O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Transfiguração. Invisibilidade

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
Obras Póstumas

DOUTRINA

     

Só o corpo repousa durante o sono, mas o Espírito não dorme; aproveita do repouso do corpo, e dos momentos em que a sua presença não é necessária, para agir separadamente e ir onde quer; goza de sua liberdade e da plenitude de suas faculdades.  Durante a vida, o Espírito jamais está completamente separado do corpo; para qualquer distância que se transporte, está sempre ligado a ele por um laço fluídico que serve para chamá-lo, desde que a sua presença seja necessária; esse laço não se rompe senão com a morte.

O sono livra em parte a alma do corpo.  Quando se dorme, está-se, momentaneamente, no estado em que se encontra, de maneira fixa, depois da morte.  Os Espíritos que estão desligados da matéria, depois de sua morte, têm sonos inteligentes; aqueles quando dormem, se unem à sociedade dos outros seres superiores a eles; viajam, conversam e se instruem com eles; trabalham mesmo em obras que encontram todas feitas quando morrem.  Isto vos deve ensinar, uma vez mais, a não temer a morte, uma vez que morreis todos os dias, segundo a palavra de um santo.

Eis ali para os Espíritos elevados; mas para a massa dos homens que, na morte, devem ficar muitas horas nessa perturbação, nessa incerteza da qual vos falei, aqueles vão, seja para mundos inferiores à Terra, onde antigas afeições os chamam, seja a procurar prazeres talvez ainda mais baixos do que aqueles que têm aqui; vão haurir doutrinas ainda mais vis, mais ignóbeis, mais nocivas do que aquelas que professavam em vosso meio.  E o que engendra a simpatia sobre a Terra não é outra coisa que esse fato, que se sente ao despertar, aproximar, pelo coração, daqueles com quem se veio passar oito a nove horas de felicidade ou de prazer.  O que explica também essas antipatias invencíveis, é que se sabe, no fundo do coração,  que aquelas outras pessoas têm uma outra consciência do que a nossa, porque são conhecidos sem tê-los visto com os olhos.  É, ainda, o que explica a indiferença porque não se liga a fazer novos amigos, quando se sabe que se têm outros que nos amam e nos estimam.  Em uma palavra, o sono influi mais do que pensais sobre a vossa vida.

Pelo efeito do sono, os Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo dos Espíritos, e é o que faz com que os Espíritos superiores consintam, sem muita repulsa, em encarnar entre vós.  Deus quis que, durante o seu contato com o vício, eles possam ir se retemperar na fonte do bem, para eles mesmos não falirem, eles que vêm instruir os outros.  O sono é a porta que Deus lhes abre para os amigos do céu; é a recreação depois do trabalho, esperando a grande libertação, a liberação final, que deverá restituí-los ao seu verdadeiro meio.

O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono; mas notai que não sonhais sempre, porque não vos lembrais do que vistes.  Não é a vossa alma em todo o seu desenvolvimento; freqüentemente, não é senão a lembrança da perturbação que acompanha a vossa partida ou a vossa reentrada, à qual se junta o que fizestes ou o que vos preocupou no estado de vigília; sem isso, como explicaríeis esses sonhos absurdos que têm os mais sábios como os mais simples?  Os maus Espíritos também se servem dos sonhos para atormentar as almas fracas e pusilânimes.

A incoerência dos sonhos se explica, ainda, pelas lacunas que a lembrança incompleta produz daquilo que apareceu em sonho.  Tal seria um relato do qual se tivessem mutilado ao acaso as frases: reunidos os fragmentos que restassem, perderia toda a significação razoável.

De resto, vereis em pouco se desenvolver uma outra espécie de sonho; ela é tão antiga quanto as que conheceis, mas ignorais.  O sonho de Joana D.Arc, o sonho de Jacó, o sonho dos profetas judeus e de alguns adivinhadores indianos; aquele sonho é a lembrança dessa segunda vida, da qual vos falava há pouco (O Livro dos Espíritos).

A independência e a emancipação da alma se manifestam, sobretudo, de maneira evidente, no fenômeno do sonambulismo natural e magnético, na catalepsia e na letargia.  A lucidez sonambúlica não é outra senão a faculdade que a alma possui de ver e de sentir sem o socorro dos órgãos materiais.  Essa faculdade é um dos seus atributos; ela reside em todo o seu ser; os órgãos do corpo são os canais restritos por onde lhe chegam  certas percepções.  A visão à distância, que certos sonâmbulos possuem, provém do deslocamento da alma,  que vê o que se passa nos lugares para onde se transporta.  Em suas peregrinações, está sempre revestida de seu perispírito, agente de suas sensações,  mas que jamais está inteiramente desligado do corpo,  assim como dissemos.  O desligamento da alma produz a inércia do corpo que parece, às vezes, privado de vida.

