderem que o Sol pudesse ser criado depois da luz. Em
princípio, pois, a asserção de Moisés é perfeitamente exata: é
falsa no fazer crer que a Terra tenha sido criada antes do Sol.
Estando, pelo seu movimento de translação, sujeita a esse
último, a Terra houve de ser formada depois dele. É o que Moisés
não podia saber, pois que ignorava a lei de gravitação.
Com a mesma idéia
se depara na Gênese dos antigos persas. No primeiro capítulo do
Vendedad, Ormuz, narrando a origem do mundo, diz: «Eu criei a
luz que foi iluminar o Sol, a Lua e as estrelas.» (Dicionário de
Mitologia Universal.) A forma, aqui, é sem dúvida mais clara e
mais científica do que em Moisés e não reclama comentários.
9. - Moisés,
evidentemente, partilhava das mais primitivas crenças sobre a
cosmogonia. Como os do seu tempo, ele acreditava na solidez da
abóbada celeste e em reservatórios superiores para as águas.
Essa idéia se acha expressa sem alegoria, nem ambigüidade, neste
passo (versículos 6 e seguintes) : «Deus disse: Faça-se o
Firmamento no meio das águas para separar das águas as águas.
Deus fez o Firmamento e separou as águas que estavam debaixo do
Firmamento das que estavam por cima do Firmamento.»
(Veja-se: cap. V,
Antigos e modernos sistemas do mundo, nos. 3, 4 e 5)
Segundo uma crença
antiga, a água era tida como o princípio primitivo, o elemento
gerador, pelo que Moisés não fala da criação das águas,
parecendo que já elas existiam. «As trevas cobriam o abismo»,
isto é, as profundezas do espaço, que a imaginação
imprecisamente figurava ocupada pelas águas e em trevas, antes
da criação da luz. Eis aí por que Moisés diz: «O Espírito de
Deus era levado (ou boiava) sobre as águas.» Tida a Terra como
formada no meio das águas, era preciso insulá-la. Imaginou-se
então que Deus fizera o Firmamento, uma abóbada sólida, para
separar as águas de cima das que estavam sobre a Terra.
A fim de
compreendermos certas partes da Gênese, faz-se indispensável que
nos coloquemos no ponto de vista das idéias cosmogônicas da
época que ela reflete.
10. - Em face dos
progressos da Física e da Astronomia, é insustentável semelhante
doutrina
(1).
Entretanto, Moisés atribui ao próprio Deus aquelas palavras.
Ora, visto que elas exprimem um fato notoriamente falso, uma de
duas: ou Deus se enganou em a narrativa que fez da sua obra, ou
essa narrativa não é de origem divina. Não sendo admissível a
primeira hipótese, forçoso é concluir que Moisés apenas exprimiu
suas próprias idéias. (Cap. I, nº 3.)
(1) Embora
muito grosseiro o erro de tal crença, com ela ainda se embalam
presentemente as crianças, como se se tratara de uma verdade
sagrada. Só a tremer ousam os educadores aventurar-se a uma
tímida interpretação. Como quererem que isso não venha mais
tarde a fazer incrédulos?
11. - Ele se houve
com mais acerto, dizendo que Deus formou o homem do limo da
Terra
(2). A
Ciência, com efeito, mostra (cap. X) que o corpo do homem se
compõe de elementos tomados à matéria inorgânica, ou, por outra,
ao limo da terra.
A mulher formada
de uma costela de Adão é uma alegoria, aparentemente pueril, se
admitida ao pé da letra, mas profunda, quanto ao sentido. Tem
por fim mostrar que a mulher é da mesma natureza que o homem,
que é por conseguinte igual a este perante Deus e não uma
criatura à parte, feita para ser escravizada e tratada qual
hilota Tendo-a como saída da própria carne do homem, a imagem da
igualdade é bem mais expressiva, do que se ela fora tida como
formada, separadamente, do mesmo limo. Equivale a dizer ao homem
que ela é sua igual e não sua escrava, que ele a deve amar como
parte de si mesmo.
