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A existência de Deus é, pois, uma realidade comprovada não só
pela revelação, como pela evidência material dos fatos. Os povos
selvagens nenhuma revelação tiveram; entretanto, crêem
instintivamente na existência de um poder sobre-humano. Eles
vêem coisas que estão acima das possibilidades do homem e
deduzem que essas coisas provêm de um ente superior à
Humanidade. Não demonstram raciocinar com mais lógica do que os
que pretendem que tais coisas se fizessem a si mesmas?
A Gênese – Capítulo II, item 7.
Deus
Conceito – Toda e
qualquer tentativa para elucidar a magna questão da Divindade
redunda sempre inócua, senão infrutífera, traduzindo esse desejo
a vã presunção humana, na incessante faina de tudo definir e
entender.
Acostumado ao
imediatismo da vida física e suas manifestações, o homem
ambiciona tudo submeter ao capricho da sua lógica débil, para
reduzir à sua ínfima capacidade intelectual a estrutura causal
do Universo, bem assim as fontes originárias do Criador.
Desde tempos
imemoriais, a interpretação da Divindade tem recebido os mais
preciosos investimentos intelectivos que se possam imaginar.
Originariamente confundido com a Sua Obra, mereceu temido pelos
povos primitivos que legaram às Culturas posteriores a
sedimentação supersticiosa das crendices em que fundamentavam o
seu tributo de adoração, transitando mais tarde para a
humanização da Divindade mesma, eivada pelos sentimentos e
paixões transferidos da própria mesquinhez do homem.
À medida, porém,
que os conceitos éticos e filosóficos evoluíram, a compreensão
da Sua natureza igualmente experimentou consideráveis
alterações. Desde a manifestação feroz à dimensão
transcendental, o conceito do Ser Supremo recebeu de pensadores
e escolas de pensamento as mais diversas proposições,
justificando ou negando-lhe a realidade.
Insuficientes
todos os arremedos filosóficos e culturais, quanto científicos,
posteriormente, para uma perfeita elucidação do tema,
concluiu-se pela legitimidade da Sua existência, graças a quatro
grupos de considerações, capazes de demonstrá-Lo de forma
irretorquível e definitiva, a saber: a) cosmológicas, que O
explicam como a Causa Única da sua própria causalidade, portanto
real, sendo necessariamente possuidor das condições essenciais
para preexistir antes da Criação e sobreexistir ao sem-fim dos
tempos e do Universo; b) ontológicas, que O apresentam perfeito
em todos os Seus atributos e na própria essência, explicando,
por isso mesmo, a Sua existência, que, não sendo real, não
justificaria sequer a hipótese do conceito, deixando, então, de
ser perfeito. Procedem tais argumentações desde Santo Anselmo,
dos primeiros a formulá-las, enquanto que as de ordem
cosmológica foram aplicadas inicialmente por Aristóteles, que O
considerava o “Primeiro motor, o motor não movido, o Ato puro”,
consideração posteriormente reformulada por Santo Tomás de
Aquino, que nela fundamentou a quase totalidade da Teologia
Católica; c) teleológicas, mediante as quais o pensamento
humano, penetrando na estrutura e ordem do Universo, não
encontra outra resposta além daquela que procede da existência
de um Criador. Ante a harmonia cósmica e a beleza, quanto à
grandeza matemática e estrutural das galáxias e da vida, uma
resultante única surge: tal efeito procede de uma Causa perfeita
e harmônica, sábia e infinita; d) morais, defendidas por
Emmanuel Kant, inimigo acérrimo das demais, que, no entanto,
eram apoiadas por Spinoza, Bossuet, Descartes e outros gênios da
fé e da razão. Deus está presente no homem, mediante a sua
responsabilidade moral e a sua própria liberdade, que lhe
conferem títulos positivos e negativos, conforme o uso que delas
faça, do que decorrem as linhas mestras do dever e da
autoridade. Essa presença na inteligência humana, intuitiva,
persistente, universal, faz que todos os homens de
responsabilidade moral sejam conscientemente responsáveis,
atestando, assim, inequivocamente, a realidade de um Legislador
Absoluto, Suprema Razão da Vida.
Olhai o firmamento
e vede a Obra de Suas mãos, proclama o Salmista Davi, no Canto
19, verso primeiro, conduzindo a mente humana à interpretação
teleológica, cosmológica e cosmogônica, pata entender Deus.
Examina a
estrutura de uma molécula e o seu finalismo, especialmente
diante do ADN, do ARN de recente investigação pela Ciência, que
somente a pouco e pouco penetra na essência constitutiva da
forma, na vida animal, e a própria indagação responde
silogisticamente de maneira a conduzir o inquiridor à causa
essencial de tudo: Deus!
Outros grupos de
estudiosos classificam os múltiplos argumentos em ordens
diferentes: metafísicos, morais, históricos e físicos,
abrangendo toda a gama do existente e do concebível.
Desenvolvimento –
Diversas escolas filosóficas do século passado desejaram
padronizar as determinações divinas e a própria Divindade em
linhas de fácil assimilação, na pretensão de limitarem o
Ilimitado. Outras correntes de pesquisadores aferrados a cruento
materialismo, na condição de herdeiros diretos do Atomismo
greco-romano, do pretérito, descendentes, a seu turno, de Lord
Bacon, como dos sensualistas e céticos dos séculos XVIII e XIX,
zombando da fé ingênua e primitiva, escravizada nos dogmas
ultramontanos dos religiosos do passado, tentaram aniquilar
histórica e emocionalmente a existência de Deus, por
incompatível com a razão, conforme apregoavam, mediante sistemas
sofistas e conclusões cientificas apressadas, como se a própria
razão não fosse perfeitamente confluente com o sentimento de fé,
inato em todo homem, como o demonstram os multifários períodos
da História.
