O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Manifestações Visuais

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
Obras Póstumas

DOUTRINA

     

Pela sua natureza, e em seu estado normal, o perispírito é invisível, e tem isso em comum com uma multidão de fluidos que sabemos existir, e que, entretanto, jamais vimos; mas ele pode também, do mesmo modo que certos fluidos, sofrer modificações que o tornam perceptível à visão, seja por uma espécie de condensação, seja por uma mudança na disposição molecular; pode mesmo adquirir as propriedades de um corpo sólido e tangível, mas pode instantaneamente retomar seu estado etéreo e invisível.  Pode-se dar conta desse efeito pelo do vapor que pode passar da invisibilidade ao estado brumoso, depois liquido, depois sólido, e vice-versa.

Esses diferentes estados do perispírito são o resultado da vontade do Espírito, e não de uma causa física exterior, como o gás.  Quando um Espírito aparece, é que ele coloca o seu perispírito no estado necessário para torná-lo visível.  Mas a sua vontade nem sempre basta: é necessário, para que essa modificação do perispírito possa se operar, um concurso de circunstâncias independentes dele; é necessário, por outro lado, que o Espírito tenha a permissão de se fazer ver por tal pessoa, o que nem sempre lhe é concedido, ou não o é senão em certas circunstâncias, por motivos que não podemos apreciar. (Ver “O Livro dos Médiuns”)

Uma outra propriedade do perispírito e que se prende à sua natureza etérea, é a penetrabilidade.  Nenhuma matéria lhe é obstáculo; ele as atravessa todas, como a luz atravessa os corpos transparentes.  É por isso que não há clausura que possa se opor à entrada dos Espíritos; eles vão visitar o prisioneiro em seu cárcere tão facilmente quanto o homem que está no meio dos campos.

As manifestações visuais mais comuns ocorrem no sono, pelos sonhos: são as visões.  As aparições propriamente ditas ocorrem no estado de vigília, e é  então que se goza da plenitude e da inteira liberdade de suas faculdades.  Elas se apresentam, geralmente,  sob uma forma vaporosa e diáfana, algumas vezes vagas e indecisas: freqüentemente, à primeira vista, de um clarão esbranquiçado, cujos contornos se desenham pouco a pouco.  De outras vezes, as formas são nitidamente acentuadas e se lhe distinguem os menores traços do rosto, a ponto de se poder fazer uma descrição muito precisa.  Os passos, o aspecto, são semelhantes ao que era o Espírito quando vivo.

Podendo tomar todas as aparências, o Espírito se apresenta sob aquela que pode melhor fazê-lo reconhecer, e se tal é o seu desejo.  Também, se bem que, como Espírito, ele não tenha nenhuma enfermidade corpórea, se mostrará estropiado, coxo, ferido, com cicatrizes, se isso for necessário para constatar a sua identidade.  Ocorre o mesmo com a roupa; a dos Espíritos, que nada conservaram das quedas terrestres, se compõe, o mais ordinariamente, de uma roupagem de longos franzidos flutuantes, com uma cabeleira ondulante e graciosa.

Freqüentemente, os Espíritos se apresentam com os atributos característicos de sua elevação, como uma auréola, asas para aqueles que se podem considerar como anjos, um aspecto luminoso resplandecente, ao passo que outros têm aqueles que lembram as suas ocupações terrestres; assim, um guerreiro poderá aparecer com a sua armadura, um sábio com os livros, um assassino com um punhal, etc.  Os Espíritos superiores têm um rosto belo, nobre e sereno; os mais inferiores têm alguma coisa de feroz e de bestial, e alguns trazem ainda as marcas de crimes que cometeram, ou suplícios que suportaram; para eles, essa aparência é uma realidade; quer dizer que se crêem ser tal como parecem; é para eles um castigo.

O Espírito que quer ou pode aparecer, algumas vezes, reveste uma forma mais limpa ainda, tendo todas as aparências de um corpo sólido, a ponto de produzir uma ilusão completa, e de fazer crer que se está diante de um ser corpóreo.

Em alguns casos, e sob o império de certas circunstâncias, a tangibilidade pode se tornar real, quer dizer, que se pode tocar, apalpar, sentir a mesma resistência, o mesmo calor que da parte de um corpo vivo, o que não impede de se desvanecer com a rapidez do raio.  Poder-se-ia, pois, estar em presença de um Espírito, com quem se trocariam as palavras e os atos da vida, crendo ter relações com um simples mortal e sem desconfiar que era um Espírito.

Qualquer que seja o aspecto sob o qual um Espírito se apresente, mesmo sob a forma tangível, ele pode, no mesmo instante, não ser visível senão somente para alguns; numa assembléia poderia, pois, não se mostrar senão a um ou vários membros; de duas pessoas, colocadas uma ao lado da outra, uma pode vê-lo e tocá-lo, a outra nada vê e nada sente.

O fenômeno da aparição a uma única pessoa, entre várias que se acham juntas, se explica pela necessidade, para que se produza, de uma combinação entre o fluido perispiritual do Espírito e o da pessoa; é necessário, para isso, que haja entre esses fluidos uma espécie de afinidade que favoreça a combinação; se o Espírito não encontra a aptidão orgânica necessária, o fenômeno da aparição não pode se reproduzir; se a aptidão existe, o Espírito está livre para aproveitá-la ou não; de onde resulta que, se duas pessoas igualmente dotadas sob esse aspecto, se encontrem juntas, o Espírito pode operar a combinação fluídica com aquela das duas, a quem quer se mostrar; não o fazendo com a outra, esta não o verá.  Assim, ocorreria com dois indivíduos, cada um tendo um véu sobre os olhos, se um terceiro indivíduo quer se mostrar a um dos dois somente, ele não levantará senão um véu; mas àquele que fosse cego, seria em vão que levantaria o véu, a faculdade de ver não lhe seria dada por isso.

As aparições tangíveis são muito raras, mas as aparições vaporosas são freqüentes; elas o são sobretudo no momento da morte; o Espírito desligado parece apressar-se em ir rever os seus parentes e seus amigos, como para adverti-los que vem de deixar a Terra, e dizer-lhes que ele vive sempre.  Que cada um recolha as suas lembranças, e ver-se-á quantos fatos autênticos desse gênero, dos quais não se dava conta, ocorreram não só à noite, mas em pleno dia e no mais completo estado de vigília.