12. - Para
espíritos incultos, sem nenhuma idéia das leis gerais, incapazes
de apreender o conjunto e de conceber o infinito, essa criação
milagrosa e instantânea apresentava qualquer coisa de fantástico
que feria a imaginação. O quadro do Universo tirado do nada em
alguns dias, por um só ato da vontade criadora, era, para tais
espíritos, o sinal mais evidente do poder de Deus. Que
configuração, com efeito, mais sublime e mais poética desse
poder, do que a que estas palavras traçam: «Deus disse: Faça-se
a luz e a luz foi feita!» Deus, a criar o Universo pela ação
lenta e gradual das leis da Natureza, lhes houvera parecido
menor e menos poderoso. Fa-zia-se-lhes indispensável qualquer
coisa de maravilhoso, que saísse dos moldes comuns, do contrário
teriam dito que Deus não era mais hábil do que os homens. Uma
teoria científica e racional da criação os deixaria frios e
indiferentes.
(2) O
termo hebreu haadam, homem, do qual se compôs Adão e o termo
haadama, terra, têm a mesma raiz.
Não rejeitemos,
pois, a Gênese bíblica; ao contrário, estudemo-la, como se
estuda a história da infância dos povos. Trata-se de uma época
rica de alegorias, cujo sentido oculto se deve pesquisar; que se
devem comentar e
explicar com o auxílio das luzes da razão e da Ciência. Fazendo,
porém, ressaltar as suas belezas poéticas e os seus ensinamentos
velados pela forma imaginosa, cumpre se lhe apontem
expressamente os erros, no próprio interesse da religião. Esta
será muito mais respeitada, quando esses erros deixarem de ser
impostos à fé, como verdade, e Deus parecerá maior e mais
poderoso, quando não lhe envolverem o nome em fatos de pura
invenção.
Perda do
paraíso
(3)
13. -
CAPÍTULO II. - 9. Ora, o Senhor Deus plantara desde o começo um
jardim de delícias, no qual pôs o homem que ele formara. - O
Senhor Deus também fizera sair da terra toda espécie de árvores
belas ao olhar e cujo fruto era agradável ao paladar e, no meio
do paraíso
(4),
a árvore da vida, com a árvore da ciência do bem e do mal. (Ele
fez sair, Jeová Eloim, da terra (min haadama) toda árvore bela
de ver-se e boa para comer-se e a árvore da vida (vehetz
hachayim) no meio do jardim e a árvore da ciência do bem e do
mal.)
15. - O Senhor
tomou, pois, do homem e o colocou em o paraíso de delícias, a
fim de que o cultivasse e guardasse. - 16. Deu-lhe também esta
ordem e lhe disse: Come de todas as árvores do paraíso. (Ele
ordenou, Jeová Eloim, ao homem (hal haadam) dizendo: De toda
árvore do jardim podes comer.) - 17. Mas, não comas
absolutamente o fruto da árvore da ciência do bem e do mal;
porquanto, logo que o comeres, morrerás com toda a certeza. (E
da árvore do bem e do mal (oumehetz hadaat tob vara) não
comerás, pois que no dia em que dela comeres morrerás.)
(3) Em
seguida a alguns versículos se acha a tradução literal do texto
hebreu, exprimindo mais fielmente o pensamento primitivo. O
sentido alegórico ressalta assim mais claramente.
(4) "Paraíso",
do latim paradisus, derivado do grego: paradeisos, jardim,
vergel, lugar plantado de árvores. O termo hebreu empregado na
Gênese é hagan, que tem a mesma significação.
14. -
CAPÍTULO III. - 1. Ora, a serpente era o mais fino de todos os
animais que o Senhor Deus formara na Terra. E ela disse à
mulher: Por que vos ordenou Deus que não comêsseis os frutos de
todas as árvores do paraíso? (E a serpente (nâhâsch) era mais
astuto do que todos os animais terrestres que Jeová Eloim havia
feito; ela disse à mulher (el haïscha): Terá dito Eloim: Não
comereis de nenhuma árvore do jardim?) - 2. A mulher respondeu:
Comemos dos frutos de todas as árvores que estão no paraíso.