Esse desligamento pode se produzir igualmente, em diversos graus, no estado de vigília, mas então o corpo não goza jamais completamente de sua atividade normal; há sempre uma certa absorção, um desligamento, mais ou menos completo das coisas terrestres; o corpo não dorme, ele caminha, age, mas os olhos olham sem ver; compreende-se que a alma está alhures.  Como no sonambulismo, ela vê as coisas ausentes; tem percepções e sensações que nos são desconhecidas; às vezes, tem a presciência de certos acontecimentos futuros pela ligação que lhe reconhece com as coisas presentes.  Penetrando o mundo invisível, vê os Espíritos com os quais ela pode conversar, e dos quais pode nos transmitir o pensamento.  O esquecimento do passado segue, bastante e geralmente, o retorno ao estado normal, mas algumas vezes conserva dele uma lembrança mais ou menos vaga, como seria a de um sonho.

A emancipação da alma amortece, às vezes, as sensações físicas a ponto de produzir uma verdadeira insensibilidade que, nos momentos de exaltação, pode fazer suportar com indiferença as mais vivas dores.  Essa insensibilidade provém do desligamento do perispírito, agente de transmissão das sensações corpóreas: o Espírito ausente não sente as feridas do corpo.

A faculdade de emancipação da alma, na sua manifestação mais simples, produz o que se chama o sonho desperto; ela dá também, a certas pessoas, a presciência que constitui os pressentimento; num maior grau de desenvolvimento, produz o fenômeno designado sob o nome de segunda vista, dupla vista ou sonambulismo desperto.

O êxtase é o grau máximo de emancipação da alma.  “No sonho e no sonambulismo, a alma erra nos mundos terrestres; no êxtase, ela penetra num mundo desconhecido, no dos Espíritos etéreos com os quais entra em comunicação, sem, todavia, poder ultrapassar certos limites, que não poderia transpor sem quebrar totalmente os laços que a prendem ao corpo.  Um brilho resplandecente e todo novo a envolve, harmonias desconhecidas sobre a Terra, a arrebatam, um bem-estar indefinível a penetra; ela goza, por antecipação, da beatitude celeste, e se pode dizer que  põe um pé no limiar da eternidade.  No êxtase, o aniquilamento do corpo é quase completo; não há mais, por assim dizer, senão a vida orgânica, e sente-se que a alma a ela não se prende senão por um fio que um esforço mais forte faria romper sem esforço.” (Questão n. 455 de O Livro dos Espíritos)

O êxtase não é mais do que os outros graus de emancipação da alma; não está isento de erros.  É por isso que as revelações dos extáticos estão longe de ser sempre a expressão da verdade absoluta.  A razão disso está na imperfeição do Espírito humano; não é senão quando chegou ao cimo da escala, que ele pode julgar sadiamente as coisas; até lá, não lhe é dado de tudo ver nem de tudo compreender.  Se, depois da morte, então que o desligamento é completo, ele não vê sempre com justeza; se há os que estão ainda imbuídos dos preconceitos da vida, que não compreendem as coisas do mundo invisível onde estão, com mais forte razão deve ocorrer o mesmo com o Espírito preso à carne.

Há, algumas vezes, entre os extáticos mais exaltação do que verdadeira lucidez, ou, melhor dizendo, a sua exaltação prejudica a sua lucidez; é por isso que as suas revelações, freqüentemente, são uma mistura de verdades e de erros, de coisas sublimes ou mesmo ridículas.  Os Espíritos inferiores se aproveitam também dessa exaltação, que é sempre uma causa de fraqueza quando não se sabe dominá-la, para dominar o extático, e, para esse efeito, eles revestem aos seus olhos aparências que o mantêm em suas idéias ou preconceitos, de sorte que as suas visões e suas revelações não são, freqüentemente, senão um reflexo de suas crenças.  É um escolho ao qual não escapam senão os Espíritos de uma ordem elevada, e contra o qual o observador deve se ter em guarda.

Há pessoas cujo perispírito é de tal forma identificado com o corpo, que o desligamento da alma não se opera senão com uma extrema dificuldade, mesmo no momento da morte; geralmente são as que viveram mais materialmente; são também aquelas cuja morte é a mais penosa,  mais cheia de angústias, e a agonia  mais longa e  mais dolorosa; mas há outras, ao contrário, cuja alma prende-se ao corpo por laços tão fracos, que a separação se faz sem abalos, com a maior facilidade e, freqüentemente, antes da morte do corpo; à aproximação do fim da vida, a alma já entrevê o mundo onde ela vai entrar, e aspira ao momento de sua libertação completa.