Sócrates já
nominava Deus como “A Razão Perfeita”, enquanto Platão O
designava por “Idéia do Bem”.
O neoplatonismo,
com Plotino, propôs o renascimento do Panteísmo, fazendo “Deus,
o Uno Supremo”, que reviverá em Spinoza, não obstante algumas
discussões na forma de Monismo, que supera na época o Dualismo
cartesiano. O Monismo recebe entusiástico apoio de Fichte,
Hegel, Schelling e outros, enquanto larga faixa de pensadores e
místicos religiosos empenhava-se na sobrevivência do Dualismo.
Mais de uma vez
alardeou-se que “Deus havia morrido”, proclamando-se a
desnecessidade da fé como da Sua paternidade, para,
imediatamente, reiteradas vezes, com a mesma precipitação,
voltarem esses negadores a aceitar a Sua realidade.
A personagem
concebida por Nietzsche, que sai à rua difundindo haver “matado
Deus”, chamando a atenção dos passantes, após o primeiro choque
produzido nos círculos literários e intelectuais do mundo, no
passado, estimulou outras mentes à negação sistemática. Fenômeno
idêntico acontecera no século anterior, quando os convencionais
franceses, supondo destruir Deus, expulsaram os religiosos de
Paris e posteriormente de todo o país, entronizando a jovem
Candeille, atormentada bailarina do Ópera, como a Deusa Razão,
que deveria dirigir os destinos do pensamento intelectual de
então, ante Robespierre e outros, em Notre-Dame. Logo, porém,
depois de múltiplas vicissitudes, o curto período da Razão, fez
que Deus retornasse à França, e muitos dos seus opositores a Ele
se renderam, declarando haver voltado ao Seu regaço,
cabisbaixos, arrependidos, melancólicos, Deus vencia, mais uma
vez, a prosápia utopista da ignorância humana!
Repetida a
experiência no último quartel do “século das luzes”, tornou a
ser exilado da Filosofia e da Ciência por uns e reconduzido
galhardamente por outros expoentes culturais da Humanidade.
Novamente, ante o
passo avançado da tecnologia moderna, através da multiplicidade
das ciências atuais, pretende-se um Cristianismo sem Deus, uma
Teologia não teísta, fundamentada em cogitações apressadas, que
pretendem levar o homem à “busca das suas origens”, como
desejando reconduzi-lo à furna, em vez de situá-lo em a
Natureza, mantê-lo selvagem por incapacidade de fazê-lo sublime.
Tal fenômeno
reflete a apressada decadência histórica e moral das velhas
Instituições, na Terra de hoje, inaugurando uma Nova Era...
As construções
sociais e econômicas em falência, as arquiteturas religiosas em
soçobro, as aferições dos valores psicológicos e psicotécnicos
negativamente surpreendentes, o descrédito inspirado pelos
dominadores, em si mesmos dominados, pelos vencedores
lamentavelmente vencidos pela inferioridade das paixões em que
se consomem, precipitaram o agoniado espírito humano na “busca
do nada”, das formas primeiras, rompendo com tudo, como se fora
possível abandonar a herança divina inata indistintamente em
todas as criaturas, para tentar esquecer, apagar e confundir a
inteligência com os impulsos dos instintos, num contumaz e
malsinado esforço de contraditório retorno às experiências
primitivistas da forma, quando ainda nas fases longevas de
formações e reformações biodinâmicas...
Concomitantemente,
porém, surgem figurações morais, espirituais, místicas e
cientificas, sofrendo os embates que a dúvida e o cepticismo
impõem, resistindo, todavia, estoicamente, na afirmação da
existência de Deus, apoiadas pela Filosofia e Ética espíritas,
que são as novas matrizes da Religião do Amor, pregada e vivida
por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Conclusão – “Deus
é Amor”, afirmava João.
“Meu Pai”, dizia
reiteradamente Jesus, conceituando-O da forma mais vigorosa e
perfeita que se possa imaginar.
E Allan Kardec,
mergulhando as nobres inquirições filosóficas nas fontes
sublimes da Espiritualidade Superior, recolheu através dos
Imortais que “Deus é a Inteligência suprema, causa primária de
todas as coisas”, em admirável síntese, das mais felizes,
completando a argumentação com a asserção de que o homem deve
estudar “as próprias imperfeições a fim de libertar-se delas, o
que será mais útil do que pretender penetrar no que é
impenetrável”, concordante com o ensino do Cristo, em João:
“Deus é Espírito, e importa que os que O adoram, O adorem em
espírito e verdade”.
Estudo e
Meditação:
“Onde se pode
encontrar a prova da existência de Deus?”
“Num axioma que
aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a
causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão
responderá”.
Para crer-se em
Deus, basta se lance o olhar sobre as obras da Criação. O
Universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de
Deus é negar que todo efeito tem uma causa e avançar que o nada
pode fazer alguma coisa. (O Livro dos Espíritos, Allan Kardec,
questão 4).
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