(Disse ela, a mulher, à serpente, do fruto (miperi) das árvores
do jardim podemos comer.) - 3. Mas, quanto ao fruto da árvore
que está no meio do paraíso, Deus nos ordenou que não comêssemos
dele e que não lhe tocássemos, para que não corramos o perigo de
morrer. - 4. A serpente replicou à mulher: Certamente não
morrereis. - Mas, é que Deus sabe que, assim houverdes comido
desse fruto, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses,
conhecendo o bem e o mal.
6. A mulher
considerou então que o fruto daquela árvore era bom de comer;
que era belo e agradável à vista. E, tomando dele, o comeu e o
deu a seu marido, que também comeu. (Ela viu, a mulher, que ela
era boa, a árvore como alimento, e que era desejável a árvore
para compreender (léaskil), e tomou de seu fruto, etc.)
8. E como ouvissem
a voz do Senhor Deus, que passeava à tarde pelo jardim, quando
sopra um vento brando, eles se retiraram para o meio das árvores
do paraíso, a fim de se ocultarem de diante da sua face.
9. Então o Senhor
Deus chamou Adão e lhe disse: Onde estás? - 10. Adão lhe
respondeu: Ouvi a tua vos no paraíso e tive medo, porque estava
nu, essa a razão por que me escondi. - 11. O Senhor lhe
retrucou: E como soubeste que estavas nu, senão porque comeste o
fruto da árvore da qual eu vos proibi que comêsseis? - 12. Adão
lhe respondeu: A mulher que me deste por companheira me
apresentou o fruto dessa árvore e eu dele comi. - 13. O Senhor
Deus disse à mulher: Por que fizeste isso? Ela respondeu: A
serpente me enganou e eu comi desse fruto.
14. Então, o
Senhor Deus disse à serpente: Por teres feito isso, serás
maldita entre todos os animais e todas as bestas da terra;
rojar-te-ás sobre o ventre e comerás a terra por todos os dias
de tua vida. - 15. Porei uma inimizade entre ti e a mulher,
entre a sua raça e a tua. Ela te esmagará a cabeça e tu tentarás
morder-lhe o calcanhar.
16. Deus disse
também à mulher: Afiigir-te-ei com muitos males durante a tua
gravidez; parirás com dor; estarás sob a dominação de teu marido
e ele te dominará. 17. Disse em seguida a Adão: Por haveres
escutado a voz de tua mulher e haveres comido do fruto da árvore
de que te proibi que comesses, a terra te será maldita por causa
do que fizeste e só com muito trabalho tirarás dela com que te
alimentes, durante toda a tua vida. - 18. Ela te produzirá
espinhos e sarças e te alimentarás com a erva da terra. - 19. E
comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à
terra donde foste tirado, porque és pó e em pó te tornarás.
20. E Adão deu à
sua mulher o nome de Eva, que significa a vida, porque ela era a
mãe de todos os viventes.
21. O Senhor Deus
também fez para Adão e sua mulher vestiduras de peles com que os
cobriu. - 22. E disse: Eis aí Adão feito um de nós, sabendo o
bem e o mal.
Impeçamos, pois,
agora, que ele deite a mão à árvore da vida, que também tome do
seu fruto e que, comendo desse fruto, viva eternamente. (Ele
disse, Jeová Eloim: Eis aí, o homem foi como um de nós para o
conhecimento do bem e do mal; agora ele pode estender a mão e
tomar da árvore da vida (veata pen ischlachyado velakach mehetz
hachayim); comerá dela e viverá eternamente.)
23. O Senhor Deus
o fez sair do jardim de delicias, a fim de que fosse trabalhar
no cultivo da terra donde ele fora tirado. - 24. E, tendo-o
expulsado, colocou querubins
(5)
diante do jardim de delícias, os quais faziam luzir uma espada
de fogo, para guardarem o caminho que levava à árvore da vida.
15. - Sob uma
imagem pueril e às vezes ridícula, se nos ativermos à forma, a
alegoria oculta freqüentemente as maiores verdades. Haverá
fábula mais absurda, à primeira vista, do que a de Saturno, o
deus que devorava pedras, tomando-as por seus filhos? Todavia,
que de mais profundamente filosófico e verdadeiro do que essa
figura, se lhe procuramos o sentido moral!
