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Nós vivemos, pensamos, agimos, eis o que é positivo; nós
morremos, e isso não é menos certo. Deixando a Terra, para onde
vamos? Em que nos tornaremos? Seremos melhores ou piores?
Seremos ou não seremos? Ser ou não ser, tal é a alternativa; é
para sempre ou para nunca; é tudo ou nada; ou viveremos
eternamente, ou tudo se acabará sem retorno. Vale bem a pena
pensar nisso.
Todo homem
experimenta a necessidade de viver, de gozar, de amar, de ser
feliz. Dizei àquele que sabe que vai morrer que ele viverá
ainda, que sua hora será retardada, dizei-lhe, sobretudo, que
será mais feliz do que nunca fora, e seu coração vai palpitar de
alegria. Mas, de que serviriam essas aspirações de felicidade,
se um sopro pode fazê-las desvanecerem-se?
Há alguma coisa
mais desesperadora do que esse pensamento da destruição
absoluta? Afeiçoes santas, inteligência, progresso, saber
laboriosamente adquirido, tudo será aniquilado, tudo estará
perdido! Qual a necessidade do esforço para se tornar melhor, da
repressão para conter suas paixões, fatigar-se para adornar seu
Espírito, se disso não se deve recolher nenhum fruto, sobretudo,
com esse pensamento de que amanhã talvez isso não nos servirá
para nada? Se assim fosse, a sorte do homem seria cem vezes pior
do que a do animal, porque o animal vive inteiramente no
presente, na satisfação dos seus apetites materiais, sem
aspiração quanto ao futuro. Uma secreta intuição diz que isso
não é possível.
O Céu E O Inferno – Capítulo I, item 1.
Diante do Amanhã
Compreendemos,
sim, todos os teus cuidados no mundo, assegurando a tua
tranqüilidade.
Organizas com esmero a casa em que vives.
Proteges as vantagens imediatas da parentela.
Preservas, apaixonadamente, a segurança dos filhos.
Atendes, com extremado carinho, ao teu grupo social.
Valorizas o que possuis.
Arranjas habilmente o leito calmo.
Selecionas, com fino gosto, os pratos do dia.
Defendes, como podes, a melhoria das tuas rendas.
Aspiras a conquistar salário mais amplo.
Garantes o teu direito, à frente dos tribunais.
Vasculhas avidamente o noticiário do que vai pelo mundo.
Sabes procurar, com pontualidade e respeito, os serviços do
médico e os préstimos do dentista.
Marcas horário para o cabeleireiro.
Escolhes com devoção o filme que mais te agrada.
Examinas a moda, ainda mesmo com simplicidade e moderação, como
quem obedece à força de um ritual.
Questionas sucessos políticos.
Discutes, veementemente, os serviços públicos.
Tentas, de maneira instintiva, influenciar opiniões e pessoas.
Desvelas-te em atrair a simpatia dos companheiros.
Observas, a cada instante, as condições do tempo, como se
trouxesses, obrigatoriamente, um barômetro na cabeça.
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Tudo isso, meu
irmão da Terra, é compreensível, tudo isso é preocupação natural
da existência.
No entanto, não
conseguimos explicar o teu desvairado apego às ilusões de
superfície, nem entendemos porque não dedicas alguns minutos de
cada dia, de cada semana ou de cada mês, a refletir na
transitoriedade dos recursos humanos, reconhecendo que nada
levarás materialmente, do plano físico, tanto quanto, afora dos
bens do espírito, nada trouxeste ao pousar nele.
Ainda assim, não
te convidamos à idéia obcecante da morte, porquanto a morte é
sempre a vida noutra face. Desejamos tão-somente destacar que,
nessa ou naquela convicção, ninguém fugirá do porvir.
Disse o Cristo:
“andai enquanto tendes luz”.
Isso quer dizer
que é preciso aproveitar a luz do mundo, para fazer luz em nós.
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