Saturno é a
personificação do tempo; sendo todas as coisas obra do tempo,
ele é o pai de tudo o que existe; mas, também, tudo se destrói
com o tempo.
Saturno a devorar
pedras é o símbolo da destruição, pelo tempo, dos mais duros
corpos, seus filhos, visto que se formaram com o tempo. E quem,
segundo essa mesma alegoria, escapa a semelhante destruição?
Somente Júpiter, símbolo da inteligência superior, do princípio
espiritual, que é indestrutível. É mesmo tão natural essa
imagem, que, na linguagem moderna, sem alusão à Fábula antiga,
se diz, de uma coisa que afinal se deteriorou, ter sido devorada
pelo tempo, carcomida, devastada pelo tempo.
Toda a mitologia
pagã, aliás, nada mais é, em realidade, do que um vasto quadro
alegórico das diversas faces, boas e más, da Humanidade. Para
quem lhe busca o espírito, é um curso completo da mais alta
filosofia, como acontece com as modernas fábulas. O absurdo
estava em tomarem a forma pelo fundo.
16. - Outro tanto
se dá com a Gênese, onde se tem que perceber grandes verdades
morais debaixo das figuras materiais que, tomadas ao pé da
letra, seriam tão absurdas como se, em nossas fábulas,
tomássemos em sentido literal as cenas e os diálogos atribuídos
aos animais.
(5) Do
hebreu cherub, keroub, boi, charab, lavrar; anjos do segundo
coro da primeira hierarquia, que eram representados com quatro
asas, quatro faces e pés de boi.
Adão personifica a
Humanidade; sua falta individualiza a fraqueza do homem, em quem
predominam os instintos materiais a que ele não sabe resistir.
(6)
A árvore, como
árvore de vida, é o emblema da vida espiritual; como árvore da
Ciência, é o da consciência, que o homem adquire, do bem e do
mal, pelo desenvolvimento da sua inteligência e do
livre-arbítrio, em virtude do qual ele escolhe entre um e outro.
Assinala o ponto em que a alma do homem, deixando de ser guiada
unicamente pelos instintos, toma posse da sua liberdade e
incorre na responsabilidade dos seus atos.
O fruto da árvore
simboliza o objeto dos desejos materiais do homem; é a alegoria
da cobiça e da concupiscência; concretiza, numa figura única, os
motivos de arrastamento ao mal. O comer é sucumbir à tentação. A
árvore se ergue no meio do jardim de delícias, para mostrar que
a sedução está no seio mesmo dos prazeres e para lembrar que, se
dá preponderância aos gozos materiais, o homem se prende à Terra
e se afasta do seu destino espiritual.
(7)
A morte de que ele
é ameaçado, caso infrinja a proibição que se lhe faz, é um aviso
das conseqüências inevitáveis, físicas e morais, decorrentes da
violação das leis divinas que Deus lhe gravou na consciência. É
por demais evidente que aqui não se trata da morte corporal,
pois que, depois de cometida a falta, Adão ainda viveu longo
tempo, mas, sim, da morte espiritual, ou, por outras palavras,
da perda dos bens que resultam do adiantamento moral, perda
figurada pela sua expulsão do jardim de delícias.
(6) Está
hoje perfeitamente reconhecido que a palavra hebréia haadam não
é um nome próprio, mas significa: o homem em geral, a
Humanidade, o que destrói toda a estrutura levantada sobre a
personalidade de Adão.
(7) Em nenhum
texto o fruto é especializado na maçã, palavra que só se
encontra nas versões infantis. O termo do texto hebreu é peri,
que tem as mesmas acepções que em francês, sem determinação de
espécie e pode ser tomado em sentido material, moral, alegórico,
em sentido próprio e figurado. Para os Israelitas, não há
interpretação obrigatória; quando uma palavra tem muitas
acepções, cada um a entende como quer, contanto que a
interpretação não seja contraria à gramática. O termo peri foi
traduzido em latim por malum, que se aplica tanto à maçã, como a
qualquer espécie de frutos. Deriva do grego melon, particípio do
verbo melo, interessar, cuidar, atrair.
17. - A serpente
está longe hoje de ser tida como tipo da astúcia. Ela, pois,
entra aqui mais pela sua forma do que pelo seu caráter, como
alusão à perfídia dos maus conselhos, que se insinuam como a
serpente e da qual, por essa razão, o homem, muitas vezes, não
desconfia. Ao demais, se a serpente, por haver enganado a
mulher, é que foi condenada a andar de rojo sobre o ventre,
dever-se-á deduzir que antes esse animal tinha pernas; mas,
neste caso, não era serpente. Por que, então, se há de impor à
fé ingênua e crédula das crianças, como verdades, tão evidentes
alegorias, com o que, falseando-se-lhes o juízo, se faz que mais
tarde venham a considerar a Bíblia um tecido de fábulas
absurdas?
Deve-se, além
disso, notar que o termo hebreu nâhâsch, traduzido por serpente,
vem da raiz nâhâsch, que significa: fazer encantamentos,
adivinhar as coisas ocultas, podendo, pois, significar:
encantador, adivinho. Com esta acepção, ele é encontrado na
própria Gênese, cap. XLIV, vv. 5 e 15, a propósito da taça que
José mandou esconder no saco de Benjamim: «A taça que roubaste é
a em que meu Senhor bebe e de que se serve para adivinhar
(nâhâsch)
(8).
- Ignoras que não há quem me iguale na ciência de adivinhar (nâhâsch)?»
- No livro Números, cap. XXIII, v. 23: «Não há encantamentos
(nâhâsch) em Jacob, nem adivinhos em Israel.» Daí o haver a
palavra nâhâsch tomado também a significação de serpente, réptil
que os encantadores tinham a pretensão de encantar, ou de que se
serviam em seus encantamentos.
(8) Deste fato se poderá inferir que os egípcios conheciam a
mediunidade pelo copo dágua? (Revue Spirite, de junho do 1868,
pág. 161.)
A palavra nâhâsch
só foi traduzida por serpente na versão dos Setenta - os quais,
segundo Hutcheson, corromperam o texto hebreu em muitos lugares
- versão essa escrita em grego no segundo século da era cristã.
As suas inexatidões resultaram, sem dúvida, das modificações que
a língua hebraica sofrera no intervalo transcorrido, porquanto o
hebreu do tempo de Moisés era uma língua morta, que diferia do
hebreu vulgar, tanto quanto o grego antigo e o árabe literário
diferem do grego e do árabe modernos.
(9)
É, pois, provável
que Moisés tenha apresentado como sedutor da mulher o desejo de
conhecer as coisas ocultas, suscitado pelo Espírito de
adivinhação, o que concorda com o sentido primitivo da palavra
nâhâsch, adivinhar, e, por outro lado, com estas palavras: «Deus
sabe que, logo que houverdes comido desse fruto, vossos olhos se
abrirão e sereis como deuses. - Ela, a mulher, viu que era
cobiçável a árvore para compreender (léaskil) e tomou do seu
fruto.»
Não se deve
esquecer que Moisés queria proscrever de entre os hebreus a arte
da adivinhação praticada pelos egípcios, como o prova o haver
proibido que aqueles interrogassem os mortos e o Espírito Píton.
(O Céu e o Inferno segundo o Espiritismo, cap. XII.)
18. - A passagem
que diz: «O Senhor passeava pelo jardim à tarde, quando se
levanta vento brando», é uma imagem ingênua e um tanto pueril,
que a crítica não deixou de assinalar; mas, nada tem que
surpreenda, se nos reportamos à idéia que os hebreus dos tempos
primitivos faziam de Deus. Para aquelas inteligências frustas,
incapazes de conceber abstrações, Deus havia de ter uma forma
concreta e eles tudo referiam à Humanidade, como único ponto que
conheciam. Moisés, por isso, lhes falava como a crianças, por
meio de imagens sensíveis.
(9) O termo
nâhâsch existia na língua egípcia, com a significação de negro,
provavelmente porque os negros tinham o dom dos encantamentos e
da adivinhação. Talvez também por isso é que as esfinges, de
origem assíria, eram representadas por uma figura de negro.
No caso de que se
trata, tem-se personificada a Potência soberana, como os pagãos
personificavam, em figuras alegóricas, as virtudes, os vícios e
as idéias abstratas. Mais tarde, os homens despojaram da forma a
idéia, do mesmo modo que a criança, tornada adulta, procura o
sentido moral dos contos com que a acalentaram. Deve-se,
portanto, considerar essa passagem como uma alegoria, figurando
a Divindade a vigiar em pessoa os objetos da sua criação. O
grande rabino Wogue a traduziu assim: «Eles ouviram a voz do
Eterno Deus, percorrendo o jardim, do lado donde vem o dia.»
19. - Se a falta
de Adão consistiu literalmente em ter comido um fruto, ela não
poderia, incontestavelmente, pela sua natureza quase pueril,
justificar o rigor com que foi punida. Não se poderia tampouco
admitir, racionalmente, que o fato seja qual geralmente o
supõem; se o fosse. teríamos Deus, considerando-o irremissível
crime, a condenar a sua própria obra, pois que ele criara o
homem para a propagação. Se Adão houvesse entendido assim a
proibição de tocar no fruto da árvore e com ela se houvesse
conformado escrupulosamente, onde estaria a Humanidade e que
teria sido feito dos desígnios do Criador?
Deus não criara
Adão e Eva para ficarem sós na Terra; a prova disso está nas
próprias palavras que lhes dirige logo depois de os ter formado,
quando eles ainda estavam no paraíso terrestre: «Deus os
abençoou e lhes disse: Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra
e submetei-a ao vosso domínio.»
(Gênese, cap. 1,
v. 28.) Uma vez que a multiplicação era lei já no paraíso
terrenal, a expulsão deles dali não pode ter tido como causa o
fato suposto.
O que deu crédito
a essa suposição foi o sentimento de vergonha que Adão e Eva
manifestaram ante o olhar de Deus e que os levou a se ocultarem.
Mas, essa própria
vergonha é uma figura por comparação: simboliza a confusão que.
todo culpado experimenta em presença de quem foi por ele
ofendido.
20. - Qual, então,
em definitiva, a falta tão grande que mereceu acarretar a
reprovação perpétua de todos os descendentes daquele que a
cometeu? Caim, o fratricida, não foi tratado tão severamente.
Nenhum teólogo a pode definir logicamente, porque todos,
apegados à letra, giraram dentro de um circulo vicioso.
Sabemos hoje que
essa falta não é um ato isolado, pessoal, de um indivíduo, mas
que compreende, sob um único fato alegórico, o conjunto das
prevaricações de que a Humanidade da Terra, ainda imperfeita,
pode tornar-se culpada e que se resumem nisto: infração da lei
de Deus. Eis por que a falta do primeiro homem, simbolizando
este a Humanidade, tem por símbolo um ato de desobediência.
21. - Dizendo a
Adão que ele tiraria da terra a alimentação com o suor de seu
rosto, Deus simboliza a obrigação do trabalho; mas, por que fez
do trabalho uma punição? Que seria da inteligência do homem, se
ele não a desenvolvesse pelo trabalho? Que seria da Terra, se
não fosse fecundada, transformada, saneada pelo trabalho
inteligente do homem?
Lá está dito
(Gênese, cap. II, vv. 5 e 7): «O Senhor Deus ainda não havia
feito chover sobre a Terra e não havia nela homens que a
cultivassem. O Senhor formou então, do limo da terra, o homem.»
Essas palavras, aproximadas destas outras: Enchei a Terra,
provam que o homem, desde a sua origem, estava destinado a
ocupar toda a Terra e a cultivá-la, assim como, ao demais, que o
paraíso não era um lugar circunscrito, a um canto do globo. Se a
cultura da terra houvesse de ser uma conseqüência da falta de
Adão, seguir-se-ia que, se Adão não tivesse pecado, a Terra
permaneceria inculta e os desígnios de Deus não se teriam
cumprido.
Por que disse ele
à mulher que, em conseqüência de haver cometido a falta, pariria
com dor? Como pode a dor do parto ser um castigo, quando é um
efeito do organismo e quando está provado, fisiologicamente que
é uma
necessidade? Como pode ser punição uma coisa que se produz
segundo as leis da Natureza? É o que os teólogos absolutamente
ainda não explicaram e que não poderão explicar, enquanto não
abandonarem o ponto de vista em que se colocaram. Entretanto,
podem justificar-se aquelas palavras que parecem tão
contraditórias.
22. - Notemos,
antes de tudo, que se, no momento de serem criados os dois, as
almas de Adão e Eva tivessem vindo do nada, como ainda se
ensina, eles haviam de ser bisonhos em todas as coisas; haviam,
pois, de ignorar o que é morrer. Estando sós na Terra, como
estavam, enquanto viveram no paraíso,
não tinham
assistido à morte de ninguém. Como, então, teriam podido
compreender em que consistia a ameaça de morte que Deus lhes
fazia? Como teria Eva podido compreender que parir com dor seria
uma punição, visto que, tendo acabado de nascer para a vida, ela
jamais tivera filhos e era a única mulher existente no mundo?
Nenhum sentido,
portanto, deviam ter, para Adão e Eva, as palavras de Deus. Mal
surgidos do nada, eles não podiam saber como nem por que haviam
surgido dali; não podiam compreender nem o Criador nem o motivo
da proibição que lhes era feita. Sem nenhuma experiência das
condições da vida, pecaram como crianças que agem sem
discernimento, o que ainda mais incompreensível torna a terrível
responsabilidade que Deus fez pesar sobre eles e sobre a
Humanidade inteira.
23. - Entretanto,
o que constitui para a Teologia um beco sem saída, o Espiritismo
o explica sem dificuldade e de maneira racional, pela
anterioridade da alma e pela pluralidade das existências, lei
sem a qual tudo é mistério e anomalia na vida do homem. Com
efeito, admitamos que Adão e Eva já tivessem vivido e tudo logo
se justifica: Deus não lhes fala como a crianças, mas como a
seres em estado de o compreenderem e que o compreendem, prova
evidente de que ambos trazem aquisições anteriormente
realizadas. Admitamos, ao demais, que hajam vivido em um mundo
mais adiantado e menos material do que o nosso, onde o trabalho
do Espírito substituía o do corpo; que, por se haverem rebelado
contra a lei de Deus, figurada na desobediência, tenham sido
afastados de lá e exilados, por punição, para a Terra, onde o
homem, pela natureza do globo, é constrangido a um trabalho
corporal e reconheceremos que a Deus assistia razão para lhes
dizer: «No mundo onde, daqui em diante, ides viver, cultivareis
a terra e dela tirareis o alimento, com o suor da vossa fronte»;
e, à mulher: «Parirás com dor», porque tal é a condição desse
mundo. (Cap. XI, nos 31 e seguintes.)
O paraíso
terrestre, cujos vestígios têm sido inutilmente procurados na
Terra, era, por conseguinte, a figura do mundo ditoso, onde
vivera Adão, ou, antes, a raça dos Espíritos que ele
personifica. A expulsa o do paraíso marca o momento em que esses
Espíritos vieram encarnar entre os habitantes do mundo terráqueo
e a mudança de situação foi a conseqüência da expulsão. O anjo
que, empunhando uma espada flamejante, veda a entrada do paraíso
simboliza a impossibilidade em que se acham os Espíritos dos
mundos inferiores, de penetrar nos mundos superiores, antes que
o mereçam pela sua depuração. (Veja-se, adiante, o cap. XIV, nos
8 e seguintes.)
24. - Caim, depois
do assassínio de Abel, responde ao Senhor: A minha iniqüidade é
extremamente grande, para que me possa ser perdoada. - Vós me
expulsais hoje de cima da Terra e eu me irei ocultar da vossa
face. Irei fugitivo e vagabundo pela Terra e qualquer um então
que me encontre matar-me-á. - O Senhor lhe respondeu: "Não, isto
não se dará, porquanto severamente punido será quem matar Caim."
E o Senhor pôs um sinal sobre Caim, a fim de que não o matassem
os que viessem a encontrá-lo.
Tendo-se retirado
de diante do Senhor, Caim ficou vagabundo pela Terra e habitou a
região oriental do Éden. - Havendo conhecido sua mulher, ela
concebeu e pariu Henoch. Ele construiu (vaïehi bôné;
literalmente: estava construindo) uma cidade a que chamou Henoch
(Enoquia) do nome de seu filho. (Gênese, cap. IV, vv. 13 a 16.)
25. - Se nos
apegarmos à letra da Gênese, eis as conseqüências a que
chegaremos: Adão e Eva estavam sós no mundo, depois de expulsos
do paraíso terrestre; só posteriormente tiveram os dois filhos
Caim e Abel. Ora, tendo-se Caim retirado para outra região
depois de haver assassinado o irmão, não tornou a ver seus pais,
que de novo ficaram isolados. Só muito mais tarde, na idade de
cento e trinta anos, foi que Adão teve um terceiro filho, que se
chamou Seth, depois de cujo nascimento, ele ainda viveu, segundo
a genealogia bíblica, oitocentos anos, e teve mais filhos e
filhas.
Quando, pois, Caim
foi estabelecer-se a leste do Éden, somente havia na Terra três
pessoas: seu pai e sua mãe, e ele, sozinho, de seu lado.
Entretanto, Caim teve mulher e um filho. Que mulher podia ser
essa e onde pudera ele desposá-la? O texto hebreu diz: Ele
estava construindo cidade e não: ele construiu, o que indica
ação presente e não ulterior. Mas, uma cidade pressupõe a
existência de habitantes, visto não ser de presumir que Caim a
fizesse para si, sua mulher e seu filho, nem que a pudesse
edificar sozinho.
Dessa própria
narrativa, portanto, se tem de inferir que a região era povoada.
Ora, não podia sê-lo pelos descendentes de Adão, que então se
reduziam a um só: Caim.
Aliás, a presença
de outros habitantes ressalta igualmente destas palavras de Caim:
«Serei fugitivo e vagabundo e quem quer que me encontre
matar-me-á», e da resposta que Deus lhe deu. Quem poderia ele
temer que o matasse e que utilidade teria o sinal que Deus lhe
pôs para preservá-lo de ser morto, uma vez que ele a ninguém
iria encontrar? Ora, se havia na Terra outros homens afora a
família de Adão, é que esses homens aí estavam antes dele, donde
se deduz esta conseqüência, tirada do texto mesmo da Gênese:
Adão não é nem o primeiro, nem o único pai do gênero humano.
(Cap. XI, nº 34.)
(10)
26. - Eram
necessários os conhecimentos que o Espiritismo ministrou acerca
das relações do princípio espiritual com o princípio material,
acerca da natureza da alma, da sua criação em estado de
simplicidade e de ignorância, da sua união com o corpo, da sua
indefinida marcha progressiva através de sucessivas existências
e através dos mundos, que São outros tantos degraus da senda do
aperfeiçoamento, acerca da sua gradual libertação da influência
da matéria, mediante o uso do livre-arbítrio, da causa dos seus
pendores bons ou maus e de suas aptidões, do fenômeno do
nascimento e da morte, da situação do Espírito na erraticidade
e, finalmente, do futuro como prêmio de seus esforços por se
melhorar e da sua perseverança no bem, para que se fizesse luz
sobre todas as partes da Gênese espiritual.
Graças a essa luz,
o homem sabe doravante donde vem, para onde vai, por que está na
Terra e por que sofre. Sabe que tem nas mãos o seu futuro e que
a duração do seu cativeiro neste mundo unicamente dele depende.
Despida da
alegoria acanhada e mesquinha, a Gênese se lhe apresenta grande
e digna da majestade, da bondade e da justiça do Criador.
Considerada desse ponto de vista, ela confundirá a incredulidade
e triunfará.
(10) Não é nova
esta idéia. La Peyrère, sábio teólogo do século dezessete, em
seu livro Preadamitas, escrito em latim epublicado em 1655,
extraiu do texto original da Bíblia, adulterado pelas traduções,
a prova evidente de que a Terra era habitada antes da vinda de
Adão e essa opinião é hoje a de muitos eclesiásticos
esclarecidos.
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